sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Café Brasil na GRAMADO das priscas eras


Pouco, ou quase nada sei da história do Café Brasil, cuja edificação, ao que sei, ainda permanece lá, com poucas modificações. mais modernizada, parece. Então, como posso ousar escrever sobre algo que não conheço? Não seria melhor deixar para quem conhece, que escreva sobre esta história? Sim, acho que é isso mesmo, mas o zeloso leitor haverá (os antigos diria,"havéra") de concordar comigo, que quem está escrevendo sou eu, e se tais conhecedores quisessem escrever esta história, que o fizessem, não seria assim? Não! Nem todas as pessoas se habilitam a escrever, e bem poucas as que tomam tempo para recordar, e menor ainda é o quantitativo dos que desejam falar sobre um lugar, de cujas pessoas nunca ouviram falar. Não os censuro. Escrever e contar causos é minha ocupação, então eu busco e rebusco qualquer história correlata às imagens que publico, e com o andejar da carroça, as melancias se acomodam, isto é, leitores mais bem informados tomarão tenência e corrigir-me-ão pari passo com a leitura que fazem de minhas poucas e mal digitadas linhas.

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Perguntam-me: por que eu escrevo de modo tão prolixo, tão rebuscado e floreado em salamaleques de priscas eras, quando seria tão mais simples substituir vocábulos por gírias e verbetes de uso fluente na linguagem contemporânea? Ora, isso faço exatamente porque o tema de meus textos e deste blog são exatamente isso: Priscas eras, ou seja, os tempos de antigamente, assim, deixo-me enlevar pelo ambiente filológico e estético dos anos que busco retratar, tanto em imagens, quanto em causos, e o modo de falar dos personagens envolvidos.

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Voltemos ao Café Brasil, pois. Uma simpática família, de sobrenome "Lindorfer". Dona Ertha, e seu esposo Alfredo, e seu filho Luis Carlos,  conhecido por "Sarará", que andava em um daqueles carros imensos, acho que Galaxy, ou Landau, azulão, algo assim. Era dado às prendas do futebol, assim me parece, e sua esposa era professora. Da família é o que sei. Já o Café Brasil, é unânime, aos que recordam desse tempo, dois perfumes que se mesclavam: Sorvete, e Café, Havia uma cafeteira grande, dessas comuns à cafeterias, onde sempre havia café, água e leite quentes, prontos para servir.
Acrescentam os leitores Mari e Maneca (Mariângela e Manoel Inácio Cardoso) a seguinte informação: "Frequentadores do Café Brasil: Rubem "Pesteado", Antônio Gonçalves, o "Antônio Macaco", Brigadiano Valentim Yparraguirre, Sargento Antoninho, vulgo (Antoninho Puta Véia), Cabo Ivan, João Cláudio Candiago, Fedoca e Fabiano Bertolucci, todos estes, grandes boêmios."

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Ilustrativo*

O Café Brasil era daqueles ambientes vintage que durou enquanto durou, mas também rendeu-se à ânsia pela inovação, e como não houve continuidade familiar, um dia, fechou as portas, afinal, todas as portas, um dia serão fechadas, e em seu lugar, novas portas se abrirão. Ainda, segundo Maneca, o local era bastante frequentado pelas famílias do interior do Município, que iam á Gramado resolver assuntos pertinentes ao centro.
O Prédio era de propriedade de Guilherme Dal-Ri. Como disse, é tudo o que sei. Só sei que é um prédio lindo.

















 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

"Óia o trem"! E Estação Ferroviária na Gramado de Priscas eras, e Os Pedro e Paulo Mirins

Nunca fui de levantar bandeira, nem comprar briga por desmonte de patrimônio histórico. Eu me devo essa lacuna de caráter. Mas é assim que foi. Ainda hoje, apesar da paixão que tenho por esgravatar o passado no meio das cinzas das memórias, não tenho tarimba pra herói, e não passa pela minha cabeça a ideia de me acorrentar em árvores centenárias, ou em colunas de antigas construções, para salvar a Natureza ou o patrimônio. Sim, tenho muitos defeitos de caráter, e covardia e comodidades são alguns pelos quais terei que responder, um dia. Mas até lá, resigno-me a contar histórias, e desenhar aquilo que vejo das casas e coisas do passado. É a minha cota de redenção.

