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terça-feira, 16 de agosto de 2022

A Gramado de 2040

Casarão dos Castilhos, by Pacard, 2021
A Gramado de 2040

Pacard (Escritor - Designer - Contador de Causos)

Longe, muito longe de mim, designar-me profeta. Isso não se escolhe. É dom que D's dá, e com D's, não se negocia. Se espera, aceita, e agradece, porque, no lucro, estamos sempre. Então,ao Amado Criador, não interessou, por ora, tornar-me profeta, posto que o preço de tal atributo é sempre muito alto. Todos os profetos amargaram cruentas vias e grande parte deles, sucumbiu pela dor, até porque, saber o que vai acontecer, e muitas vezes, não entender o que acontece, pode causar dores na alma, além das dores do corpo, que os destinatários dos vaticínios causavam, por intolerância, e por que, mesmo sabendo que mudar uma má notícia pode depender muito mais de nós, do que do Altíssimo, é muito mais fácil culpar o emissário, do que perceber que a notícia era apenas uma admoestação, uma advertência, porquanto ainda estaria em tempo de mudar. Assim sendo, reitero que não sou profeta. Sou apenas um observador atento, com algum razoável resquício de memória, ao que chamo de lembranças, grande parte delas, boas, pois também recebi a graça de abstrair aquilo que me machuca, assim, tanto malvados, quanto malvadezes de meus tempos inglórios, batem em mim como água bate nas penas do pato.

Já que não sou profeta, também futurólogo, não almejo ser. Vamos entender que futurólogo não trabalha com os mistérios do espírito, mas com o espírito dos mistérios, isto é, trabalha com a lógica das evidências, diante daquilo que reúne em suas observações, por exemplo: se o céu está carregado de nuvens espessas, ribombam trovões, e é riscado por luzes contínuas de relâmpagos, associando-se isso aos fortes ventos, natural é que muito em breve será necessário recolher-se, pois chuva certamente virá. Assim é a ciência da futurologia: evidências!

Falemos de Gramado então. A minha amada Gramado, a Gramado das minhas doces lembranças dos tempos  em que floresciam as hortênsias e azaléias, e o minuano cortava as madrugadas cantarolando cantigas de bravatas ancestrais. Tempo em que as papoulas e amores-perfeitos, miúdas e cintilantes flores, alcatifavam os jardins enfileirados da Avenidas Borges, colorindo os dias daqueles que perambulavam em périplos de vaivém entre um canteiro e outro a apreciar o tapete vivo das primaveras. Falemos da Gramado repleta de chaminés, que com tímida fumaça azulada transbordava perfume de café das casas iluminadas pelas janelas da cozinha, onde a família começava os dias, e encerrava as noites, ao perfume do pão quentinho, da sopa ao entardecer, da carne de panela que acompanhava o arroz branquinho, a massa caseira, a moranga com milho da horta aos fundos, e o doce de pera em calda, armazenado em prateleiras para o refestelo da família, no ano todo.

Falemos da Gramado, onde todos se conheciam, mas nem todos se gostavam, como deve ser a vida, pois um lugar onde todos se gostam sem diferenças, é um lugar tedioso, e isso Gramado nunca soube ser: entediante! Gramado nunca causou tédio a ninguém, por uma razão muito simples: o tédio é o vazio da falta de objetivos, e objetivos sempre abarrotaram as despensas dos gramadenses, sempre. E as pessoas, como disse, se conheciam, se gostavam ou se odiavam, e tinham assunto para as manhãs e entardeceres nos cafés e botequins, nas varandas, e nos armazéns, que eram mais que pontos comerciais de lucro e abastecimento, eram lugares de convivência do quarteirão, da vila (porque nesse tempo não haviam bairros: eram vilas: Baixada, Vinida, Cantão, Vila Moura, Mato Queimado, e Lago Negro (Sim, Lago Negro já foi uma vila pobre, onde moravam pobres em seus casebres, cujos meninos jogavam bulita, caçavam de funda, e mandava, respeitosamente a mãe tomar naquele lugar, mas ainda assim, chamando-a de "senhora" : "Vai tomá no cu da senhora!")

Falemos de Gramado que celebra 50 anos do Festival de Cinema, e engavetou num cantinho a "Festa das Hortênsias", cujas rainhas e princesas desfilavam, junto com as demais riquezas do município, em carros alegóricos ricamente ornamentados com hortênsias e mais flores. Falemos da Gramado que distribuía cartilhas nas Brizoletas pelo interior, e no Santos Dumont, ao centro, e que fazia do Lago Negro a praia de todos os que não tinham dinheiro para passarem o verão em Tramandaí.

Falemos da Gramado laboriosa e ambiciosa, que em cinco décadas tornou-se a desejável Disneyworld brasileira, antes Suíça brasileira, mas como a Suíça permanece a mesma Suíça desde Zwinglio, estagnar não pertence ao dicionário de Gramado, e o universo dos gritos frenéticos de turistas desfrutando adrenalina e bom vinho, representa bem mais o cenário de uma válvula de escape da ebulição contemporânea. Representa bem mais que banhar-se nas cascatas dos Narcisos, Véu de Noiva, ou tremer de ouvir falar na Cascata da Morte, aos fundos da velha casa do Tristão. Representa bem mais que disputar uma mesa no Café Tia Nilda, ou um lugar à mesa no café Cacique, cujos lugares eram designados aos seus frequentadores fiéis, para deleite dos que ficavam de pé, à volta, ouvindo as conjurações políticas deste ou daquele partido. Representa muito mais que desejar "bom dia" dezenas de vezes ao dia, à casa encontro pelas calçadas, e janelas abertas para o mundo, na jornada entre ir e vir ao "Gramado", como chamavam a sede do município, pelos mais humildes. Representa cessar o barulho e apurar o ouvido para ouvir o apregoar do sino da Matriz, que anunciava um velório, ou a marchinha militar alemã, ao passar um recado à comunidade, por uns trocados, que o Padre Manéa e Isidoro faziam.

