AD SENSE

quarta-feira, 24 de maio de 2023

O Homem que Vendia Solidão



O homem que vendia solidão

Solidão? - Perguntou, ensimesmado o caixeiro da loja de roupas, que recebeu uma filipeta, um panfletinho em preto e branco, anunciando a venda de nada mais, nada menos que "solidão". Isso mesmo, essa mesmo que o leitor está pensando aí.

- Mas e alguém compra isso?

- Evidentemente que sim" - Respondeu o filólogo, que oferecia solidão em promoção. Infelizmente, apenas uma por freguês, pois como se trata de solidão, não há um coletivo. Por acaso você sabe qual é o coletivo de solidão?

- Creio que seja "multidão"! - Respondeu o caixeiro, meio desconfiado de que talvez fosse uma pegadinha.

- Pois aí que está" Isso mesmo. Multidão. Ocorre que multidão é algo que descaracteriza a pessoa, compreende? Qualquer um na multidão, desaparece completamente, e assim, fica pior que antes.

- Nunca havia pensado a respeito disso! Respondeu, pensativo o caixeiro. E como funciona isso?

- Ah, não é tão simples, mas é um recurso para que o indivíduo se torne novamente um indivíduo, e não uma estatística, um número, uma sombra. A coisa funciona assim: Nesse tempo em que vivemos, onde cada louco contamina outro doido com sua loucura, fazendo com que dois loucos multipliquem seus disparates e desta forma, teremos uma multidão de loucos. Assim como acontece em uma pandemia, por exemplo. Um louco avisa o outro, e ambos se enroscam na loucura coletiva, e tornam-se alvos, presas fácies dos dominadores, que capturam doidos com redes, sabe. Redes de mentiras, rede de intrigas, rede de fofocas, redes e mais redes, até que estejam todos dominados, e por estarem em bandos, perdem sua individualidade, não são mais ninguém, ainda que amontoados com outros milhares de ninguéns. Compreende?

- Não!

Veja bem, vou dar um exemplo: Se você caminha entre muitas pessoas, e se todas elas falarem ao mesmo tempo, você conseguirá entender o que falam?

- Pois então! Aqui está a chave da questão. As pessoas precisam ouvirem suas próprias vozes, ouvirem seus nomes, conversarem com quem as ouça, e ninguém melhor que nós mesmos para ouvirmos o que dizemos. Assim, se você for capaz de caminhar sozinho, ainda que na multidão, você voltará a ser você e mais ninguém.

- Mas e por que as pessoas não fazem isso?

- Porque perdem suas vontades, pelo medo, pela falta de esperança, pelo exagero de informações que receberam, e saturaram a credibilidade em tudo. Pois é aqui que eu entro, e vendo para elas o meu projeto de "Solidão Responsável!"

- E como funciona:

- Vendo à você a pergunta "coringa", para todas as respostas, que é uma pergunta padrão, capaz de afastar as pessoas negativas de sua presença, e assim, você tem possibilidade de caminhar livre por entre elas, sorrindo, enquanto choram, sereno, enquanto gritam, altivas, enquanto se dobram ao desânimo.

- E tem garantia isso?

- satisfação garantida, ou recebo em dobro o que você pagou, em espécie.

- Não estou precisando ainda, mas por favor, embrulha pra viagem, pois vou ligar a tevê, e posso precisar disso logo, logo.

- Pois não! Débito ou crédito?

- Faz no carnê?

- Infelizmente não. Carnê pressupõe um monte de parcelas, e isso descaracteriza o negócio. Solidão é tudo, é o nosso lema. Vai querer uma sacolinha?

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Matutações sobre o Mate Amargo


Pois não sou de me gabar, porém, certos feitos devem ser enunciados para recuerdos da posteridade, e aqui testemunho da qualidade material de um bem cuáje espiritual, sem pender pro fanatismo, que é o meu apetrecho de matear, a minha cuia feita de porongo de Canela Sassafrás, feita de um toco retirado da figueira milenar de adonde foi enforcado o glorioso jeneral Bento Gonçalves, em Ouro Preto do Passa Quatro, perto de Taquari.

Matear é um ato solitário que deve ser feito em pixurú, pra não perder a mão, e sempre seguindo o protocolo de jamais mexer na bomba, nem entregar a cuia pro cevador sem roncar tres vezes.

Entregar a cuia com a mão errada também é um sacrilégio, punível com chá de umbú. Você pode, ao tomar o mate, usar a mão direita, a esquerda ou qualquer outra, mas só não pode pegar e nem devolver com a mão errada, pois a certa é a direita mesmo.

Toma-se o mate apenas em duas ocasiões nessa vida: Quando chove e quando não chove! O resto do tempo a gente pode ir se intertendo com uma matezito aqui e outro ali, solito ou num circunlóquio festivo. Sem mistura, ou acompanhado de um naco de charque, uma costela gorda passada no pirão, ou uma bolacha, que pode ser pintada ou não.

Todo vivente, toda viventa, e todo vivento precisa ter na partelêra, polo menas dois pacotes de erva da boa, para oferecer às visitas que chegam, ou matear em homenagem às visitas que não aparecem. É um jesto de munto respeito, além de ser lôco de especial matear, seja solito ou acompanhadito.

O mate amargo deve ser tratado cuáje como uma pessoa, pois quando ninguém mais quer prosear com o vivente (vivento ou viventa), o mate tá ali, solidário, quentinho, amarguito, pronto pra ser sorvido, e pra matear, não se requer muita prática (preparar o mate já são outros quinhentos mirréis) nem habilidade espacial, senão apenas esticar o beiço, fazer bico, como os franceses, e beijar a bomba. Só não pode grunhir de sastefassão, pois aí fica parecendo côsa deferente.
Mas AHHH LA FRESCAAA!

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Velhos guardam coisas...


Velhos guardam coisas...
Pacard (Escritor, e velho)

Num dia desses, assisti um filme, do qual gostei imensamente, onde dois gigantes da dramaturgia, Olivia Colman (A Favorita, Filha Perdida, e outros), e Anthony Hopkins (O Silêncio dos Inocentes, Um crime de mestre, etc), vencedores de Oscars, emprestam seus talentos em um quase monólogo, de ambos, em que a atenção do espectador não perde um único movimento ou frase dos protagonistas, ainda que todos os cenários sejam sutilmente trocados ao longo do enredo, onde o roteirista consegue, com maestria, mostrar os últimos momentos da evolução da senilidade de um personagem tão conhecido de quase todas as famílias deste mundo: o idoso!

Talvez porque eu também esteja caminhando nessa senda da idade que me abraça com ansiedade insaciável, e que começo a perceber em mim mesmo manias e ranzices (existe esta palavra?), que passo a aceitá-las com certa naturalidade, e até me divirto com estes lapsos de confronto entre a idade madura e aquela idade em que apesar de ouvir ainda muito bem, bem até demais, ouvimos coisas que gostaríamos de não tê-las ouvido, seria melhor, mas a vida é a visa e é assim que é. Por exemplo: "Não vai faltar muito para que o caminhão que recolhe entulhos passe aqui para levar essas tralhas, e se descuidar, te leva junto!" É claro que estou usando uma metáfora e generalizando, pois eu não tenho nenhuma preocupação com o caminhão do entulho, porque conheço o rapaz e posso entrar em acordo com ele se isso acontecer. Mas também é certo que tenho minha caixinha com parafusos de todos os tamanhos, roscas, e bitolas, e acreditem: Com frequência tenho que dar um pulinho na loja para comprar outro tamanho que é indispensável para consertar aquele objeto que seria descartado como inútil, quando apenas o que faltava era aquele parafusinho e uma ajeitadinha aqui e outra ali para economizar boa parte do meu parco salário de aposentado.

Os velhos guardam coisas, porque ao longo da vida, muitas coisas faltaram nos momentos mais inoportunos, e assim, adquiriam o hábito de não jogar fora aquilo que não esteja totalmente inutilizado para consertar outra coisinha aqui e ali. Os velhos guardam memórias que se acumulam, porque não há mais quem as queira consumir, porque velhos repetem as mesmas histórias, não porque acham que as pessoas sejam esquecidas, mas porque se eles próprios (nós) não as repetirem, serão finalmente esquecidas. 

Os velhos guardam coisas como valores (se os tiveram cultivado, pois só guardamos aquilo que já tivemos um dia, ao longo de muitos dias), porque são estes valores que o sustentam nos longos dias emendados nas noites insones, a contar nos dedos enrijecidos os dias que faltam para que o silêncio não os perturbe mais.

Os velhos guardam coisas e loisas. Guardam lembranças e guardam distâncias dos tempos em que os passos eram ágeis e as horas eram mais lentas, onde a vida era ligeira, e não havia tempo para abraçar o tempo que tinham para abraçarem seus amores. Os velhos abraçam dores, que as tornam companheiras, posto que sejam as únicas companhias dos dias que perambulam solitários de um lado a outro buscando com o olhar esperançoso pela companhia de quem os procurem para ouvir deles as lembranças, e as lembranças dos sonhos que nunca se cumpriram.
Os velhos guardam coisas, pois as coisas, ainda que apenas coisas, mostram pela poeira e ferrugem, que são tão velhas quanto eles, e velho com velho se entende bem.
Velhos guardam coisas, e coisas protegem os velhos da solidão.





quarta-feira, 26 de abril de 2023

A Ditadura, Os Estudantes, Gramado, e Eu

Foto: Silvano Haas (Entrega do Troféu Ilha de Laytano, e o dia do meu primeiro discurso à todos os alunos, no Cine Embaixador, Dezembro de 1976) Sou o primeiro, assentado, à esquerda. Ao meu lado, Nailor Balzaretti, Professor Francisco, ao seu lado, não sei quemm é, Dante de Laytano, Irma Peccin, Marilia Daros Franzen, Esdras Rubim, de pé, o Diretor José Staudt, e dormindo, lá no canto oposto, Romeu Dutra.