Conto isso, porque em uma rara ocasião em que eu ousei dirigir-me a uma autoridade municipal, à época, em que foi derrubada a Estação Ferroviária de Gramado, ofereci, educadamente, minha indignação pelo fato, ao que fui rechaçado com deboche e ironia pelo então Secretário, cujo cargo e nome, por razões óbvias, declinarei, pois não farei deste ambiente nostálgico, um espaço de difamação, ainda que verdadeira, pois quero lembrar das pessoas por suas boas ações e não por seus medíocres espasmos de pequenez. Mas ratifico: Fui reclamar sim, ao saber que o local, que até então, servia como base da Brigada Militar, comandada pelos saudosos Sargentos Frederico Guilherme Zorzan, e Ivã da Rosa  Barbosa, que comandaram esta corporação em Gramado e relevantes serviços prestaram à comunidade. Isso então, aconteceu, tendo como cenário, o prédio varrido pelos tratores, que cedeu lugar à atual Estação Rodoviária.

A linha do trem em Gramado já foi amplamente relatada pela historiadora Marília D.F., em suas obras, e por isso, desnecessário repetir dados e datas, o que é natural aos historiadores, o que eu não sou. Sou contador de causos. Então é pra isso que sou pago (não estou falando de dinheiro), e é o que conta em meus espaços. Então, vou contar alguns causos onde estive presente, sobre os quais sou responsável pela veracidade.

Eu tinha uns oito ou nove anos, mais ou menos, e como já relatei em outros causos, era o parceirinho da peripatética Maria Elisa, de cujos périplos fui seu fiel escudeiro e par. Nesta feita, decidimos visitar uns parentes, o Tio João, que morava no sítio, lá nos três Pinheiros, a uma distância de 8,5km, mais ou menos, em uma jornada de duas horas à pé. Era puxado, pois descíamos e subíamos muitos morros, e claro, minha vó conhecia bons atalhos, que encurtavam um pouco o caminho. Um destes atalhos, nos fazia passar por uma "garganta" escavada na terra, para rebaixar o trajeto e por ali fazer passar a linha do trem, que subia de Taquara, em direção à Canela, passando por Gramado, antes pela Estação da Várzea Grande (que os antigos chamavam de "Baje Grande"), passando pela Estação central , e dali rumo à Canela.

No momento em que caminhávamos por uns destas "gargantas", muito estreita, com apenas cerca de um metro livre entre o trilho e o barranco, cortado em forma de talude, numa diagonal de 60 graus, onde cresciam umas guanxumas (ervas daninhas), muito resistentes e de raízes fortes, ouvimos muito próximo, o barulho do trem, que chegava acelerado, e não havia tempo para correr dali, pois a passagem eram longa. Foi nesse momento que minha vó teve que revelar seu segredo, e despertar em mim, o meu: Éramos dotados de poderes especiais, que se confundem entre macaco, perereca, aranha, ou outro bicho qualquer, pode, o leitor, escolher à vontade, contanto que não nos atrapalhe no pulo de sobrevivência, onde permanecemos agarrados com pés e mãos às Guanxumas, no interminável tempo em que o trem passava a poucos centímetros de nossas costas, fazendo-nos sentir o vento e as chispas que nos espetavam assustadoramente. Talvez tenha se passado um tempo entre três minutos e uma eternidade, uma média entre os dois, algo assim. O trem já ia longe, e continuávamos travados naquele barranco, e só descemos dali quando nossas mãos já tremiam e as guanxumas estavam completamente estranguladas. O medo nos proporciona forças desconhecidas e incalculáveis.

A Brigada Militar de Gramado era composta de um pequeno Batalhão, talvez uns dez ou doze policiais, contando o comandante, que era um Cabo ou um Sargento. No tempo do Sargento Zorzan, uma figura simpaticíssima, que não se contentava em dar ordens aos policiais, e cuidar das multas de trânsito, que eram raras, e ladrões de galinhas, haviam poucos, e conhecidos. Crimes eram raros (isso mesmo, os crimes se resumiam a briga de vizinhos, e um e outro furto de pequenos pertences, arruaças de bailes, ou brigas de botecos no fim do dia, quando a cachaça já dominava os beberrões menos responsáveis).

