domingo, 29 de maio de 2022

A língua viperina digital

A comunicação digital acelerou muitas coisas, mas a pior delas foi a relação interpessoal.
Basta uma vírgula mal colocada, uma palavra em letras maísculas, reticências ao término de uma conversa, que a relação começa a azedar. Mais que isso, um email com sinceridade exacerbada, pode denunciar o estado emocional de seu emitente, de acordo com o horário em que foram digitados os desaforos. E minha infeliz experiência ao longo dos anos de convivência cibernética, o servei que eram quase sempre após às 23 horas, hora da solidão, do desespero, em que a angústia toma o lugar do sono, e como cabeça vazia é escritório do Satã, é ali que se iniciam os debates desastrosos, que ao fim, corroem o relacionamento, até mesmo, com as pessoas, antes mais queridas. É nesse cenário que descobrimos que o afago de hoje pode ser a agressão de amanhã. À noite.
Email tornou-se obsoleto, maçante, comercial. Vieram outras redes, com provas instantâneas inequívocas das mentiras sociais e da infelicidade em cores e sons, floreadas com espetadas e diretas, até que entrou em cena o Whatsapp, inicialmente divertido e esperançosamente eficaz para acelerar as intrigas, as ofensas, a angústia, e o desmoronamento do que nos resta de civilidade e humanidade.
Estas ferramentas são o largo pincel do Satã para borrar as delicadas linhas da humanidade emprestada do Criador, e será com esse tipo de instrumento, onde não há filtro moral, pela velocidade da resposta, que a infelicidade vai solidificar seu território, mas, tal como o pássaro anestesiado sob o olhar da serpente, somos incapazes de sair desta armadilha, porque necessitamos dele para outras funções.
Qual a solução paliativa, sem precisarmos fugir para as cavernas nas montanhas, como bichos assustados?  Não tenho uma resposta coletiva, mas eu optei por fugir de grupos, e quando sou ofendido, analiso dois aspectos:
1- Fiz algo errado? A pessoa tem motivo para ofender-me? Se sim, trato de consertar a situação e não deixo que evolua a mágoa.
2 - Não partiu de mim a agressão e me eximo de culpa, e mesmo assim, percebo que a tal madrugada fez seu trabalho? Respondo com uma sutil mudança de assunto, falando de comida, receita de chá pra aluviar a dor de barriga, ou simplesmente uso o comando de bloquear o desaforado
Chego à conclusão que o código matemático que O Zuckerb criou para se reconciliar com um passa fora que tomou, tornou-se o trator que está destruindo milhões de afetos, que poderiam resolver suas pendengas num cafézinho, ou sairem no braço, possibilidade que já reduz em 99% da coragem de que se diga aquilo que se diz com a ponta dos dedos, a quilometros de distancia.
Pacard, Pétalas, 2022, Ille Vert

domingo, 30 de janeiro de 2022

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato, e nela há um lindo bioma, com animais silvestres e aves, como: Cotia, Saguís, Araquãs, saracuras, Gralhas, Pica-paus, Gaviões, e como diz o título desse ensaio, um volumoso Lagarto Teiú. Isso tudo eu posso ver da minha janela, ou do alpendre de meu apartamento. Se descer um pouco, e andar cerca de trezentos metros, ao sul, estarei na borda do maior mangue urbano do mundo, o Mangue do Itacorubi, onde somos privilegiados pela existência de um Jardim Botânico, e passeios, caminhos, passarelas, pontilhões, dentro do próprio mangue, para deleite dos naturalistas e biólogos, e ali encontraremos todo tipo de espécies selvagens que possam habitar um berçário marinho, como Jacarés-Açus, garças, cegonhas, caranguejos, peixes que desovam e nascem ali, e até mesmo, de vez em quando, como hoje, e outro dia dessa semana, temos o espetáculo bélico de helicópteros à caça de fugitivos de uma penitenciária distante a cerca de dois quilômetros daqui, cujos detentos, vez por outra, entendem que embrenhar-se no mangue, a enfrentar serpentes e jacarés, lama até à cintura, seja menos nocivo do que apinharem-se entre outros perigosos apenados, no cárcere estadual.

Mas fiz essa abertura para falar apenas do Lagarto Teiú, um bem apessoado réptil, com um sorriso enigmático e andar vagaroso, lambendo o tempo à procura de comida. São animais dóceis, não do tipo de pegar com a mão, que não se deve fazer com nenhum tipo de animal selvagem, mas de proximidade com os humanos. Quando morava em Gramado, eram frequentes as visitas de algum Teiú em frente à porta da casa, porque sabia que as crianças se divertiam vendo-os correr atrás de umas bagas de uva com agilidade desengonçada, fazendo a cauda balançar de um lado a outro, no movimento dos quadris gorduchos, e ao alcançar as bagas, comiam de maneira pouco elegante, e divertida. É por estas razões, que acho os Teiús muito divertidos. Lembro até de um Teiú que vi, correndo de pé sobre a água, como se caminhasse sobre uma campina, algo quase sobrenatural. Estes são os Teiús. É assim que os vejo: ágeis, versáteis, bem resolvidos e corajosos. Quase todos.

Pois aqui acontece a grande interrogação de meus passeios por terrenos pouco dantes caminhados, onde e quando encontrei em um barranco de uma rua nova, os resquícios de uma tubulação antiga de água, que descia da antiga propriedade do extinto Parque Knorr, uma outrora paradisíaca estação de prazer e beleza que hoje não passa de uma caricata loja de horrores travestida de parque infantil, sem nenhuma poesia nem encantamento, cujo portão jamais terá a marca de meus rastros, como tantas vezes teve, nos suaves e turbulentos anos de minha juventude, e foi nos limites desse saudoso terreno, que vi o tal cano cortado a uma altura de um metro do chão da estrada nova, e na boca desse cano vi uma cena que até hoje traz-me reflexões profundas sobre nossas indecisões diante dos obstáculos da vida: Vi um Teiú delgadinho, filhote, com cerca de um palmo de comprimento, e outro de cauda, com a cabeça voltada para baixo, em direção ao chão de um metro de altura... morto!

Deduzi com clareza que o animalzinho tivesse entrado por outra ponta do cano, um bueiro, andado até o lugar onde havia sido cortado, e, inseguro de pular dali à altura, que na sua matemática de lagarto fosse quase um himalaia, mortal e traiçoeira. Não era. Era apenas um metro, e o chão lá embaixo, era terra macia, que bastava um pulinho e ele sairia correndo a procurar bagas de uva ou pequenas larvas para comer, porque o que havia atrás de si era ainda mato, praticamente um supermercado para os lagartos Teiús.