Pois confesso o que já é amplamente despercebido: esta é a primeira vez que eu escrevo sobre os tempos de Movimento Estudantil em Gramado, e meu estado de coisas neste ambiente sinistro e maravilhoso.

Meu intróito neste ambiente da política estudantil começou lá por 1976, quando cursava alguma coisa entre o Ginásio e o Científico, não lembro direito, e isso nem importa também, mas o que interessa é que minha turma na escola noturna era bem pequena, uns dezoito ou vinte alunos no máximo, gente boa demais, amigos até hoje (os que ainda perambulam pela vida), onde não éramos amigos apenas, mas quase irmãos mesmo, tamanha a amizade do grupo.

Foi nesse tempo, que o Grêmio Estudantil Machado de Assis estava em processo de organizar a eleição para o comando da entidade, e nesse tempo, os Grêmios Estudantis eram o último redutos da juventude para extravasarem sua ânsia pela política nacional, posto que era proibido aos estudantes a manifestação na política partidária, e nesse tempo, os Diretórios Acadêmicos Universitários estavam fechados pelo governo militar, e a UNE estava lacrada e cercada por soldados armados até os dentes, à espera de algum "fura-fila" que ousasse romper o lacre e entrar na sede da entidade, e enfiá-lo num camburão para levá-lo a um passeio pelos porões do DOPS (Delegacia da Ordem Política e Social, o departamento de repressão e em muitos casos, senão a maioria, tortura e pau-de-arara mesmo), para uma nada gentil conversa com algum delegado cercado com umbando de sádicos, que não tinham a menor ideia a respeito dos debates políticos que perseguiam, mas tinham a força e o prazer de divertir-se com os gritos dos torturados. Assim, os estudantes universitários trancavam suas matrículas nos cursos, e se matriculavam no Ensino Secundário, para arregimentarem prosélitos, e disfarçadamente manterem o movimento estudantil vivo.

Foi nesse ambiente que eu comecei. Eu não era e nunca fui ativista político. Não sabia nada da política nacional, além do que ouvia pelos amigos, geralmente em rodas de piadas, onde o estúpido era o general de plantão no poder, e a piada girava em torno de ideologia política, as mesmas de anos anteriores, onde só se trocavam os personagens. Este era meu conhecimento da política, nada mais. Não fazia a menor ideia do que fosse o movimento estudantil, e muito menos tinha pretensão de envolver-me com isso. Porém, como sempre fui comunicativo (alguns antagonistas davam o nome de "inxerido e petulante". Vá lá que seja, assim eu era, e por ser inxerido e ansioso por pertencer ao grupo, já que eu era péssimo no futebol, fator que favorecia o fortalecimento de amizades, e por ser um perna de pau, eu não era convidado para formar time com ninguém, e por isso e outras coisas mais, tornei-me um excluído social. Então, a única forma de entrar em uma porta quando não abrem pra você, é meter o pé e entrar assim mesmo. Isso te torna inxerido e petulante. Que seja.

Como dizia, o Grêmio Estudantil nesse tempo, estava sendo movimentado para a eleição, e era sempre a chapa da situação quem vencia, porque seus integrantes faziam parte, tanto dos movimentos esportivos da cidade, quanto da elite política, que os motivava a que se mantivessem no comando da juventude de cabresto. E fui então procurar o então presidente da entidade, um sujeito maluco de atar em poste, cujo prazer era vestir-se de Papai Noel, próximo ao Natal, e sair com uma vara de vime de dois metros de comprimento dando varadas nas pernas da piazada, por onde passava. Esta era a liderança da juventude política deste tempo e lugar.

Num desses ímpetos arroubos de humildade invasiva, fui procurar o maluco e disse a ele que eu gostaria de ser incluído na próxima chapa, num cargo, tipo qualquer mesmo, para pertencer ao grupo, participar, correr de um lado a outro nos eventos da entidade, enfim, queria estar junto deles, e ele me respondeu, com ar de superioridade:
- "Fica tranquilo, vamos te arrumar um carguinho na chapa (que tinha cerca de 30 pessoas)!!
Ah, como eu fiquei feliz, e fiquei à espera de ser chamado, o que nunca aconteceu.

Entre muitos amigos, eu era (e ainda sou) grande amigo de um sujeito de baixa estatura, de fala mansa, observador, meio debochado, mas um excelente estrategista político, que durante os intervalos das aulas, quando todos ficavam tagarelando e andando de um lado a outro, ele sentava-se, de pernas cruzadas, e lia o jornal atentamente: o Eduardo Barros! Então, cheguei pro Edu e disse que deveríamos montar uma chapa para concorrer, e que ele, Eduardo, deveria ser o Presidente, e que eu o apoiaria, buscando votos dos alunos. Minha esperança era pelo menos ter um lugar no grupo para colaborar, nada mais. Eduardo olhou pra mim com a cara seria e disse:
- "Sim, vamos formar uma chapa, mas o presidente vai ser tu!"
- "Eu?" Fiquei estupefato, aquilo era irreal, eu não tinha a menor condição de vencer uma eleição com mais de mil alunos, um desconhecido, insignificante, pobre, filho de mãe solteira. Nem pensar!
Eduardo insistiu e disse: 

-"Monte a chapa! Escolha alguns membros, poucos, e vaou te inscrever como candidato!"

E assim foi. Mas um dos segredos de vencer uma eleição, é ter aliados, e como a chapa da situação já estava formada, contando com mais de 40 pessoas, naturalmente já haviam escolhido todos os formadores de opinião, líderes, e alunos mais populares, para composição desta chapa, e desse modo, ninguém queria entrar na competição contra eles, e eu ia de pessoa em pessoa, até que finalmente consegui formar um grupo mínimo, com os componentes exigidos pelos estatutos, elegíveis, isto é: Presidente, Tesoureiro, Vice Presidente, e Secretário. E lá fomos nós: Presidente, eu, Paulo Cardoso; Vice, Marlene de Oliveira; Secretária, Edelgarth Ramm, e Tesoureiro, Sergio Teixeira, que era o mais maduro do grupo, e trabalhava em um banco, então ninguém melhor para cuidar das finanças do grupo.

Começamos o périplo pelas salas, pelos corredores, pela calçada da frente, apresentando nossas propostas, mas sem nenhuma esperança de vencermos, apenas pela adrenalina da campanha já estaria bom. Minha avó, muito religiosa, dizia: 

- "Não posso orar para que venças. Mas oro para que tenhas sabedoria!"

Chegou a eleição, e minha pequena turma foi proibida de abandonar a sala para votação, pois estavam em prova. O professor era a favor dos oponentes. Acontece. Perdi 17 votos então. Em outra sala, ao lado, também não recebi nenhum voto, porque a líder de turma era uma freira que me odiava, porque descobriu que eu não era católico, depois que eu havia feito diversas vezes a leitura dos Evangelhos na missa, a convite dela, porque gostava da minha dicção, e aí disse que iria me incluir na liturgia, que eu achei interessante, pois a grande maioria dos meus amigos era católica, eu era amigo dos padres, e não via nenhum problema de estar entre amigos, contanto que não tivesse que fazer coisas contra os meus princípios, as ler um trechinho da Bíblia, por que não? Mas quando contei isso, a freira botou os óculos de ver a verdade e me viu como o anticristo, o que alimento nela ódio infernal e perpétuo. Assim, nesta sala também, não recebi nenhum voto. Tristeza, pois voto é voto. E a terceira sala onde não recebi nenhum voto, foi a sala do meu oponente. Lá também eram unidos, e me deixaram no esquecimento. Então, já perdi cerca de 60 votos nestas três salas. E foi só, pois venci por larga margem em todas as demais salas, fazendo 832 votos contra cerca de 300 do meu adversário. Foi uma lavada! Porém, ainda faltava uma coisa: Compor a equipe de gestão, eu precisava de uns vinte integrantes mais ou menos, e naturalmente, o primeiro convidado foi o Eduardo Barros, que não aceitou, apenas se dispôs a companhar-me como conselheiro. E foi. E como fiz para juntar esse grupo todo? Simples: Matar dois co...(ops, não pode né)brócolis com uma tesourada só! Convidei todos os integrantes da chapa derrotada para trabalheram comigo, e apenas dois não aceitaram, incluindo o candidato a presidente e outro amigo meu, que não sentiu-se confortável em aceitar. Assim, acabei com a eventual oposição, e ao mesmo tempo formei uma equipe experiente para a tarefa.

Vou pular a parte da gestão, e voltar à política nacional. Pois logo no inicio do ano seguinte, veio o convite da UGES (União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas) para que eu fosse com eles, participar de um congresso nacional de estudantes, em Curitiba, e não é preciso dizer que me senti o verme do cocô do cavalo do bandido lá entre aquela militância profissional universitária fantasiada de secundarista, mas mesmo assim, fiz meu discurso, no último dia. Confesso que não lembro de uma palavra que disse, de tanto que eu tremia, porque havia um sujeito rechonchudo, crespo, com óculos tipo fundo de garrava, empunhando um gravador, com microfone apontado pra mim. Não era um estudante nerd que queria repassar as conversar para tirar lições, nem um jornalista, cobrindo o evento. Era um agente da DOPS, com o pé que era um leque para pegar no pulo um incauto que deixasse escorregar uma palavra solta de interesse dos generais.

