Não vou me demorar em contar a biografia de Elisabeth Rosenfeld aqui neste espaço, porque pretendo fazê-lo em livro, mais adiante. O que aqui relato são apenas alguns episódios onde eu fui personagem, junto da artista gramadense. Pitorescos, engraçados, sobretudo, humanos.
Éramos muito pobres, por conta de uma tragédia familiar. Eu estava com cerca de cinco anos de idade. Minha avó, Maria Elisa, e meu tio, Samuel Isaac, foram trabalhar na casa da artista Elisabeth Rosenfeld, que recém comprara um pequeno chalé, e um boa porção de terras em Gramado, na Vila Moura.
Samuel limpava o jardim, arrancava samambaias no terreno, e quando tinha folga, se juntava à mim para amassarmos barro e jogarmos em nossa casa. Era bem divertido. Foi uma lástima que minha avó não foi compreensiva com a nossa criatividade, e além de dar uma saudável surra no Samuel (não sei se ele chegou a apanhar por causa disso, mas bem que mereceu,se isso aconteceu), fez-nos limpar a casa. Ele. Eu apenas administrava o serviço de longe. Afinal, eu era o pitoquinho da casa e não tinha culpa de ser medonho. A culpa era dele, porque era mais velho que eu. Tinha dez anos. Isso tornava-o um homem. Tá certo, mijava na cama, mas homem que é homem, sim, ele mija na cama quando bem entender.
Nesse tempo, Elisabeth Rosenfeld contratou um tal de Olímpio, um gorducho bigodudo, bonachão, e hábil na velha arte de construir fornos de barro. Seu auxiliar era um rapazote muito boa praça, chamado Nelson Tegner, casado com outra flor de pessoa, a Maria Bohn.
Olímpio e Nelson, então, construíram um forno para queima de barro, de peças de cerâmica, que Elisabeth Rosenfeld começava a confeccionar. Também constríram um pequeno prédio, ao qual Elisabeth Rosenfeld deu o nome pomposo de "Atelier".
Pois foi naquele atelier que tudo começou. pelo menos pra mim e muita gente boa de Gramado dos tempos de antanho. Elisabeth Rosenfeld dava aulas de desenho e algumas de suas artes, como mosaico, cerâmica, e logo depois, também em madeira, entalhes e pintura.
Na foto abaixo, um mosaico de Elisabeth Rosenfeld, que retrata o cotidiano do Atelier. Este mosaico foi fotografado pela saudosa amiga Marília Daros, que mais tarde também trabalhou com Elisabeth Rosenfeld. Mas já será outro capítulo. O painel da foto estava fixado em uma parede de um dos prédios que abrigava o Artesanato Gramadense, criado então por Elisabeth Rosenfeld. Observando à esquerda, abaixo, na foto, há um menino encolhido mexendo numa gamela de madeira, selecionando lã para tecelagem. Este menino sou eu. Elisabeth Rosenfeld chamava as crianças da vizinhança para posarem de modelos em suas obras. Ali estão então Samuel, Maria Elisa, Ilse e Maria Bohn, e Nelson Tegner. São apenas ícones, mas eu sei quem são. E eu sou uma testemunha fiel. Portanto, se eu digo que eram ele, sim, era eles mesmo.
As figuras retratam os serviços dos tapeceiros, que era lavar a lã, tingir, cardar (desemaranhar), fiar, e finalmente tecer. A figura retrata ainda a paixão de Elisabeth Rosenfeld pelos pinheiros locais, e outras figuras do cotidiano.
Pois bem, isto é, nada bem, este mural foi derrubado. O que restava das construções foi demolido, e a história só resta nas lembranças dos que conviveram com ela e ainda sabem contar.
Mas chega de choradeira, vamos em frente. Esta foto abaixo, mostra a lavação e secagem da lã. Marilia descreve as pessoas da foto como possivelmente sendo Erich e Elisabeth Rosenfeld. Estava enganada. Não eram. Estas pessoas são, ao fundo, o velho jardineiro de Elisabeth Rosenfeld, "Seu Joanão Portulan". Um preto velho que falava com carregado sotaque italiano. Uma alma do tamanho do mundo. Não tinha boca pra tratar ninguém mal.E mais à frente, levantando o velo de lã pronta para ser estendida, era a minha avó, maria Elisa Dias Cardoso, que envergonhada, tentou esconder o rosto com o velo de lã. Eu sei disso por muitas razões, mas principalmente porque eu estava lá, ao lado de Elizabeth, quando esta foto foi feita.
Um fato curioso que ela e minha avó tinham o mesmo nome. Coisa de judeu. Elisa é abreviação de Elisabeth Rosenfeld, que é ainda Isabel, e que é ainda Elisheva, a esposa do Sacerdote Aarão, Irmão de Moisés, o Libertador de Israel.
A foto seguinte é um dos murais que Elisabeth Rosenfeld gostava de pintar com gouache, e depois encerar com uma mistura de cera de abelha, parafina, diluídas em gasolina. Também recolhida (a foto) do acervo de Marília Daros, a cena descreve o ambiente do Artesanato Gramadense nos seus dias de glória. E como sempre, o pinheiro Araucária, que foi também o símbolo do Artesanato Gramadense, por lembrar uma Menorá, figura em quase todos os trabalhos de Elisabeth Rosenfeld.