Tem tempos na vida em que somos como aquele Teiú. Entramos em túneis escuros, e o que parecia luz no fim, era uma saída que exigia uma corajosa tomada de decisão: Pular para viver. O Teiú não pulou, e nem voltou atrás. Morreu de inanição. Morreu por falta de esperança. Morreu porque não sabia calcular as probabilidades de sucesso. Morreu porque estava só. Não havia perigo algum do lado de baixo. O perigo estava no medo de tomar atitude. Ele não tomou. E eu o vi ali, morto, imagino que havia poucas horas, porque não ousou a liberdade.







terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Do meu diário mensal que faço uma vez por semana (Da série “absurdos nunca mais haverão de faltar enquanto políticos existirem”)


Do meu diário mensal que faço uma vez por semana

(Da série “absurdos nunca mais haverão de faltar enquanto políticos existirem”) (Maio de 2010*)

Do lugar de onde eu venho, ou você ri, ou chora. 0ptei pelo primeiro sentimento. Na verdade, eu era tão feio, que ninguém sabia ao certo se eu fazia uma ou outra coisa. Quem nasce lá geralmente nasce com crise de identidade. Eu mesmo tive oito. No mesmo dia. Foi um sufoco, mas resolvi com civilidade: comi todas com farinha. Fiz torresmo. Transformei as crises em oportunidades e isso foi muito fácil: só acrescentei a farinha e cozinhei por dez minutos em fogo lento. Por isso enfatizo que o sorriso é o seu cartão de visitas. Cuide bem dele. Quem cuida, tem. Lavou, tá novo. Eu tive um belo sorriso certa feita, mas dei pra uma pessoa ingrata que não me devolveu mais.


Um sorriso é uma oportunidade para tudo o que puder ser descoberto atras duma porta. Daí, levo sempre comigo um estoque de sorrisos e quando encontrar alguém que não tenha um pra me dar eu empresto o meu. Há técnicas pra isso. Por exemplo: Você chega e encontra um sujeito carrancudo, esgualepado, de mal com a sogra e descontando a culpa em você: você lhe atira à queima roupa um sorriso. E caso a carantonha da pessoa não lhe permita isso, imagine-o fazendo as necessidades de cócoras no lombo dum enorme dum porco que gira em sentido horário.. Aí você não vai se conter e rir. Menos numa circunstância: em que isso seja uma lembrança de si mesmo. Desagradável ter que lembrar. Fosse eu, não poria mais meus pés naquele restaurante.

Eu cansei de ser chamado de ignorante. Isso eu não sou mesmo. Nem mesmo sei o que significa essa palavra. Sou letrado. Leio muito. De James Joyce a Mano Lima. Li Ulisses inteiramente de trás pra diante só por exercício cultural. E o livro estava de cabeça pra baixo. E eu também, pra facilitar.  Não entendi nada. Também não havia entendido quando li a partir da primeira pagina. Mesmo assim, achei o livro muito bom. Muito bom mesmo. Tinha a altura ideal do pé dum balcão que quebrou na minha casa. Serviu também como banquinho para dois dedos de prosa com um compadre.

Entrei para uma fraternidade. Sei que há preconceitos contra estas confrarias, mas essa é diferente. Mas acho que ja vou sair. Não confio em fraternidades que me aceitam. Olho com desconfiança. Especialmente aquele ali do canto que também me olha de um jeito estranho. Sujeito sem identidade. Repete tudo o que eu faço. Deve estar querendo puxar conversa comigo com essas brincadeiras idiotas. Não dou conversa. Faço umas macaquices, que ele repete a todas Viro as costas e me vou. Dou tres passos e devagarinho espio. Ele faz o mesmo. Por isso nunca me dei bem com espelhos. Não agregam nada ao que já somos. Ta certo. Groucho Marx pensou nisso antes de mim, o caso de não aceitar onde me aceitam. E daí? Groucho Marx nunca comeu arroz com couve em lata de cera. Isso quem comeu foi Jânio Quadros. E eu. Comia o que aparecesse pela frente. Arroz com couve, feijão, vizinha, brócolis e até jiló comi certa ocasião atras da cerca da escolinha. Sempre gostei de Jiló. Era a prima mais legal que eu tinha. Me deixava ficar com a tampa da laranja e a casquinha do pão.  Certa feita, até queijo ganhei dela. A casquinhas. Mas foi a melhor casquinha que comi em toda a minha vida. As de feridas não contam.

Não sou muito bom nesse negocio de contar historias. Me atrapalho todo. Os fatos até que eu lembro, mas as datas me confundem. Nunca sei dizer por que dezembro começa com dez se o mes é doze. Sim, tem a teoria do calendário juliano. Santa preguiça teve Gregório, o papa, que mudou o calendário pagão e deu uma capa cristã, mas continuou reverenciando as divindades espúrias. Enfim. Não se pode acertar todas. Pelo menos ele lembrou de tirar o primeiro de abril. Pipocou um dia. Por conta própria. Mudou os tempos e a Lei. Ahhh, seiscentos e sessenta e seis nas costas.

Sempre gostei destes mistérios. Um mistério é algo que não temos que explicar nem dar desfecho. É um mistério. Como as verbas públicas. Mistério…inverso à vida. Nada se sabe sobre como surge, mas todos presumem que tem medo de sua extinção.  Pudera. Sem nenhuma prova material, tentar quantificar em parâmetros humanos as coisas do espírito é como enfiar o dedo n’água e depois de tirar fora, tentar achar o buraco.  Aí Hobbes diria que são conjecturas a priori. Evidente. Ele nem gostava mesmo de Descartes, que verdade seja dita: era um chato. Matematicalizava tudo. X,Y,X e outras letras soltas numa panela com legumes, formavam uma bela sopa, que só ele e certos matemáticos conseguiam digerir.

Isso me faz lembrar que Deus vê por linhas retas e o homem pela curvatura dos olhos, tornando retas as curvas que são mesmo retas, para que as vejamos curvas. Einstein descobriu isso na curvatura do espaço, uma das solenes ironias paradoxais de Deus, que mostra um espaço curvo, cheio de coisas curvas, e que contradiz a definição de que uma linha reta é o menor espaço entra dois pontos. Não é.  Pergunte aos físicos. Aliás, são eles, os físicos os bufões da corte matemática. Interdependentes, mas escrachados. Fazem poesia com os números, enquanto os matemáticos transformam em tabelas toda a poesia contida numa equação. Exceto Fibonacci, que fez da matemática um compêndio poético da Criação, um soneto entre a criatura e o Criador.

E sabe o que mais eu acho? Dunga sabe o que faz. Tem gene matemático (todo alemão é um português que sabe matemática), mas se disfarça com a cara do Stan Laurel, para comer pelas beiradas. Enfim. Minha bateria está se esgotando e minhas ideias absurdas também. Tenho que parar por aqui. Fui.




terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vacinar ou Não vacinar? - Eis a questão


Aquilo que não conhecemos, tende a se tornar um monstro em nosso caminho, ou uma possibilidade de fazer de nós heróis. Mas e quem é que precisa de heróis, quando o inimigo é fluido, gasoso, ou invisível? Quem se habilita a ser herói numa jornada sem guia, sem mapa, sem uma bússola, ou sem mesmo saber onde queremos chegar? Ao que entendi, ninguém mais quer ser herói, mas busca desesperadamente quem o seja, e caso não alcance a vitória desejada, fica mais fácil jugar aos leões, os vencidos, os traidores.