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Zorzan criou um grupo de crianças, pré-adolescentes, como uma espécie de "Escoteiros", ainda que já havia um grupo escoteiro local. Mas era diferente. Eram chamados de "Pedro e Paulo Mirins". Trajavam uniformes idênticos aos policiais adultos, com exceção de capacete, cacetete, e, óbvio, uso de armas. Mas para aumentar o espanto dos leitores galardoados com tenra juventude, saibam que em determinado tempo, ingressei no grupo da "Invernada Artística do CTG ", como aprendiz de dançarino, e o patrão, nos disse que iríamos usar uma pilcha, e "se daria um jeito de arrumar um revórvinho 22 pra cartucheira". Felizmente, por ser descoordenado, não permaneci, pois não dançava nada. Mas isso é outro causo. Assim, os Pedro e Paulo Mirins tinham um apito igualzinho ao apito dos policiais adultos, com aquela correntinha trançada, preso ao ombro, lenço de gala, e "Bibico", aquele chapeuzinho em forma de canoa, de cor verde-abacate, ou a cor oficial da farda da Brigada. Até o cinto era igual, com fivelão emblemado tinha. Também os coturnos, eram iguais aos adultos. Enfim, eram mini policiais, e tinham obrigações sociais e comunitárias. Meninos e meninas eram tratados como iguais. As atividades variavam desde ensinamentos de legislação de trânsito, a acampamentos, culinária campeira, e participação em eventos cívicos municipais. A formatura do "pelotão" teve churrasco no CTG, e uma caneta com o nome gravado, ofertada pelo Paraninfo, Fritz Volk, um dos diretores da Ortopé., com direito a discursos e juramento, onde o formando, ajeitando a fralda que apertava, prometia "defender a honra da pátria com sacrifício da própria vida". Não lembro de todos os que fizeram parte deste grupo, e peço aos leitores que enviem mais informações, se as tiverem. Os PPMs eram: Álvaro Masotti,  Alexandre Masotti (que começou seu namoro com sua esposa Aidê, nesse tempo), Neiva Fattori, Renato Fattori, Paulo Cardoso (euzinho), Eka Ramm, e,,, bem, era um grupo de umas vinte crianças.

Bem, contei isso, porque a sede também era lá na Brigada Militar, ou como queiram, Estação ferroviária de Gramado.

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Arquivo Histórico Municipal

Jornal Integração. Clique na imagem para ver a matéria completa

Mas sejamos coerentes com os fatos: Acho que o patrimônio histórico deve ser preservado, de um modo ou de outro. Penso que se o progresso precisa ocupar o espaço do que foi antigo, que deixe registros, o máximo deles, para que as gerações que virão possam espelhar-se nos rastros daqueles que construíram os primeiros alicerces do presento, e os esteios do futuro. E como eu não tenho braços longos para abraçar-me às casas, tenho dedos experientes e tecnologia ao alcance para reproduzir aquilo que ficou no passado. É por isso que escrevo. É por isso que desenho. É a parte que me cabe fazer. A do leitor, é ler, e se estiver de acordo, pode dar suporte à este trabalho, seja enviando histórias, imagens, adquirindo meus livros e quadros, ou anunciando nos espaços destinados ao suporte do projeto. GRAMADO de priscas eras.




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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

As Brizoletas da GRAMADO de priscas eras, as frutas da infância, e o cometa Ikea-Seki

Em 1963, eu já estava alfabetizado, e frequentava a pequenina escolinha Brizoleta, que ficava em frente à casa onde morávamos, pertinho do lugar, que depois tornou-se o Artesanato Gramadense. Frequentava as aulas, mas não estava matriculado, pois neste tempo, a idade mínima para começar nos estudos, era sete anos, mas eu tinha cinco anos e poucos meses apenas. Mas estava alfabetizado. Já contei como foi - lendo nas latinhas de alimentos da Tia Zezé. Mas terá também um capítulo especial sobre isso. Assim, não sei ao certo os detalhes, mas eu frequentava a escola na condição de ouvinte, para completar minha alfabetização. Não deu muito certo, porque a professora insistia em fazer-me repetir as primeiras páginas da Cartilha "Estrada Iluminada", ou da "Cartilha do Guri", o manual de alfabetização oficial das escolas primárias do Rio Grande do Sul, e da Gramado de priscas eras.