Falemos da pequena multidão reunida em frente à Sociedade Recreio durante o escrutínio dos votos nas disputadas eleições, e falemos do aperto de mão dos candidatos, ainda ao manhecer, de casa em casa, implorando por votos, onde o mais difícil era sair sem um café com mistura, ou uma galinhada com arroz, nas reuniões políticas, á noite, durante as campanhas. Falemos de cantar o Hino nacional, à entrada da escola, todos os dias, e de ensaiar a marcha de sete de setembro, ainda no mês de agosto, uma hora por dia, cinco dias por semana. Falemos de tomar refresco gelado nos botecos, ouvindo o tagarelar de vantagens dos bêbados gabolas, e comer um "Farroupilha", porque o sabor do ovo e do pastel eram diferentes dos que se comia em casa. Falemos de levar os sapatos nos "Irmãos Broilo", para conserto, porque um bom par de sapatos poderia durar quase uma geração, se fosse bem cuidado, pois no dia a dia não se usava sapatos, não os meninos. Era "chinela de dedo", a que a televisão teimou em transformar nas "Havaianas". Falemos do perfume misto de café moído na hora e sorvete do Café Brasil. Falemos dos filmes de sábado e domingo á noite, além das "Matineés" nas tardes dominicais, do Cine Embaixador, que depois, mais suntuoso, tornou-se em "Palácio", e nos palácios, o povo permanece do lado de fora, tremulando bandeirolas para os príncipes...   Até no dia em que os nobres se enclausuram de cordões, e o povo volta às suas choupanas. 

Falemos da Gramado que terá que mudar os nomes das ruas, pois seus heróis já se escondem na escuridão do esquecimento.

Falemos de 2040, o ano em que o mundo terá que consumir o que sobrou de humanidade, e que a geração que contava histórias em 2022 não soube ensinar a geração seguinte a ouvir histórias. E a história que não foi ouvida, não terá mais como ser contada.


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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O verbo e o vazio - A desumanização pela comunicação



Na cultura judaico-cristã, O Logos, ou O Verbo, ou ainda, A Palavra, são a expressão máxima do conceito Divino da Criação do Universo, da Terra, da Natureza, e do Homem.

A palavra sempre foi objeto de veneração, ao longo da história. Valia mais que a própria vida, em questões de honra. O empenho da palavra era mais precioso que o ouro ou qualquer outro valor mensurável, porque a palavra empenhada não tinha como ser destruída ou roubada, senão por quem a tivesse proferido. Assim, a palavra era única, um DNA, uma assinatura imutável.

Depois da palavra, vieram as palavras, no coletivo, no senso de pluralidade, de compartilhamento de atitudes e sensações. E da palavra falada, cujas raízes brotavam das cordas vocais de seu emissor, e antes delas, do pensamento, um lugar secreto na mente, cuja chave só pode ser aberta pela vontade de seu emitente.

Destartem compreendemos a história pelo conjunto de palavras ou imagens que as traduzissem em seus significados mais profundos, pela riqueza de detalhes oferecidos ao leitor de qualquer tempo. Então, tivemos os cuneirofmes pelos sumérios; os hieróglifos, no Egito, o proto-sinaítico, que derivou o hebraico; os ideogramas orientais, e assim evoluindo, passando pelo alfabeto ocidental, que permitiu certo hiato entre os primeiros caracteres até os dias atuais, quando surge, pelo vazio de referências analíticas, os memes, os emoticos, emojis, e de tão veloz que corre a nova linguagem, tantos outros que certamente trafegam às sombras da web obscura, como códigos de proteção aos intentos menos publicáveis. As gírias, traduzidas por novos ideogramas, apenas perceptiveis aos iniciados, isto é, aos que pertencem ao mesmo grupo de atividades de tal natureza.

Classificar as palavras é um exercício de milênios, e a cada momento em que os mistérios da linguagem são satisfatoriamente elucidados, surgem novos tratdos de correção e ajustamento aos tempos e às invenções. Assim, viajar de um lugar a outro deixa de ser um aparato de meses, até anos, de preparo, para resumir-se à escolha da passagem mais barata, do hotel mais vantajoso, e da forma de pagamento mais propícia. Diante disso, a palavra "avião", aeronave, ou "Transatlântico", não fariam nenhum sentido há um século atrás, e soariam como fórmulas de bruxarias se proferidas durante a idade das trevas. Porém, a recíproca também é verdadeira, quando têrmos, conhecidos em lugares e em circunstâncias absolutamente locais e temporais, encontram-se em nossas leituras na literatura antiga, e torna-se ainda mais sinistra se tentarmos traduzi-las ao nosso tempo, sem a devida compreensão de suas fontes e propósitos originais.

A fluidez das palavras é uma máxima cotidiana, quando o que antes era comum, torna-se abjeto anacrônico, porque o sentido mudou, e o que antes fosse corriqueiro, torna-se ofensivo. Assim, pouco a pouco, obliteramos o desejo de falar, porquanto nossas palavras poderão tornar-se nossos verdugos. O que antes era afago, tornou-se assédio. O que era carinho, tornou-se malícia. O que era brincadeira, tornou-se um perigoso labirinto repleto de armadilhas para enredar ao menor delize. Assim, perigoso é falar. Perigoso é olhar, e torna-se nocivo até mesmo existir.

O verbo conjugado é o sujeito vivo. o verbo intransitivo é o sujeito acorrentado. A flexão verbal deixa de ser um aditivo do conhecimento, e torna-se um vazio cáustico pela ruptura da vontade acorrentada pelo medo do erro acidental. A inflexão verbal esvazia a vida. A vida vazia, esvazia o ser. O ser vazio caminha e arrasta consigo o mundo todo ao caos. A comunicação racional, que nos diferencia da comunicação instintiva dos animais, afunda-se numa espiral invertida, e cada dia mais, vai sendo engolida por si mesma, como a serpente "Ourobouros", que devora-se a si mesma, tendo seu formato absurdo indicativo de eternidade, mas uma eternidade perniciosa que se fecha, que se devora, diverente da eternidade que se expande, que se multiplica, que se descentraliza, o ponto inicial para o vazio desconhecido, como o "Big-Bang" que moldou o Universo.

O vazio dos verbos se distancia da plenitude do Verbo, porquanto é a iniciativa humana a reformular a plenitude moldada pelo Verbo primevo. A comunicação emaranha-se neste vazio do Ourobouros. A vontade se esvai no c´pirculo fechado do monstro, onde a cabeça devora a cauda, e impede a si mesma de flutuar pela existência.

Gosto mais de pensar no singelo "beabá" das primeiras lentras, onde não havia história a resgatar, senão o cantar sereno da mãe que embala o filho, mostrando o céu e nominando as estrêlas, como poemas e canções. o verbo era mais suave e o vento era apenas brisa. Um sopro. Uma promessa.


Pacard - Pétalas, 2022



Renovar para não sucumbir - O que a pandemia trouxe de bom



Renovar para não sucumbir

O que a pandemia trouxe de bom

Pacard - Escritor - Designer




Parece ser uma piada de mau gosto, dizer que algo de bom tenha saído de uma pandemia, com milhões de mortos pelo mundo, e traduzindo para o pessoal, a impagável quantidade de pessoas com qualidade, próximas, seja por parentesco, amizade, ou contemporaneidade, que nunca mais iremos cumprimentar durante o breve espaço de tempo entre o nascimento e o descanso, que chamamos de vida.