Estamos nos encaminhando para a terceira volta da Terra pelo cinturão solar, e a única coisa que sei é que Sócrates nunca foi tão convincente sobre seu saber, e também o meu: Nada sei!

Tenho buscado abstrair-me de envolvimento em debates que não dizem respeito algum ao meu campo de conhecimento, o qual ainda nem sei qual é, enquanto tais debates tentam, de toda forma de pressão, envolver-me na tomada de postura contra ou a favor de vacinas.  Contra ou a favor deste ou aquele político. Contra ou a favor as decisões do judiciário. Contra ou a favor a tecnologia, e mais recentemente ainda, o tal "Metaverso". Contra ou a favor as cotas raciais. Contra ou a favor comer carne vermelha, branca, de frango, de peixe cru. Contra ou a favor o casamento gay, enfim, sempre haverá um dualismo, e a cada dia que passa, com a sustentação das redes sociais, esse dualismo se multiplica como um conjunto de fractais sem fim, e nesse universo de dualidades, a neurose toma conta das pessoas pelo mundo e pela vida afora.

Tenho sido bombardeado ininterruptamente por amigos de todas as correntes antagônicas, a que me posicione, e mais, que me posicione a favor de suas ideologias, e isso digo, em relação à bola da vez, a COVID-19, e a guerra especulativa entre os grupos pró-vacina e seus rivais, anti-vacina. E assim, para ser "politicamente correto", preciso dar voltas em um e outro, mas que por fim, acabam determinando que minha atitude seja de indeciso, "em cima do muro", é o termo que gostam de usar. Tenho sido provocado a fazer campanhas, por ser "influencer", o que não sou, mas ainda que fosse, não influencio por procuração. Se eu tiver que errar, que sejam meus os erros, e que não ponham vidas em risco pela minha ignorância, pois errar, quando se trata de vidas humanas, seria um preço alto demais a pagar, ao responder ao Juiz dos Juízes no dia do acerto final. Não quero responder por erro, nem tampouco por omissão. Assim, devo dizer que orei muito para tomar essa decisão, e tentarei ser fiel ao que minha consciência me comove a dizer.

Já escrevi sobre a incerteza de cada uma das posições, ainda que o grau de convicção de seus devotados defensores possa oferecer aquele olhar nos olhos que confere certeza daquilo que pregam, e ouso dizer ainda que levam suas convicções  à morte (sua ou de inocentes), para promover suas cruzadas em favor da vida (o que ambas as facções usam como estandarte). Não se trata mais de desejo de que a vida prevaleça, mas que suas convicções sejam tomadas ao pé da letra. De um, e de outro lado da questão. Ser ou não ser. Vacinar ou não vacinar. Isso não é mais a questão, mas obedecer ou desobedecer: seja o governo central, seja o poder mais alto da Justiça, sejam os defensores dos direitos daqueles que não tem nenhuma certeza, mas assim preferem permanecer, para sobreviver por uns dias a mais, não à doença, mas à pressão, pois esta não vem de forças ocultas e inimigos declarados, mas de quem está muito próximo, que exerce muita influencia, e a quem não desejamos de forma alguma, magoar.

Mas magoamos. Existir já é motivo de mágoa em alguém. Viver, magoa a morte, e morrer é o apogeu da dor. Ainda assim, magoamos. Magoamos muito por falarmos e magoamos pela ânsia de não errarmos ao falar. Assim, minha postura sobre ser e não ser, vacinar e não vacinar é: Eu tomei, e tomarei todas as vacinas sugeridas ou exigidas pelas autoridades sanitárias do lugar onde eu estiver, para os devidos fins a que se destinarem. Cumprirei as leis pertinentes ao meu convívio em sociedade, e partindo dessa premissa, se exercer algum tipo de autoridade, exercerei tal autoridade, partindo da ética, pela qual norteio minha conduta religiosa e civil, sobretudo familiar e pessoal.

Quanto ao direito alheio de não ser vacinado, se esse exercício colocar em risco a minha integridade sanitária, seja pessoal, ou familiar, exercerei minha obrigação de requerer o distanciamento necessário e saudável, direito que me assiste, e se tal direito for subvertido, exercerei meu direito à defesa, nos modos legais, seja afastando-me do agressor, seja afastando tal pessoa de meu convívio, pois o meu direito está limitado à cerca do direito alheio.
Quanto aos que não desejam tomar vacina, defenderei com todas as palavras que meu escasso vocabulário possa oferecer-me, à garantir seu direito a não tomar vacina, nem mesmo serem constrangidos por quem a toma. Alguém como eu. Assim, entenderei e far-me-ei entender que conselho não é ordem pois o primeiro dá-se voluntariamente a quem deseje ouvir, e o segundo, impõe-se sob força de autoridade, cujo compêndio de opiniões não pode ultrapassar tal função, posto que também são conselhos.

Fui questionado sobre a obrigação de autoridades judiciais tomarem a si a obrigação de defenderem os frágeis, contra arbitrárias decisões de vacinar crianças, a celeuma do momento, e minha resposta é que eu não tenho tal autoridade, e ainda que bem intencionados, se tais empenhos exacerbarem à lei e à constituição, estarão invadindo o território da democracia e empunhando as armas da ditadura, a ditadura da balança da justiça, que não pode pender para opiniões e crenças de seus agentes, mas defender aquilo que está determinado pela autoridade a quem compete decidir, e aqui não estabeleço a qual poder esteja o direito e o poder de estabelecer os decretos, mas que ainda que estabelecidos, devem ser cumpridos.

Na condição de temente a D's, cujas profecias me apontam que tais movimentos não sejam senão um aparato de frente, uma comissão que abre caminho para tempos solenes, que antecedem a chegada do Messias, e que tais tempos, segundo as profecias que conheço, cercearão o direito à liberdade de pensamento e culto, e subverterão os caminhos determinados para a felicidade humana pelo próprio Criador, ainda assim, sei que posso estar sujeito às penalidades que tais momentos determinarão sobre minha própria vida e liberdade, e mesmo sabendo disso, espero ter a coragem suficiente para não negar a minha fé, que está firmada no Livre Arbítrio, o mesmo que advogo nesse instante.

"Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está no Messias, o meu Redentor!  (Romanos, 8: 38-39)"







domingo, 16 de janeiro de 2022

Vigia, varão


 De tempos em tempos, a humanidade cria motivos para atormentar o vizinho. Vamos começar pela religião: Quando um determinado grupo já tinha se aborrecido de estudar as Escrituras, decidiu tornar efetiva a sua interpretação sobre o que havia aprendido, tendo entendido, ou não o significado do que leu, viu ou ouviu. Mas se entendeu que pau é pedra, não havia quem segurasse tal criatura de enfiar goela abaixo de seus pares, essa nova crença, se importassem com isso ou não. Imagino alguns diálogos sobre isso.

