sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Prêmio Consolação - O PDT é unido



Vou ter que contar uma coisa de natureza pessoal, para abrir meu comentário, e para que faça sentido o que vou dizer. Se refere ao que tenho pregado aqui sobre pacificar Gramado, resgatar talentos, deixar pra lá divergências, e fortalecer a equipe contratando opositores, não por gesto de bondade, mas por questão de inteligência e respeito ao patrimônio turístico que Gramado representa.

Fui recentemente sondado sobre a possibilidade de assumir uma Secretaria de uma Grande cidade, em território brasileiro. Fiquei estupefacto, por diversas razões. Primeiro, porque eu não conheço a cidade, e para chegar ao escritório do Prefeito eleito, precisei usar o GPS para levar-me ao centro do Município. Segundo, porque eu era completamente desconhecido ao Prefeito ou à pessoa que fez a busca por currículos, e entendeu que o meu portfólio poderia oferecer algo ao Município. 

Já na primeira reunião, foi requerido que eu montasse minha equipe, levando pessoas talentosas comigo, e óbvio, que as procurei em Gramado, além de solicitar indicações do próprio Município. Mas, ao mesmo tempo em que eu tentava assimilar esta situação, completamente fora de minha referência pessoal, pois o único cargo público que exerci até hoje, foi de Chefe de Gabinete em Gramado, na década de 1970, eu procurava organizar minhas ideias para ser produtivo e corresponder ao chamado. Nada mais. Então, a ideia era estranha demais pra mim. E enquanto eu negociava com a equipe, e procurava identificar talentos e ajustar possibilidades, eu também consumia o outro lado da razão em imaginar até quando iria durar aquela situação. E eu estava certo. Infelizmente para minha equipe, e felizmente para o nobre povo daquela cidade, que sabendo da situação, voou no pescoço do Prefeito e perguntou á ele se naquela cidade tão rica em todos os sentidos, não haveria uma pessoa capaz de ocupar o cargo que ele destinara a um alienígena. E sim, claro que havia, e o Prefeito soube ouvir mais o coração do que a razão, e como foi pelo coração que foi eleito, educadamente desfez o convite, e nomeou um talentoso gestor local. Assunto resolvido.

O que tem aqui, no meu caso, e por isso posso comentar com cabeça erguida, é que meu portfólio e currículo foram avaliados exaustivamente, e foi por eles que fui chamado. Alegro-me com isso. Portanto, ficou claro para todos que não havia ali nenhum prêmio consolação à minha pessoa, e muito menos gesto de amizade para comigo, pois amigos mesmo nos tornamos foi depois disso, epla justeza dos fatos.

Gramado está com a mesma cara do Brasil: Expectante, e por vezes, estupefata! Tenho batido e rebatido na tecla que Fedoca não tem equipe, e pelos critérios que tem demonstrado, não conhece bem a sua própria cidade, pois não sabe onde buscá-los perto de sua própria casa.

Não me entendam errado, mas procurem entender o lado dele. Fedoca vem de uma remanescente política populista de uma esquerda que busca valorizar a sigla, acima dos próprios interesses e acima, ao que se pode perceber, dos interesses da comunidade. Desta forma, o PDT, vem se esfacelando a cada eleição que passa, tendo começado essa derrocada pela traição que a Ex- Secretária de Minas e Energia de Olivio Dutra, que recebeu este cargo por trair seu partido, o próprio PDT, e consequentes problemas que foram minando os pilares do partido, relegando-o ao plano de comer pelas beiradas de partidos maiores. 

Não há que se negar que o PDT ainda guarda grandes nomes, individualmente, entre seus líderes. Fedoca é um destes nomes. Mas está perdido. Está começando a gerar desconforto na sua base Peemedebista, como venho afirmando desde o primeiro artigo que escrevi aqui neste blog. Fedoca está começando a ficar só. O PMDB está sentindo na pele um gosto de jiló. Um gosto de arrependimento. Não aquele arrependimento por ter enfrentado o campeão do PP, Pedro Bala, mas o arrependimento por não ter ido sozinho, ou com os demais partidos que não tem tanta presença de votos, mas ajudam a esticar o tempo de rádio. É pra isso que servem os pequenos partidos, porque nem cargos relevantes eles recebem depois.

Quem sou eu para dizer quem Fedoca tem ou não tem que nomear. longe de mim. E se ele quer premiar um companheiro socialista de outro planeta e absolutamente desconhecido para comandar aquilo que Gramado sabe ensinar o Brasil a fazer, que é Turismo, que o faça. A caneta é dele. O poder é dele. O comando é dele. Nem eu, nem o PMDB, e muito menos os que perderam a eleição, tem direito de dar pitacos. Afinal, Gramado chegou no seu apogeu, no que diz respeito ao Turismo. Então, qualquer um pode tocar a pasta e a Autarquia. Não precisa sequer saber o nome dos lugares preferidos pelos turistas. Sendo do Partido, está blindado.

Fico pensando que Gramado tem cerca de trezentos hotéis e pousadas? mais que isso? Que tem milhares de estabelecimentos comerciais que prestam serviços ao turismo. Que tem duas faculdades próximas preparando gestores de turismo. Que o PMDB tem um exercito de bons nomes dentro deste elenco, mas o Prefeito tem que dar abrigo a um político que perdeu a eleição em um município que não tem absolutamente nada de parecido com Gramado, no que diz respeito ao turismo.

Não estou com isso dizendo que o homem seja incompetente. Longe disso. Até acho que seja, e que possa levar à Gramado uma bagagem que Fedoca sonha em resgatar: A Indústria. De fato, cerca de oitenta por cento da economia de Gramado é firmada no Turismo, seja de serviços ou de comércio. Daí o Prefeito está correto em buscar uma diversificação para esta economia, que naturalmente deverá ser muito bem estudada, saber se Gramado oferece esta vocação, enfim, Fazer bem feito para não transformar Gramado no equivalente à periferia de uma Capital.

