quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Gramado em Pensamentos - Para que servem os pobres?



Se eu pudesse definir, dentro do campo espiritual, quem são os pobres, diria que os pobres são o termômetro que define a humanidade divina que há em nós. Sei, no entanto que esta não é, de longe a melhor definição da pobreza, pelos padrões clássicos de interpretação da menos valia do Ser Humano em comparação com outro Ser Humano. Isso por si já determina que pobreza se encaixa no relativismo entre o que tem mais e o que tem menos, sendo que o que tem mais, terá sempre mais em relação ao que tem menos, e vice versa, e assim, começa minha primeira definição da pobreza: um mal necessário à interpretação de riqueza de quem tem mais, em relação ao que tem menos. Eis aqui a primeira importância da pobreza: regular o padrão de quantificação e estabelecimento gráfico sobre o quanto tem a mais o rico, e nunca o contrário. O rico então mede sua fortuna em proporção ao pobre. Eis a primeira necessidade e definição da importância da pobreza: Padronizar a riqueza. 


Um bom exemplo de que é o objeto de menos valor quem define o objeto de mais valor: a unidade monetária. Nenhuma moeda começa seu padrão por, digamos, $ 675,57. É impossível quantificar a riqueza ou a pobreza, se o parâmetro da moeda não for a unidade, "1". Este é o padrão então da fortuna do rico, porque parte da linha da pobreza para estabelecer a riqueza. Este é também, por excelência, O Número que Define D-s (Deus). D-s é UM (Echad). Outro modelo é a montanha, que para ser medida, precisa da planície, e até mesmo a profundidade de um vale, é medida com relação de seu rebaixamento ao nível do mar, o que é o ponto de equilíbrio entre a riqueza e a pobreza, e aqui chamaremos a depressão, como extrema miséria, suscetível à sofrer os reveses de uma possível inundação ou desmoronamento de parte da montanha. Este equilíbrio é o que propõem as ideologias socialista, onde, de um lado buscam elevar os padrões dos que estejam na extrema miséria, e para isso, rebaixam os que estejam na montanha, igualando à todos a um único nível. Não cabe aqui discutir as razões de um e de outro, o que talvez eu venha a fazer em outro momento. Aqui vou restringir-me  ao título desta análise: Gramado e seus caminhos - para que servem os pobres?


Se buscarmos nas Sagradas Escrituras informações acerca do que O Todo-Poderoso diz sobre os pobres, a uma simples leitura superficial, poderíamos encontrar uma dicotomia de duas teologias: Uma que eleva espiritualmente os pobre às camadas privilegiadas de bênçãos e benefícios (pleonasmo) espirituais, e de outro, encontraremos os grandes personagens extremamente prolíferos nas riquezas a quem chamamos de mundanas: ouro, prata, joias, rebanhos, trabalhadores (a quem a tradução arcaica insiste em chamar de escravos). Estas as definições de quem seriam, um e outro, ricos e pobres. Há, no entanto, a interpretação que inverte estes conceitos, a partir da leitura cristã, que favorece o conforto pela pobreza, construindo desta forma o clássico cristianismo medieval e até mesmo contemporâneo, que inverte os valores morais de um e de outro, colocando o pobre como preferencial, no reino de D-s, e o rico, como escroque e opressor do pobre, motivando o fiel à preferir a pobreza, com pão seco e paz, do que a abundância de carne, com contenda (Prov. 17:1). Ainda nesta inspiração, relatando sobre a pobreza, há na frase de Jesus, proferida no Sermão das Bem-Aventuranças (felicidade), o termo: "Pobres de Espírito", onde quase unanimemente erram sua interpretação, levando à falsa compreensão que "Pobres de Espírito" sejam pessoas ruins, enquanto é exatamente o contrário, significando" Pessoas dóceis, cordatas, de bom trato. Vê-se aqui então que ainda mais uma vez, a pobreza, isto é, a falta de soberba, é tratada como um aspecto positivo do caráter do Ser Humano.