- Irmão Zebedeu! A Paz!
- A Paz, irmão Melquisedeque! Quais as novas, varão?
- Seu cabelo comprido, varão!
- O que tem de errado com minhas madeixas, varão?
-Não estão em conformidade com "a palavra", varão! Deveis cortá-los adequadamente!

- E meus cabelos me impedem em que de louvar?

- Que bom que tocou nisso, varão, pois queria falar sobre seus modos no louvor!

- O que há de errado com meus modos, varão?
- O irmão se remexe muito, balança demais o corpo, varão. 

- E não pode isso, varão, por que razão?

- Acaso não sabeis que o vosso corpo é o templo do "espírito santo", irmão? por que blasfemais desse modo, escandalizando o "povo de deus"?

-Não, não sabia disso. Mas irmão, o irmão tem reparado no comprimento do cabelo da vossa esposa e vossas filhas?

- Que que tem o cabelos das varoas de meu lar, irmão?
- Curtos demais! O homem não deve vestir-se como mulher, nem a mulher, como homem! Está na "palavra". A propósito, o irmão brigou com seu barbeiro, que não corta mais a barba, irmão?

- Mas ué? E Nosso senhor Jesus Cristo (A paz, irmão!) não usava barba e cabelos grandes também?
- Não blasfeme, irmão! Quereis comparar-vos ao nosso Salvador?

- Não, irmão, longe de mim, fazer isso. Mudemos de assunto, varão! No próximo culto, após "a palavra", faremos uma koinonia santa na igreja. O que a irmão vai levar?

- Perguntarei à irmã Dorcas, mas creio que seja um abençoado suflê de couve flor. E a irmã Safira?

- Vi ela preparando uns bifes acebolados de carne vegetal, irmão! Uma bênção. A paz!

- A paz! Ô glória! Mas o irmão não sabe que pelas Escrituras, não deveis comer raízes?

- Misericórdia, irmão! Onde diz isso nos evangelhos?
- Está no livro de Gênesis 1:29: E de toda erva que der sementes, vos será por alimento! E cebola não é árvore, e vive debaixo da terra. É imunda, varão!

- E Cenoura, Batata, beterraba, Amendoim....?

- Nada! Se não diz lá, então não pode!

-Isso me faz pensar que...

- Sim! Se não foi citado, é porque se comer, é pecado, e se um irmão for flagrado comendo ou servindo, deve ser disciplinado, para sua salvação e para testemunho da igreja!

- Misericórdia, irmão! Eu comi muito isso!

- Deve pedir rebatismo, irmão, urgente!

- Mas se o irmão tomar café, vigia, irmão, porque café é droga que vicia, uma bebida do demônio!


- O sangue de Jesus tem poder, irmão! Não mencione essa praga, varão!

- Ô glória!

- O irmão tem faltado aos cultos. Vigia irmão!

- Minha mãe, está enferma, irmão. Tenho que....

- "Aquele que não legar pai e mãe por minha causa, não em ama verdadeiramente",  disse Jesus, irmão! Não devemos negociar com o capeta, irmão!

- Mas e o quinto mandamento, que diz para honrar pai e mãe, irmão?

- O sangue de Jesus tem poder, irmão! Diga amém!

- Mas o que isso tem a ver com o que eu falei, varão?

- Estou profetizando, irmão. diga amém!

- Amém!

- Faltou feijão, irmão! Diga com vontade! Não dê lugar à satanás, varão!

- AMÉM! Agora dê licença, varão. Tenho que visitar minha mãe doente....

- Vá na paz do Senhor, varão! Eu o verei no culto, à noite, então.

- Não irei, varão...[

- O quê? vigia, irmão! Apostatou? vamos convocar uma assembleia santa para jejuar e orar pelo resgate do irmão!

- Resgatar, como, varão? Eu apenas disse que não irei.

- Não dê munição pro maligno, irmão. Uma brasa se apaga fora do braseiro, varão. A igreja é o aprisco do senhor nesse mundo. O maligno quebra vareta por vareta se estiverem desgarradas. Aquilo que estiver ligado na terra, estará amarrado no céu, irmão. E a igreja é o lugar onde os anciãos e pastores ungidos profetizam e determinam a expulsão do maligno de seu corpo, irmão. Diga amém!

- Não digo. Amém significa que eu concordo com o que você diz, e eu só concordo em parte.

- ASTRASERRABAGAYAKAWASCACAGADURA PAPATÊUS PATATES ZAGURUMBAIASCA! Vigia irmão! Estou tendo uma visão, irmão! SAI DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE, TINHOSO! EU TE DETERMINO UMA LIBERTAÇÃO EM NOME DE JESUS!

- Menos, amigo. Fale normalmente, porque as pessoas estão olhando e não estão entendendo nada. nem eu.

- Eu recebo esta palavra do irmão em nome de Jesus, irmão. A paz!

- A paz, irmão. Tenho que ir tomar vacina...
- Vacina, irmão? Esta agulha do diabo que cravam na sua carne para inocular o mal no seu corpo?

- Não, varão. É uma prevenção...

- E o varão não sabe que há uma conspiração mundial que inocula câmeras e microfones pela vacina, em um chipe, que registra suas ondas cerebrais, e envia a um computador central nos Estados Unidos?
- Crendice, varão. É apenas um vírus desativado para formação de anticorpos contra a doença..

-O irmão sabe que será disciplinado por esse gesto, não sabe irmão? Não é para magoá-lo para para o seu próprio bem, por amor ao irmão...

- O varão esqueceu que não pertenço á sua congregação?

- PARANABRÁS PACABAÁS PARRACUTÍCULAS! Eu determino uma libertação aqui, varão! Diga amém!

- Vá catar coquinhos!

- Amém!
- Amém, varão!





sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Meus vizinhos, os macaquinhos



O condomínio onde moramos, faz divisa, no fundo, e na lateral, com um centro de pesquisas e tratamento de oncologia, um hospital do câncer. É um dos mais importantes centros de estudos desta doença maligna do país, uma referência internacional. Que bom, mas que ruim, porque o ideal seria que fosse um resort de seis estrelas, onde os visitantes e hóspedes fossem apenas turistas ricos, desfrutando momentos de lazer na companhia dos seus. Mas não é. A verdade é que na rua que liga o hospital à rua de cima, a minha rua (não é minha, de verdade, é apenas um modo de dizer, quero que fique bem claro, pois não quero que pareça a mim ter mania de grandeza). No trajeto de cerca de cento e cinquenta metros entre o hospital e o portão de trás, há um bosque. Diga-se, pelo bem da verdade, um belíssimo bosque, e para que seja um bosque com todos os direitos, sim, há neles animais, singelos e peludinhos, e também outros, bastante emplumadinhos. Segundo último balanço, encontrei: Uma Cotia, um casal de Araquãs, com seus pimposos filhotes, um lagarto Teiú, bem graúdo, Saracuras, Gralhas esplendorosamente azuis, um casal de Pica-Paus do penacho amarelo que fazem de um frondoso Cinamomo, a sua feira livre de corós, e claro, as estrelinhas da festa: Os macaquinhos! São cinco deles, com dois filhotinhos cujo corpinho deve ser do tamanho do meu polegar, mas somado à cauda, conhecida como rabo, deve dar cerca de um palmo e meio de comprimento.