Conheci, neste encontro, os ex-presidentes da UGES, entre eles um que me tornei amigo e era grande admirador, Alfeu Bisaque Pereira, que tornou-se Juiz de Direito e hoje advoga, lá no interior do Rio Grande do Sul. Outro, de quem me tornei rival, Gilberto Barbosa de Oliveira, o Gica, baixinho e bem falante, um orador aguerrido. E outros de vários estados do país. E para cada grupo de cada estado, um agente da DOPS de tocaia.

Voltando à Gramado, a principal atribuição do Grêmio Estudantil não estava ligada á política nacional ou partidária, embora, endo eu militante da oposição aos militares, sem estar filiado ao MDB, tornei-me o queridinho dos palanques e poucos dias depois houve eleição, onde o candidato deste partido venceu, coincidentemente com o mesmo número (ou muito próximo disso) de votos de diferença do candidato da ARENA, e claro, o guincho das raposas velhas me emboscou, pegou pela vaidade de um menino de 18 anos, ainda deslumbrado pelo fulgor da vitória esmagadora. Tornei-me um ícone da juventude opositora, sendo que, mesmo estando no que chamavam de "esquerda nacional", até hoje eu nem sei o que quer dizer "esquerda ou direita", e nem faço questão de aprender. mas fui rotulado de "esquerdinha, comunista, socialista, gremista (sim, isso eu sempre fui, gremista, etc). E neste rufar de tambores, fui levado para a Secretaria de Turismo, na condição de aspone do secretário (isso eu já contei antes).

Porém, o título de líder dos estudantes não foi benéfico pro meu mandato. Por exemplo: como fazíamos muitos eventos esportivos e sociais entre os estudantes, escolha de rainha, princesas, campeonatos, teatro, etc, cada vez que havia um evento, eu era obrigado a apresentar-me ao delegado de polícia local, mostrar à ele os cartazes, os quais ele olhava contra a luz, dobrava ao meio, examinava com lupa, pra ver se não havia nenhum manifesto comunista criptografado no desenho. Penso que nunca encontrou nada, pois me mantive fora do camburão, cuja sorte de conhecidos meus, fora de Gramado, não era a mesma. Nesse tempo, eu não tinha carteira de identidade. Não era comum tê-la, e meu único documento era a carteira de Presidente dos Grêmio Estudantil, e é com ela que eu ía à Porto Alegre, e uma vez, atravessei um piquete de estudantes que confrontava a polícia de choque em frente  à Assembléia Legislativa, e no bolso, a carteirinha azul... adrenalina pouca é pra fraco, minha gente.

Mas querem saber se eu senti os efeitos da ditadura na minha vida? Ah, como senti! Por não pertencer à elite do comando econômico local, ao ser eleito, fui cooptado por empresários ligados aos militares, que me ofereceram empregos dos sonhos, com salarios dos sonhos, mas havia uma condição: eu deveria "mudar a camiseta", aderir ao partido deles! Ora, diga isso a um jovem aclamado pelos seus, no auge da glória de vento, para que el se torne um traidor de suas ideologias e de seus amigos, e espera a resposta que terá. Não aceitei! Certo, então. Nunca fui preso, mas nunca mais tive oportunidade de um bom emprego,de bom estudo, de uma carreira. Claro que tive bons empregos, fiz carreira em outra direção, mas sem dever favor nenhum aos que me perseguiam. Tomei conhecimento, muitos anos depois da exist~encia de um "Caderno Preto", onde constava a lista de pessoas com quem não se podia fazer negócios, e a pessoa abriu o caderno, mostrou o meu nome, riscou ele, porque naquele momento eu havia entrado nos interesses do grupo, aind que fosse por capacidade profissional e não ideologica e não tive que me ajoelhar, mesmo proque as pessoas eram outras nesse tempo e o passado foi guardado no passado, mas ninguém me contou sobre o livro. Eu vi!

Um dia, alguém me perguntou: 

- "Paulo, por que tu nunca "deslanchou" em Gramado? (Deslanchar, era circular nas rodas altas , enriquecer, coisas assim). Respondi: Porque tenho caráter e não negocio com meus princípios!

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Causos do Cine Embaixador em Gramado - Vovô Joaquim e Pirulito, Doce Mu-Mu e eu

Vovô Joaquim não era tão famoso, e então não achei imagens dele. daí, recorri ao IA, que me desenhou isso.

O que Pato tem a ver com Pirulito, Vovô Joaquim, Cine Embaixador, Doce Mu-Mu, e eu? Tudo! Mas tenho que desmembrar os fatos para melhor compreensão do causo.

Sou averso a concursos. É muito, muito, mas muito raro que eu participe de algum concurso, haja vista minha frustração por não passar da fase de avaliação, que nem sempre atenta para o objeto proposto, e sim para os meandros virgláceos da burocracia do processo seletivo. Tenho nojo destes burocratas obtusos que fazem juramento de devoção permétu às vírculas, em lugar de analisar o cheiro da alma da obra do artista. Mas, enfim, não participo de concursos então, e o relato que exponho é um dos bem sucedidos de minha exitosa carreira de declamação de poemas em público. Bem, na verdade declamei mesmo poemas de Thiago de Melo, Castro Alves, Alphonsus de Guimarães, e certa feita até aventurei-me a degladiar-me com algumas estrofes de Camões, e se isso tiver valor, alguns poemas meus também, o que não conta, pra não incorrer em nepotismo. Fora isso, os dois momentos memoráveis (depende do ponto de vista) destas declamações, foram coroados por Vinícius de Moraes, com "O Pato". Devo muito àquele pato. Muito mesmo. E o responsável por juntar platéia com uma vergonha exposta pra eu poder passar, isso lá pelo anos de 1968, ou 1969, não tenho bem certeza, quando o Cine Embaixador, o emblemático panteão das artes do recém emoldurado vilarejo com status de Município, apelidado de Gramado, ao que tal panteão era ocupado com a exibição de filmes, uns bons, outros enfiados goela abaixo pela ANCINE, mas nos horários em que não se passava filme, era utilizado como palco das artes que por lá passavam.

Exatamente assim era o Cine Embaixador no dia em que recebeu o Vovô Joaquim e seu palhacinho de marionete, Pirulito

Numa destas oportunidades, apresentou-se um artista, cujo personagem era um simpático velhinho, chamado de "Vovô Joaquim", que manipulava um sujeitinho esquisito, pequenininho, mas muito atrevido, do damanho de uma garrafa de laranjada, chamado de "Palhaço Pirulito". Só muito tempo depois, fui descobrir que Pirulito era um marionete, tipo esses colocados por oligarcas nos parlatórios do mundo, e os chamam de dep...ah, os chamam pelo título de "vossa flatulência, vossa incongruência", ou algo assim, que não lembro ao certo como é, e ao contrário do palhacinho Pirulito, que fazia rir, estes não tem graça nenhuma, e fazem chorar.

Este Não é um copo de doce de leite Mu-Mu, mas como não achei nenhuma imagem desse tempo, quis mostrar como era o copo, que até hoje, comos similares servem para beber café pingado e comer pão com manteiga.

Pois o tal "Vovô Joaquim", tinha uma espécie de Talk-Show, onde fazia graça manipulando o marionete em seu colo (ou era alguém que fazia isso, não lembro direito), e chamava crianças para o palco para que se apresentassem com suas habilidades artísticas. Eu era tímido, mas nem tanto, e convocado a subir no palco, eu fui, e não suficiente estar lá, fui desafiado a declamar uma poesia. Pronto! Mexeu comigo! E empostando a voz, empinando o peito, e gesticulando com teatralismo de gente grande, lá estava eu, declamando o poema: "O Pato"!

Conforme anunciado acima, "O pato"

Não apenas fui aplaudido, como fui recompensado, com um presente único: Um copo de vidro com Doce de Leite Mu-Mu, o mesmo tipo que eu havia aprendido a comer, na casa de Elisabeth Rosenfel, junto de seus netos, Ricardo e Mônica.

Saí dali empoderado! Agora eu era um astro da declamação do "Pato". O mundo será pequeno para mim. Soube depois que Julie Andrews, que nesse tempo voava assentada em uma mala, usando um guarda-chuva como motor de vôo, soubera de minha façanha, e tentou com sofreguidão entrar em contato comigo, para que eu declamasse com ela, na Broadway, sua célebre canção trava-língua,  "Supercalifragilisticexpialidocious", mas que por uma inveja sem tamanho, esconderam de mim, e fiquei resignado ao meu mundinho de fantasia, onde era astronauta, Tarzan, Presidente dos Estados Unidos, e futuro esposo da Professora rejane (que foi outro caso de interferência maldosa de invejosos, que atribuíram meus seis anos de idade como barreira para nosso enlace, dizendo que ela era velha demais e que não daria certo. Ora, me digam: Uma senhorita solteira, doce, gentil, minha professora, com vinte e cinco anos, é velha, desde quando? Mas, enfim, ganhei o doce, comi o doce, e aqui estou eu, fazendo propaganda de graça pra Mu-Mu.