Ao ser confrontado por Judas, o traidor, acerca do perfume valioso com o qual a mulher, aos prantos, lavara os pés de Jesus, e os secara com seus cabelos (algo que , para a cultura da época, simbolizava quase uma relação sexual), o Rabi assim definiu a situação: "Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a mim nem sempre me tereis (Jo 12:8). Aqui começo a reflexão acerca do rico e do pobre convivendo harmoniosamente na mesma sociedade, dividindo, em muitos casos, a mesma rua, e frequentando os mesmos lugares, sem constrangimento de um e de outro. Aqui começo a falar sobre o tema que deu título a esta reflexão.


A própria Torá (Lei de Moisés) estabelece as relações de cordialidade e mútuo suporte entre as duas classes de pessoas. Determina como o pobre deve portar-se diante do rico, e como o rico deve proteger o pobre em sua adversidade, e um e outro, como são iguais perante um justo juiz. 


O judaísmo tem uma visão um pouco mais esclarecedora acerca deste relacionamento, e o talmude (Tradição Oral, Jurisprudência rabínica sobre a Torá), onde estabelece as leis de Maasser (Dízimo) e Tsedacá (Justiça Social, erroneamente traduzido por "esmola"), e determina inclusive que uma das doze tribos de Israel, a Tribo de Levi, não receberia herança, e sua herança seria "O Senhor", isto é, seriam encarregados do serviço religioso, e de cuidarem da parte espiritual do povo. Recebiam, os Levitas, a décima parte de tudo o que ganhavam as outras onze tribos, e a despeito de não possuirem terras, os levitas eram mais ricos, e ao mesmo tempo mais pobres que as demais tribos, para que soubessem que sua riqueza não estaria naquilo que era seu, mas dependiam da riqueza dos demais. Eram os pobres que ensinavam humildade aos ricos, e recebiam sua paga pelos seus ensinamentos, promovendo a devoção contínua a´Criador.


Em um anacronismo, interpretamos a necessidade da existência dos pobres, para que os ricos não esqueçam de seu dever com outro Ser Humano, e se necessário, que enterneçam o coração pelo sofrimento alheio, uma vez que a pobreza tem alguns capítulos capazes de fazer esmorecer a dura cerviz dos mais abastados, seja pelo sentimento puro de generosidade, seja pelo medo de vir a encontrar-se na mesma situação, ou alguém a quem estimam, e correm, então, a abrir os bolsos, alguns com mais, outros com reservada generosidade, e é assim que a sociedade se confronta com seu espelho, e o espelho do pobre, por nada possuir, é sua consciência e bom nome, pois é a única coisa que vai permanecer depois da morte. Já o rico, sabendo que nem na morte poderá ser melhor que o pobre, e sendo consciente, trará a lume sua generosidade em atender aos necessitados.


E Gramado, tem o que com isso? Gramado é uma cidade peculiar. Não é, em definitivo, uma cidade pobre e nem tem na pobreza o seu espetáculo dantesco, como o tem tantas outras cidades não muito distantes. No entanto há certa quantidade de pobres em Gramado, assim como há uma generosa porção de pobres no País, e aqui acendo uma polêmica, categorizando a pobreza com um bem necessário á humanidade, assim como também à Gramado, e vejamos a razão desta afirmação.


As casas não se constroem sozinhas, Os banheiros não são auto-limpantes. Ainda não chegou-se ao auto-atendimento perfeito, ainda que o café da manhã nos hotéis, necessita de quem os sirva. As janelas, de quem as lave. As ruas, de quem as limpe. Os estragos, de quem os conserte. As fábricas, dos que nelas produzem (ok, quase tudo já vem da China, e os pobres de lá são problema deles..e solução nossa, mas mesmo assim, seja na China, no Egito, ou na Coreia do Norte, há pobres a nosso serviço, independente da distância em que se encontrem de nós.