O problema estava no tempo, no "timming", como se diz hoje, pois eu já era capaz de ler e comentar o livro inteiro, mas a professoras insistia em exigir de mim um repeteco interminável, como uma ladainha de zumbis:
- Ivo viu a uva. Vovô viu a vovó. Vovó viu o vovô.
Mas puembas! Se o Ivo viu a uva, por que ele ficou só olhando pra parreira feito um dois de paus, e não se atracou a encher a barriga com as uvas? Estavam verdes, por acaso? E o vovô? O que o raio do véio estava fazendo ali, em vez de colher uvas pro Ivo, ficou dando bobeira e tarando a vovó? E a vovó, então? Já que viu o vovô ali no parreiral (sim, eu suponho que tenha sido no parreiral, pois não houve mudança de sentença na narrativa do tanso do Ivo, que ficou babando pelas uvas, enquanto o vovô babava pela vovó), por que não os convidou para entrar e comer umas bolachinhas pintadas com café passadinho? E como eu sei que a vovó tinha bolachas pintadas? Ora, todas as vovó tem bolachas pintadas, que misteriosamente aparecem de dentro de uma lata de banha (não havia mais banha na lata, só bolachas pintadas), para acalmar os ânimos dos netos que ficam fazendo arte pela casa. Mas ainda assim, vovô tarando a vovó e Ivo babando pela uva, era o limite que a professora me permitia ler. Mas por que não podia ler mais? Eram páginas censuradas para criancinhas? Não, eu acho que não eram. Apenas, a professora não estava acostumada com um descendente de judeus, que são alfabetizados aos três anos de idade, ainda que nem façam ideia de que sejam judeus. Mesmo assim, dê-lhe livros nos "bacurim". Letras e palavras, e em seguida, perguntas e mais perguntas. A professora não suportou tanta pergunta e me mandou ler e reler novamente as três primeiras páginas da cartilha.

Não me fiz de rogado. Fui pra casa e fiz uma fofocada daquele tamanho pra minha avó, Maria Elisa, a tal véia de faca na bota. Ah, pra que eu fui fazer aquilo. Pois imediatamente Maria Elisa, a véia supracitada, de faca na bota, tomou-me pela mão, passou a mão numa cartilha (não posso dizer ao certo, mas acho que vi um facão escondido no sutiã), e subimos, daquele jeito a ladeira que chegava à escolinha. Com olhar sisudo, porém respeitoso e educado (lembram que eu disse, que quando maria Elisa falava a língua pátria de modo vernacular, é porque ela estava "pistola", furiosa? Pois estava mesmo. E a pobre professora, nos atendeu, na areazinha, do lado de fora.

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Brizoleta do Carahá - Fotos: Áureo Roberto de Oliveira


- Pois não, dona Elisa?
Maria Elisa, a véia minha vó, só olhou duro, com bico esticado pra professora, passou a mão na cartilha, e sem tirar o olhar da oponente, entregou a cartilha na minha mão:
- Leia, guri!
Eu abri na primeira página e...
- Essa não. abre no meio do livro!
Abri e comecei a ler. Pausada e corretamente, respirando no tempo certo, acentuando as palavras, colocando vírgulas e pontos em seus devidos lugares e com a entonação correta.

A essa altura, Ivo já estava quase casando, o vovô picava gravetos nos fundos da casa, e vovó acomodava os vidros de chimia que fizera com a uva que colheu, não sem encher o bandulhinho do Ivo, ao ponto de dar uma caganeira no guri, de tanta uva que comeu.

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Minha vó maria Elisa tomou o livro da minha mão, com um sorriso de vitória, e perguntou pra professora:
- O que tens mais a ensinar ao menino, "MENINA?"

Ai, meus sais, por misericórdia! Ela chamou a professora de "MENINA!" Era guerra. E a professora percebeu, e prometeu dar especial atenção ao pimpolho leitor de dona Maria Elisa, a véia de faca na bota. Assim, fui recomendado a mudar de escola no próximo ano letivo, 1964, mês de Março.  E por causa disso, aconteceu no país uma revolução, um golpe militar, um lufa-lufa sem tamanho. Se achar que exagero, leia aqui. Eu não me sinto muito culpado pela situação geral, mas há quem diga que foi a audácia de Maria Elisa, quem deu voz aos revoltosos e a coisa toda encrespou. Tenho dúvidas. mas, enfim. Assim comecei na Brizoleta. No ano seguinte, fui estudar então, no Grupo Escolar Santos Dumont, cuja edificação também já está em meus arquivos, e em breve será mostrado aqui. Foi apenas no primeiro ano, pois nesse ano, de 1964,m eu fui finalmente registrado em cartório, pois antes disso eu era apátrida e líquido, pois nem registro eu tinha.