Penso, como Gramadense, que Gramado merece esta consideração. Penso como político pensante, que o PMDB está sendo traído. Penso como cidadão, que o novo Prefeito deva ouvir mais quem O elegeu. Antes que seja tarde demais.



A Felicidade e as Obrigações Sociais



Já contei aqui que Natal nunca me deixou feliz. A culpa não é do Natal, mas das circunstâncias em que a combinação da felicidade pela data não sincronizavam com meu estado de espírito e condições sociais, financeiras, ou familiares em que eu me encontrava, lá nos tempos da infância, quando a data, presumo, deveria ter mais importância social.

Outro prazer comum, que para mim é quase alienígena, é praia. Isso mesmo. Praia! Eu não gosto de praia, mesmo vivendo por quase duas décadas em uma ilha com quarenta e duas belíssimas e convidativas praias. Também já morei a uma quadra da praia por outras três oportunidades. Ali do ladinho, de ouvir o barulho do mar ao dormir. Pois bem. Mesmo assim, eu não gosto de praia. Não entendam errado, porque eu acho lindo isso tudo. Acho saudável gostar de praia. Acho prazeroso caminhar na praia e dar um ou dois mergulhos na água fresquinha, e sendo isso possível, também limpa e balneável.

O que eu não gosto, não é o ambiente em si, mas as circunstâncias, e isso está indefectivelmente associado também às circunstâncias de minha infância. Mas não pensem que minha infância tenha sido parva, sombria, soturna. Não. Não foi não. Foi maravilhosa. E uma infância maravilhosa não é aquela vivida num conto de fadas, dentro de um castelo perfumado, sendo servido por fadas e se empanturrando de arroz doce. Não é só isso que faz uma infância feliz, prazerosa, saudável, mas ainda assim, passível de desprazeres comuns. E praia é um destes desprazeres, talvez incomuns, enquanto desprazer, mas frustrante, enquanto prazer não consumado.

Praia está associada a outra efeméride social que mexe com meu capítulo entediado: o feriadão!É aqui que meu capítulo íntimo extrema meu egoísmo e minha extrema insensibilidade ao prazer e satisfação alheios, porque sei que noventa por cento das pessoas que dependem do dia a dia para sobreviver, que vivem longe do litoral, odeiam praia e feriadões prolongados, e dez por cento, mentem! Eu explico.

Feriadão é ótimo quando você tem um bom emprego; quando você é funcionário público (bom emprego também); quando você mora em uma casa bem grande no interior, e nestas datas, pode receber parentes queridos e amigos de lugares distantes, para matar a saudade, jogar conversa fora, e rir muito, comer muito, brincar muito, então sim, feriadões são um pedaço do céu antecipado.

Gostar de praia, gostar de festas com multidões, ser feliz em datas determinadas, isso nunca coube em minhas opções de felicidade. Ser feliz é um estado individual, e promover a felicidade de outras pessoa, é um estado social. Mas bem diferente de proporcionar felicidade, e impor alegria fácil de bebedices e gritos vazios em festas que não condizem com aquilo que desejamos ser naquele momento. 

Gostar de praia só porque outros gostam, deixa o mar muito salgado na alma,e não nos deixa felizes. Gostar de festivais iluminados, só porque convencionou-se entrarmos em Êxtase naquele momento, é mais vazio que esvaziar-se de mundo e preencher-se de Universo ao contemplar a noite estrelada. O estase é mais pleno que o êxtase, quando somos plenos de coisas a sonhar, quando somos repletos de planos e perguntas, e principalmente quando nos entregamos ao sono na mesma hora que nosso corpo nos solicita repouso. Assim então somos livres. Assim então podemos ser felizes.

Praia é ótima, quando você mora longe do litoral, na serra, que tem que suportar dez meses de frio intenso em sua casa, na Serra, mas tem sua vida organizada financeiramente, para que possa separar um mês com a família e alguns amigos dos filhos, e levá-los junto à sua casa de praia, confortável, arejada, pertinho do mar, e ali, à sombra de uma bela garagem aberta, comer melancia, tomar chimarrão, sua cervejinha (sua, e não minha, porque odeio bebida alcoólica), seu refresco (esse sim, faça um pra mim também)e depois de um lauto churrasco, com arroz doce de sobremesa, possa esticar-se numa rede embalada pela brisa do mar, e deixar-se levar pelo ócio prazeroso, chamado "Férias na praia".

Mas eu nunca tive nada disso. E a grande maioria das pessoas com quem cresci, também não tinham, porém, se assim fosse, estaria bem, porque os amigos não seriam segregados pela condição social, haja vista que dentro do grupo, sempre havia quem contava com brilho no olhar, de sua expectativa das férias,da casa de praia, dos amigos de outras cidades, enquanto os mais pobrezinhos ficavam de olhinhos tristes, olhando para o infinito, e imaginando se eles não poderiam ser os convidados da vez para este farnel de delícias veranescas.

Mas não pensem que tudo era tristeza, repito, não era não. Depois que os mais abastados já tinham ido embora, sobrava para nós, os mais pobres, a fartura das matas, as frutas silvestres, as guabirobas, araçás, cerejas, goiabas (cada uma a seu tempo e estação, para nos confortar do feriadão de época também), e outras delícias, como nadar nos açudes, correr da cachorrada enquanto apanhava frutas nos pomares alheios (pronto, descobriram que para ser feliz um menino pobre precisa ser meio ladrãozinho de frutas suculentas em pomares de vizinhos), cujos donos espiavam em segredo e riam à "tripa forra", aguardando o momento em que estávamos já fartos, para sair do esconderijo e dar-nos um "cagaço", vendo de longe a gurizada que respingava barranco acima, barranco abaixo, e deitava cabelo mundo afora para escapar do "tiro de sal na bunda".