Ainda assim, para que o ânimo e a vontade de continuar não se perca, precisamos tomar um gravetinho, e remexer nas cinzas, levantar escombros, para descobrirmos que nem tudo foi perdido, a começar por nossas próprias vidas, haja vista que estamos aqui, levemente estraçalhados, e ainda assim, íntegros da determinação de continuar em frente, rumo aos sonhos que havíamos desenhado pela aquarela da esperança.


Desde que o mundo é mundo, desque que o Ser Humano descobriu a função das mãos e pés, e de todos os demais sentidos, sobretudo, de sua capacidade de repensar caminhos diante de obstáculos, nenhum caminhar é linear, mas todas as vidas desta longa história são como um prato de Lámen, aquele espaghetti crespinho, emaranhado entre si, e ainda assim, saboroso. A vida é saborosa, e quanto mais emaranhada, mas e mais desafios à nossa criatividade, ao uso de noss capacidade de recomeçar, é aflorada, e a cada instante somos diferentes do instante anterior, somos mais criativos, somos mais dinâmicos e resilientes. É assim que é a vida: um compêndio de resiliências, como adobes que constroem edifícios e pirâmides, como pilares que sustentam nosso caminhar.


Eu, assim como outros bilhões de eus espalhados pelo mundo, estamos nessa ebulição criativa, e basta que não fechem as portas que encontramos, para que nelas entremos, e ali façamos morada, não como invasores, mas como bons vizinhos. É assim que quero ser: um vizinho laborioso em uma coletividade de pessoas que não caminham para a escuridão, mas que se fazem luzes para iluminarem caminhos àquels que mal abriram os olhos, com luzes tênues em crescente, para que não sejamos ofuscados e venhamos a tropeçar pelo excesso de confiança vazia. Isso é o que quero dizer: não caminhamos sós, mas importa mesmo é que continuemos a caminhar.


Pacard, Pétalas, 2022


#esperanca,#determinacao ,#trabalho

quarta-feira, 27 de julho de 2022

O Beijo do Apolônio (Da séria série: Causos tão abiçurdos que só podem ser de verdade)



 Daí, o Apolônio Lacerda foi à uma bailanta, pra módi bebericar umas brahma, e dançar umas marca cas prenda.

A noite era quente, mas põe quente nisso. O calor do dia foi daqueles que até cachorro, na bunda, sua. E o Apolônio suava também. Suava e fedia. Tava embrenhado numa catinga que só vendo, ou melhor, cheirando. Até urubus que passavam por cima dele, lá no alto, se bombeasse bem dereitinho, perceberia que voavam de costas.

Noite adentro, Apolônio prega o ôio numa chinoca mui serelepe, zóio azul, batão vermeio, trancinha amarrada com tope de seda, e que também negaceava o Apolônio, ancim, de revesgueio. Não deu outra: Apolônia secou o bigode com a manga da camisa, já encharcada de cerveja e suor, e se plantou defronte à moçoila, que ao seu parecer, talvez fosse até casadoira, bateu palmas, como era o costume, para apartar duas chinas que dançavam juntas, ou à prenda que estava dimpé no canto do salão, à espera dum galalau que lha fizesse a côrte. Pois feito! Foram dançar, um com o outro e outro com o um. A prenda e Apolônio.

O gaiteiro, que nesse ponto da noite, já emborcado em duas guampas de canha, destroncava a choramingona e rasgava chote, vaneira, chamamé, tango, tudo num poutpurri remelado, e a poeira levantava no meio do salão. E Apolônio suava, mas suava...

A prendinha, delicadamente aproximou-se da oreia do Apolônio, e comentou, timidamente:

- Você sua, sêo Apolônio, ô....!

Apolônio deu um largo sorriso, tascou um beijo daqueles bem lambusados na pinguancha, e piscando os dois zóio ao mesmo tempo, respondeu:

- Pôus eu também vou ser seu, princesa!


Carsulina fez uns cataplasmas de catinga de Mulata com óleo de Capivara pra módi fumentar o lombo do Apolônio, que não fazia ideia que a prenda era fia do Idalino "Cicatriz", o intendente arrecém empossado, que fora lotado no Bassorão enquanto esfriava um lufa-lufa que se meteu no Morro do Calombo, onde servia até então.


(As Apolonésias poliandricas, Tomo II - bebo 3, by Pacard)

domingo, 29 de maio de 2022

A língua viperina digital

A comunicação digital acelerou muitas coisas, mas a pior delas foi a relação interpessoal.
Basta uma vírgula mal colocada, uma palavra em letras maísculas, reticências ao término de uma conversa, que a relação começa a azedar. Mais que isso, um email com sinceridade exacerbada, pode denunciar o estado emocional de seu emitente, de acordo com o horário em que foram digitados os desaforos. E minha infeliz experiência ao longo dos anos de convivência cibernética, o servei que eram quase sempre após às 23 horas, hora da solidão, do desespero, em que a angústia toma o lugar do sono, e como cabeça vazia é escritório do Satã, é ali que se iniciam os debates desastrosos, que ao fim, corroem o relacionamento, até mesmo, com as pessoas, antes mais queridas. É nesse cenário que descobrimos que o afago de hoje pode ser a agressão de amanhã. À noite.
Email tornou-se obsoleto, maçante, comercial. Vieram outras redes, com provas instantâneas inequívocas das mentiras sociais e da infelicidade em cores e sons, floreadas com espetadas e diretas, até que entrou em cena o Whatsapp, inicialmente divertido e esperançosamente eficaz para acelerar as intrigas, as ofensas, a angústia, e o desmoronamento do que nos resta de civilidade e humanidade.
Estas ferramentas são o largo pincel do Satã para borrar as delicadas linhas da humanidade emprestada do Criador, e será com esse tipo de instrumento, onde não há filtro moral, pela velocidade da resposta, que a infelicidade vai solidificar seu território, mas, tal como o pássaro anestesiado sob o olhar da serpente, somos incapazes de sair desta armadilha, porque necessitamos dele para outras funções.
Qual a solução paliativa, sem precisarmos fugir para as cavernas nas montanhas, como bichos assustados?  Não tenho uma resposta coletiva, mas eu optei por fugir de grupos, e quando sou ofendido, analiso dois aspectos:
1- Fiz algo errado? A pessoa tem motivo para ofender-me? Se sim, trato de consertar a situação e não deixo que evolua a mágoa.
2 - Não partiu de mim a agressão e me eximo de culpa, e mesmo assim, percebo que a tal madrugada fez seu trabalho? Respondo com uma sutil mudança de assunto, falando de comida, receita de chá pra aluviar a dor de barriga, ou simplesmente uso o comando de bloquear o desaforado
Chego à conclusão que o código matemático que O Zuckerb criou para se reconciliar com um passa fora que tomou, tornou-se o trator que está destruindo milhões de afetos, que poderiam resolver suas pendengas num cafézinho, ou sairem no braço, possibilidade que já reduz em 99% da coragem de que se diga aquilo que se diz com a ponta dos dedos, a quilometros de distancia.
Pacard, Pétalas, 2022, Ille Vert

