quarta-feira, 21 de março de 2018

Entre nós e o mar



Eu moro num lugar privilegiado,aliás sempre morei, e até mesmo nasci num lugar assim, pois só o fato de ter nascido na Serra do Pinhão, na costa do Rio das Antas, e sair de lá vivo, já foi um privilégio imensurável. Pois é assim que é.  Não suficiente em morar em um lugar com tantas belezas, O Altíssimo estendeu sobre mim a generosa possibilidade de instalar minha pequenina e quase insignificante empresa, o meu empório, no alto de um edifício, no sétimo andar, que tem uma vista privilegiada e reflexiva. Privilegiada, porque tenho um raio de visão de cento e oitenta graus de uma parte central de Florianópolis,tendo em minha tevê de mil polegadas uma vista impressionante deste panorama. Daqui vejo, ao mesmo tempo, além do cemitério, o maior mangue urbano do mundo, o moro das tevês, o bairro da Agronômica e por fim, o mar.

Embora a foto de capa desta reflexão mostre a imagem, quero descrever um pouco daquilo que a imagem mostra dentro do que não mostra, mas faz-me pensar: a vida, a morte e as recompensas. A partir de minha janela,em primeiro plano, avisto o maior cemitério de Santa Catarina, o cemitério do Itacorubi, que parece uma cidade planejada vista do alto, e nas entrelinhas,  não deixa de ser, pois nos cemitérios, especialmente aqueles históricos, mais antigos e imponentes, é  possível reconstruir-se todas as etapas da história da arquitetura e dos costumes religiosos de um povo. Cada lápide conta uma vida,  e em cada rosto na porcelana pequenina fixada sobre a tumba, há  um olhar que busca o infinito, a eternidade, uma resposta silenciosa. 

O cenário a seguir é a recompensa pelo preço de examinar a morte antes de aportar à vida,as montanhas, a cidade, e o mar. Isso faz-me lembrar Jerusalém, onde, olhando em direção ao Monte das Oliveiras, há dois cemitérios: Um cemitério árabe, junto dos muros da cidade, escorrendo pelo vale do Cédron, assim descrito pela Wikipedia:

"O Vale do Cédron (em hebraico: נחל קדרון, em árabe: وادي الجز, "escuro") é um vale próximo de Jerusalém, descrito pela Bíblia como tendo grande significado. Também é chamado de Vale da Torrente do Cédron, devido a um fluxo continuo de correntes de águas por ocasião de enchente repentina nos meses de inverno chuvosos. Atualmente o nome dado à sua parte inferior, Uádi en-Nar ou Wadi al-Joz ("uádide fogo"), indica que é quente e seco na maior parte do tempo.

O Vale do Cédron se estende ao longo do muro oriental de Jerusalém, separando o Monte de Templo do Monte das Oliveiras. Continua ao leste pelo Deserto da Judeia, em direção ao Mar Morto. O assentamento israelense de Kedar está situado num cume sobre o vale. O bairro de Wadi al-Joz recebe o nome de árabe do vale.
O Vale é o local de muitos túmulos judaicos, inclusive o Pilar de Absalão, a tumba de Bene Hezir, e o Túmulo de Zacarias. Certa vez, a água da Fonte de Giom fluiu pelo vale, mas foi desviada pelo Túnel de Ezequias para prover água a Jerusalém. Atualmente permanece sem água mesmo no inverno."

Por que escolhi estas duas imagens para esse ensaio? Porque há um modelo de pensamento a ser construído dentro desta geografia, aparentemente sinistra, lembrando que se do lado da cidade, escorre, como disse, o cemitério árabe, descendo até o vale, já espelhado, subindo pelo Monte das Oliveiras, há outro grande cemitério, este do povo judeu. Então, se estivermos do lado do Monte das Oliveiras, olhando em direção à Cidade Santa,  assim como aqui, estando de minha janela, a olhar para as montanhas, a cidade e o mar, antes tenho que ver as pedras lapidadas e polidas daqueles que se encontram no meio do caminho. Esta visão faz-me lembrar que para chegar ao êxito, antes devo lembrar que no meio do caminho sempre existe a possibilidade do fracasso, uma vez que a morte foi o grande fracasso do Homem desde a sua criação. Percebo que para chegar a Jerusalém, que é o símbolo da promessa de vida, o caminho da morte está à minha espera, e devo atravessá-lo,mas como fazê-lo, sem perder-me no emaranhado sinistro que me separa do meu objetivo? 