Fui conhecer praia aos treze anos de idade. Nesse tempo, não se construiu em mim apego pela água salgada e areia grudenta, tão intenso quanto o cheiro da água do rio onde aprendi a pescar, ou do trinado de pássaros misteriosos pelas matas onde deitava sem medo à sombra de uma caneleira, e sonhava com fadas, princesas, Julie Andrews, e um pé de goiaba serrana bem carregado, só pra mim. Sim senhor. Dá pra ser feliz sem praia ou feriadão. Basta fechar os olhos à uma sombra de uma árvore frondosa, e construir castelos para conquistá-los, montado num alazão branco, levando na garupa uma princesinha de voz suave e braços macios. E eu encontrei a minha, quase assim. Quase ali, a poucos dias depois da infância. E nem precisei de casa na praia para ser feliz. Busquei a felicidade por puro interesse. E continuo interessado.



quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Roda Fiel - Fedoca e o número 12



Eu dirijo como um velho (Dãaar..). Sou aquele sujeito que lê as placas, que ultrapassa com extremo rigor na cautela, que cumprimenta o guarda, que fala do tempo com a velhinha na mercearia. Sou aquele tipão que demonstra interesse em ouvir as queixas dos velhinhos, e ainda estimulo a que abram o coração, se rasguem de falar mal do governo, das noras, dos genros. Sim senhor. Sou quadradinho, quadradinho. Só não uso bigodinho "demodê" (aquele fininho, na ponta do beiço), porque aí seria demais. Outro dia resolvi deixar, e passei o dia ouvindo Orlando Silva e Nelson Gonçalves, às lágrimas. Raspei de vereda e segui a faina e continuei matutando sobre a vida. 

Mas em suma, tenho cara de sério. Muita gente acha até que sou brabo, com essa cara que mistura Jerry Lewis, com o Papa Francisco, e vem me pedir bênção, ou me pedem uma imitação do "Professor Aloprado". Mas tenho que confessar: Nem católico eu sou, portanto não aperfeiçoei a imitação do velho Bergoglio, e já faz muito tempo que vi o filme, e nem lembro mais dos trejeitos do maluquinho de Hollywood. Se fosse o Mazaropi, até vai, mas era requebrado demais pro meu gosto.

Contei essa lorota toda para ilustrar o quanto eu sou observador da vida alheia, das coisas, como gosto de construir metáforas para ilustrar coisas do cotidiano e do comportamento humano. Faço isso também com meus ensaios Teológicos. Uso metáforas. Elas explicam tudo direitinho aquilo que os eruditos não foram capazes de ilustrar. Daí, se meu leitor não puder entender o que eu escrevo aqui, é porque eu não fui suficientemente inteligente para me fazer entender. Não se turbe vosso coração, pois.

O que eu observei desta vez, que estou embromando tanto para contar? Um caminhão! Isso mesmo. Um enorme caminhão. Acho que deveria ter uns seis eixos. Isso significa doze rodas. Não apenas doze rodas, mas doze rodas enormes, que assobiam quando o caminhão anda. Coisa impressionante. Daí, numa destas viagens que fiz, cuidando das placas, dos pardais ( e mesmo assim foram mais ágeis que eu, pois as multas apareceram como num passe de mágica), eu vi, numa autopista,uma destas enormes carretas, tombada. Lá estava ela, com a bunda à mostra e as doze rodas viradas pra cima. O pneu dianteiro furou, ou o eixo quebrou. Algo assim.

Não sei como terminou a tragédia. Não fico parado em cenário de desastre para saber detalhes. Sou fraco demais pra isso. Mas soube que fora o pneu furado. Fiquei pasmo. Um único pneu, entre doze, foi capaz de promover tamanho estrago. Pense bem. UM pneu apenas. E os outros doze pneus enormes, não levantaram UM DEDO que fosse para mudarem o comportamento daquele pneu rebelde.

Pensando bem, essa historia não é nova. Houve um caso onde de doze pessoas,uma fez um estrago tão, grande, mas tão grande, que mudou a historia da humanidade. Um só. Só um.

Antes disso, outros doze irmãos, bancaram os velhacos com um dos doze. Pensa bem: irmãos sacaneando irmãos. Isso deve ser uma fábula. Nunca vi um irmão sacanear outro irmão, nem de brincadeira, que fosse. Pois bem, nesse caso, o único irmão que prestava, livrou o couro dos outros onze, mesmo tendo motivo para tirar-lhes o couro e fazer deles tapetes para seu palácio. Mas não fez.

Aí eu penso em Gramado. Hoje tem, algo como umas dezessete Secretarias, a Prefeitura, pois não? Aí eu penso de novo, que o novo prefeito prometeu diminuir o numero de Secretarias e Cargos Comissionados, os CCs. Muito bem. Então, vai que o homem tenha lampejos duodecimais e pense que se tiver doze Secretários, Ele se tornaria...não. Isso não é do estilo dele. Sejamos justos, embora imperfeitos.  Não tem características messiânicas.  Mas vamos, imaginar que sim, que deixe o belo número de doze Secretarias. Bem. Se minha lógica estiver certa, e ele queira prestar uma homenagem ao cabalístico número do seu Partido, então, doze é o número ideal. Dá bom marketing. Porém, sempre é bom lembrar, que mesmo com doze boas rodas rodando, se uma apenas estiver com eixo trincado, ou furar durante a viagem, nenhuma das outras onde vai ser capaz de segurar.

