ENVELHECER
SEM
REGREDIR
Um
manual de boas-vindas à senilidade
Pacard
(velho
por profissão e prazer)
Uma
reflexão bem-humorada sobre idade, conhecimento, arte, fé e
tecnologia.
Boas-vindas
Este não é um
manual para ensinar alguém a parecer jovem. É um convite para
envelhecer com lucidez, gratidão, curiosidade e bom humor — sem
negar o corpo que muda, sem abandonar o conhecimento acumulado e sem
entregar às novas gerações a exclusividade sobre o futuro.
Envelhecer
sem regredir é aceitar a idade sem transformar aceitação em
desistência. É continuar aprendendo, criando, rindo e vivendo —
ainda que, de vez em quando, seja necessário aumentar a letra da
tela.
1. O meu cardápio não inclui a regressão da
velhice
Clínica de
estética, academia, centro de convivência para idosos, aulas de
dança de salão e outros artifícios que prometem a regressão da
velhice não fazem parte do meu cardápio. Mas não mesmo!
Isso significa
que não tenho amor à vida?
Tenho, sim — e
muito. Amo a vida mais por gratidão ao meu Criador e ao meu Redentor
do que por hedonismo. Mas amar a vida não significa forçar a
Natureza a transformar-me naquilo que já não sou.
2. Fazer as pazes com o espelho
Hoje consigo
enfrentar o espelho. Em vez de me entristecer com a pífia figura que
ali se mostra, dou risada da caricata efígie com aparência de
caroço de manga chupado em que me tornei.
Isso
é lindo! Eu não sou o “lindo”; lindo é esse estado de
espírito: fazer graça de mim mesmo, rir dos meus defeitos estéticos
e, ao mesmo tempo, corrigir os meus deslizes morais.
O espelho pode
registrar rugas, manchas e desalinhamentos, mas não mede gratidão,
caráter, ternura, inteligência ou capacidade de aprender. Para
essas coisas, ainda não inventaram iluminação de banheiro.
3. O problema não é envelhecer
O grande problema de
envelhecer — como se envelhecer fosse, por si só, um problema —
não é a idade. Há quem nem consiga envelhecer verdadeiramente: não
porque morra, mas porque perde a vida ainda em vida e passa a
perambular como um zumbi melancólico.
A dificuldade maior
é não aceitar a idade a que se chegou. Essa recusa costuma ser
alimentada por muitas experiências:
o desprezo de quem já não
suporta a presença dos mais velhos;
a intolerância da pessoa
consigo mesma, com o próprio corpo e com a própria mente;
a nostalgia transformada em
argumento para desprezar tudo o que é novo;
o afastamento daqueles que
deveriam honrar quem os antecedeu e ajudou a construir as bases do
sucesso de hoje.
Também eles
envelhecerão. Talvez então descubram que o tempo não pede licença:
apenas muda de endereço e vai morar no rosto de cada um.
4. A falsa ideia de que o novo pertence apenas
aos jovens
No pensamento comum,
envelhecer parece significar regredir no tempo e no conhecimento. Daí
nasce uma falsa divisão de valores: acredita-se que tudo o que é
novo pertence exclusivamente aos jovens.
Isso não é
verdade. Se os jovens assimilam conhecimentos em ritmo acelerado, é
porque outros jovens, antes deles — hoje envelhecidos —
trabalharam incansavelmente para construir essa base. O tempo
dedicado a pesquisar, aprofundar e repartir conhecimento custou a
esses pioneiros o próprio tempo de assimilação das novidades que
surgiram depois.
5. A árvore do conhecimento
O conhecimento é
como uma árvore. Você planta uma muda, rega, protege e segue
adiante. Quando retorna, aquela plantinha frágil tornou-se um tronco
majestoso que alcança as alturas.
Você fez a sua
parte: plantou, regou e protegeu. Enquanto esteve distante, porém, o
mundo continuou acontecendo. Ao voltar, imaginando encontrar a
arvorezinha ainda pequena, depara-se com uma fortaleza vegetal
imponente e quase indomável.
Antes,
você era um gigante diante da muda que plantou. Agora, encontra
diante de si outro gigante, ainda maior, interrompendo o caminho. A
pergunta não é se devemos derrubá-lo, mas se ainda somos capazes
de aprender a caminhar à sua sombra.
6. Envelhecer sem regredir
Envelhecer é assim:
contribuímos com nossa parcela para que o mundo avançasse. Quando
chega a nossa vez de desfrutá-lo, encontramos um mundo acelerado por
outras forças e por outras pessoas — e, muitas vezes, tornamo-nos
estrangeiros no mesmo lugar que ajudamos a construir.
É aqui que começa
o tema principal desta reflexão: envelhecer sem regredir. Isso
significa domar o potro com o laço feito do próprio couro: usar a
tecnologia para compreender o mundo tecnológico.
Mas significa também
associar a inovação e o conhecimento por ela gerado à simplicidade
do tradicional, à beleza do trabalho humano e à pureza do original.