A resposta é unica para todos os casos: Andando pelo caminho que corta a morte ao meio e encurta a distância à vida.  Compreendendo as palavras do Messias, que, olhando para Jerusalém disse que era O caminho, a Verdade e A Vida. Da morte para a vida há um único caminho chamado verdade, ao passo que da vida para o vazio há um largo campo chamado morte. Ainda assim, não há problema algum em contemplar este campo, na certeza que ele é apenas um obstáculo, mas que há um mar, uma montanha, uma cidade e uma Jerusalém para nos receber depois da jornada.
Shalom

terça-feira, 6 de março de 2018

A Gramado que pensa e pedala (e uma frase do Apolônio Lacerda no meio)


Retrato do Apolônio Lacerda, que foi citado no texto. Só por isso*

Eu precisava de um título que me permitisse juntar em um único comentário dois fatos entre ambientes opostos em Gramado: A Ciclovia e os novos Progressistas. São dois fatos que não chamam à atenção por particularidades que motivem debates pelos cafés da cidade, que são as tribunas democráticas onde se debatem de tudo e por todos, de futebol, à politica, de mulher bonita e homem com certos atributos, a fatos engraçados da semana. Só não se discute religião, nem se pede dinheiro emprestado, exceto pra pagar a conta do dia. Mas ainda assim são estes lugares onde se influenciam pessoas e se mudam votos. É assim que a democracia funciona em muitos lugares durante muito tempo. É assim que também meus singelos escritos são debatidos e se proliferam de boca em boca, de casa em casa de Gramado. E o melhor de tudo, é que, para minha honra e falta de modéstia, tem obtido o respeito de muitos. Até mesmo daqueles a quem eu critico. Claro que se de um lado, uns acreditam que eu seja propriedade deste ou daquele partido, e o outro acha que eu seja instável, volúvel, vira-casaca e que mudo de opinião, sim, de todos os adjetivos, o último pode embrulhar pra viagem, que eu levo junto, pois sim, mudo de opinião, isto é, mudo o rumo de minhas observações se aquilo que eu critico também tiver mudado antes, ou se eu for convencido de que esteja errado. Mudo eu e mudam todos, e assim é que deve ser, pois a imutabilidade é algo que pertence apenas à D-s e ninguém mais, mesmo porque, no hebraico, a palavra "Bará",não é "criou", no pretérito,como se traduz ingenuamente, mas "Criar", uma ação contínua, e como disse mais tarde Lavoisier, nada se cria, tudo se copia, então esse copiar nada mais é que a ação criativa das mudanças. Portanto, tudo muda, e ainda parafraseando Platão, "tudo flui", ou nas palavras de Apolônio Lacerda, filósofo de alcova, "tudo flói". Sendo assim, e para assunto de mais alguns dias, resta-me falar de dois fatos muito relevantes em curso em Gramado nestes dias. A Ciclovia, de Fedoca, e o novo caminho dos Progressistas, de Bruno Coletto.

Vamos à Ciclovia. Começo lembrando que Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, tem muitas particularidades, e uma delas, aqui relevante, é que foi a primeira cidade do Brasil a adotar as ciclovias como política de mobilidade urbana, e em determinado tempo, quando nem se falava nisso, teve a maior quantidade de ciclistas indo e vindo por este modo de condução, a bicicleta. O tempo andou e o ciclismo tornou-se indispensável no planejamento de cidades humanizadas. Gramado não fugiu à regra, e é de estranhar que entre tantos quilômetros de asfalto em sua Gestão, Nestor não tenha dedicado um único metro aos ciclistas, e antes dele Pedro, e antes dele Nelson, e antes Pedro, e antes Nelson, porque já neste tempo, o movimento das ciclovias crescia em cidades mais modernas do país. Então Fedoca, apoiado por militantes de movimentos ligados às questões de sustentabilidade, e leia-se também amantes de bicicletas ( a quem tanto insistem em chamar de "bikes"), que de pedalada em pedalada, curvaram a dorsal do Prefeito, e finalmente, a Ciclovia aconteceu. Investimento de baixo custo e alto valor, começou a juntar os gramadenses pelas pernas, sem os vidros e em duas rodas.