E vem aí, a revistinha marota: FELIZ IDADE!
Cuidado: Pode provocar Incontinência Orinária e Fístula na Pleura. Em casos de ingestão acidental, procure um mandingueiro*


segunda-feira, 10 de abril de 2023

Uma lembrança de priscas eras - Horst Volk

Foto: Internet*
Devem ter, meus supimpas leitores, que em todos os anos que escrevo, nunca escrevi nada a respeito de um personagem notável da história de Gramado, Horst Volk. E não fiz, porque seria chover no molhado, haja vista que todos já enumeraram suas múltiplas virtudes comunitárias, e seus adversários, carimbaram todos os seus defeitos. Assim, entendi que calado, eu seria um poeta, no tocante à esse personagem. Porém, vou corrigir essa lacuna, e contar um breve episódio de sua conduta humanitária, desconhecido até mesmo de sua família.

Na década de 1970, minha avó vendeu seu terreno, lideiro ao Artesanato Gramadense, e em troca, recebeu um terreno muitas vezes maior, numa área mais central, e ainda nesta permuta, foi custedo o desmanche e reconstrução do velho ranchinho de tábuas de pinheiro onde morávamos. O terreno era metade banhado, e outra metade, capoeira, servido por uma velha estrada rural, onde só passavam carretas e cavalos, fechada por uma porteira, no final do terreno, que dava acesso à Rua Borges de Medeiros. Não havia água, nem luz eleétrica. Apenas um lugar, onde fomos morar.

A primeira providência foi abrir uma cacimba para obter água potável, o que foi feito, na parte mais elevada, na frente, um pocinho com certa de um metro de profundidade, já era suficiente para suprir água para higiene e alimentação. Água pura, limpa, mas com um porém: Lá entravam sapos e surgiam vermes imensos, e para evitar isso, jogávamos sal na água, e tinha que ser fervida depois. Nada agradável.

Nesse tempo, Horst Volk era Interventor Federal, e amigo da família, pois minha mãe era diretora de uma escolinha Brizoleta, já descrita aqui neste blog. Certo dia, Horst foi fazer uma visita à nossa casa, e viu a cacimba na frente. Indagou se era dali que tirávamos nossa água, o que foi confirmado. Pois, na mesma semana, chamou minha mãe à Prefeitura, e apresentou a solução, pois nesse tempo, a Corsan não permitia que a tubulação de água passasse por terrenos de vizinhos. Então, como havia um terreno baldio nos fundos, que dava acessoà rua principal, pertencente aos seu sócio, Waldemar Weber (que foi prefeito no mandato seguinte), que cedeu uma tira de 50cm de largura, por toda a extensão do terreno, da rua até o nosso, com escritura e tudo. E foi assim, que passamos a beber água potável desde então. Logo depois, a rede elétrica foi levada pela rua barrenta e a velha cancela de potreiro foi extinta, tornando-se o que são hoje as ruas João Fioreze, e na sequência, à esquerda, Ervino Ilges, que terminava em frente à nossa casa. Hoje, ela dá a volta e sai novamente na Avenida Borges de Medeiros.

Recordo de outra ocasião, em que Horst encontrou-me na lanchonete do Hotel Laje de Pedra, e bebericando uma água mineral, apresentou-me à alguém próximo, dizendo: Este é o Paulinho, filho da Professora Ester. Um excelente desenhista, e eu me identifico com ele por isso, o desenho.

Assim, Horst e eu tivemos nossas diferenças políticas, não escondo isso, mas justiça seja feita à sua memória: O que ele fez de bom aos meus, fez de excelente à mim. Que Seus descendentes mantenham esse olhar de empatia, sempre que a oportunidade se fizer necessária.



sábado, 8 de abril de 2023

Os vazios de nosso envelhecer - Os desafios do Século XXI


Amadurecer é como fogo em madeira verde: Muita fumaça e pouco calor. Os anos passam, e assim, como a lenha verde, que evapora toda a água e transforma-se em brasa, também a maturidade acontece, e nossas ações são desejadas, porque podemos servir com toda força que mescla juventude e experiência. Os anos passam, e assim como a lenha que é brasa viva, nossa utilidade é necessária para o desenvolvimento da sociedade. E por fim, poucas brasas, aconchegando-se na cinza, para perdurar seu calor, é o que resta do calor que um dia derreteu o aço. Então, as primeiras gotas de chuva açoitam as cinzas e acertam as brasas, que sublimam em um vapor branco e suave, que em nada lembra a densa nuvem das primeiras chamas, lá no princípio da vida adulta.

É no envelhecer que se percebe que ser ignorado já não importa mais. Já não se luta mais por espaço no mundo. Já não se desejam mais conquistas, fama ou poder. Basta a quietude das manhãs, quebrada pelo vento e pelo trinar do passaredo. Basta o ruidoso canto do crepúsculo retinindo nos ouvidos, ora surdos, ora sensíveis a qualquer estampido repentino.

É no envelhecer que se percebe que aquilo que pensamos ser sabedoria, torna-se impertinência para quem, em nosso entender, necessita de conselhos, e que no calor de suas próprias chamas, foge da pretensa sabedoria de quem não foi capaz de driblar a juventude, e como castigo, envelheceu.

É no envelhecer que a solidão torna-se a melhor companhia dos dias, e a dor, a parceira fiel das noites. É no envelhecer que ouvimos o silêncio como se fossem gritos de desespero, ou paradoxalmente, como uma sinfonia lenitiva. É no envelhecer que cada silêncio é organizado e saboreado. 

É no envelhecer que nos tornamos transparentes, translúcidos, irritantemente insignificantes. É no envelhecer que descobrimos que o tempo acelera morro abaixo. O Século XXI é o século dos silêncios encapsulados entre  nuvens quânticas, onde cada ponto que brilha, encerra um ponto que se apaga. O silêncio neste andar dos primeiros passos do século em curso é o combustível para o reflexivo caminhar da solitude anciã.

É no envelhecer que somos capazes de discernir as diferenças entre o que é aventura, e as consequências de aventuras inconsequentes. É nas consequências das grandes descobertas e invenções dos séculos recentes, que chegamos ao Século XXI com a mais completa das incertezas: Quando  nos tornaremos sombras liquefeitas pela sociedade que ajudamos a moldar à nossa imagem e semelhança?

Quando nós, enquanto já sombras inertes projetadas pelas luzes que nós mesmos acendemos e as utilizamos como se fossem nossos próprios brilhos, e por fim, descobrimos que não havia em nós brilho algum, assim como não há corpo em uma sombra, que depende de outro corpo e de outra luz que se projete sobre uma superfície, e nem mesmo esta superfície podemos ser, senão a falta de brilho que desliza se contorcendo entre a planura e depressão do chão que não sente mais nosso peso ao andarmos?

O Século XXI multiplicou os desafios de adaptação aos tempos em quantidade infinitamente superior aos séculos precedentes. A tecnologia tornou-se parte de nosso DNA, o que não traz nenhuma novidade à quem conhece os escritos sagrados do profeta Daniel, que dizia: "Tu, porém, Daniel, cerra as palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará."Daniel 12:4. Assim, o que não é novidade, não deixa de ser espantoso, de causar estupefação, por ver profecias se cumprindo diante de nossos olhos, em nossas casas, em nós mesmos. Somos a geração que sabe, ao mesmo tempo, que dias maus sempre chegam no entardecer da vida, também sabe conviver com a vida digital, aquela vida paralela que se oculta e se mostra atás de pontos luminosos em nossa tela de computador, e as chamamos de "Redes sociais", de portal virtual de acesso às vidas de pessoas que não podemos tocar, abraçar, sentar para tomar um mate (ou café, ou suco, ou água, ou dividir uma fatia de bolo, um biscoito, um pão), mas podemos conhecer-lhes a alma, os sentimentos, podemos compartilhar orações, desejos, disseminar a raiva, odiar o ódio, ou fazer valer a nossa vontade. Ainda que sejamos velhos, somos vivos e podemos viver cada centelha de vida que carregamos em forma de corpo, de alma, de sentimentos.

O Século XXI em sua essência é exatamente igual ao Século X antes do cristianismo, ou ainda antes, alguns séculos ou milênios, porque também por este mesmo mundo, perambulavam pessoas que tinham fome, sede, amor, compaixão, ódio, ganância, medo, ou coragem. Casavam e tinham filhos. Lutavam suas lutas e morriam suas mortes, e no seu entardecer eram reverenciados como sábios, e isso sim, perdemos, porque o multiplicar das ciências popularizou e capilarizou a sabedoria falsa, chamada de conhecimento, de ciências, de entendimento. Essa é a única diferença de nós com aqueles que viveram muito tempo antes: O tempo que tinham livre tornava-se o sol que amadurecia o conhecimento, e assim, digerido lentamente, era transformado em sabedoria.

Sabedoria não é dominar o átomo ou a pólvora, mas saber empregar um e outro conhecimento para o bem maior, o bem estar de cada ser vivo, de cada ser pensante, rastejante, ou emissor de oxigênio, metano, ou carbono, a saber, dos Homens, dos animais, dos vegetais, e até mesmo dos minerais, que juntos sustentam o ciclo da vida.

O Século XXI está passando tão rápido, e ainda nem esfriou o perfume do século XX. Os ventos ainda nem dissiparam os olores da morte, das guerras, da fome, das pestes, antes, fizeram de tais odores, sementes que brotam e rebrotam a cada dia, hoje, com o domínio do saber que fertiliza tudo, para o bem e para o mal.