São mansinhos, todos eles, especialmente os macacos, que já estão acostumados com as bananas que recebem todos os dias dos transeuntes, dos familiares que acompanham os pacientes, e investem as longas horas da espera alimentando e fotografando os peludinhos e os emplumados, como um lenitivo pelo tempo da espera. E assim, delicio-me nas horas que passo em frente às janelas, e vejo aquelas pessoas desfrutando de esparsos momentos de conforto, divertindo-se e divertindo os animaizinhos, com suas oferendas doces entregues em suas pequeninas mãos.

Penso na missão daqueles animaizinhos, colocados estrategicamente ali pelas mãos do Criador, para cumprirem seu propósito de anestesiarem a dor pela empatia aos que estão nas cadeiras desconfortáveis recebendo quimioterapia, ou nos leitos, sendo alvejados por luzes radiativas, por horas, dias e semanas intermináveis. É nesse cenário que agradeço à D's por ter criado os macaquinhos, os passarinhos barulhentos, e o vento que balança as folhas do bambuzal, e faz bailar os galhos do Cinamomo, e da velha mangueira atrás dele, e ao lado dela a já infértil Jabuticabeira, e a velha goiabeira que não dá mais frutos, e o trançado de folhas que permitem um cintilar dos raios de sol no amanhecer, todos feitos para confortar as almas cansadas, as que fazem companhia aos macaquinhos uns poucos momentos, e por muitas horas mais, junto ao leito dos amados que sofrem, lá dentro do hospital.




quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Café Cacique - A Boca Bendita das Priscas eras de GRAMADO

Pois enfim, e por fim, até que enfim, chegou a vez de falarmos dele, do único, insubstituível, da "boca bendita" e do ponto de encontro das contrariedades que simbolizaram o quiasma das turbulências antagônicas da verve citadina. Vou traduzir: O lugar onde adversários sentavam à mesma mesa, e saboreavam café acompanhado de torta de Ricota, Pastel, ou Sonho. Eram as guloseimas de seu tempo. Era neste lugar onde se articulavam campanhas políticas, ou se discutiam posições favoráveis ou contrárias a qualquer assunto que fosse. O lugar não era outro, senão o Café Cacique. A "Plaza política da Cidade Jardim das Hortênsias". O lugar mais democrático que já conheci. Rico e pobre se juntava pra chorar pitangas e falar mal de alguém, não sem dar boas risadas e fazer chacotas, uns dos outros.
Era lá que se reunia o afamado, difamado, e mal contado, "Grupo dos Onze". Um dia, até quem sabe, falaremos sobre o tal "Grupo dos Onze", mas por ora, reservo a informação apenas relatando que pelo menos quinze destes onde, eram, provavelmente assíduos bebedores de café no Cacique. Isso significa que era sim, um lugar de relevância no exercício da democracia brasileira, se compactarmos o Brasil, a Gramado.


O Café Cacique foi criado, segundo relatos que conheço, pelo empresário Cláudio Pasqual, proprietário do Cine Splêndid, cuja edificação encontrava-se  contígua, ou apensa, ou ainda melhor, grudadinha ao Café Cacique, pois como os filmes eram longos, e era necessário trocar o rolo do projetor, o que demandava alguns minutos, esse intervalo permitia que a plateia pudesse abastecer-se de umas guloseimas, no bar ao lado. Esta é a história que conheço, mas certamente haverá adição à ela tão logo leitores de priscas eras ativem suas memórias afetivas.

Não estou lembrado quem era o arrendatário antes de 1960, mas minha memória é mais nítida a lembrança do Lauri Casagrande, seguido por Otávio Rossi, se não me falha a memória. Depois vieram os irmãos Dirceu e Eloi Broilo. Os arrendatários seguintes, foram os irmãos Braun ( Clávio e Ireno), irmãos do saudoso Professor Elpídio Braun. Todos, naturais de Gravataí, chegaram em Gramado em 1971.

Tudo o que acontecia, a notícia passava por lá. Era uma espécie de Whatsapp da época. Mas era também o reduto do intelecto local, ratificado pelo jogo de xadrez. Há até a folclórica figura do saudoso Horácio Cardoso (pai do Odilon, Chico, Dionete e Suzete) que jogava xadrez. E xadrez, como sabem, é um jogo de paciência. Muita paciência. Só quem não tem paciência é quem assiste, e em alguns casos, dão palpite, se enervam, e... bem, o que contam é que disse, certa feita o velho Horácio, aos espectadores:
- "Assistir, pode. Dar palpite, pode. Mas mexer nas peças de quem tá jogando, não pode!"



Chess Masters, filme de Edward Winter, 1924

De outra feita, aos quais não mencionarei nomes, mas quem é contemporâneo vai saber, frequentava a casa, um piazote muito simplório, que pelo seu pitoresco aspecto, foi meio que, digamos, "adotado" por alguns beneméritos frequentadores, para diversão dos mesmos, e dele próprio, mas que de risada em risada, era abastecido de guloseimas, pagas por eles. Em todos os tempos sempre houveram os bufões, que se divertiam à custa dos miseráveis, mas que ainda assim, eram seus benfeitores. Conta-se um causo, não ocorrido ali, mas em lugar certo e não sabido, mas que bem ilustra o ambiente:
- "Havia um pobre homem, que entrava em uma taberna, onde bebiam e se divertiam, um grupo de jovens ricos do lugar. Assim que entrava, chamavam-no para uma das mesas e mostravam duas moedas: Uma grande e valiosa, e outra pequena e de menor valor, e mandavam que escolhesse, com qual delas desejava ficar. Ele sempre escolhia a pequena, de menor valia. E saía dali satisfeito com seu regalo. Um certo dia, um dos jovens o chamou em reservado e disse a ele que a moeda que ele escolhia, era sempre a menor e valia bem menos, e ele respondeu:
-Eu sei o valor das duas, mas se eu escolhesse a mais valiosa, ganharia uma única vez, e assim, escolho a menor, e ganho todos os dias, e desse modos, todos podem rir. E eu também!"
Só sei que o piazote vivia rindo. E todos os demais, também.

