domingo, 12 de setembro de 2021

Badaró - O jogo de bulita



Badaró era um piazote bem resolvido com a vida, sabia o que queria ser: Alcoviteiro! Isso era um plano de vida, uma meta a ser buscada com determinação. Tinha lá os seus dez ou onze anos, quando deu-se o feito, que aqui relato.

Desbocado que só ele, retrucava a tudo com uma rima e uma empulhada, se a ocasião fosse oportuna. Respeitava os mais velhos, e sobretudo, a mãe, dona Castorina, uma senhora corrugada pela vida, e dotada de certa acidez natural, que carimbava com olhar de reprovação a quem cruzasse seu caminho. Vivia ralhando com os piás, com o marido, uma borracho acomodado, que bebia e cantava milongas de saudade, todas elas ininteligíveis, porque o tragoléu continuado amortecia a coordenação labial, e assim, emitia sons que mais se assemelhavam à desacatos entre babuínos, do que sintaxe coordenada para produzir palavras.

Badaró jogava bulita com a meninada do lado de fora, no terreiro, arrecém barrido por Castorina, enquanto ela lavava a loiça, com a janela, um tampão de madeira, aberta, e bombeava de quando em quando as atitudes dos malevas, entre uma areada e outra das panelas reluzentes de contínuo que ostentava no velho paneleiro da casa.

- BADARÓOO! - Berrava ela. Passa pra drento, digêro, porque te agácho as carça e te dou umas parmada na bunda, guri!

- AH! Vai tomá no cu da sinhóra! - Respondia, de chôfre, o desbocado badaró, sempre respeitoso.

Isso dito, continuava o jogo de bulita.

- Ispichinháque!

- Dá cá um fede!

Ah, fiadaputa! De bustefão não vale!  Qué cambiá teu bustefão pela minha águida e cinco barrucha?

- Só pela águida e déis barrucha!

- Tá bão, oito barrucha e a águida e fechemo agora!

Cusparada na palma da mão, e um aperto de mão, e negócio feito. Bustefão pra lá, águida e oito barruchinhas pra cá.

- Bamo batê outra partida?
- Às deva ou às brinca?

- Uma às brinca e dispois às deva!

- BADARÓ! - Berrava Castorina.  Lava as mão e passa pá drento, que a bóia tá pronta! Chama os guri pra vim cumê junto, mas lava as mão também.

A piazada entrava, de mãos limpas, em fila, espiando desconfiadas, enquanto Castorina à porta, examinava com olhar severo, um por um, e por fim, ao entrar o desbocado Badaró, ela dava-lhe um tabefe sonoro na bunda, e olhava para o lado para rir, solita. Era um píá maleva, mas não era um maura de todo. Fio único, dava-lhe o consolo da companhia, nos tempos bicudos, que não cessavam.

Silenciosamente, de olho arregalado, os piás comiam sua couve com polenta, enquanto, por baixo da mesa, com a mão enfiada no bocó, contavam as barruchas, já planejando a próxima partida. Às deva!


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