Aí a dor de cabeça do Prefeito vindouro em formar seu quadro, pois já descobriu que mesmo entupindo o alto escalão de amigos mais chegados, tem mais cargos que amigos em seu partido. E o resto do caminhão, leia-se PMDB, tem que ir para o lado que as duas rodas da frente direcionarem a carreta.
Vale lembrar que mesmo que tenha duzentas rodas em cem eixos, serão sempre as duas rodas dianteiras quem orientarão o veículo, mas que se uma única roda se desviar do eixo, o desastre é certo.

Agora é bom pensar, pois há duas rodas neste carro com marcas e padrões diferentes. Qual será a normativa que ajustará ambas para o equilíbrio e segurança da carga? PDT e PMDB podem ser aliados em algumas coisas, mas suas ideologias e modelos de gestão são absolutamente diferentes. São inimigos históricos no Rio Grande do Sul. Será que Gramado pode dar esta lição ao Brasil, de água e azeite amalgamados tão harmoniosamente?



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ênio, Topo, e Eu





Ênio, Topo e eu.

Éramos três. Ênio, Topo e eu. Ênio era cerca de uns oito a dez anos mais velho que eu, que era uns dois ou três mais velho que Topo. Este apelido era a forma econômica de “Topo Gigio”, um personagem que era um ratinho muito esperto, criado por uma professora italiana, e que fazia muito sucesso com a criançada por suas maneiras dengosas de falar, além de ser muito engraçado também. Então, como meu amigo não era de muito elevada estatura, ou sei lá por que razão, deram-lhe, entre outros apelidos, o de “Topo”. Pegou.

Ênio, o mais velho, era um sujeito soturno, sinistro, misterioso, mas não era má pessoa. Ao contrário, tinha um coração generoso. Certa ocasião fomos caçar passarinhos (naquele tempo caçar passarinho era uma ocupação de afirmação de virilidade aos meninos, e também próprio da cultura italiana que colonizou a região. Então, sem nenhum constrangimento, caçávamos passarinhos. E sem nenhum constrangimento, eu tinha uma espingardinha de pressão, que atirava chumbinhos. Ênio foi comigo caçar os passarinhos. Teria caçados muitos passarinhos, se meu parceiro não tivesse sido justamente o Ênio. Ele prestava atenção em mim e via quando eu mirava num passarinho. Ele fazia o mesmo, mas atirava antes, e a uns dois metros do bichinho, espantando-o. Espantou todos, e voltamos pra casa “sapateiros”, expressão usada para definir alguém que não logrou resultado em alguma coisa, zerou. Assim era então Ênio.

O que tinha de exótico eram seus estudos. Mexia com assuntos que não permitia que perguntássemos nada. Coisa de guri bobo. Estudava assuntos esotéricos, deixava meio que transparecer que fazia isso, para garantir o respeito por si, mas não permitia que ninguém mais soubesse do que se tratava. Não era proselitista. Fora isso, Ênio era um “bon vivant”. Gostava duma cerveja, uísque e duma farra. Era parceiro em tudo. Menos em matar passarinho. Jogava futebol, era, parece, goleiro. Tocava guitarra (e como tocava mal), e bateria (um pouco menos pior). Fez parte de uma banda na cidade, que durou pouco.

Ênio era um notável desenhista projetista. Numa época em que não havia arquitetos na cidade, apenas engenheiros (e engenheiro treme ao ver um lápis, segundo os arquitetos, e estes, segundo definição dos engenheiros, é um sujeito que não foi bicha o suficiente para ser decorador, nem macho o bastante para se tornar engenheiro), Ênio, que não era bicha, engenheiro, arquiteto e nem decorador, tornou-se o melhor desenhista do gênero da cidade.

Tinha ainda uma virtude, que ninguém jamais decifrou o método: era capaz de entrar se pagar em qualquer lugar, principalmente bailes de interior, bailes da colônia. o homem era dotado de uma habilidade de convicção tão grande, que chegávamos ao baile, um grupinho, duros, só tínhamos uns trocadinhos para um refrigerante ou uma cerveja, mas se pagássemos o ingresso, passaríamos a noite à base de água da torneira do banheiro fedorento. De olho arregalado, em silêncio, 

Observávamos com atenção os movimentos dignos de um malandro junto aos porteiros. Ele gesticulava, ria, fazia movimentos, e logo já ganhava um cigarro de um, fogo de outro, dava umas três ou quatro tragadas, virava-se para onde estávamos e fazia um geste de chamamento com a mão. Íamos em fila, cabeça baixa e olho arregalado, reverente e respeitoso com os porteiros que nos apressavam para disfarçar a desobediência aos patrões da festa. Uma vez lá dentro, em pouco tempo, Ênio aparecia com cerveja e refrigerante para todos. Sem dinheiro.

Topo era o amigo sério do grupo. Moderado, ponderado e exageradamente honesto. Ético até o fígado e um pedaço da pleura. Não admitia um passo em falso de ninguém. A pobre alma vivia como coração na mão em nossa companhia, pois tudo o que não se pode encontrar num grupo de guris metendo os pés pelas mãos é ética. Honestidade até sim, mas ética, assim ética mesmo, deixava-se a desejar. Seria pior, se não fosse o “grilo falante” ao nosso lado. Ríamos muito. De tudo e também de nada. Ríamos de tão bobos que éramos. Aí quando não havia do que rir, ríamos disso. Só pra ter do que rir.

Topo trabalhava em um Banco. Era o queridinho dos colegas por esta seriedade. na idade, tinha lá os seus dezesseis anos. No juízo, uns cinquenta. Na sabedoria, oitenta e cinco ou oitenta e seis. Isso o tornava o chato do grupo. Adorável xarope. Mas era o nosso xarope. onde íamos, ia junto. Se fosse para subtrair frutas em algum quintal, ia junto, mas não sem antes nos prevenir de possíveis consequências, do pecado do roubo e especialmente do que fazer se fossemos mordidos pelos cachorros da casa. E depois o fruto da façanha era dividido igualmente, tudo com ética, sob a observação dele, que já era versado em contabilidade na época.