O Kikito foi uma brincadeira que Elisabeth Rosenfeld fez para espantar o mau humor dos empregados, que, por serem humanos, de vez em quando deixavam que o azedume tomasse conta do ambiente de trabalho. Elisabeth Rosenfeld deu jeito nisso de várias maneiras. Primeiro, pagando um salário justo e ainda uma "gorjeta" mensal, por merecimento. E todos eram merecedores, portanto recebiam sua gorjeta. Segundo, Elisabeth Rosenfeld criava ambientes saudáveis para o trabalho. Era disputada cada vaga disponível no crescente Artesanato Gramadense, não só pelos salários, como pelo ambiente familiar e prazeroso que havia entre os colegas de serviço. Terceiro, Elisabeth Rosenfeld criou um espaço para que sua equipe se reunisse no horário de café. Eram os quinze minutos mais disputados do turno. Debaixo de um quiosque coberto de sapé, os empregados se reuniam para contar piadas, rir muito, debochar uns dos outros, tomar café, comer merenda, e revigorar o ânimo. E foi aí que Elisabeth Rosenfeld criou um boneco muito esquisito, assexuado, com cabeça de sol e cara para os dois lados, semelhantes ao deus Janus, dos romanos, lembrando que bom humor não tem dia nem hora. Não havia nenhuma conotação pagã nem tampouco interesse nisso. Era por brincadeira mesmo.
Tão famoso ficou o tal Kikito, que tornou-se o avatar da empresa, que mais tarde, a equipe de vendas, que também era a mesma de pintura artística, chamada de "Recepcionistas", usava um elegante uniforme, e um kikito esculpido em madeira de jacarandá, pelo escultor Nailor Benetti, era pendurado ao pescoço, com o nome de cada uma. Era um crachá em três dimensões.
Outros Kikitos eram produzidos manualmente pela equipe de escultura, da qual, honrosamente fiz parte mais tarde, e vendidos aos turistas que lotavam o estacionamento do Artesanato Gramadense.
Lá por 1970, ou adjacências, quando surge o Festival de Cinema de Gramado, o kikito foi escolhido como troféu para os vencedores. Tornou-se o "Oscar" brasileiro. Até o início dos anos oitenta, era feito de madeira, por habilidosos escultores do próprio Artesanato (eu inclusive), e mais tarde, o escultor Orival Marques (Xixo) foi autorizado a dar continuidade. Era feito em madeira de Gonçalo Alves (Muiracatiara), belíssimos. Então, como tudo que é bom tem um fim, por alguma destas politicagens esdrúxulas, o Kikito passa a ser confeccionado em metal fundido, a um preço muito mais elevado, e morre desta forma mais um emprego em Gramado. E desta forma, um a um destes trabalhos foram sendo trocados por produtos industrializados. Um a um dos artesãos de Gramado foi sendo jogado para escanteio, e Gramado começou a perder a sua identidade.
Gramado fazia belíssimas malhas. Não faz mais. Gramado fazia belíssimos móveis. Metade das fábricas fechou. Gramado fazia tapeçarias originais. Duvido que ainda exista um único tear em funcionamento. Gramado Fazia elegantes móveis e acessórios de vime. Não faz mais. Gramado tinha uma praça onde o gramadense se encontrava para tomar chimarrão. Ainda tem, mas não se encontra nenhum gramadense lá. Gramado tinha uma Estação Férrea, que em poucas horas foi demolida. Gramado tinha orgulho de seu artesanato. Hoje tem vergonha e os esconde em guetos. Gramado tinha tantas coisas, que, mesmo que o progresso tenha acrescentado valores e qualidade, perdeu-se no afã de disputar beleza de fachadas e servir pratos mais cheios.
Contei esta história para lembrar que Gramado tem muita história atrás do brilho, e que para administrar esta história, para resgatar estes valores, para buscar devolver esta dignidade à sua essência criativa, urge que sejam colocados à frente do Turismo gestores que se comportem como gramadenses, antes de se comportarem como promotores burlescos. Urge que a essência que Gramado vá mostrar ao mundo seja original, autêntica, genuína.
Fica meu apelo, que é o apelo de muitos que me perguntam o que vou escrever que possa sensibilizar este novo Prefeito a agir como um autêntico gramadense, de quem descende, e menos como um partidário preocupado em acolher ideologias em lugar de essência. Urge que o prefeito que toma posse dentro de algumas horas tenha a percepção que está em suas mãos devolver à Gramado aquilo que seu pai, o primeiro Prefeito desta cidade, um dia sonhou.
Fica o meu apelo a que Fedoca, agora o Prefeito João Alfredo Bertolucci, honre sua história, e sua história é a honra de todos os gramadenses, tanto os que nesta cidade nasceram, quanto os que vieram depois, e esta honra e´este resgate à cultura, à história, à tradição e ao calor humano que Gramado demonstrou ao mundo ao longo de sua história.
E para que saibam que esta mensagem é destinada ao Prefeito, a imagem de abertura desta publicação presta uma homenagem ao seu Pai, Prefeito Walter Bertolucci, que tinha um imenso carinho por esta casinha do desenho. Este desenho é como os demais perdidos de Elisabeth Rosenfeld: tem uma alma guardada pelas lembranças dos que ali passaram um dia.

