O Café Cacique era o reduto de decisões políticas, como falei, mas assim parecia ser, um ambiente neutro, uma zona desmilitarizada, onde ARENA e MDB, e antes disso, PTB, PL, UDN, PSD e outros mais, até mesmo o extinto (na época) PCB - Partido Comunista Brasileiro, o que só por menção, fazia arrepiar quem ouvisse. Mas lá dentro, quem governava era o café, os lanches, e camaradagem.
Depois dos Braun, passaram vários arrendatários, mas aos poucos o café foi definhando, e por fim, o prédio foi alugado para uma loja de roupas de couro, e nunca mais se ouviu falar do Café Cacique, senão pelas memórias de saudosistas feito eu e meus leitores. Que seja.


Foto: Arquivo Público Municipal






Álbum com 120 páginas para colorir

Álbum colorido

Desenhos sob demanda









 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Café Brasil na GRAMADO das priscas eras


Pouco, ou quase nada sei da história do Café Brasil, cuja edificação, ao que sei, ainda permanece lá, com poucas modificações. mais modernizada, parece. Então, como posso ousar escrever sobre algo que não conheço? Não seria melhor deixar para quem conhece, que escreva sobre esta história? Sim, acho que é isso mesmo, mas o zeloso leitor haverá (os antigos diria,"havéra") de concordar comigo, que quem está escrevendo sou eu, e se tais conhecedores quisessem escrever esta história, que o fizessem, não seria assim? Não! Nem todas as pessoas se habilitam a escrever, e bem poucas as que tomam tempo para recordar, e menor ainda é o quantitativo dos que desejam falar sobre um lugar, de cujas pessoas nunca ouviram falar. Não os censuro. Escrever e contar causos é minha ocupação, então eu busco e rebusco qualquer história correlata às imagens que publico, e com o andejar da carroça, as melancias se acomodam, isto é, leitores mais bem informados tomarão tenência e corrigir-me-ão pari passo com a leitura que fazem de minhas poucas e mal digitadas linhas.

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Perguntam-me: por que eu escrevo de modo tão prolixo, tão rebuscado e floreado em salamaleques de priscas eras, quando seria tão mais simples substituir vocábulos por gírias e verbetes de uso fluente na linguagem contemporânea? Ora, isso faço exatamente porque o tema de meus textos e deste blog são exatamente isso: Priscas eras, ou seja, os tempos de antigamente, assim, deixo-me enlevar pelo ambiente filológico e estético dos anos que busco retratar, tanto em imagens, quanto em causos, e o modo de falar dos personagens envolvidos.

Internet

Voltemos ao Café Brasil, pois. Uma simpática família, de sobrenome "Lindorfer". Dona Ertha, e seu esposo Alfredo, e seu filho Luis Carlos,  conhecido por "Sarará", que andava em um daqueles carros imensos, acho que Galaxy, ou Landau, azulão, algo assim. Era dado às prendas do futebol, assim me parece, e sua esposa era professora. Da família é o que sei. Já o Café Brasil, é unânime, aos que recordam desse tempo, dois perfumes que se mesclavam: Sorvete, e Café, Havia uma cafeteira grande, dessas comuns à cafeterias, onde sempre havia café, água e leite quentes, prontos para servir.
Acrescentam os leitores Mari e Maneca (Mariângela e Manoel Inácio Cardoso) a seguinte informação: "Frequentadores do Café Brasil: Rubem "Pesteado", Antônio Gonçalves, o "Antônio Macaco", Brigadiano Valentim Yparraguirre, Sargento Antoninho, vulgo (Antoninho Puta Véia), Cabo Ivan, João Cláudio Candiago, Fedoca e Fabiano Bertolucci, todos estes, grandes boêmios."

Internet



Ilustrativo*

O Café Brasil era daqueles ambientes vintage que durou enquanto durou, mas também rendeu-se à ânsia pela inovação, e como não houve continuidade familiar, um dia, fechou as portas, afinal, todas as portas, um dia serão fechadas, e em seu lugar, novas portas se abrirão. Ainda, segundo Maneca, o local era bastante frequentado pelas famílias do interior do Município, que iam á Gramado resolver assuntos pertinentes ao centro.
O Prédio era de propriedade de Guilherme Dal-Ri. Como disse, é tudo o que sei. Só sei que é um prédio lindo.

















 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

"Óia o trem"! E Estação Ferroviária na Gramado de Priscas eras, e Os Pedro e Paulo Mirins

Nunca fui de levantar bandeira, nem comprar briga por desmonte de patrimônio histórico. Eu me devo essa lacuna de caráter. Mas é assim que foi. Ainda hoje, apesar da paixão que tenho por esgravatar o passado no meio das cinzas das memórias, não tenho tarimba pra herói, e não passa pela minha cabeça a ideia de me acorrentar em árvores centenárias, ou em colunas de antigas construções, para salvar a Natureza ou o patrimônio. Sim, tenho muitos defeitos de caráter, e covardia e comodidades são alguns pelos quais terei que responder, um dia. Mas até lá, resigno-me a contar histórias, e desenhar aquilo que vejo das casas e coisas do passado. É a minha cota de redenção.

Conto isso, porque em uma rara ocasião em que eu ousei dirigir-me a uma autoridade municipal, à época, em que foi derrubada a Estação Ferroviária de Gramado, ofereci, educadamente, minha indignação pelo fato, ao que fui rechaçado com deboche e ironia pelo então Secretário, cujo cargo e nome, por razões óbvias, declinarei, pois não farei deste ambiente nostálgico, um espaço de difamação, ainda que verdadeira, pois quero lembrar das pessoas por suas boas ações e não por seus medíocres espasmos de pequenez. Mas ratifico: Fui reclamar sim, ao saber que o local, que até então, servia como base da Brigada Militar, comandada pelos saudosos Sargentos Frederico Guilherme Zorzan, e Ivã da Rosa  Barbosa, que comandaram esta corporação em Gramado e relevantes serviços prestaram à comunidade. Isso então, aconteceu, tendo como cenário, o prédio varrido pelos tratores, que cedeu lugar à atual Estação Rodoviária.

A linha do trem em Gramado já foi amplamente relatada pela historiadora Marília D.F., em suas obras, e por isso, desnecessário repetir dados e datas, o que é natural aos historiadores, o que eu não sou. Sou contador de causos. Então é pra isso que sou pago (não estou falando de dinheiro), e é o que conta em meus espaços. Então, vou contar alguns causos onde estive presente, sobre os quais sou responsável pela veracidade.

Eu tinha uns oito ou nove anos, mais ou menos, e como já relatei em outros causos, era o parceirinho da peripatética Maria Elisa, de cujos périplos fui seu fiel escudeiro e par. Nesta feita, decidimos visitar uns parentes, o Tio João, que morava no sítio, lá nos três Pinheiros, a uma distância de 8,5km, mais ou menos, em uma jornada de duas horas à pé. Era puxado, pois descíamos e subíamos muitos morros, e claro, minha vó conhecia bons atalhos, que encurtavam um pouco o caminho. Um destes atalhos, nos fazia passar por uma "garganta" escavada na terra, para rebaixar o trajeto e por ali fazer passar a linha do trem, que subia de Taquara, em direção à Canela, passando por Gramado, antes pela Estação da Várzea Grande (que os antigos chamavam de "Baje Grande"), passando pela Estação central , e dali rumo à Canela.