O Século XXI voa para trás, mas para nossa esperança, forma o vácuo que puxa o futuro com mais celeridade, e neste futuro antagônico, que traz ao mesmo tempo, e pelo Mesmo Personagem, a esperança e o desespero, é o lugar onde, no tempo presente, podemos ainda refletir sobre O que Foi, O que É, e O Que Será. Ainda se pode refletir sobre Quem queremos ser nesse abraçar de tempo e de esperança.


segunda-feira, 3 de abril de 2023

Pétalas - Pacard

1 – Os Ventos
Sempre ouvi dizer que a sabedoria morava junto ao silêncio, e resolvi então buscá-la.
Levantei bem cedo, pois o primeiro silêncio anda junto da aurora. Andei no rumo do sol e perguntei à brisa que me acompanhava:
- Conheces a sabedoria?
- Dela ouvi falar!- Respondeu-me. 
- Por que a buscas nesta hora do dia, em que melhor é vagar sem saber onde chegar?
- Porque sei que a posso encontrar e desejo dela sorver graça para minha vida – argumentei esperançoso de pudesse forçar o vento a me conduzir a um ponto de partida.
- Ventos não andam em busca de abstrações! – Disse-me, com ar de melancolia. Somos a abstração que se pode sentir sem tocar. Somos a metáfora de D-us, porque não nascemos onde nos possam dar nome. Não andamos por caminhos pré-estabelecidos, e desaparecemos sem que nunca tenhamos sido tocados. Somos como o espírito vivo, embora caminhemos como a morte.
Ninguém nos pode guardar. Sabem quem somos só depois que passamos. Somos o passado como vozes do presente. Nos podem ouvir, até mesmo há quem procure traduzir nossas canções, mas frear nosso curso não há quem consiga.
Somos o acalanto dos órfãos. Somos o bálsamo dos que queimam. Somos sopro de  D-us dando vida. Somos a própria vida.
Enquanto o sol mais alto surgia, devagar como o tempo, a brisa desapareceu. Aborrecido por não ter minha pergunta respondida, retirei-me dali, arrazoando com meus pensamentos, trôpego pela embriagante musicalidade da manhã, foi quando percebi que tivera minha primeira lição: "A sabedoria é como a brisa mansa. Vem, anda junto e se vai. Dela ficam em poucos, as marcas. Dos que se deixam acarriciar por sua suavidade, como que pelos dedos da brisa nas folhas das árvores".

2 – As árvores
Continuei a caminhar e encontrei uma grande árvore. Já alto o dia, queimavam-me os raios do sol altivo e imponente, como um velho mestre a impor disciplina ao aluno displiscente. Sentei-me à sombra e com jovial ociosidade fitei o cintilar entre as folhas, como se o olhar do velho professor buscasse me encontrar entre as frestas de meu esconderijo.
Era uma castanheira, frondosa, forte, abraçando em círculo com seus braços longos tudo o quando pudese abraçar, como uma mamãe pássaro a envolver seus pintos sob pequeninas asas, mas que se multiplicam de tal modo que nenhum deles perde seu aprisco acolhedor sob a mais intensa chuva ou causticante sol.
Ao lado da castanheira, uma araucária alta, coroada de belas copas ostentando pinhas e balançando uma a uma como troféus por sua imponente forma.
Pousou entre as folhas da castanheira um pequenino pássaro. Quase ao meu lado. Arredio, ligeiro, atarefado em observar tudo ao seu redor como um guradião atenta para o perigo que ronda seu tesouro.
- Conheces a sabedoria? – Perguntei ao pardal.
- Como ela é? Tem forma? Sabor? Cor? Pousa em que árvore? Constrói ninhos? Encontra sementes para seus filhotinhos? Banha-se nas fontes e bebe nas folhas? Quão alto voa? Brinca nos ares e voa em bandos? Procura o sul sem repouso em vôos sem descanso? Canta ao amanhecer e repousa com o crepúsculo? Foge dos predadores com astúcia? Etc, etc, etc?
Disse isso e voou dali pousando nos galhos, longe das folhas espinhentas da araucária.
Fiquei estarrecido com tantas perguntas, e enquanto ainda tentava assimilar a primeira delas, acompanhei instintivamente o ir e vir daquele passarinho, até que ele voasse para tão alto e eu não o visse mais.
Assim como chegou, se foi, sem me responder. Apenas fiquei observando o balançar das folhas de ambas as árvores pela brisa que passava, e acompanhar pássaros que iam e vinham, pousando numa e outra árvore. Na castanheira, entre as folhas. Na araucária, sobre os galhos.
Saí dali e contineu a andar. Foi quando percebi que a sabedoria estivera comigo outra vez e eu não havia percebido.
Concluí que como as árvores também podem ser as pessoas: assim as pequenas como as imponentes. Naquelas, cujas folhas pendem para o chão e se deixam soprar pela brisa, outras se podem achegar e construir seus ninhos. Embora imponentes e altivas, suas folhas sempre estão voltadas para baixo, humildes. As demais, cujas folhas também são voltadas para cima, são espinheiros, que não permitem a ninguém se aproximar. Tornam-se intocáveis e inatingíveis.
Olhei para trás, e pareceu-me por um instante ter visto olhos cintilarem entre as folhas que arrazoavam com o vento e os pássaros a respeito da sabedoria.

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José Lewgoy, Caçador de Nazistas em Gramado - Sequência do caso do Encouraçado Graff Spee*


José Lewgoy - Ator brasileiro, gaúcho, Judeu, e apaixonado por Gramado

Publiquei, há algum tempo atrás, a história sobre os inomináveis energúmenos que intentaram prestar uma homenagem ao nazismo, criando um monumento com uma parte do casco de um encouraçado alemão que afundou na costa brasileira, mas que pela obviedade do absurdo, teve a ideia abortada, e nunca mais falou-se no assunto.

A grande questão é: Por que Gramado seria um suposto reduto de simpatizantes desta monstruosa ideologia nesse tempo, e ninguém ter tomado conhecimento disso então?

Ora, porque assim como a Alemanha inteira acolheu a barbárie do Shoah (Martírio, Holocausto), com os sentidos amortecidos pelos duiscursos patrióticos de um monstro, alimentado e sustentado por outros monstros, percebe-se que sua especialidade é esconder um elefante dentro de um carrinho de mão, e ninguém perceber que o peso do carrinho excede à normalidade do volume. Assim também, as coisas que se faziam, eram geralmente às sombras, como foi o caso do casco do encouraçado (leia aqui) que ause virou munumento à estupidez.

Mas a história continua, e também esta chegou à mim por um velho amigo, que optou pelo anonimato, que relata a presença de agentes da Mossad, o serviço de inteligência de Israel, e do Instituto Wiesenthal, que caçava criminosos de guerra pelo mundo inteiro, tendo, inclusive, uma célula em Porto Alegre, que por sua vez, tinha ampla intimidade com Gramado, permitindo auxiliar com discrição na busca destes criminosos. 

Relata uma fonte que um destes agentes, ou colaboradores do Instituto Wiesenthal (ou da própria Mossad), teria sido o ator José Lewgoy, fato que não foge do contexto, uma vez que Lewgoy era apaixonado por Gramado, conhecia bem as pessoas e os lugares, e não seria de estranhar que tenha mesmo participado desta atividade, no período em que era assíduo local. Não há relatos de sucesso ou não em sua atividade, até porque estas prisões, geralmente, não aconteciam à luz do dia, para evitar batalhas jurídicas e para que não fossem alertados outros que poderiam estar próximos.  Para conhecer um pouco mais sobre os métodos empregados nestas caças aos criminosos nazistas, vale a pena assistir o filme: "Operação Final", na Netflix, onde a Mossad descobre que o carrasco Adolf Eichmann está foragido na Argentina, com outro nome, e vivendo como um pacato cidadão do interior.

Conheci, certa ocasião, uma família, proveniente de uma cidade na fronteira do Brasil com o Paraguai, e numa conversa descontraída, a moça, de aparência indígena, filha adotiva de um casal de alemães, contou-me que era filha adotiva do médico de Hitler. Não sei dizer se era do médico que atendia pessoalmente o monstro (o tal que injetava uma mistura de bosta humana com esperma de cavalo no satânico führer), ou de Mengele, que anos mais tarde apareceu morto em Praia Grande, interior de São Paulo. Esse fato apenas acrescenta a forte presença de fugitivos nazistas na América do Sul, o que é de conhecimento geral. Apenas demonstro aqui, que uma pequenina cidade com aparência alpina, invadida por turistas, não ficaria imune, tanto aos próprios, quanto aos simpatizantes locais, que de uma forma ou outra, se infiltraram nas tomadas de deciões políticas e sociais da comunidade. Claro, que isso é elucubração minha, pois, com exceção da história do casco do encouraçao, das corujinhas iluminadas, e do que percebi nas conversas com Hunsche, o resto é vaga imaginação de quem conta histórias, e preenche os vazios com possibilidades. Eu não creio em bruxas, mas que elas acham que existem, ah, acham sim!

domingo, 2 de abril de 2023

Revelado o misterioso escândalo do Porco de vento em Gramado

Imagem gerada por AI

Pois às vezes, cavouco na lembrança, um causo de priscas eras, mas verdadeiro, sempre verdadeiro, apesar do pitoresco que o embala, e não é dessa vez que serei falto com a verdade, ao relatar-lhes, tal como aconteceu, o causo do porco de vento, onde fui protagonista conivente para com o feito. Eis o relato.