Evidente que uma ciclovia em Gramado é um investimento baixo, com peso político relevante,  mas aqui vem a parte chata da coisa: o clima e a topografia! O primeiro não favorece a mobilidade em duas rodas, especialmente em dias de chuvisqueiro atravessado, frio de congelar as costelas, e serração de não deixar ver um palmo adiante do nariz, ainda com o agravante do supra mencionado tema da topografia, em que aquilo que torna Gramado um encanto com jeito suíço, ao mesmo tempo em que a neve não é suficiente para a prática do esqui, tem a chuva fina e traiçoeira que deixa qualquer pista lisa e escorregadia como bagre ensaboado, além da dificuldade dos altos e baixos das ruas, que exige do ciclista (tá, do "biker") um esforço sobrenatural.

Por que eu digo isso sobre a ciclovia? Apenas para justificar se alguém me convidar a pedalar, e conforme disse ao meu querido amigo Fedoca, não posso pedalar por proibição de minha artrose, da distância que estou desta ciclovia (ainda que na frente de meu condomínio passe uma ciclovia que liga vários bairros com o centro), e pela principal e mãe de todas as razões:sou vadio e véio! Mas que prosperem as ciclovias em Gramado. Não eram trezentos, nem estamos em Esparta, mas foram quatrocentos notáveis entusiastas que lotaram a ciclovia de Fedoca em sua primeira convocação. É pouco, mas é muito diante que que seus antecessores já haviam feito. Então, se seu projeto de atualizar ( tá, fazer um "update") do comportamento urbano de Gramado tem que começar por uma ciclovia, que seja. A escada de Jacó não era uma rampa. Subia-se e descia-se degrau por degrau.O primeiro deste projeto já se materializou: a ciclovia!

Mas não paro por aqui, pois tem mais. Tem o novo direcionamento dos Progressistas, aquele  onde os coronéis são trocados pelos debatedores. O Progressistas que elimina discursos inflamados e acentua o debate de ideias, mês a mês, semana a semana. Este o Progressistas com estilo de um Mestre em Direito Internacional e não de  tonitroantes oradores sobre caixotes de batata, embora as batatas continuem fazendo parte desta base de debates, seus caixotes servirão para o fim que foram fabricados: carregar batatas e não servirem de palanque para emocionar multidões. Bruno e sua equipe,  pouco a pouco começam a desenhar um movimento que propõe debater Gramado, e não apenas criticar o governo, o que certamente vai acontecer e deve acontecer, e precisa acontecer, pois se não se mostrar como oposição, não terá como alcançar novamente a posição de situação se e quando voltar ao poder. Parece que por fim alguns raios de sol entre as nuvens dissipadas pelo vento das mudanças começam a despontar uma aurora floreada de ideias, que evidentemente haverão de surgir nestes debates, como no saudável hábito de pedalar pelas ciclovias, além de caminhar pelas calçadas, o que já se faz desde a segunda gestão de Dinnebier, onde, se não me falha a memória, tinha Fedoca ao seu lado. Confesso que gosto mais desse tipo de notícias para comentar, ainda que deem menos resultado estatístico no meu blog, mas como estabeleci como missão pessoal, levar meus queridos leitores e minhas perfumadas leitoras, a provocarem o debate pelas ideias e não pela rivalidade, e com isso pacificar Gramado politicamente, mais uma vez a modéstia me impede de puxar a brasinha pro meu assadinho na proposta de levá-los a crer que pensar não é um defeito dos loucos, mas um atributo dos livres.

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...