No momento em que caminhávamos por uns destas "gargantas", muito estreita, com apenas cerca de um metro livre entre o trilho e o barranco, cortado em forma de talude, numa diagonal de 60 graus, onde cresciam umas guanxumas (ervas daninhas), muito resistentes e de raízes fortes, ouvimos muito próximo, o barulho do trem, que chegava acelerado, e não havia tempo para correr dali, pois a passagem eram longa. Foi nesse momento que minha vó teve que revelar seu segredo, e despertar em mim, o meu: Éramos dotados de poderes especiais, que se confundem entre macaco, perereca, aranha, ou outro bicho qualquer, pode, o leitor, escolher à vontade, contanto que não nos atrapalhe no pulo de sobrevivência, onde permanecemos agarrados com pés e mãos às Guanxumas, no interminável tempo em que o trem passava a poucos centímetros de nossas costas, fazendo-nos sentir o vento e as chispas que nos espetavam assustadoramente. Talvez tenha se passado um tempo entre três minutos e uma eternidade, uma média entre os dois, algo assim. O trem já ia longe, e continuávamos travados naquele barranco, e só descemos dali quando nossas mãos já tremiam e as guanxumas estavam completamente estranguladas. O medo nos proporciona forças desconhecidas e incalculáveis.

A Brigada Militar de Gramado era composta de um pequeno Batalhão, talvez uns dez ou doze policiais, contando o comandante, que era um Cabo ou um Sargento. No tempo do Sargento Zorzan, uma figura simpaticíssima, que não se contentava em dar ordens aos policiais, e cuidar das multas de trânsito, que eram raras, e ladrões de galinhas, haviam poucos, e conhecidos. Crimes eram raros (isso mesmo, os crimes se resumiam a briga de vizinhos, e um e outro furto de pequenos pertences, arruaças de bailes, ou brigas de botecos no fim do dia, quando a cachaça já dominava os beberrões menos responsáveis).

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Zorzan criou um grupo de crianças, pré-adolescentes, como uma espécie de "Escoteiros", ainda que já havia um grupo escoteiro local. Mas era diferente. Eram chamados de "Pedro e Paulo Mirins". Trajavam uniformes idênticos aos policiais adultos, com exceção de capacete, cacetete, e, óbvio, uso de armas. Mas para aumentar o espanto dos leitores galardoados com tenra juventude, saibam que em determinado tempo, ingressei no grupo da "Invernada Artística do CTG ", como aprendiz de dançarino, e o patrão, nos disse que iríamos usar uma pilcha, e "se daria um jeito de arrumar um revórvinho 22 pra cartucheira". Felizmente, por ser descoordenado, não permaneci, pois não dançava nada. Mas isso é outro causo. Assim, os Pedro e Paulo Mirins tinham um apito igualzinho ao apito dos policiais adultos, com aquela correntinha trançada, preso ao ombro, lenço de gala, e "Bibico", aquele chapeuzinho em forma de canoa, de cor verde-abacate, ou a cor oficial da farda da Brigada. Até o cinto era igual, com fivelão emblemado tinha. Também os coturnos, eram iguais aos adultos. Enfim, eram mini policiais, e tinham obrigações sociais e comunitárias. Meninos e meninas eram tratados como iguais. As atividades variavam desde ensinamentos de legislação de trânsito, a acampamentos, culinária campeira, e participação em eventos cívicos municipais. A formatura do "pelotão" teve churrasco no CTG, e uma caneta com o nome gravado, ofertada pelo Paraninfo, Fritz Volk, um dos diretores da Ortopé., com direito a discursos e juramento, onde o formando, ajeitando a fralda que apertava, prometia "defender a honra da pátria com sacrifício da própria vida". Não lembro de todos os que fizeram parte deste grupo, e peço aos leitores que enviem mais informações, se as tiverem. Os PPMs eram: Álvaro Masotti,  Alexandre Masotti (que começou seu namoro com sua esposa Aidê, nesse tempo), Neiva Fattori, Renato Fattori, Paulo Cardoso (euzinho), Eka Ramm, e,,, bem, era um grupo de umas vinte crianças.

Bem, contei isso, porque a sede também era lá na Brigada Militar, ou como queiram, Estação ferroviária de Gramado.

Internet

Arquivo Histórico Municipal

Jornal Integração. Clique na imagem para ver a matéria completa

Mas sejamos coerentes com os fatos: Acho que o patrimônio histórico deve ser preservado, de um modo ou de outro. Penso que se o progresso precisa ocupar o espaço do que foi antigo, que deixe registros, o máximo deles, para que as gerações que virão possam espelhar-se nos rastros daqueles que construíram os primeiros alicerces do presento, e os esteios do futuro. E como eu não tenho braços longos para abraçar-me às casas, tenho dedos experientes e tecnologia ao alcance para reproduzir aquilo que ficou no passado. É por isso que escrevo. É por isso que desenho. É a parte que me cabe fazer. A do leitor, é ler, e se estiver de acordo, pode dar suporte à este trabalho, seja enviando histórias, imagens, adquirindo meus livros e quadros, ou anunciando nos espaços destinados ao suporte do projeto. GRAMADO de priscas eras.




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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

As Brizoletas da GRAMADO de priscas eras, as frutas da infância, e o cometa Ikea-Seki

Em 1963, eu já estava alfabetizado, e frequentava a pequenina escolinha Brizoleta, que ficava em frente à casa onde morávamos, pertinho do lugar, que depois tornou-se o Artesanato Gramadense. Frequentava as aulas, mas não estava matriculado, pois neste tempo, a idade mínima para começar nos estudos, era sete anos, mas eu tinha cinco anos e poucos meses apenas. Mas estava alfabetizado. Já contei como foi - lendo nas latinhas de alimentos da Tia Zezé. Mas terá também um capítulo especial sobre isso. Assim, não sei ao certo os detalhes, mas eu frequentava a escola na condição de ouvinte, para completar minha alfabetização. Não deu muito certo, porque a professora insistia em fazer-me repetir as primeiras páginas da Cartilha "Estrada Iluminada", ou da "Cartilha do Guri", o manual de alfabetização oficial das escolas primárias do Rio Grande do Sul, e da Gramado de priscas eras.