Um dia, Ênio tomou um tiro bem no meio da cara. Lógico que foi pra sacanear os amigos. Morreu poucas horas depois, por gozação. E a cena que lembro é de nós dois, Topo e eu, sentados num banco da praça, os dois, onde antes sentávamos três, olhando o vazio da noite, os carros que cruzavam indiferentes, e a noite que desfez o trio.

Memórias dos eventos de Gramado - I





Memórias dos eventos de Gramado - I

Festival de Cinema - Fearte - Festival de Teatro Estudantil - Grêmio Machado de Assis


Não tenho o menor interesse em me tornar historiador minucioso dos Festivais de Cinema de Gramado. Nem lembro com exatidão das datas que ocorreram alguns episódios, mas lembro dos episódios em si. Lembro também de outros eventos com os quais tive alguma relação, seja na condição de coordenador ou colaborador, ou como participante convidado ou pela porta de trás (penetra). São histórias pitorescas, que não tem nenhuma intenção de macular os personagens, antes um divertido compêndio de recordações de minha juventude em Gramado.

Os primeiros eventos de que lembro ocorreram nos verões perfumados de Gramado, onde passei a maior parte da vida. O principal era a Festa das Hortênsias, que ocorria creio que nos meses de Dezembro ou Janeiro, em datas alternadas. Não me saem da memória o perfume das hortênsias azuis que alcatifavam as colinas, as ruas, as frentes das casas em toda a cidade. Associo o clima temperado, as manhãs frescas e as tardes quentes ao gosto de melancia, cujo perfume quando cortada também era lembrado ao cortar a grama dos jardins.

Um dos espetáculos de que mais gostava era da Esquadrilha da Fumaça desenhando hortênsias no céu, enquanto misses desfilavam sobre carros alegóricos para delírio da multidão em torno da avenida principal. Penso que os anos eram por volta de 1967, 68. 

Outro evento pertencente à programação eram as corridas de carros antigos, as "baratas" ou "carreteras". Lembro de um nome de piloto famoso: Catarino Andreatta. Um "às", ídolo da mulherada e da rapaziada que sonhava pisar fundo numa "carretera", pois o máximo que conseguiam era acelerar as DKW's, os Simca Chambord, os Aero Willis, as Vemaguetes e claro, os "Fucas". Rural Willis era o carro de passeio das familias medianas e como eu gostava de andar nelas. Lembro do Marcilio Cardoso (Tio Março), pai do Alexandre, Caetano e Manoel Inácio, que enchia sua Rural com a garotada e saía a passear pela cidade. 

E as inesquecíveis provas hípicas na Carriére Municipal, eram belíssimas. O local era todo adornado com nilhares de hortensias que floresciam á volta do prado onde eram realizadas as provas, além dos ornamentos burlescos próprios do evento em si.

Era montado um pórtico à entrada da cidade, que recebia um séquito de cavaleiros, frenteados pelos Dragões da Guarda da Brigada Militar, seguido pelos cavaleiros dos CTG's.

Os sorvetes eram vendidos em dois lugares: Café Brasil e Café Cacique. À noite de um dos sábados, artistas famosos se apresentavam no Lago do Parque Hotel (Joaquina Rita Bier), junto com um balé da capital. Agnaldo Rayol é um de quem lembro bem. As mocinhas quase despedaçaram as roupas do pobre cantor.

Lá por 1969, começou o Festival de Cinema, como um evento complementar da Festa das Hortênsias. Primeiro foi uma mostras, mas quando se tornou oficial, passou a ser um centro de interesse cultural dos artistas e intelectuais brasileiros, por causa da Ditadura Militar. Nesse tempo, a Censura Federal era temida e odiada, pois eram grupos de civis e militares sem nenhuma formação cultural, que detinham o poder de permitir ou estraçalhar com as manifestações artisticas e culturais da sociedade. O Festival de Cinema era uma espécie de refúgio temporário, pois nesse evento, os filmes ainda não haviam sofrido cortes, e também os próprios artistas aproveitavam o encontro para manifestarem suas bizarrices, como desfilarem nus pelos corredores do hotel, pelas ruas, pelas piscinas da cidade. Ou ainda cometerem mais sandices, como a de um diretor gaúcho que foi apanhado urinando na lareira do Hotel Serra Azul (este mesmo diretor depois foi processado pelo poeta Mário Quintana por ter invadido sua privacidade, que o poeta declarava ser seu apartamento no Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre, o "Último refúgio de minha virgindade").

No mesmo período, começaram os coquetéis, desfiles e eventos paralelos, muito concorridos dos festivais (creio que até hoje o são. Não sei mais.  Estes eventos eram patrocinados por grandes empresas, que apresentavam desfiles belíssimos e mostravam suas coleções.

Num destes desfiles, acho que da antiga "Casa Masson", de porto alegre. Acho que isso foi já em 1977. Eu era "aspone" da Secretaria de Turismo, e nessa função tinha que trabalhar muito. Era o leva-e-traz oficial do evento e minha tarefa era resolver os incômodos e minuciosos pormenores técnicos do evento (leia-se: de tudo). Isso me dava certo prestígio também, e era respeitado pela equipe, pois mesmo bastante jovem, nunca me prevaleci da função para pisar em quem quer que fosse. Daí tinha certas regalias também. Pois voltando: nesse desfile, eu estava passando pela porta principal do Hotel e vi dois personagens de nariz colado no vidro da frente, mãos nas costas, olhando com curiosidade, a mesma de um menino pobre diante de uma confeitaria. Fui em direção a eles, saí la fora e perguntei por que não estavam lá dentro assistindo ao desfile. "Porque não fomos convidados", foi a resposta! Não tive a menor dúvida. Me investi de autoridade, fiz uma certa reverência e já abrindo uma porta, com voz e olhar firme para o porteiro respondi: "Pois agora são MEUS convidados!" E entraram sem cerimônia, assistindo á programação. Ninguém me chamou atenção por aquilo, embora tivesse circulado pelos bastidores a tal façanha. Quem eram eles? Horst Volk e Romeu Dutra. Criadores do Festival de Cinema e desafetos políticos dos meus chefes.