7. A arte como freio da pressa
É nesse ponto que
começo a falar da arte: a mesma arte que revolucionou civilizações
e que, de maneira provocadora, ainda é capaz de frear o ímpeto
alucinado da vida moderna.
A tecnologia pode,
afinal, fazer alguém interromper a correria para contemplar uma obra
de Matisse, Rembrandt ou Monet — ainda que seja na tela de um
computador.
A
tela não substitui a obra original. Mas pode abrir uma janela para
ela. E uma janela, quando bem aberta, continua sendo melhor do que
uma parede.
8. Meu percurso entre criatividade, arte e
tecnologia
Não foi por
capricho que escrevi três livros relacionados ao assunto: Teoria da
Criatividade (2013), Teoria Geral da Inteligência Criativa e
Bereshit Bará (2026). Também publiquei, em 2026, os artigos
Técnicas Associativas de Arte com Tecnologia — O Processo Criativo
do Ilustrador Pacard e Boletim Arte & Tecnologia.
Esse percurso nasceu
da convicção de que a tradição e a tecnologia não precisam ser
inimigas. Uma pode oferecer raízes; a outra, alcance. A criação
humana torna-se mais rica quando não precisa amputar nenhuma das
duas.
9. A inteligência artificial e o medo de
desaparecer
Percebo, a cada dia,
que a “bomba mais que nuclear” da inteligência artificial tem
aterrorizado muita gente — não apenas os velhinhos que,
assustados, se recolhem cada vez mais ao seu cantinho de melancolia.
É preciso lembrar
que uma tecnologia, por mais avançada que seja, continua sendo
tecnologia. Ela não é um substituto automático para a humanidade
que ainda nos resta. O perigo não está apenas na ferramenta; está
na maneira como a utilizamos, nas intenções que a orientam e na
responsabilidade de quem aceita os seus resultados.
10. O futuro pode ser o próximo minuto
Aqui reside a
diferença entre viver e vegetar: trocar a obsessão por um futuro
distante pelo tempo presente da esperança.
Muitos imaginam que
“futuro” é somente aquilo que acontecerá daqui a vinte ou
trinta anos. Não é verdade. O futuro pode ser o minuto seguinte, a
próxima hora, a ideia que ainda não tivemos ou a conversa que ainda
podemos iniciar.
Por isso, considero
perfeitamente possível — e desejável — aceitar inovações que
favoreçam o bem-estar físico, existencial e psicológico, desde que
sejam utilizadas com consciência, prudência e ética.
11. Tecnologia é ferramenta, não divindade
Nós já nos
acostumamos a acender o fogo do fogão com o aperto de um botão,
regular a temperatura do refrigerador e usar um mixer em lugar do
liquidificador — que, por sua vez, já havia ocupado o lugar do fuê
usado para bater um bolo.
Por que, então, não
poderíamos nos beneficiar de um programa ao qual fazemos perguntas e
que realiza pesquisas velozes para nos oferecer respostas?
Eu considero
extremamente oportuna a possibilidade de servir-me, de todas as
maneiras éticas possíveis, da inteligência artificial, dos
programas de desenho que possuo e até de canetas mais confortáveis
para desenhar com nanquim.
Por que eu
continuaria apontando uma pena de ganso ou uma varinha de bambu para
desenhar, se as penas técnicas modernas realizam melhor determinadas
tarefas? Respeitar a tradição não exige fingir que nada foi
inventado depois dela.
12. Princípios para usar a tecnologia sem perder
a humanidade
Usar a tecnologia como auxílio,
não como substituta do caráter, da consciência ou da
responsabilidade.
Verificar informações
importantes e não confundir velocidade com verdade.
Preservar a autoria, a memória,
o conhecimento empírico e a contribuição humana.
Aprender sem vergonha: ninguém
nasce sabendo usar aquilo que ainda nem havia sido inventado.
Combinar o novo com a
experiência acumulada, em vez de opor uma geração à outra.
Empregar o tempo economizado
para viver melhor, criar, conviver, contemplar e conhecer outras
coisas.
Conclusão — Ainda há vida pela frente
Tecnologia é isto:
o uso consciente do potencial que está ao nosso alcance para
melhorar e acelerar certas tarefas, permitindo que nos sobre mais
tempo para conhecer outras coisas.
Como
viver, por exemplo.
Envelhecer sem
regredir não é voltar a ser jovem. É recusar-se a ficar
intelectualmente imóvel. É conservar a curiosidade sem disfarçar
os cabelos brancos, acolher ferramentas novas sem desprezar as
antigas e rir da própria caricatura sem renunciar à dignidade.
A velhice não
precisa ser uma sala de espera. Pode ser oficina, biblioteca, ateliê,
mirante e, às vezes, até parque de diversões — desde que não
nos obriguem a entrar na montanha-russa.
Que tal uma palestra sobre coisas desse tipo na sua empresa, instituição ou casa de massagens?
Contato: 48 99929 2200 - dpacard@gmail.,com