domingo, 30 de janeiro de 2022

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato, e nela há um lindo bioma, com animais silvestres e aves, como: Cotia, Saguís, Araquãs, saracuras, Gralhas, Pica-paus, Gaviões, e como diz o título desse ensaio, um volumoso Lagarto Teiú. Isso tudo eu posso ver da minha janela, ou do alpendre de meu apartamento. Se descer um pouco, e andar cerca de trezentos metros, ao sul, estarei na borda do maior mangue urbano do mundo, o Mangue do Itacorubi, onde somos privilegiados pela existência de um Jardim Botânico, e passeios, caminhos, passarelas, pontilhões, dentro do próprio mangue, para deleite dos naturalistas e biólogos, e ali encontraremos todo tipo de espécies selvagens que possam habitar um berçário marinho, como Jacarés-Açus, garças, cegonhas, caranguejos, peixes que desovam e nascem ali, e até mesmo, de vez em quando, como hoje, e outro dia dessa semana, temos o espetáculo bélico de helicópteros à caça de fugitivos de uma penitenciária distante a cerca de dois quilômetros daqui, cujos detentos, vez por outra, entendem que embrenhar-se no mangue, a enfrentar serpentes e jacarés, lama até à cintura, seja menos nocivo do que apinharem-se entre outros perigosos apenados, no cárcere estadual.

Mas fiz essa abertura para falar apenas do Lagarto Teiú, um bem apessoado réptil, com um sorriso enigmático e andar vagaroso, lambendo o tempo à procura de comida. São animais dóceis, não do tipo de pegar com a mão, que não se deve fazer com nenhum tipo de animal selvagem, mas de proximidade com os humanos. Quando morava em Gramado, eram frequentes as visitas de algum Teiú em frente à porta da casa, porque sabia que as crianças se divertiam vendo-os correr atrás de umas bagas de uva com agilidade desengonçada, fazendo a cauda balançar de um lado a outro, no movimento dos quadris gorduchos, e ao alcançar as bagas, comiam de maneira pouco elegante, e divertida. É por estas razões, que acho os Teiús muito divertidos. Lembro até de um Teiú que vi, correndo de pé sobre a água, como se caminhasse sobre uma campina, algo quase sobrenatural. Estes são os Teiús. É assim que os vejo: ágeis, versáteis, bem resolvidos e corajosos. Quase todos.

Pois aqui acontece a grande interrogação de meus passeios por terrenos pouco dantes caminhados, onde e quando encontrei em um barranco de uma rua nova, os resquícios de uma tubulação antiga de água, que descia da antiga propriedade do extinto Parque Knorr, uma outrora paradisíaca estação de prazer e beleza que hoje não passa de uma caricata loja de horrores travestida de parque infantil, sem nenhuma poesia nem encantamento, cujo portão jamais terá a marca de meus rastros, como tantas vezes teve, nos suaves e turbulentos anos de minha juventude, e foi nos limites desse saudoso terreno, que vi o tal cano cortado a uma altura de um metro do chão da estrada nova, e na boca desse cano vi uma cena que até hoje traz-me reflexões profundas sobre nossas indecisões diante dos obstáculos da vida: Vi um Teiú delgadinho, filhote, com cerca de um palmo de comprimento, e outro de cauda, com a cabeça voltada para baixo, em direção ao chão de um metro de altura... morto!

Deduzi com clareza que o animalzinho tivesse entrado por outra ponta do cano, um bueiro, andado até o lugar onde havia sido cortado, e, inseguro de pular dali à altura, que na sua matemática de lagarto fosse quase um himalaia, mortal e traiçoeira. Não era. Era apenas um metro, e o chão lá embaixo, era terra macia, que bastava um pulinho e ele sairia correndo a procurar bagas de uva ou pequenas larvas para comer, porque o que havia atrás de si era ainda mato, praticamente um supermercado para os lagartos Teiús.

Tem tempos na vida em que somos como aquele Teiú. Entramos em túneis escuros, e o que parecia luz no fim, era uma saída que exigia uma corajosa tomada de decisão: Pular para viver. O Teiú não pulou, e nem voltou atrás. Morreu de inanição. Morreu por falta de esperança. Morreu porque não sabia calcular as probabilidades de sucesso. Morreu porque estava só. Não havia perigo algum do lado de baixo. O perigo estava no medo de tomar atitude. Ele não tomou. E eu o vi ali, morto, imagino que havia poucas horas, porque não ousou a liberdade.







terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Do meu diário mensal que faço uma vez por semana (Da série “absurdos nunca mais haverão de faltar enquanto políticos existirem”)


Do meu diário mensal que faço uma vez por semana

(Da série “absurdos nunca mais haverão de faltar enquanto políticos existirem”) (Maio de 2010*)

Do lugar de onde eu venho, ou você ri, ou chora. 0ptei pelo primeiro sentimento. Na verdade, eu era tão feio, que ninguém sabia ao certo se eu fazia uma ou outra coisa. Quem nasce lá geralmente nasce com crise de identidade. Eu mesmo tive oito. No mesmo dia. Foi um sufoco, mas resolvi com civilidade: comi todas com farinha. Fiz torresmo. Transformei as crises em oportunidades e isso foi muito fácil: só acrescentei a farinha e cozinhei por dez minutos em fogo lento. Por isso enfatizo que o sorriso é o seu cartão de visitas. Cuide bem dele. Quem cuida, tem. Lavou, tá novo. Eu tive um belo sorriso certa feita, mas dei pra uma pessoa ingrata que não me devolveu mais.


Um sorriso é uma oportunidade para tudo o que puder ser descoberto atras duma porta. Daí, levo sempre comigo um estoque de sorrisos e quando encontrar alguém que não tenha um pra me dar eu empresto o meu. Há técnicas pra isso. Por exemplo: Você chega e encontra um sujeito carrancudo, esgualepado, de mal com a sogra e descontando a culpa em você: você lhe atira à queima roupa um sorriso. E caso a carantonha da pessoa não lhe permita isso, imagine-o fazendo as necessidades de cócoras no lombo dum enorme dum porco que gira em sentido horário.. Aí você não vai se conter e rir. Menos numa circunstância: em que isso seja uma lembrança de si mesmo. Desagradável ter que lembrar. Fosse eu, não poria mais meus pés naquele restaurante.