Na Brizoletinha, comecei, então, a partir da segunda série, ou segundo ano do primário, e vou nominar algumas da professores que conheci lá. Ah, entes disso, vale lembrar que uma professora atendia a duas classes em simultâneo na mesma sala. Eram multitarefas, literalmente. Por exemplo, primeira e quarta series, ou segunda e quinta, e assim era.

Ah, sim, e ainda enquanto estudava nesta Brizoletinha, foi que vimos o cometa IKEA-SEKI, riscando os céu, numa madrugada estrelada, em 1965. Clique nas imagens para saber mais. Visível inclusive à luz do dia, este foi nomeado como o mais brilhante cometa do século 20. No Japão, disseram que ele era 10 vezes mais radiante do que a Lua cheia.


Cometa Ikea -Seki






As carteiras (que chamávamos de "classes", eram múltiplas, ou em pares. Usávamos lápis e borracha. Caneta jamais. Apenas os alunos da quinta série, usavam caneta de tinta e levavam junto um vidro de tinta, um papel poroso como mata-borrão, e uma merenda de pão com chimia. As professoras tinham uma coleção de carimbos com figuras, como borboletas, uva, casa, e assim por diante. Era o seu recurso pedagógico. 


Das professoras que lembro:

Ester Cardoso (diretora); Geni Cavichioni; Nair Arend; Orlanda Valentini; e Neusa Parissenti.
Assim descreveu a amiga Jussara Masotti, acerca da Brizoletinha de sua infância:

Envia-nos esta mensagem, a leitora Lúcia Bezzi:


É claro que aqui estou tratando especificamente das memórias da Brizoleta de minha infância, mas desde já deixo o leitor convidado a a enviar suas lembranças para serem publicadas neste espaço. Pode enviar fotos, o que quiser.

É claro que também vou falar dos arredores desta Brizoleta, como as frutas do mato que comíamos: Cerejas, Araçãs, Guabirobas (Gavirovas), Esporão de Galo, Pula-Pula (essa era para brincar), Guaçatomba, chupar néctar de "Bananinha" (flor de Corticeira da Serra), Goiaba Serrana, para comer o miolo da fruta, ou a parte branca da flor, ou Pixirica pra azular a gengiva. Uma das favoritas era a Quaresma preta. Ou então, brincar de choupana de samambaias e Vassoura do mato.


Pixirica ou Gramberry brasileira

Corticeira da serra ou "Bananinha"
Guabiroba (Gavirova)

Araçá

Goiaba serrana

Esporão de Galo
Quaresma do mato
Cereja do Mato


Pois é. Fica o desafio: Se fizer um passeio por aquela mata novamente, quantas destas frutas ainda irei encontrar?








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GRAMADO de priscas eras visita a Igreja Evangélica Assembleia de Deus


A historia que conheço é breve, mas rica em humanidade e bons exemplos. Eu não sou evangélico, e tenho algumas divergências exegéticas e escatológicas, daquilo que ensinam as doutrinas desta instituição, mas tenho que ser justo, e reconhecer que é um lugar onde D's está. Eu explico.

Segundo diz o que está nas Sagradas Escrituras, há dois Mandamentos que resumem todo o compêndio da Bíblia: Amar a D's, (eu escrevo D's dessa forma, porque sigo um certo viés judaico, onde não se pronuncia O Nome Sagrado) acima de todas as coisas, e ao próximo do mesmo modo que amar a si próprio. E eles fazem isso. Na prática. Seus cultos são cheios de vida e sentimentos, mais emoção do que razão, porque a razão está no senso prático de ajudar o necessitado, levantar o caído, e acolher o desvalido.
Pastor Dario e Sua esposa, Walmi Stein


Tive o privilégio de desenhar o modelo estético deste templo, em 3D, porém, à mão, em cartolina, pintado com aquarela e guache, e com esta ilustração, a administração da igreja transformou em cartão postal, que era vendido em troca de livre contribuição aos visitantes de todo Brasil que os visitavam, e desta forma, aliado ao desprendimento de sua congregação, em poucos anos, estava levantada sua casa de oração. Ao estilo de Gramado.

Mas tudo começou, em Gramado, bem antes disso. Já no início da década de 1960, e é possível que talvez, um pouco antes ainda, lá no finzinho da Rua Augusto Daros, no alto do "Morro dos Cabritos", havia uma casa, com uma varanda, onde moravam o casal Arquimimo e Manuelina, com seu filho Adão, e pouco mais tarde, seu sobrinho Luis Carlos. Na sala desta casa, funcionava o local de reuniões e adoração dos incipientes assembleanos de Gramado.

