quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Três, ou mais palavras




O Amor

Amor é uma palavra "coringa", nos tempos modernos. Tudo é "amor": amor à alguém, amor à algo, amor reprodutivo, ou simplesmente prazeroso, tudo é chamado de amor. É uma palavra que necessita de um dicionário em cada situação, porque se encaixa em muitas situações.

Amor, para os gregos antigos, era organizado em quatro capítulos:

Eros - o amor do desejo

Fileos - O amor entre as pessoas em si

Storge - O amor da necessidade de filhos pelas mães

Ágape - O amor universal.

Já os hebreus, tinham uma palavra: Ahavá, que significa: "doar-se". Nesta leitura, amar não é carregar baterias para servir-se mais tarde, mas descarregar a própria bateria, sem nada esperar em troca, porque aquilo que é dado em troca, deixa de ser Ahavá, mas passa a ser sobrevivência, ou até egoísmo. Assim, quem ama, simplesmente ama, independente do julgamento de quem é amado, pois assim como o vaso não pode julgar as mãos do oleiros, o que é amado, não pode dimensionar a extensão do que ama.

Ahavá é um paradoxo, porque aplica-se ao que ama, com a mesma intensidade com que é aplicado ao que é amado, com a diferença de que quem ama, tem obrigação de amar, mas o que é amado, é livre para decidir se também deseja amar.


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As disputas

Nunca fui bom em esportes, talvez, por duas razões: porque não tenho nenhuma habilidade, e a segunda, em razão da primeira, eu nunca venceria uma disputa.

Levei isso para a minha profissão, e por isso, nunca participo de concursos, porque me assusta a ideia de gostar de ser melhor que os outros. Não sou. No entanto, acredito em ser melhor hoje, do que fui ontem, e amanhã, desejo pensar que farei melhor do que faço hoje. Não por mim, mas pelos que dependem da qualidade daquilo que ofereço.


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Liderança

Por que as pessoas, religiões, partidos, tem tanta fixação por liderança, formação de líderes, vencedores. Não isso exatamente o oposto do que ensina a Bíblia, sobre mansidão, humildade, docilidade, e vontade de servir?

Não é mais nobre o que serve, do que aquele que se põe a fazer com que outros o sirvam?

Desejo de ser líder, e buscar especialização nisso, é a parte obscura do caráter, que pesará no dia do julgamento final.

Maior é aquele que encontra na mansidão o seu equilíbrio, do que o que anseia por subir à tribuna e vociferar palavras de ordem, para que os inertes as repitam.

Buscar o louvor próprio é temperar a água com sal. Não sacia a sede em tempo algum. O poder é água salobra. A mansidão é água da fonte mais limpa.


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Humildade

Ser humilde não é falta de capacidade. O humilde não é o mais fraco, mas o mais prudente. A humildade é um preventivo da humilhação. É incomum alguém vangloriar-se de ser o mais humilde de um grupo, ou corporação, pois é mais bajulado aquele que é notado por sua protuberante presença no grupo. 

Todos apreciam a luz do candeeiro, mas ninguém tece louvores ao óleo que alimenta a chama. Não há luz sem combustível. Não há mérito no pódio, sem o que correu ao lado, e não alcançou aquele lugar. 

Ser o número dois ou ocupar a última posição, não faz nenhuma diferença ao que alcança o destino. A porta das realizações não se abre apenas para o primeiro, mas para todos os que não desistirem de entrar por ela. Ser o primeiro, é apenas demonstração da ansiedade expressa pela vaidade ao olhar para trás.




domingo, 22 de agosto de 2021

O Velório da Atabarildo


(Ficção)
Pacard

 Pous o Atabarildo atravessava uma crise existencial das brabas, côusa de reza braba para  aliviar o lombo, completamente desenxabido, abichornado uma barbaridade. Andava de um lado a outro com a cuia vazia na mão, sem perceber que nem tinha cevado o mate, como fazia desde tenra idade, lá em priscas eras, quando ainda era um piá largado no mundo, trepador de pinheiro, e pescador em sanga. Desde os tempos em que tinha gosto pôlas côusa, e como dizem os "carça larga", "de bem com a vida". Como dizem as moças, "um piá faceiro!".

Entrava ando, saía ano, e as côusa rastejavam feito lesma, na sua vida. Não era má pessoa. Era até bão cos alimár,  zeloso com a lavourinha que sameava e carpia todos os dias, e com os parcos caraminguás que ganhava, fazendo um biscatinho aqui e outro ali, fazia sobrar um tantico pra comprar uns caramélo  pros baguris da vizinhança, ou tomar uma cervejinha preta nos domingos à tarde, lá no bolicho do Jaguaré. 


Como não era afeito ao truco ou o carteado, de modo geral, nem gostava de falar bobajada desrespeitosa, acabava por ficar solito num canto, perto da porta, de adonde bombeava a paisagem, e matutava sobre a vida. Esse era seu mote: "Matutar"! Atabarildo matutava em tudo, e assuntava, quando encontrava quem lhe fizesse par, em quaje tudo também. Das efemérides, à pecicolojia.  Não era letrado, mas lia os almanaques que lhe caíam à mão. Lia devagar, sílabando as palavras, pois fora até o primeiro ano da escola, mas isso não lhe impedia de buscar sabedoria nas letras, parcas e custosas, mas se esforçava para compreender os mistérios da vida e das palavras. Assim, era procurado para dar respostas por quem sabia menos que ele, o que não era sobremodo incomum no lugar.