Eu cansei de ser chamado de ignorante. Isso eu não sou mesmo. Nem mesmo sei o que significa essa palavra. Sou letrado. Leio muito. De James Joyce a Mano Lima. Li Ulisses inteiramente de trás pra diante só por exercício cultural. E o livro estava de cabeça pra baixo. E eu também, pra facilitar.  Não entendi nada. Também não havia entendido quando li a partir da primeira pagina. Mesmo assim, achei o livro muito bom. Muito bom mesmo. Tinha a altura ideal do pé dum balcão que quebrou na minha casa. Serviu também como banquinho para dois dedos de prosa com um compadre.

Entrei para uma fraternidade. Sei que há preconceitos contra estas confrarias, mas essa é diferente. Mas acho que ja vou sair. Não confio em fraternidades que me aceitam. Olho com desconfiança. Especialmente aquele ali do canto que também me olha de um jeito estranho. Sujeito sem identidade. Repete tudo o que eu faço. Deve estar querendo puxar conversa comigo com essas brincadeiras idiotas. Não dou conversa. Faço umas macaquices, que ele repete a todas Viro as costas e me vou. Dou tres passos e devagarinho espio. Ele faz o mesmo. Por isso nunca me dei bem com espelhos. Não agregam nada ao que já somos. Ta certo. Groucho Marx pensou nisso antes de mim, o caso de não aceitar onde me aceitam. E daí? Groucho Marx nunca comeu arroz com couve em lata de cera. Isso quem comeu foi Jânio Quadros. E eu. Comia o que aparecesse pela frente. Arroz com couve, feijão, vizinha, brócolis e até jiló comi certa ocasião atras da cerca da escolinha. Sempre gostei de Jiló. Era a prima mais legal que eu tinha. Me deixava ficar com a tampa da laranja e a casquinha do pão.  Certa feita, até queijo ganhei dela. A casquinhas. Mas foi a melhor casquinha que comi em toda a minha vida. As de feridas não contam.

Não sou muito bom nesse negocio de contar historias. Me atrapalho todo. Os fatos até que eu lembro, mas as datas me confundem. Nunca sei dizer por que dezembro começa com dez se o mes é doze. Sim, tem a teoria do calendário juliano. Santa preguiça teve Gregório, o papa, que mudou o calendário pagão e deu uma capa cristã, mas continuou reverenciando as divindades espúrias. Enfim. Não se pode acertar todas. Pelo menos ele lembrou de tirar o primeiro de abril. Pipocou um dia. Por conta própria. Mudou os tempos e a Lei. Ahhh, seiscentos e sessenta e seis nas costas.

Sempre gostei destes mistérios. Um mistério é algo que não temos que explicar nem dar desfecho. É um mistério. Como as verbas públicas. Mistério…inverso à vida. Nada se sabe sobre como surge, mas todos presumem que tem medo de sua extinção.  Pudera. Sem nenhuma prova material, tentar quantificar em parâmetros humanos as coisas do espírito é como enfiar o dedo n’água e depois de tirar fora, tentar achar o buraco.  Aí Hobbes diria que são conjecturas a priori. Evidente. Ele nem gostava mesmo de Descartes, que verdade seja dita: era um chato. Matematicalizava tudo. X,Y,X e outras letras soltas numa panela com legumes, formavam uma bela sopa, que só ele e certos matemáticos conseguiam digerir.

Isso me faz lembrar que Deus vê por linhas retas e o homem pela curvatura dos olhos, tornando retas as curvas que são mesmo retas, para que as vejamos curvas. Einstein descobriu isso na curvatura do espaço, uma das solenes ironias paradoxais de Deus, que mostra um espaço curvo, cheio de coisas curvas, e que contradiz a definição de que uma linha reta é o menor espaço entra dois pontos. Não é.  Pergunte aos físicos. Aliás, são eles, os físicos os bufões da corte matemática. Interdependentes, mas escrachados. Fazem poesia com os números, enquanto os matemáticos transformam em tabelas toda a poesia contida numa equação. Exceto Fibonacci, que fez da matemática um compêndio poético da Criação, um soneto entre a criatura e o Criador.

E sabe o que mais eu acho? Dunga sabe o que faz. Tem gene matemático (todo alemão é um português que sabe matemática), mas se disfarça com a cara do Stan Laurel, para comer pelas beiradas. Enfim. Minha bateria está se esgotando e minhas ideias absurdas também. Tenho que parar por aqui. Fui.




terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vacinar ou Não vacinar? - Eis a questão


Aquilo que não conhecemos, tende a se tornar um monstro em nosso caminho, ou uma possibilidade de fazer de nós heróis. Mas e quem é que precisa de heróis, quando o inimigo é fluido, gasoso, ou invisível? Quem se habilita a ser herói numa jornada sem guia, sem mapa, sem uma bússola, ou sem mesmo saber onde queremos chegar? Ao que entendi, ninguém mais quer ser herói, mas busca desesperadamente quem o seja, e caso não alcance a vitória desejada, fica mais fácil jugar aos leões, os vencidos, os traidores.

Estamos nos encaminhando para a terceira volta da Terra pelo cinturão solar, e a única coisa que sei é que Sócrates nunca foi tão convincente sobre seu saber, e também o meu: Nada sei!

Tenho buscado abstrair-me de envolvimento em debates que não dizem respeito algum ao meu campo de conhecimento, o qual ainda nem sei qual é, enquanto tais debates tentam, de toda forma de pressão, envolver-me na tomada de postura contra ou a favor de vacinas.  Contra ou a favor deste ou aquele político. Contra ou a favor as decisões do judiciário. Contra ou a favor a tecnologia, e mais recentemente ainda, o tal "Metaverso". Contra ou a favor as cotas raciais. Contra ou a favor comer carne vermelha, branca, de frango, de peixe cru. Contra ou a favor o casamento gay, enfim, sempre haverá um dualismo, e a cada dia que passa, com a sustentação das redes sociais, esse dualismo se multiplica como um conjunto de fractais sem fim, e nesse universo de dualidades, a neurose toma conta das pessoas pelo mundo e pela vida afora.