Corria o ano da graça de N. S. J.C., de 1984, se não há de faltar-me a memória, onde, em situação tal, de "fritar bustica para comer bolinho", bicudos aqueles tempos, dividia eu, uma sala de trabalho, com dois outros comparsas, um engenheiro, e outro afeito à nobre arte da arquitetura, e eu, este humilde escriba, que desenhava desenhos para suprir os legumes da sopinha de meus pequeninos rebentos à casa.

Eram tempos bicudos, já o disse, enfarruscados mesmo, porém, não envidarei esforços para louvar tais situações e tempos, porquanto avivam nossa imaginação, uns para coisas boas e outros, para feitos nem tão louváveis quanto os bons modos o exigem.

Eis que, no dito ambiente, havia certa movimentação em um bailado de entra-e-sai de indivíduos que ali compareciam com o real intento de fazer negócios, ou de encomendar nossas habilidades em antever suas edificações sobre papéis, repletos de linhas e números, ao que denominávamos: "projetos".

Então, segundo o preâmbulo anunciado, contarei o fato.

Corria o dia, e o arquiteto, encomendou-me minha especialidade, que era o desenvolvimento de épuras, vulgarmente conhecido como: “Perspectiva”, uma apresentação gráfica de um plano, onde distingue-se com certa habilidade visual, a terceira dimensão dos elementos, hoje tão facilmente encontrada em aplicativos nestas máquinas que seriam queimadas durante os tempos sombrios, como se obras de bruxaria ou coisa ainda mais malévola, intitulada de “computador”. Porém, por excelente misericórdia divina, eram minhas habilidosas mãos, conectadas à um lápis, e uma delicada pena de aço, suprida à tinta indelével proveniente do Oriente, denominada de: “Nanquim”, quem preenchiam os vazios do papel, e devolvíamos em forma de retrato de uma casa, ou um ambiente de interior.

Pois, na negociação pela justa paga de meus serviços, acertado foi deste modo:

Tanto em espécie (dinheiro), mais um porco, pelo restante!

Ora! Mas como é que um judeu convicto poderia comer um porco, se minha religião abomina tal iguaria. e se não fosse comê-lo, por que matá-lo, mas se não fizesse dele toicinho e banha, como conservá-lo, uma vez que minha senhora, bastante conservadora quanto a certas práticas, não permitiria que eu levasse o animalzinho para tê-lo como companheirinho de leitura, ou brincadeiras com os miúdos, a quem sempre tive orgulho de chamar de filhos? Não! Certamente o porco não iria para meu lar. Porém, pelos termos do negócio, o porco já era meu.

O cálculo do porco era avaliado pelo seu peso, ou provável peso, no momento do negócio. O detalhe, porém, é que eu não vi o tal porco, uma vez que negociávamos como em uma bolsa de valores: na confiança do vendedor. Calculamos meu leitãozinho então com cerca de uns vinte quilos mais ou menos.

Passados alguns dias, fechei negocio com outro arquiteto, e passei o leitão nos cobres, naturalmente, reservando uma parte em dinheiro, pelo meu trabalho, e também adicionando um pequeno ágio de uns três quilos ao porco. Saiu da sala, então, um feliz proprietário de um leitão. Mas como disse, o leitão estava em um sitio, lá em Três Coroas, aos cuidados de um sócio de quem me vendeu o porco.

Como sempre gosto de dar atenção ao pós-venda, tomei conhecimento que o arquiteto vendeu o porco, com um certo ágio, a outro prestador de serviços, e nessa altura, creio que o porco teria já uns 35 quilos. Muito bom para um banquete em família, contanto que não seja judeus, adventistas, ou muçulmanos.  Mas não eram, para tristeza do porco, que segundo a menininha que contava historinhas dos três porquinhos, logo, logo, viraria "carrrne".

Mas deixe estar, que não termina aqui o causo, pois o tal empreiteiro, devia ao primeiro arquiteto, o que havia me vendido o suíno. E fechado negócio, e como justo fosse, vendeu o porco, pela quantia aproximada de quarenta quilos. 

Eis que, deixando passar mais uns poucos meses, e chegando o Natal, meu amigo, arquiteto, que nesse tempo não tinha um automóvel, mas movimentava-se muito bem com veículo ciclomotor, ou comumente chamado de “Moto”, convidou o segundo personagem desse relato, o outro arquiteto (era estudante de arquitetura na verdade, mas deixemo-lo como arquiteto, que soa melhor à sua pessoa). e juntos foram à Três Coroas, resgatar o porco.

Fico imaginando na cena, onde contar-se ía três numa moto: O Piloto, o carona, e entre eles, a simpática silhueta do tal porco. Com 40 quilos.

Lá chegando, foram informados que o dono do sítio havia vendido o lugar, e fora morar em outro lugar.

- Mas certamente deixou-nos um porco, a ser resgatado, pois não?

- Não senhor. Somos vizinhos dele desde que chegou aqui, e nunca criou porco algum nesse lugar.

Tenho que dizer que aquele foi um triste Natal naquela família. Na esperança de comerem um porco, nem peru havia. Nem um frango. Um tico-tico que fosse.  Só rabanadas de pão dormido.


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sexta-feira, 31 de março de 2023

O Rebuliço do açude na Expogramado - Fato ou Fake?

Casa de Maria Elisa
 
Leio com atenção tudo o que se publica sobre Gramado, especialmente sobre o chão onde perambulei nas priscas eras à cata de frutas, como Gavirova (na época era Gabiroba mesmo), Goiaba do Mato, Cereja Preta, Araçá, Esporão de Galo, Pixirica (não confundir com outra coisa), além de jogar bola, e correr pelo lajeado que havia no alto da colina, a poucos passos da velha choupana onde passei meus tenros anos, ali pela Vila Moura. O ambiente era mais ou menos assim: Seguindo rumo ao Norte, pela Rua Borges de Medeiros (depois tornou-se Avenida), tínhamos à direita, o Artesanato Gramadense (veja imagem abaixo).
E leio, com preocupação, que neste lugar, estaria a Prefeitura, "soterrando um açude" junto à Expogramado. Vamos entender o lugar então.

À direita, a cerca de uns duzentos metros, em direção Oeste, uma colina elevava-se abraçada pela mata, não sem um recorte que abrigava a pequenina escolinha "Brizoleta" (vide abaixo).   


Pois, caminhanda no mesmo morro, em direção ao sul, por uma trilha no meio do mato, chegava-se a uma clareira, um pequeno rebaixo no terreno, onde havia uma casinha de madeira, com janelas de vidro, e parece-me lembrar de um pequeno porão, nada significativo. Em frente à casa, lembro de algumas pereiras, onde colhíamos, com permissão dos moradores, algumas peras-pau, daquelas doces, duras, e suculentas. Quem residia nesta casa à época, era a família Portulan, o Germaninho, com sua esposa, duas filhas, e um filho, de minha idade, o Ari Portulan. Pouco abaixo da casa, quero estar certo de que também à direita, havia uma pequena cacimba, e logo abaixo, um tanque de madeira, onde era lavada a roupa da casa.
Lembro que comentei, no Facebook, replicando um comentário de minha querida prima Margareth Moura, quando ela citou acerca de um poço, de onde seu pai, meu primo Izaías, canalizou água para as casas da vila. Lembro ainda que na pequenina rua, que existe até hoje, na casa de meu primo Elias, havia uma torre com um reservatório de água, do qual éramos servidos também, quando a casa de minha avó ficava ao lado do Artesanato Gramadense. Mas não posso dizer com certeza de que seria daquela pequena cacimba.

Voltando à casa dos Portulan, tenho a lembrança de ser contado que naquela casa vivera, por certo tempo, a minha avó, Maria Elisa, desde sua juventude, isso não sei dizer, pois ela e meu avô Assis Brasil, casaram-se no dia 5 de Setembro de 1940, e nesta casa, então nasceu minha mãe, Ester (a famosa "Prefeçôra Istela", como a chamavam). Logo depois, as terras que pertenciam à minha bisavó, Maria Francisca Dias, sendo lmítrofes com a terra de minha avó, e de minha tia Zezé (Maria José Moura), foram vendidas (a parte de minha avó e bisavó) ao Farmacêutico Benno Ruschel, e parece-me serem seus herdeiros, proprietários até hoje. (Veja o mapa abaixo)

O Mapa foi uma boa ação cometida pelo meu querido primo Evair Moura, que por eu ter falado bem dele aqui, me deve um churrasco*

É importante observar que no mapa, no sentido Oeste-Leste, que há dois córregos, provenientes de nascentes na área, e é aqui que penso revelar e desmistificar a tal "nascente a ser soterrada", que estas nascentes estavam, e continuam localizadas nas mesmas terras, porém a cerca de pelo menos quinhentos metros, ou mais, distantes da casa citada, e do lugar onde se encontra a Expogramado. Vale lembrar que logo acima, no sentido noroeste desta casa e da pequena cacimba, cerca de dez ou vinte metros de elevação, estava o imenso lajeado que chamávamos de "Campestre", com grama tão rala, que até bulita se jogava na laje de pedra aparente, onde o vilarejo transformou em um campinho de várzea para bater uma bolinha aos domingos, e durante a semana, era nosso imenso playground para correr, brincar, gritar, fazer alaúsa, o que tivesse vontade. Mas era uma lajeado mesmo, e ali não havia uma gota d'água sequer, e então, logo atrás, bem atrás, já descendo, havia o mato fechado, e bem lá dentro, quase impenetrável, algum potreiro dos Schenkel, e os banhados, hoje, lagos de Gramado.