O problema estava no tempo, no "timming", como se diz hoje, pois eu já era capaz de ler e comentar o livro inteiro, mas a professoras insistia em exigir de mim um repeteco interminável, como uma ladainha de zumbis:
- Ivo viu a uva. Vovô viu a vovó. Vovó viu o vovô.
Mas puembas! Se o Ivo viu a uva, por que ele ficou só olhando pra parreira feito um dois de paus, e não se atracou a encher a barriga com as uvas? Estavam verdes, por acaso? E o vovô? O que o raio do véio estava fazendo ali, em vez de colher uvas pro Ivo, ficou dando bobeira e tarando a vovó? E a vovó, então? Já que viu o vovô ali no parreiral (sim, eu suponho que tenha sido no parreiral, pois não houve mudança de sentença na narrativa do tanso do Ivo, que ficou babando pelas uvas, enquanto o vovô babava pela vovó), por que não os convidou para entrar e comer umas bolachinhas pintadas com café passadinho? E como eu sei que a vovó tinha bolachas pintadas? Ora, todas as vovó tem bolachas pintadas, que misteriosamente aparecem de dentro de uma lata de banha (não havia mais banha na lata, só bolachas pintadas), para acalmar os ânimos dos netos que ficam fazendo arte pela casa. Mas ainda assim, vovô tarando a vovó e Ivo babando pela uva, era o limite que a professora me permitia ler. Mas por que não podia ler mais? Eram páginas censuradas para criancinhas? Não, eu acho que não eram. Apenas, a professora não estava acostumada com um descendente de judeus, que são alfabetizados aos três anos de idade, ainda que nem façam ideia de que sejam judeus. Mesmo assim, dê-lhe livros nos "bacurim". Letras e palavras, e em seguida, perguntas e mais perguntas. A professora não suportou tanta pergunta e me mandou ler e reler novamente as três primeiras páginas da cartilha.

Não me fiz de rogado. Fui pra casa e fiz uma fofocada daquele tamanho pra minha avó, Maria Elisa, a tal véia de faca na bota. Ah, pra que eu fui fazer aquilo. Pois imediatamente Maria Elisa, a véia supracitada, de faca na bota, tomou-me pela mão, passou a mão numa cartilha (não posso dizer ao certo, mas acho que vi um facão escondido no sutiã), e subimos, daquele jeito a ladeira que chegava à escolinha. Com olhar sisudo, porém respeitoso e educado (lembram que eu disse, que quando maria Elisa falava a língua pátria de modo vernacular, é porque ela estava "pistola", furiosa? Pois estava mesmo. E a pobre professora, nos atendeu, na areazinha, do lado de fora.

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Brizoleta do Carahá - Fotos: Áureo Roberto de Oliveira


- Pois não, dona Elisa?
Maria Elisa, a véia minha vó, só olhou duro, com bico esticado pra professora, passou a mão na cartilha, e sem tirar o olhar da oponente, entregou a cartilha na minha mão:
- Leia, guri!
Eu abri na primeira página e...
- Essa não. abre no meio do livro!
Abri e comecei a ler. Pausada e corretamente, respirando no tempo certo, acentuando as palavras, colocando vírgulas e pontos em seus devidos lugares e com a entonação correta.

A essa altura, Ivo já estava quase casando, o vovô picava gravetos nos fundos da casa, e vovó acomodava os vidros de chimia que fizera com a uva que colheu, não sem encher o bandulhinho do Ivo, ao ponto de dar uma caganeira no guri, de tanta uva que comeu.

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Minha vó maria Elisa tomou o livro da minha mão, com um sorriso de vitória, e perguntou pra professora:
- O que tens mais a ensinar ao menino, "MENINA?"

Ai, meus sais, por misericórdia! Ela chamou a professora de "MENINA!" Era guerra. E a professora percebeu, e prometeu dar especial atenção ao pimpolho leitor de dona Maria Elisa, a véia de faca na bota. Assim, fui recomendado a mudar de escola no próximo ano letivo, 1964, mês de Março.  E por causa disso, aconteceu no país uma revolução, um golpe militar, um lufa-lufa sem tamanho. Se achar que exagero, leia aqui. Eu não me sinto muito culpado pela situação geral, mas há quem diga que foi a audácia de Maria Elisa, quem deu voz aos revoltosos e a coisa toda encrespou. Tenho dúvidas. mas, enfim. Assim comecei na Brizoleta. No ano seguinte, fui estudar então, no Grupo Escolar Santos Dumont, cuja edificação também já está em meus arquivos, e em breve será mostrado aqui. Foi apenas no primeiro ano, pois nesse ano, de 1964,m eu fui finalmente registrado em cartório, pois antes disso eu era apátrida e líquido, pois nem registro eu tinha.

Na Brizoletinha, comecei, então, a partir da segunda série, ou segundo ano do primário, e vou nominar algumas da professores que conheci lá. Ah, entes disso, vale lembrar que uma professora atendia a duas classes em simultâneo na mesma sala. Eram multitarefas, literalmente. Por exemplo, primeira e quarta series, ou segunda e quinta, e assim era.

Ah, sim, e ainda enquanto estudava nesta Brizoletinha, foi que vimos o cometa IKEA-SEKI, riscando os céu, numa madrugada estrelada, em 1965. Clique nas imagens para saber mais. Visível inclusive à luz do dia, este foi nomeado como o mais brilhante cometa do século 20. No Japão, disseram que ele era 10 vezes mais radiante do que a Lua cheia.


Cometa Ikea -Seki






As carteiras (que chamávamos de "classes", eram múltiplas, ou em pares. Usávamos lápis e borracha. Caneta jamais. Apenas os alunos da quinta série, usavam caneta de tinta e levavam junto um vidro de tinta, um papel poroso como mata-borrão, e uma merenda de pão com chimia. As professoras tinham uma coleção de carimbos com figuras, como borboletas, uva, casa, e assim por diante. Era o seu recurso pedagógico. 


Das professoras que lembro:

Ester Cardoso (diretora); Geni Cavichioni; Nair Arend; Orlanda Valentini; e Neusa Parissenti.
Assim descreveu a amiga Jussara Masotti, acerca da Brizoletinha de sua infância:

Envia-nos esta mensagem, a leitora Lúcia Bezzi:


É claro que aqui estou tratando especificamente das memórias da Brizoleta de minha infância, mas desde já deixo o leitor convidado a a enviar suas lembranças para serem publicadas neste espaço. Pode enviar fotos, o que quiser.

É claro que também vou falar dos arredores desta Brizoleta, como as frutas do mato que comíamos: Cerejas, Araçãs, Guabirobas (Gavirovas), Esporão de Galo, Pula-Pula (essa era para brincar), Guaçatomba, chupar néctar de "Bananinha" (flor de Corticeira da Serra), Goiaba Serrana, para comer o miolo da fruta, ou a parte branca da flor, ou Pixirica pra azular a gengiva. Uma das favoritas era a Quaresma preta. Ou então, brincar de choupana de samambaias e Vassoura do mato.


Pixirica ou Gramberry brasileira

Corticeira da serra ou "Bananinha"
Guabiroba (Gavirova)

Araçá

Goiaba serrana

Esporão de Galo
Quaresma do mato
Cereja do Mato


Pois é. Fica o desafio: Se fizer um passeio por aquela mata novamente, quantas destas frutas ainda irei encontrar?








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A língua viperina digital

A comunicação digital acelerou muitas coisas, mas a pior delas foi a relação interpessoal. Basta uma vírgula mal colocada, uma p...