Tenho sido bombardeado ininterruptamente por amigos de todas as correntes antagônicas, a que me posicione, e mais, que me posicione a favor de suas ideologias, e isso digo, em relação à bola da vez, a COVID-19, e a guerra especulativa entre os grupos pró-vacina e seus rivais, anti-vacina. E assim, para ser "politicamente correto", preciso dar voltas em um e outro, mas que por fim, acabam determinando que minha atitude seja de indeciso, "em cima do muro", é o termo que gostam de usar. Tenho sido provocado a fazer campanhas, por ser "influencer", o que não sou, mas ainda que fosse, não influencio por procuração. Se eu tiver que errar, que sejam meus os erros, e que não ponham vidas em risco pela minha ignorância, pois errar, quando se trata de vidas humanas, seria um preço alto demais a pagar, ao responder ao Juiz dos Juízes no dia do acerto final. Não quero responder por erro, nem tampouco por omissão. Assim, devo dizer que orei muito para tomar essa decisão, e tentarei ser fiel ao que minha consciência me comove a dizer.

Já escrevi sobre a incerteza de cada uma das posições, ainda que o grau de convicção de seus devotados defensores possa oferecer aquele olhar nos olhos que confere certeza daquilo que pregam, e ouso dizer ainda que levam suas convicções  à morte (sua ou de inocentes), para promover suas cruzadas em favor da vida (o que ambas as facções usam como estandarte). Não se trata mais de desejo de que a vida prevaleça, mas que suas convicções sejam tomadas ao pé da letra. De um, e de outro lado da questão. Ser ou não ser. Vacinar ou não vacinar. Isso não é mais a questão, mas obedecer ou desobedecer: seja o governo central, seja o poder mais alto da Justiça, sejam os defensores dos direitos daqueles que não tem nenhuma certeza, mas assim preferem permanecer, para sobreviver por uns dias a mais, não à doença, mas à pressão, pois esta não vem de forças ocultas e inimigos declarados, mas de quem está muito próximo, que exerce muita influencia, e a quem não desejamos de forma alguma, magoar.

Mas magoamos. Existir já é motivo de mágoa em alguém. Viver, magoa a morte, e morrer é o apogeu da dor. Ainda assim, magoamos. Magoamos muito por falarmos e magoamos pela ânsia de não errarmos ao falar. Assim, minha postura sobre ser e não ser, vacinar e não vacinar é: Eu tomei, e tomarei todas as vacinas sugeridas ou exigidas pelas autoridades sanitárias do lugar onde eu estiver, para os devidos fins a que se destinarem. Cumprirei as leis pertinentes ao meu convívio em sociedade, e partindo dessa premissa, se exercer algum tipo de autoridade, exercerei tal autoridade, partindo da ética, pela qual norteio minha conduta religiosa e civil, sobretudo familiar e pessoal.

Quanto ao direito alheio de não ser vacinado, se esse exercício colocar em risco a minha integridade sanitária, seja pessoal, ou familiar, exercerei minha obrigação de requerer o distanciamento necessário e saudável, direito que me assiste, e se tal direito for subvertido, exercerei meu direito à defesa, nos modos legais, seja afastando-me do agressor, seja afastando tal pessoa de meu convívio, pois o meu direito está limitado à cerca do direito alheio.
Quanto aos que não desejam tomar vacina, defenderei com todas as palavras que meu escasso vocabulário possa oferecer-me, à garantir seu direito a não tomar vacina, nem mesmo serem constrangidos por quem a toma. Alguém como eu. Assim, entenderei e far-me-ei entender que conselho não é ordem pois o primeiro dá-se voluntariamente a quem deseje ouvir, e o segundo, impõe-se sob força de autoridade, cujo compêndio de opiniões não pode ultrapassar tal função, posto que também são conselhos.

Fui questionado sobre a obrigação de autoridades judiciais tomarem a si a obrigação de defenderem os frágeis, contra arbitrárias decisões de vacinar crianças, a celeuma do momento, e minha resposta é que eu não tenho tal autoridade, e ainda que bem intencionados, se tais empenhos exacerbarem à lei e à constituição, estarão invadindo o território da democracia e empunhando as armas da ditadura, a ditadura da balança da justiça, que não pode pender para opiniões e crenças de seus agentes, mas defender aquilo que está determinado pela autoridade a quem compete decidir, e aqui não estabeleço a qual poder esteja o direito e o poder de estabelecer os decretos, mas que ainda que estabelecidos, devem ser cumpridos.

Na condição de temente a D's, cujas profecias me apontam que tais movimentos não sejam senão um aparato de frente, uma comissão que abre caminho para tempos solenes, que antecedem a chegada do Messias, e que tais tempos, segundo as profecias que conheço, cercearão o direito à liberdade de pensamento e culto, e subverterão os caminhos determinados para a felicidade humana pelo próprio Criador, ainda assim, sei que posso estar sujeito às penalidades que tais momentos determinarão sobre minha própria vida e liberdade, e mesmo sabendo disso, espero ter a coragem suficiente para não negar a minha fé, que está firmada no Livre Arbítrio, o mesmo que advogo nesse instante.

"Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está no Messias, o meu Redentor!  (Romanos, 8: 38-39)"







domingo, 16 de janeiro de 2022

Vigia, varão


 De tempos em tempos, a humanidade cria motivos para atormentar o vizinho. Vamos começar pela religião: Quando um determinado grupo já tinha se aborrecido de estudar as Escrituras, decidiu tornar efetiva a sua interpretação sobre o que havia aprendido, tendo entendido, ou não o significado do que leu, viu ou ouviu. Mas se entendeu que pau é pedra, não havia quem segurasse tal criatura de enfiar goela abaixo de seus pares, essa nova crença, se importassem com isso ou não. Imagino alguns diálogos sobre isso.

- Irmão Zebedeu! A Paz!
- A Paz, irmão Melquisedeque! Quais as novas, varão?
- Seu cabelo comprido, varão!
- O que tem de errado com minhas madeixas, varão?
-Não estão em conformidade com "a palavra", varão! Deveis cortá-los adequadamente!

- E meus cabelos me impedem em que de louvar?

- Que bom que tocou nisso, varão, pois queria falar sobre seus modos no louvor!

- O que há de errado com meus modos, varão?
- O irmão se remexe muito, balança demais o corpo, varão. 

- E não pode isso, varão, por que razão?

- Acaso não sabeis que o vosso corpo é o templo do "espírito santo", irmão? por que blasfemais desse modo, escandalizando o "povo de deus"?

-Não, não sabia disso. Mas irmão, o irmão tem reparado no comprimento do cabelo da vossa esposa e vossas filhas?

- Que que tem o cabelos das varoas de meu lar, irmão?
- Curtos demais! O homem não deve vestir-se como mulher, nem a mulher, como homem! Está na "palavra". A propósito, o irmão brigou com seu barbeiro, que não corta mais a barba, irmão?