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Maria Elisa - A velhinha hospitaleira






Nome: Maria Elisa Dias Cardoso
Data de Nascimento: 28 de Julho de 1911
Descanso: 18.01.2007

Local de Nascimento: Gramado,Rio Grande do Sul, Brasil
Última morada: Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
Profissão: Agricultora
Religião: Adventista do Sétimo Dia
Ascendência familiar: Judia (B'Nei Anussim)
Passatempo: Ler a Bíblia; Especular a vida alheia
Virtude: Hospitalidade
Defeito : Especular a vida alheia
Humor: Bom, exceto quando sonhava com merda. Aí era o "tinhoso montado numa macaca com dor de dente".

Ela era conhecida por quase todos no seu perímetro e na rota de vai e vem pela cidade. Seu roteiro era quase único: de casa à igreja, ou de casa ao centro, passando pela loja do "Biriba", onde comprava um corte de tecido, ou então pagava as prestações das calças "Topeka", que comprava para presentar filho, neto ou algum sobrinho.

Ninguém pronunciava seu nome correto, "Maria Elisa". Era chamada pelo coloquial "Tia Ilizia". Vivia rodeada de pessoas. Pobres, na maioria, onde sentia-se mais à vontade. Se fossem muito pobres, então, "Tia Ilizia" estava feliz feito pinto na quirera.

Sua principal virtude e defeito eram o mesmo: adorava especular sobre a vida alheia. Fazia uma CPI quando conhecia alguém na rua, e sua lábia era suficiente para que, em poucos minutos a pessoa estivesse confortavelmente sentada à sua mesa, saboreando uma caneca de chá de mate e devorando uma pratada cheia de bolinhos fritos. Enquanto isso, imperceptivelmente, já havia contado à ela tudo o que era preciso para que Maria Elisa elaborasse sua própria versão dos fatos.

Preto, branco, rico, pobre, feio, bonito, quem quer que fosse, não tinha a menor possibilidade de escapar de sua rede de pescar pessoas. Todos que passassem perto de sua porta, eram obrigados a pegar o pedágio de entrar e contar sua história de família. Onde viviam, quanto ganhavam, do que viviam, enfim, ela conhecia todas as histórias de todas as pessoas, e o melhor de tudo: contava a mim estas histórias. Tornei-me então, uma espécie de "backup" vivo de suas memórias. Eram tantas e contadas tantas vezes, que passaram a ser as minhas próprias memórias. 

Por vezes quase me confundo com as minhas próprias lembranças, e as conto, ora falando dela, ora falando de mim. Tínhamos esta cumplicidade, ela e eu. Éramos confidentes, amigos, e ríamos muito. às vezes de alguém. Outras vezes, de alguma coisa, mas a grande parte do tempo, ríamos de nós mesmos. De nossas trapalhadas. às vezes, isso me irritava. Outras vezes, quem ficava irritada era ela. Mas tudo ficava esquecido no primeiro prato de bolinhos que ela fritava, acompanhados de uma caneca virtuosa de chá de mate com leite. Naquele tempo, eu achava que fosse apenas comida. Não era. Era uma poção misteriosa que ela preparava para enfeitiçar as pessoas e extrair-lhes as dores. Um linimento para as feridas da alma. Era assim que eu via aqueles bolinhos fritos, sem açúcar, que ela chamava de "bolinhos-chimarrão".

Nasceu numa casa sem pintura num povoadinho recém estabelecido, chamado de "Gramado do Mundo Novo", o Quinto Distrito, vulgarmente conhecido como "O Gramado". Aos oito meses de idade, acalentada ao colo de seu pai, é de súbito, jogada ao chão, onde sai engatinhando sobre uma poça de sangue do pai, que acabara de ser abatido por um tiro certeiro de pistola, no meio da cabeça, vindo de cima do telhado de tabuinhas do rancho de chão batido.

Seu pai fora morto por um cunhado, por conta do envolvimento deste com a esposa do sujeito, um tal de Zé Tristão. E assim, sendo a filha mais nova de um cortejo de mais cinco irmãs e um irmão, Maria Elisa teve que assumir a responsabilidade de cuidar da mãe viúva. E o fez, até o últimos dos dias da anciã, que foi sepultada ao lado da casa onde perdeu também o marido, lá nos cafundós do mundo. Ironia.

Na segunda tragédia de sua vida, perde o marido, que, em uma briga  com o genro, é ferido mortalmente, e a deixa agora, órfã de pai, mãe, e viúva.

Junta os trapos, os filhos, o neto de colo ainda, embarcam em uma carreta puxada por mulas, e seguem o caminho de volta à Gramado. Silenciosamente, ao coro do lamento das rodas da carroça, e como todos os vitoriosos que conheci, recomeça das cinzas a sua história de vida.

Lavava pratos em restaurante. Limpava casas. Colhia frutas no mato. Mas às sextas feiras, fazia-se milagre para perfumar o casebre onde foi morar, com cheiro de pães assados em forno à lenha. Acordava cantando hinos. Para cada humor, havia um hino. Um deles tinha uma letra que dizia assim:

Brilhando, brilhando
Quero brilhar como a luz
Brilhando, brilhando
Sempre brilhar por Jesus.


Sábado pela manhã, cheirando à sabonete, levava a família toda para a igreja. À tarde, visitava ou era visitada por algum parente. Bolinhos fritos, cuscuz com leite, chá de mate, conversa fiada, ou a CPI da vida alheia.