Assim, vale dizer que, eu gosto da verdade, e embora tenha fugido de polêmicas, não acho justo apoiar a disseminação de algo que é fantasia, e sim, nunca houve nenhum açude no lugar citado pelos comentários, e uma depressão no solo, segundo apurei com o Prefeito, trata-se de um coletor de água da chuva, uma cisterna acéu aberto, e que na atual leitura de proliferação de insetos, um excelente berçário de mosquitos, talvez até mesmo, Aedes Aegypti, o Mosquito transmissor da Dengue.

Assim, por sobriedade dos fatos e do momento, acho que tudo o que Gramado não precisa agora é de uma praga de Dengue, tal como já está acontendo aqui em Florianópolis e região, que nos tem obrigado a fazer o que nunca fiz na vida, nem no tempo dos borrachudos ou dos Cúlex violinistas da noite, que é besuntar-me de repelente. Nesse momento, o melhor repelente da falácia é a verdade. E encerro transmitindo que o aterramento do açude, teve aprovação de laudo do Departamento Ambiental. E eu posso ter opinião, mas respeito uma autoridade constituída. Então, se pela minha lembrança vivida e ouvida, nunca vi açude lá, pela verificação oficial, continua não existindo.

E se o caso é procurar pelo em casca de ovo, não teria sido bem melhor ter feito isso durante o projeto do pavilhão da Expogramado? Caso houvesse a tal nascente, que excedesse o fornecimento de água para uma cacimba, não teria sido bem mais eficaz que fosse feita a alaúsa naquele tempo? Não havia oposição ao prefeito, que pudesse ter feito isso? Não havia Ministério Público, para embargar a obra, ou fazer modificar o projeto, para que não houvesse dano ambiental? 

E as demais nascentes que já se tornaram concreto, o que é feito delas hoje? Tenho uma memória muito nojentinha, e se decidir fazer isso, talvez eu seja capaz, se amparado por mais dois velhotes contemporâneos, de lembrar de uma por uma das cacimbas existentes em Gramado nas priscas eras da minha infância e juventude. Mas claro, é a memória saudosa de um senhorzinho aposentado, a quem  não se deve dar muita pelota. Pelo sim, pelo não, vale conferir com outros velhinhos aposentados, se batem as informações.











quarta-feira, 29 de março de 2023

O Mistério da Ponte do Raposo- Conto (Ficção)


Ilustração: Dall-E 2 AI -Foto de fundo: Ponte do raposo retirada de internet -   Os personagens são fictícios, e qualquer semelhança com fatos reais é apenas coincidência...talvez)

Gramado, hoje, é mundialmente conhecida como a cidade da boa comida, dos hotéis luxuosos, dos parques temáticos, e da natureza ainda exuberante. Porém, nem sempre foi assim, e bem antes de tornar-se uma unanimidade nacional de desejo, era uma pequenina aldeia, com três ou quatro ruas barrentas, um amontoado de casas de madeira sem pintura, ou quando muito, pintadas com óleo queimado, não pela beleza, mesmo porque não tem nenhuma, mas pela preservação. Assim eram as casas. De modo geral, as pessoas eram semelhantes às pessoas que viviam em outros lugares pequenos, com pouca informação, movimento cotidiano voltado às necessidades locais, e um ir e vir normal para dos dias ensolarados. Já nos dias enferruscados de cerração e chuvisqueiro, as ruas eram vazias; um armazém aqui e outro ali, recebiam os homens que faziam serviços braçais, que bebericavam uns tragos, enquanto contavam bravatas, ou falavam de estórias repletas de mistérios e superstições. E superstições não faltavam, mistérios também não,

Havia um homem de certa idade, que perambulava pelo vilarejo com uma "mala" no ombro, e perambulava cá e lá apoiado em seu cajado. Caminhava depressa, ainda que claudicasse de uma perna. Era de pouca conversa, e pouco dado à assuntar, além do necessário. Chamavam-no de "Bento Macuco", não por relação ao pássaro com esse nome, mas pela sujeira de seus pés descalços, que trotavam de um lado a outro em pleno barro e poeira, deixando um encardido perene sobre as feridas antigas e cicatrizes de espinhos e calos. Usava sempre a mesma roupa: um surrado capote militar, e vestia uma calça de riscado, cuja perna direita arregaçava até o joelho, e a esquerda, apenas duas ou três dobras. Era costume, Demonstrava virilidade aos homens que assim faziam. Porém, ao sabor de um bom trago que lhe pagavam, vez por outra, Bento Macuco abria o baú de causos, e deixava escapar um aqui e outro ali. E nesta feita que relato, não foi diferente. Zé Tristão, sorrateiro e sempre mal intencionado que era, aliciou o andarilho e o desafiou para uma prosa:

- Pois pago-lhe uma guampa de canha, pra tu contares umas proezas!
E acenando para o bodegueiro, que já estava com a garrafa na mão, consentiu que este servisse Bento Macuco com um caneco de cachaça, acompanhado de uma tigela de torresmeo e morcilha, e meio pão sovado, para fazer justiça à bebedeira que iria acontecer, sem este lastro. Então, após abocanhar de uma vez quase tudo o que havia na tigela, e encher a boca de pão, mastigando até o pensamento daquela iguaria, Bento ainda aceitou um caneco de café pra móde descer a abastança, largou a mala de lado, cruzou a perna, arregaçou a calça, e desatou a contar:

- Pois foi aqui mesmo, adonde está esta bodega, que apareceu o piazote vestido de anjo, com um papel na mão, e entregou ao intendente de Taquara, e com os zoínhos moiádos, suplicou para que o intendente fosse buscar seus irmãos, que haviam sido aprisionados pelo "Véio do saco", numa gruta perto da barranca do Rio Santa Cruz, lá embaixo, perto do Campo dos Bugres. O intendente pegou o papelzinho e leu, e ficou assustado, e quando se voltou pra tomar mais informações do piazito, não tinha ninguém mais ali. Tenho que lhes dizer, que o intendente era homem que passou por revoluções, duas, a de 23 e a de 89, viu a morte de perto, mas passou um vento gela no espinhaço do homem, pois foi.... (dizendo isso, Bento Macuco virou-se para o bodegueiro e perguntou: 

- "Tem fumo e um talo de páia?"
Ninguém respirava à sua volta, morrendo de curiosidade, er foi num "upa" que aperecu fumo e palha pro andarilho dar continuidade ao causo, sem delongas.

O tal bilhete, escrito com letra de pessoa estudada, implorava encarecidamente ao intendente que reunisse uma tropa, e fosse resgatar duas crianças que foram aprisionadas pelo "Véio do saco". Ora, todos sabiam que o tal véio do saco qera uma lorota contada àos pequenotes, para que não se distanciassem da casa, á vista das mães, assim como faziam na Europa, com as fábulas do lobo, dos gigantes, e outras assim. Então, o tal bilhete poderia ser uma troça de alguém, porém, aquele menino vestido de branco era bastante real para o intendente, que já tinha visto "M'Boi-tatá" revoando e alumiando o campo durante as pendengas com os Maragatos, mas sabia bem que M'Boi-tatá não passava de fogo-fátuo, uma incandescência espontânea de gás metano exalado pelos cadáveres de animais ou pessoas mortas atiradas à beira dos barrancos. nada mais que isso, apesar dos Guaranis afirmarem tratar-se das almas dos morts subindo ao céu. Mas isso sim, era lenda, e um  combatente não podia ser dar ao luxo de acreditar essas crendices.

Encafifado com aquilo, enfiou o bilhete no bolso do colete, e foi pra casa, pois já era tardinha, e o caldo de couve de D. Amália dançava pelo ar chamando para a refeição da noite. Todos à mesa, em silêncio, como era o costume, D. Amália percebeu que algo estava diferente no Intendente, e atreveu-se a perguntar:
- O senhor meu marido tem passado bem? Percebo que está comendo menos. Não está de seu agrado o refestelo?"
- Não, não, D. Amália! Está supimpa como sempre, apenas estou matutando sobre coisas do ofício da intendência. Sossegue seu coração!'
Antes de dormir, o casal aninhava os filhos em suas camas, e depois, assentava-se um pouco na varanda, para tomar a fresca, e provar um licorzinho de Pêra, que D. Amália tinha sempre guardado para esses momentos a dois. Porém, o intendente continuava ensimesmado, taciturno, por vezes metia a mão no bolso do colete e retirava de lá o bilhete. Lia e relia, e D. Amália percebeu.

- "O que o agoniza, senhor meu marido? Vejo que está inquieto desde que chegou. Pode confiar à sua esposa esta razão?"

O intendente mostrou o bilhete à ela, e esperou uma resposta sarcástica, o que não aconteceu. Antes, olhou com firmeza para o esposo e disse:

- Eu creio que pode ser verdade isso. Não estou falando da crendice do velho do saco, ams de que alguém está em perigo. Aconselho o intendente a reunir uma tropa e investigar isso com urgência!

- Vou concordar com a senhora, D. Amália! Irei nesse momento.