- Mas ué? E Nosso senhor Jesus Cristo (A paz, irmão!) não usava barba e cabelos grandes também?
- Não blasfeme, irmão! Quereis comparar-vos ao nosso Salvador?

- Não, irmão, longe de mim, fazer isso. Mudemos de assunto, varão! No próximo culto, após "a palavra", faremos uma koinonia santa na igreja. O que a irmão vai levar?

- Perguntarei à irmã Dorcas, mas creio que seja um abençoado suflê de couve flor. E a irmã Safira?

- Vi ela preparando uns bifes acebolados de carne vegetal, irmão! Uma bênção. A paz!

- A paz! Ô glória! Mas o irmão não sabe que pelas Escrituras, não deveis comer raízes?

- Misericórdia, irmão! Onde diz isso nos evangelhos?
- Está no livro de Gênesis 1:29: E de toda erva que der sementes, vos será por alimento! E cebola não é árvore, e vive debaixo da terra. É imunda, varão!

- E Cenoura, Batata, beterraba, Amendoim....?

- Nada! Se não diz lá, então não pode!

-Isso me faz pensar que...

- Sim! Se não foi citado, é porque se comer, é pecado, e se um irmão for flagrado comendo ou servindo, deve ser disciplinado, para sua salvação e para testemunho da igreja!

- Misericórdia, irmão! Eu comi muito isso!

- Deve pedir rebatismo, irmão, urgente!

- Mas se o irmão tomar café, vigia, irmão, porque café é droga que vicia, uma bebida do demônio!


- O sangue de Jesus tem poder, irmão! Não mencione essa praga, varão!

- Ô glória!

- O irmão tem faltado aos cultos. Vigia irmão!

- Minha mãe, está enferma, irmão. Tenho que....

- "Aquele que não legar pai e mãe por minha causa, não em ama verdadeiramente",  disse Jesus, irmão! Não devemos negociar com o capeta, irmão!

- Mas e o quinto mandamento, que diz para honrar pai e mãe, irmão?

- O sangue de Jesus tem poder, irmão! Diga amém!

- Mas o que isso tem a ver com o que eu falei, varão?

- Estou profetizando, irmão. diga amém!

- Amém!

- Faltou feijão, irmão! Diga com vontade! Não dê lugar à satanás, varão!

- AMÉM! Agora dê licença, varão. Tenho que visitar minha mãe doente....

- Vá na paz do Senhor, varão! Eu o verei no culto, à noite, então.

- Não irei, varão...[

- O quê? vigia, irmão! Apostatou? vamos convocar uma assembleia santa para jejuar e orar pelo resgate do irmão!

- Resgatar, como, varão? Eu apenas disse que não irei.

- Não dê munição pro maligno, irmão. Uma brasa se apaga fora do braseiro, varão. A igreja é o aprisco do senhor nesse mundo. O maligno quebra vareta por vareta se estiverem desgarradas. Aquilo que estiver ligado na terra, estará amarrado no céu, irmão. E a igreja é o lugar onde os anciãos e pastores ungidos profetizam e determinam a expulsão do maligno de seu corpo, irmão. Diga amém!

- Não digo. Amém significa que eu concordo com o que você diz, e eu só concordo em parte.

- ASTRASERRABAGAYAKAWASCACAGADURA PAPATÊUS PATATES ZAGURUMBAIASCA! Vigia irmão! Estou tendo uma visão, irmão! SAI DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE, TINHOSO! EU TE DETERMINO UMA LIBERTAÇÃO EM NOME DE JESUS!

- Menos, amigo. Fale normalmente, porque as pessoas estão olhando e não estão entendendo nada. nem eu.

- Eu recebo esta palavra do irmão em nome de Jesus, irmão. A paz!

- A paz, irmão. Tenho que ir tomar vacina...
- Vacina, irmão? Esta agulha do diabo que cravam na sua carne para inocular o mal no seu corpo?

- Não, varão. É uma prevenção...

- E o varão não sabe que há uma conspiração mundial que inocula câmeras e microfones pela vacina, em um chipe, que registra suas ondas cerebrais, e envia a um computador central nos Estados Unidos?
- Crendice, varão. É apenas um vírus desativado para formação de anticorpos contra a doença..

-O irmão sabe que será disciplinado por esse gesto, não sabe irmão? Não é para magoá-lo para para o seu próprio bem, por amor ao irmão...

- O varão esqueceu que não pertenço á sua congregação?

- PARANABRÁS PACABAÁS PARRACUTÍCULAS! Eu determino uma libertação aqui, varão! Diga amém!

- Vá catar coquinhos!

- Amém!
- Amém, varão!





sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Meus vizinhos, os macaquinhos



O condomínio onde moramos, faz divisa, no fundo, e na lateral, com um centro de pesquisas e tratamento de oncologia, um hospital do câncer. É um dos mais importantes centros de estudos desta doença maligna do país, uma referência internacional. Que bom, mas que ruim, porque o ideal seria que fosse um resort de seis estrelas, onde os visitantes e hóspedes fossem apenas turistas ricos, desfrutando momentos de lazer na companhia dos seus. Mas não é. A verdade é que na rua que liga o hospital à rua de cima, a minha rua (não é minha, de verdade, é apenas um modo de dizer, quero que fique bem claro, pois não quero que pareça a mim ter mania de grandeza). No trajeto de cerca de cento e cinquenta metros entre o hospital e o portão de trás, há um bosque. Diga-se, pelo bem da verdade, um belíssimo bosque, e para que seja um bosque com todos os direitos, sim, há neles animais, singelos e peludinhos, e também outros, bastante emplumadinhos. Segundo último balanço, encontrei: Uma Cotia, um casal de Araquãs, com seus pimposos filhotes, um lagarto Teiú, bem graúdo, Saracuras, Gralhas esplendorosamente azuis, um casal de Pica-Paus do penacho amarelo que fazem de um frondoso Cinamomo, a sua feira livre de corós, e claro, as estrelinhas da festa: Os macaquinhos! São cinco deles, com dois filhotinhos cujo corpinho deve ser do tamanho do meu polegar, mas somado à cauda, conhecida como rabo, deve dar cerca de um palmo e meio de comprimento.

São mansinhos, todos eles, especialmente os macacos, que já estão acostumados com as bananas que recebem todos os dias dos transeuntes, dos familiares que acompanham os pacientes, e investem as longas horas da espera alimentando e fotografando os peludinhos e os emplumados, como um lenitivo pelo tempo da espera. E assim, delicio-me nas horas que passo em frente às janelas, e vejo aquelas pessoas desfrutando de esparsos momentos de conforto, divertindo-se e divertindo os animaizinhos, com suas oferendas doces entregues em suas pequeninas mãos.