Dez anos se passaram. Já tinha uma nova casa. Modesta, mas melhor que a anterior. Os filhos estudavam. Menos o filho do meio. Este apenas trabalhava, arrumava umas brigas, coisa de rapaz. às vezes ia preso, mas ela sempre achava um modo de tirá-lo da prisão. E a vida corria bem. Até que uma nova tragédia a abraça. Cada tragédia vem mais e mais forte. Esta esgota suas forças. O filho do meio não será preso nunca mais. Caba de receber notícia de que morreu num acidente, trabalhando.  Maria Elisa não pôde sepultá-lo nem dizer-lhe adeus. Não pode desejar-lhe um sono em paz. Não foi permitido á ela abraçá-lo e chorar a sua dor. Ele morreu longe. Foi chorado por estranhos. Choro de estranhos não é doce como o choro da mãe.

Maria Elisa respirou fundo e avançou na dura tarefa de encaminhar dois filhos restantes à vida, com dignidade. Dois não. Éramos três. Minha mãe, meu tio, e eu, que preenchi seu tempo vago para que pudéssemos rir em lugar de chorar. Maria Elisa chorava rindo. Ria das bobices que eu fazia. Chorava às gargalhadas. Procurava em cada pessoa que fazia sentar-se à mesa uma resposta. Não vira seu filho ser enterrado, então talvez a história que ouvira ser contada talvez fosse apenas um trote das pessoas, da vida de Deus. Quem sabe uma destas pessoas não fosse um anjo que soubesse dar-lhe as respostas, ou quem sabe se não fosse uma delas mesma, o seu filho perdido, pregando uma peça.

Sou velho e já fui moço, mas jamais vi o justo a mendigar o pão. Maria Elisa, bem o sei, uma velha debochada e contadora de causos, "espiculenta" da vida alheia, viveu até os noventa e cinco anos, e descansou sorrindo, tomando pela mão seu filho mais novo, seu bebê, Samuel. Depois de ter lido mais de cem vezes as Escrituras sagradas, Maria Elisa adormeceu na certeza que abraçará muito em breve seu pai, mãe, esposo e filhos. Enquanto isso não acontece, ainda posso rir das lorotas que ela me contou, uma por uma, ao pé do velho fogão de lenha, nas frias noites de inverno, enquanto apenas nós dois comíamos bolinho frito e tomávamos chá de mate, e armazenando causos para contar aos meus netos, e talvez, à vocês, algum dia, quem sabe. Se houver uma boa fritada de bolinhos e uma grande caneca de chá de mate com leite quentinho, nas silentes noites das lembranças que guardei.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O carrinho do supermercado e a ética de todos nós



Não é meu interesse comentar assuntos de relevância nacional ou global. Já tem gente demais fazendo isso. Mas também não posso me furtar de fazer uma reflexão, no momento em que estes fatos atingem a porta da minha casa. E também da sua.

Não vou falar deste ou daquele corrupto notório e notável, ou ainda dos que pela corrupção tornam-se notícias. Saem da obscuridade para a notoriedade pelas notas policiais que abarrotam nossas manhãs, azedando nosso desjejum e despejando vinagre no nosso cafezinho. Não precisamos julgá-los, porque já estão condenados. Até pode ser que muitos não cheguem a usar algemas, tornozeleiras, ou aquele uniforme verde, laranja ou seja de que cor a direção penitenciária determine. Estão condenados pela sociedade, pela historia, pelos tribunais dos botecos, e por você ou por mim. Somos suficientes juízes, promotores e carcereiros para encerrá-los definitivamente no livro dos culpados. Assunto encerrado!

Só que não. Tem mais culpados pela frente. Culpados pela ética, culpados pela má educação, que pela nova chamada cartilha do politicamente correto,   criou o politicamente injusto. Ainda estão no nosso caminho os culpados por cuspirem na calçada, por não devolverem o carrinho do supermercado ou da feira ao depósito de carrinhos, pois é mais cômodo deixá-lo na vaga livre ao nosso lado, afinal, não precisamos mais dele e o supermercado que se vire em mandar recolher. 

Tem mais culpados, quando a caneta que tomamos emprestada não foi devolvida, pois afinal é só uma canetinha barata. Ainda existem culpados quando encontramos um amigo desavisado, e também desavergonhado, que por estar em posição privilegiada na fila, aceita nosso calhamaço de contas para pagar em nosso lugar, passando a frente de outros que chegaram antes e tem mais paciência e educação do que nós.

Tem mais culpados, quando votamos nos candidatos a quem devemos favor, porque sabem eles que mais favor ainda podem cometer estando no poder. Tem mais culpados quando estamos no poder e valendo-nos da caneta julgadora, sentenciamos aqueles que opinaram diferentes de nós, e os defenestramos como mostra de nossa autoridade, como hálito de nosso poder.

Tem mais culpados quando colhemos as frutas da árvore do vizinho, porque estão ao alcance de nossa mão, mas também tem mais culpados quando passamos a tesoura na nossa árvore, para que o vizinho não possa comer as frutas que estiverem do seu lado do terreno.

Tem mais culpados quando não reduzimos a velocidade em dia de chuva, e encharcamos os pedestres. Tem mais culpados quando dominamos o controle remoto da tevê, impondo nosso gosto a quem tem menos voz na família. Somos culpados quando tratamos com aspereza o cidadão, estando em nós a possibilidade de sermos gentis, seja na coisa pública ou nas atividades privadas. Tem mais culpados quando bebemos água no bico da garrafa e a devolvemos à geladeira.