Faço eu, aqui, apologia à pobreza? De jeito nenhum! Faço apenas uma reflexão sobre o equilíbrio das coisas, porque o rico precisa do pobre da mesma forma que pobres dependem dos ricos. Ricos são objetivos, mas pobres são criativos. Isso explica porque eu sempre pendi para a criatividade, a quem o rico chama de loucura, mas é apenas uma forma de desdenhar aquilo de que não foi dotado, a inteligência criativa. Pobre que não é criativo, inventivo, morra na casca, não prospera, não sobrevive. Os alimentos mais saborosos, são provenientes da miséria. E depois de testados e aprovados, os pratos criativos das cozinheiras pobres, em casas ricas, tais pratos recebem nomes sofisticados, e tornam-se iguarias nos banquetes entre ricos. Rico não é criativo, e nem precisa ser. Não precisa criar. Basta ter relacionamento à distância segura do pobre criativo, e comprar-lhe o feito. Saem os dois felizes com a troca. Assim, pobre e ricos, convivem de maneira salutar no mesmo espaço social, no mesmo coletivo. 


Gramado precisa de seus pobres. Na verdade, pobres são um bom negócio. às vezes se tornam objetos de negócios, de forma obscura, desumana, como os refugiados de países em colapso, cujos vizinhos não são muito melhores, mas que recebem verbas de outros países ricos para que estoquem os pobres confinados em acampamentos de refugiados, e fazem assim, um negócio bastante promissor. Isso acontece sempre e acontece muito. É um ótimo negócio para pequenas repúblicas que tem como vizinhas, ditaduras extremas, disputas tribais, acolherem em suas fronteis, milhares de refugiados, cobrando da ONU, e como supracitado já, de países europeus, para que mantenham estes seres de línguas e costumes estranhos, confinados nas jaulas em forma de barracas, cercadas de arame farpado, porque um pobre fora dali, são centenas de dólares por dia fora do tesouro nacional.


Gramado não tem refugiados, mas tem necessidades, Gramado tem ricos, remediados, e pobres, mas até onde chega ao meu conhecimento, não há miseráveis, paupérrimos, indigentes, mas até estes são necessários, úteis às causas sociais de ricos comprometidos em manter aquecida a chama da generosidade em si, e como assunto nas rodas sociais. O sofrimento alheio é um bom negócio, e se não rende dividendos em espécie, em cifrões, rende em ocupação para o vazio do tempo entre uma conferência de saldo e outra. Assim, Gramado, de pobre em pobre, gera riqueza, que não seria possível, sem os braços da pobreza que a edificam.


Gramado não tem pobres que justifiquem estado de calamidade, mas graças aos seus pobres, verbas Federais, e Estaduais, são alocadas para estruturas que acolham mais pobres. Gramado, e o resto do Brasil. Todos precisam de pobres nas suas receitas, pois muitos projetos apenas se justificam, graças a certeza de que mais pobres serão beneficiados. Tentem as autoridades (que contam com os pobres para serem eleitos) buscar verbas em Brasilia, e que no escopo de tais verbas, não sejam contemplados os menos favorecidos, para ver se ganham alguma coisa. Não ganham, Assim, pobres valem também dinheiro. Muito dinheiro. Digam as grandes marcas. Ricos não tomam Coca-Cola. Quem toma coca-cola é pobre. Em domingo. De litrão. Pobre não compra orgânico. Quem compra é rico e remediado, mas remediado é um pobre com dinheiro, nada mais. remediado é brega,tem mau gosto, e é medito a rico. Rico não anda de SUV. Quem anda de SUV é remediado e novo-rico que precisa ostentar que se não tem cultura, tem grana. E tem seus pobres para ostentar. Assim, pobre tem seu valor, e alguns tem preço. Bem baixo. e outros ainda, são medidos em custos. Mesmo assim, custos são convenções estatísticas, e pobres fazem parte destas convenções, pois quem determina se alguém é rico ou pobre, são os próprios pobres, que potencializam gráficos de tendências de mercado, de acordo com rendimentos e faixa etária, em avaliação de consumo e lançamento de produtos, Para pobres. E não há ricos escritores. Há escritores, que deixaram de ser pobres, pois quem faz análises entre pobres e ricos, é certamente um pobre.


No dia em que se acabarem os pobres, os primeiros que morrerão de inanição, serão os ricos. E neste paradigma, pobres e ricos devem e precisam coexistir, e este paradoxo de sua proximidade, valoriza um ao outro ainda mais, pois diante do rico o pobre é ainda mais pobre e o rico, fica mais rico ainda á medida em que se acotovela com o pobre. Voilá!






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