Penso na missão daqueles animaizinhos, colocados estrategicamente ali pelas mãos do Criador, para cumprirem seu propósito de anestesiarem a dor pela empatia aos que estão nas cadeiras desconfortáveis recebendo quimioterapia, ou nos leitos, sendo alvejados por luzes radiativas, por horas, dias e semanas intermináveis. É nesse cenário que agradeço à D's por ter criado os macaquinhos, os passarinhos barulhentos, e o vento que balança as folhas do bambuzal, e faz bailar os galhos do Cinamomo, e da velha mangueira atrás dele, e ao lado dela a já infértil Jabuticabeira, e a velha goiabeira que não dá mais frutos, e o trançado de folhas que permitem um cintilar dos raios de sol no amanhecer, todos feitos para confortar as almas cansadas, as que fazem companhia aos macaquinhos uns poucos momentos, e por muitas horas mais, junto ao leito dos amados que sofrem, lá dentro do hospital.




quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Café Cacique - A Boca Bendita das Priscas eras de GRAMADO

Pois enfim, e por fim, até que enfim, chegou a vez de falarmos dele, do único, insubstituível, da "boca bendita" e do ponto de encontro das contrariedades que simbolizaram o quiasma das turbulências antagônicas da verve citadina. Vou traduzir: O lugar onde adversários sentavam à mesma mesa, e saboreavam café acompanhado de torta de Ricota, Pastel, ou Sonho. Eram as guloseimas de seu tempo. Era neste lugar onde se articulavam campanhas políticas, ou se discutiam posições favoráveis ou contrárias a qualquer assunto que fosse. O lugar não era outro, senão o Café Cacique. A "Plaza política da Cidade Jardim das Hortênsias". O lugar mais democrático que já conheci. Rico e pobre se juntava pra chorar pitangas e falar mal de alguém, não sem dar boas risadas e fazer chacotas, uns dos outros.
Era lá que se reunia o afamado, difamado, e mal contado, "Grupo dos Onze". Um dia, até quem sabe, falaremos sobre o tal "Grupo dos Onze", mas por ora, reservo a informação apenas relatando que pelo menos quinze destes onde, eram, provavelmente assíduos bebedores de café no Cacique. Isso significa que era sim, um lugar de relevância no exercício da democracia brasileira, se compactarmos o Brasil, a Gramado.


O Café Cacique foi criado, segundo relatos que conheço, pelo empresário Cláudio Pasqual, proprietário do Cine Splêndid, cuja edificação encontrava-se  contígua, ou apensa, ou ainda melhor, grudadinha ao Café Cacique, pois como os filmes eram longos, e era necessário trocar o rolo do projetor, o que demandava alguns minutos, esse intervalo permitia que a plateia pudesse abastecer-se de umas guloseimas, no bar ao lado. Esta é a história que conheço, mas certamente haverá adição à ela tão logo leitores de priscas eras ativem suas memórias afetivas.

Não estou lembrado quem era o arrendatário antes de 1960, mas minha memória é mais nítida a lembrança do Lauri Casagrande, seguido por Otávio Rossi, se não me falha a memória. Depois vieram os irmãos Dirceu e Eloi Broilo. Os arrendatários seguintes, foram os irmãos Braun ( Clávio e Ireno), irmãos do saudoso Professor Elpídio Braun. Todos, naturais de Gravataí, chegaram em Gramado em 1971.

Tudo o que acontecia, a notícia passava por lá. Era uma espécie de Whatsapp da época. Mas era também o reduto do intelecto local, ratificado pelo jogo de xadrez. Há até a folclórica figura do saudoso Horácio Cardoso (pai do Odilon, Chico, Dionete e Suzete) que jogava xadrez. E xadrez, como sabem, é um jogo de paciência. Muita paciência. Só quem não tem paciência é quem assiste, e em alguns casos, dão palpite, se enervam, e... bem, o que contam é que disse, certa feita o velho Horácio, aos espectadores:
- "Assistir, pode. Dar palpite, pode. Mas mexer nas peças de quem tá jogando, não pode!"



Chess Masters, filme de Edward Winter, 1924

De outra feita, aos quais não mencionarei nomes, mas quem é contemporâneo vai saber, frequentava a casa, um piazote muito simplório, que pelo seu pitoresco aspecto, foi meio que, digamos, "adotado" por alguns beneméritos frequentadores, para diversão dos mesmos, e dele próprio, mas que de risada em risada, era abastecido de guloseimas, pagas por eles. Em todos os tempos sempre houveram os bufões, que se divertiam à custa dos miseráveis, mas que ainda assim, eram seus benfeitores. Conta-se um causo, não ocorrido ali, mas em lugar certo e não sabido, mas que bem ilustra o ambiente:
- "Havia um pobre homem, que entrava em uma taberna, onde bebiam e se divertiam, um grupo de jovens ricos do lugar. Assim que entrava, chamavam-no para uma das mesas e mostravam duas moedas: Uma grande e valiosa, e outra pequena e de menor valor, e mandavam que escolhesse, com qual delas desejava ficar. Ele sempre escolhia a pequena, de menor valia. E saía dali satisfeito com seu regalo. Um certo dia, um dos jovens o chamou em reservado e disse a ele que a moeda que ele escolhia, era sempre a menor e valia bem menos, e ele respondeu:
-Eu sei o valor das duas, mas se eu escolhesse a mais valiosa, ganharia uma única vez, e assim, escolho a menor, e ganho todos os dias, e desse modos, todos podem rir. E eu também!"
Só sei que o piazote vivia rindo. E todos os demais, também.

O Café Cacique era o reduto de decisões políticas, como falei, mas assim parecia ser, um ambiente neutro, uma zona desmilitarizada, onde ARENA e MDB, e antes disso, PTB, PL, UDN, PSD e outros mais, até mesmo o extinto (na época) PCB - Partido Comunista Brasileiro, o que só por menção, fazia arrepiar quem ouvisse. Mas lá dentro, quem governava era o café, os lanches, e camaradagem.
Depois dos Braun, passaram vários arrendatários, mas aos poucos o café foi definhando, e por fim, o prédio foi alugado para uma loja de roupas de couro, e nunca mais se ouviu falar do Café Cacique, senão pelas memórias de saudosistas feito eu e meus leitores. Que seja.


Foto: Arquivo Público Municipal






Álbum com 120 páginas para colorir

Álbum colorido

Desenhos sob demanda









 

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