Atabarildo, por não se associar aos beberrões, pouco era chamado para outros feitos, e costumava isolar-se voluntariamente, para observar o povaréu, onde quer que fosse, e assim, se divertia, ao seu modo também.

Atabarildo era um sujeito prestimoso. Nunca negava um obséquio, um benefício a quem quer que fosse, e muito raramente, pedia devolução dos favores que prestava. Não que não tivesse necessidade, mas nas vezes em que buscava uma gentileza, à quem havia outrora, estendido a mão, e dado até um braço, não obtinha recíproca, e assim, passava se conformar, enquanto do outro lado, achavam que ele estava ali mesmo era para servir o mundo, e que fosse lamber suas próprias chagas, quando a dor lhe assoberbasse a alma. E assim era.

Atabarildo era solito no mundo,  mas apesar de ter uma família até numerosa, não participava das prosas familiares. Não que não quisesse, até que gostava dos circunlóquios loquazes da piazada saltitante, mas aos poucos, fora se tornando descartável, e à medida em que o tempo corria, tornara-se invisível, nulo, um estorvo. Ao menos era o que lhe parecia ser. Não era mais convocado a dar conselhos, não o cumprimentavam mais, e só se comunicavam com ele por gestos e olhares, duros, gelados, mofados, e rancorosos. Não que Atabarildo  fosse um santo ou mártir. Não era. Era apenas o Atabarildo, mas quem nasce pra Atabarildo, jamais chegará à coisa alguma, que não seja apenas ser um "Atabarildo". E a quem ao feio despreza, odioso lhe parece cada dia mais. E é assim que se constroem os muros encobertos de espinheiros, para quem nem mesmo os gatos subam às suas costas, nos passeios da madrugada, vadiando e ronronando à espreita de gatas vadias. Muros espinhentos não gostam de gatos, e pessoas de alma de pedra não gostam de Atabarildo transparentes, de alma vazia.

Certa manhã, Atabarildo acordou disposto, cevou seu mate, e apanhou, numa gaveta, papel e lápis, e com os garranchos primitivos que conhecia, escreveu um bilhete, com os seguintes dizeres:

"cOnviTe pÁra o vElôreo do atAbaRildO  fOrtuna"
cOnviDamoz vÓsa cenHoriA páRa o velóreo do estinTo AtAbarilDo  fOrtuNa

que Vai acontSSer no dOmingo de Tarde (escolheu essa data, pra que ninguém tivesse desculpa para faltar), no BolixO do jAguarè.

bEbida de gRátiz pÁra toDoz.


Feito isso, deu de mão à um martelo e um preto torto, e garrou rumo ao bolicho do Jaguaré. Lá, pediu licença, e afixou junto à entrada, de modo bem visível, o bilhete, para que todos lessem. E tomou o rumo de casa, sem dizer uma palavra.

Em poucas horas, o bafafá espalhou-se pelo povoado, e imediatamente as pessoas se desocupavam de suas lides, pois a notícia era mais importante, até porque carregava um quê de mistério, pois quem anuncia o próprio velório, ainda em vida, a não ser que tenha propósitos nefastos em mente.

Compadre Adenor, o intendente substituto do povoado, foi convocado para ter com Atabarildo, e saber do intento do pobre, não que isso importasse, mas não era de bom tom saber de antemão de um velório.
Atabarildo o recebeu com uma cuida de mate, e ao contrário do que pensara o intendente substituto esticava a mão para receber uma cuia de mate, e a prosa rolou solta até o entardecer. Não se falou mais no assunto, e Adenor não tocou numa palavra com ninguém, pois estava de acordo com o que ouvira de Atabarildo.

Chegado o domingo, missa pela manhã, um churrasco ao meio dia no salão da paróquia, e lá estava o Atabarildo, saboreando sua costela com farinha, e contando causos à rodo, distribuindo caramelos pra pixotada, e piscando pras moças, fazendo-as rir em um isto de nervoso e expectativa, pelo velório de logo mais.

A tarde chegou, e lá estava o bolicho apinhado de curiosos, com flores, as carpideiras alinhadas, com seus lencinhos bordados, o Jaguaré, passando com uma bandeja de pastéis, vendendo à rodo, e numa mesa comprida, um arranjo de flores, tendo ao centro, um vazio, que tinha a forma de um corpo, e em lugar deste, apenas um bilhete:
" AtAbariLdO FortUna, sAudAdez Eterna!"

Barbaridade! mas que disparate. Isso haveria de ter uma explicação plausível, e sim, tinha.
Atabarildo abriu o povaréu em duas colunas, e bem vestido, com uma flor na lapela, achegando-se ao local do corpo ausente, pede que lhe sirvam uma cerveja preta, e de pé, segurando uma flor, começou a falar:
......
Continua........

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...