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Recordo com carinho de certas particularidades desta família. Adão, o filho, era, talvez uns dois anos mais velho que eu, ou três, no máximo. Ele e Luís Carlos, atravessavam uma picada pelo mato, encurtando caminho, cruzando com jararacas e passarinhos, para chegarem à pequenina escolinha da Vila Moura,  a Brizoletinha, onde estudávamos. Minha mãe era diretora lá, e ainda terei uma matéria específica desta escolinha saudosa.
Adão e Luís Carlos eram conhecidos por sua amabilidade e boa educação. Eram amáveis, gentis e respeitosos. Lembro que havia uma família, vizinha, com meninas, que também estudavam nesta escola, e os pais recomendavam que elas fossem acompanhadas por estes dois meninos, porque eram respeitosos, e cuidariam da segurança delas pelo caminho.
Assim eram os Assembleanos. Conhecidos por sua veemência na pregação do Evangelho, e por suas convicções firmadas em milhares de citações de versos bíblicos, que sabiam na ponta da língua. Eram um "Google" hermenêutico". Respondiam de pronto a qualquer solicitação bíblica, e eram uma difícil unanimidade entre as amizades desejáveis pelas crianças da escola e vizinhança.

O tempo passou, o mundo seguiu seu curso, e a família mudou-se para Canela, onde foi construir o templo daquela cidade. Perdemos o contato, e eu também segui o meu caminho. Muitos anos mais tarde, reencontrei o aconchego das amizades desta congregação pelo Fotógrafo Nery Elias, e através dele, do ainda grande amigo Pastor Dario Stein.

Mais tarde, a congregação fundou um centro de tratamento aos dependentes químicos, o "Crerh Emanuel"  , além de suas atividades evangelísticas e sociais.

Dou fechamento a esta matéria contando um episódio e uma frase que marcou minhas lembranças e conceito sobre este povo. Durante um evento promovido pela Prefeitura, recebi um convite, destinado á liderança da Igreja Adventista local, onde eu era Ancião, para comparecer à uma solenidade em homenagem ao aniversário do Município, e todas as igrejas estabelecidas desde a emancipação deveriam organizar, em seus templos, uma solenidade comemorativa. Fomos, então, Bernardino dos Reis, e eu, num domingo pela manhã, assistir à solenidade. Eu sentei-me bem na porta da entrada, onde costumo ficar, em eventos com multidões, pois para escapar dali, em caso de desconforto, é só um passo. Faço assim com todos os lugares. A casa estava lotada, e na plataforma, à frente, estavam assentadas as autoridades religiosas, e civis, convidadas para o evento, particularmente, o ex-prefeito Walter Bertolucci, Nelson Dinnebier,  Prefeito em atividade, e Pedro Bertolucci, também ex-prefeito, na ocasião.. Não recordo se haviam outros. Mas estes, com certeza estavam lá.

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O preletor começou sua invocação e saudação, e de repente, ouvi meu nome sendo chamado à plataforma. Pensei. Foi apenas uma citação. Não era. O preletor bradou em alta voz minha localização exata, e convocou-me à subir para onde estavam todos. pensei: Mas o Bernardino já está lá, por que dois? Não era. O motivo era prestar uma homenagem, a maior que recebi em publico até hoje, pelo meu modesto trabalho de desenhar com carinho a sua igreja.  De cabeça baixa e com a humildade que exigia o local, subi e permaneci lá até o fim.

A história não termina aqui. Foi deste preletor que ouvi a frase mais linda que poderia ouvir acerca da finalidade de uma congregação. Disse ele, olhando para os Prefeitos:
- "Estão vendo aquele cidadão ali na primeira fila, vestido com terno e gravata, ao lado de sua família, também bem vestida, esposa e filhos? Este cidadão foi encontrado numa sarjeta, bêbado, imundo, ensopado de urina, e nós o recolhemos e acolhemos, proporcionamos à ele dignidade, e hoje ele é um cidadão exemplar, que não se envergonha de seu passado, mas glorifica à D's pela pessoa na qual foi transformado!"
E, olhando para os prefeitos novamente, diz:
- "É isso o que fazemos aqui: Reciclamos o lixo que a sociedade não quis mais e vomitou de seu meio!"

Bem, este é o olhar que eu tenho sobre os queridos irmãos Assembleanos de Gramado.















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A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...