A barranca do rio era situada numa curva. e formada por uma grande rocha clara, que reluzia à luz do luar, contrastando com as espumas do rio que batiam na curva e se revoltavam, criando um bailado de espumas e galhos em redemoinho, antes que fossem levados embora de vez. O Intendente apeou do cavalo, e seus dois soldados permaneceram montados, em alerta. Com uma mão na adaga, e outra na garrucha de dois canos, cuidadosamente, aproximou-se da rocha, e viu uma gruta atrás dos arbustos de samambaias. Com a adaga, desbastou as samambaias, e entrou na gruta. Estava escuroi. Voltou, e pediu um lampião, e chamou um soldado para que o acompanhasse. Entraram novamente na gruta, e à medida que entravam, a gruta ficava maior. Serpenteando as pedras do chão, andou por cerca de um quarto de hora dentro da gruta, que à essa altura, já era quase um pavilhão, com cerca de vinte pés de altura e umas cinco braças de largo. Chegaram a uma parede, onde terminava a gruta, e pararam, examinando o lugar. De repente, uma rajada de vento quase apagou o lampião. Um assobio suave percorreu a gruta e o eco multiplicava o zunido. O soldado segurou firme a baioneta do fuzil, e apertou a mão na garrucha. 

- "Tio!" - Disse uma voz de criança!

O intendente voltou-se para o chão e viu o mesmo menino que entregara o bilhete, mas dessa vez, estava vestido com trapos, sujo, e com aparencia de faminto.
- "O tio tem um pedaço de pão pra mim?" - Perguntou o menino!
- "Vá buscar no bornal de seu cavalo, e traga também o que mais encontrar para dar a esse menino comer!" - ordenou ao soldado, que num upa, estava de volta, e o meninodevorou os petiscos como um cão devora um naco de carne, com fome, voracidade. O intendente e o soldado apenas olhavam, e nada diziam. Apenas olhavam estupefatos.

Terminado o farnel, perguntou o intendente, ao menino:

- Agora, filho, me explique esse assunto do véio do saco...

- Ele está aqui, disse o menino, apontando para o chão...

Não havia nada no chão. O intendente insistiu:

-  Você quer dizer que ele estava aqui?"

- Ele está aqui..na sua frente....

Nesse momento, Bento Macuco terminou de comer seu fristique, pitar seu paiêro, e já estava se despedindo, quando, intrigados, perguntaram:
- E o que aconteceu com o intendente, o solado, o piazito?

- Até hoje os procuram naquela barranca do Rio Santa Cruz. Dizem que nas noites enluaradas, ouvem o menino pedindo comida, do outro lado do rio. Isso quem conta são os pescadores que pescam lá perto da Ponte do Raposo. Eu não vou lá. Aquele lugar sempre me dá fome...

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Um conto de mistério em Gramado (Ficção)

Imagens: pacard

Conto inédito por Pacard

Sempre gostei de mistérios, especialmente ligados às matas, aos sombrios caminhos das trilhas que surgiam do nada, e levavam à lugar algum, estes, geralmente, terminando em um paredão de pedra acolchoada de musgos, cortada por um fio de água que caía de uma fenda, e ali, no chão, formava uma bacia de água límpida e gelada, que escorria por alguns metros, e, tão misteriosamente quanto surgia, também desaparecia entre as samambais que cobriam a vala rala e pedregosa de uma cascatinha quase imperceptível, que apenas sabíamos estar ali, pelo choramingar da água que ia embora.

Na mata, próxima à nossa casa, havia muitos caminhos, alguns abertos por animais, antigos já, e outros, desenhados por alguém no passado, a quem, freneticamente tentávamos reconstruir a história para mergulhar naqueles tempos em que trêmulas lamparinas faziam dançar as chamas, desenhando sombras ao som do vento uivante do lado de fora. Por estes caminhos, subíamos em desciamos em busca de verdades que pudessem dar sentido à nossa infância cheia de imaginação. E assim eram os dias, as noites, as horas que voavam e tremulavam como as velas, abastecendo nossa imaginação turbulenta.

Ao longe, no meio da madrugada, ouvíamos o latido de cães, cujas vozes atravessavam a mata e chegavam secos, sem eco, mas repetidos. depois ficavam calados, e apenas o vento cantarolava suas canções para que voltássemos a dormir. E foi numa dessas noites, precedendo um temporal, que num clarão de luz, vi na direção da mata, um vulto que se movia depressa. Andava, e subitamente parava, olhando para trás, na minha direção. Eu coçava os olhos para saber se era sonho, e então ouvi uma voz que me chamava: "Menino! Vá à fonte depressa!" Mas de que fonte falava? Haviam muitas fontes naquele mato. E o que havia lá, para que eu tivesse que ir? Mas não preguei mais o olho. Novamente o vento assobiava lá fora, olhei pela fresta da parede de tábuas, e não vi mais nada. Teria sido um sonho aquilo? Talvez! Mas agora era melhor voltar a dormir. Não consegui pregar o olho, senão um longo tempo depois, e logo cedo, pulei da cama, passei a mão num naco de pão, e corri pro mato. Caminhei ao lado dos pequenos arroios que desciam, até encontrar a primeira fonte. Não era grande, era mais uma poça que acumulava, temporariamente, a água que descia. era cercada de avencas, musgo, limo sobre as pedras, e algumas Azedinhas floridas. Olhei em volta, e não vi nada que pudesse interessar, nada misterioso. Segui adiante, caminhando rápido, com olhar atento e ouvidos como radares que buscavam resquíscios de sons perdidos entre as árvores. Um misto de medo e êxtase me abraçavam, enquanto eu procurava.

Cheguei ao alto de uma pedra, da qual se podia avistar o centro da cidade. Gramado já era linda naqueles dias. A torre das duas igrejas imponentes afirmavam a religiosidade do lugar. Carros, assim de tão distante vistos, pareciam tão pequeninos, indo e vindo, davam vida à cidade florida. Mas de lá não se ouvia nada. Era muito distante. Ao meu lado, o sol acordava as cigarras que chamavam amores; borboletas tatalavam suas multicores asas pousando aqui e ali em busca de néctar, e no riacho cintilante, pequeninas rãs choravam como crianças manhosas louvando o sol que as aquecia. Absorto, eu, assentei-me ali e inebriado pela sinfonia da manhã, pus-me a voar pela imaginação, desenhando coisas nas nuvens, sem me importar que as ovelhas ou os dragões do céu na passavam de pareidolias. Apenas deixei-me encantar em silêncio.

Minha quietude foi quebrada pelo som de um galho seco estalando pouco atrás de onde eu estava. Meu coração acelerou. Parei de respirar para ouvir melhor, mas só ouvia o acelerar de meu coração, que parecia um tambor ritual em meus ouvidos. Olhei em direção ao som, e novamente outro estalar de galho seco, e as folhas se moveram, com suavidade. Fiquei completamente paralisado de pavor. Por que eu tinha que dar ouvidos às vozes de meus sonhos? Por que não disse à ninguém onde estaria, para que me encontrassem depois? O medo me esbofeteava e paralisava minhas pernas e braços. Uma brisa soprou com suavidade atrás de mim, e senti um certo alívio depois. Nada mais se moveu, e senti-me compelido, ainda que apavorado, a caminhar na direção de onde viera o som. Entrei pelo mato, abrindo espaço entre as folhas dos arbustos com as mãos, até que uma nova trilha apareceu à minha frente. Um caminho bem desenhado, ladeado por flores brancas e pedrinhas brilhantes aqui e ali. Era feito por mãos humanas, não havia dúvida, mas onde levaria? A curiosidade foi maior que o medo, e pus-me a caminhar. Encontrei um arroio mais largo, e sobre ele, um pontilhão de madeira ornamentado. Passei adiante, e o caminho terminou subitamente diante de um paredão. Não era novidade isso. Eu já os encontrara muitas vezes antes. Parei e perplexo, passei a examinar à volta. Sem mover o corpo, apenas a cabeça, com discrição, e os olhos, o quento fosse capaz, vi que apenas mata me cercava, mas à frente, um paredão de pedra. Olhando ao lado, vi que dali saía um pequeno córrego cintilante e ruidoso. Aproximei-me e vi, acima dele, uma fenda capaz de acomodar uma pessoa do meu tamanho, e eu era bem pequeno nesse tempo. Entrei, e à medida que andava, o aminho se abria, e se iluminava, como se uma lamparina tremulasse lá de dentro, indicando por onde eu deveria andar. 

Com cuidado, apoiando-me nas paredes da gruta, caminhei por certo tempo, fazendo curvas à direita e à esquerda, até que novamente outro espaço se abriu com luz mais forte, e vi a luz do sol brilhante e convidativa. Senti alivio, mas minha curiosidade fazia com que meu coração batesse acelerado cada vez mais. Uma fenda enorme surgiu, e pude sair fora desta galeria. Uma trilha bem desenhada, esta com certeza feita por alguém, serpenteava morro abaixo, e percebi que estava caminhando em direção à cidade novamente. Pelo mesmo caminho que subi. Encontrando os mesmos córregos, ouvindo as mesmas cigarras, e pude novamente avistar o centro da cidade, mas curiosamente, havia apenas uma das igrejas, e atrás dela, uma campina cercada de matas. Atrás dela, uma velha escola de madeira, com meninas uniformizadas que brincavam de roda e cantavam velhas cantigas, no pátio daquela escola. Desci então até a rua, mas não havia asfalto, apenas chão batido, poeirento, e carroças de mulas que iam e vinham pela rua.

Parei e olhei à minha volta. Não estava entendendo nada, até que ouvi uma voz eufórica atrás de mim que gritou bem alto: 

- "Menino!!! Onde estavas? Estão todos te procurando há vários meses!"


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O Homem que Vendia Solidão

O homem que vendia solidão Solidão? - Perguntou, ensimesmado o caixeiro da loja de roupas, que recebeu uma filipeta, um panfletinho em preto...