Tem mais culpados quando o telefone toca e mandamos dizer que não estamos.
Tem mais culpados quando deixam a palavra solta ao vendo, passível de interpretações, e depois diz: Nada devo, porque nada prometi.
Tem mais culpados quando alimentam esperanças que não tem intenção de cumprir. E depois cobram dos eleitos que cumpram aquilo que deixaram de prometer.

Tem mais culpados quando descobrimos a senha do wifi do vizinho e economizamos nosso pacote de dados, gastando o dele. Tem mais culpados quando temos contas a pagar, e damos chá de banco em que tem que receber. Tem mais culpados quando copiamos modelos de coisas e as produzimos, sem ressarcir os direitos autorais de quem os criou. Tem mais culpados quando baixamos programas piratas, em lugar de buscar software livre, se for caso de não pagar pelos originais. Tem mais culpados quando rimos pelas costas dos defeitos alheios, mas passamos de cara virada diante do espelho para não vermos a nós mesmos.

Há muito mais culpados do que inocentes. Mesmo assim, continuamos a eleger a quem podemos culpar, porque sabemos que são caras de pau mesmo. Há muito mais culpados do que possa imaginar nossa vã consciência.

Ou não?




sábado, 10 de dezembro de 2016

Doralice e Catarina - Cap X Batatinha






CAPÍTULO IX

Batatinha
Batatinha era aquele tipo de figura sinistra que faz seu périplo nas manhãs de domingo à porta da missa para granjear uns trocados. Puxa saco contumaz, não perde um único velório, postando-se feito um dois de paus na rabiola da corriola de politiqueiros que levam um canudinho no bolso em velórios de algum popular para chupar uns dedos de caldinho em benefício de sua imagem política.

Naquele dia, encontrou Abiel na barbearia e não se fez de rogado: fez-lhe os salamaleques corriqueiros, esticou lhe a mão na esperança de ganhar uns trocados. Abiel esticou o braço e apertou-lhe a mão, saudando-o:

- Meu cordial bom dia, caro amigo! Que bem vê-lo com saúde. Mesmo pensava em como encontraria alguém que pudesse me pagar um café a esta hora do dia. E olha quem eu encontro aqui, meu velho e bom amigo Demétrio!

- Não senhor, eu não me chamo Demétrio. Não senhor. Eu me chamo Sebastian, mas sou conhecido como “Batatinha”!

- Mas e não foi o que eu falei? Meu amigo Sebastian! Há quanto tempo, Sebastian. Ainda mexe com negócios de importação e exportação?

Batatinha ficou completamente confuso e desarticulado. As pessoas rias aos frouxos da perspicácia do forasteiro diante da investida do malandro. Deu de ombros e saiu porta afora rogando praga do forasteiro.

- O amigo é de fora, dá pra perceber, pois conhecemos todos daqui. Vem a passeio? – Perguntou o barbeiro, fazendo com que todos parassem as leituras de jornais e revistas velhas, para prestarem atenção à conversa.

- Venho de muitos lugares, amigo. Mas também venho daqui mesmo. Morei aqui na infância por algum tempo, com minha mãe, Professora Ariel Raposo...

- Você é o Abiel? – O barbeiro parou com o que fazia, deu um passo diante do freguês e olhou no rosto de Abiel, com admiração e surpresa.

- Sim, e você é o Matias? Matias Medeiros?
- Sou o Matias Lima, sim senhor! O Matias Medeiros era o filho do Prefeito. Foi-se embora também e seguiu carreira militar.
Você era bom na bolinha de gude, amigo! E na funda também. Não errava uma. Era uma lenda viva no meio da piazada!

Pois eu era mesmo! – Completou o barbeiro, inflando o peito.
- Não me escapava uma pomba. Mas me diga: está a passeio? Veio para ficar?

- Vim rever os amigos e matar saudades, meu amigo.
- Está hospedado na Pensão “Amanhecer”?
- Não, estou na casa de duas velhas amigas, as irmãs Alvarenga de Lacerda. Você as conhece.
- Ah, sim, grandes amigas
- As peidorreiras...

Uma explosão de gargalhadas eclodiu na barbearia.

- Desbocadas também...
- Vai ficar quanto tempo?
- O suficiente, amigo. Apare as costeletas pouco abaixo da orelha, Matias.

Abiel deixou a barbearia e saiu andando pela rua em direção à igreja, onde havia uma pracinha infantil e uma praça ajardinada, com árvores frondosas e canteiros de flores bem cuidados. Sentou-se à sombra de uma paineira coberta de flores e ficou observando as crianças que brincavam no parque.

Uma suave brisa de primavera soprava as folhas e espargia perfume pelo ar que se mesclava ao cheiro de lavanda da loção pós-barba que Matias besuntou sua face magra e bem barbeada. Um menino corre em sua direção e apanha a bola. Seguindo o menino, uma menina apanhava um pequeno galho de árvore e girava a varinha com gestos ritmados, fingindo ser uma fada com sua varinha do condão. Batia aqui e ali “transformando” pedrinhas em barras de ouro e em pérolas preciosas. Tocou com a vara no ombro do menino e o “transformou” em um príncipe.

- Você é o valente príncipe do reino do norte. Eu te nomeio “Cavaleiro da ordem dos cavaleiros valentes”, e sua missão é matar o dragão que mantém a princesa Lila prisioneira na torre do castelo (e aponta para a torre da igreja), onde vive o Duque dos Sete Dragões!”
O menino faz um gesto de genuflexão, baixando a cabeça e uma reverência com a mão:

- Ó minha fada poderosa. Eu vos prometo libertar a princesa e me casar com ela e nos tornaremos Rei e Rainha do reino encantado. Irei montado em meu cavalo branco com asas ligeiras e levarei minha espada invencível para destruir o dragão malvado!”

Abiel ria daquilo e lembrava que fazia o mesmo. A princesa era Doralice. Corriam de mãos dadas pela campina colhendo amoras e araçás e apanhando borboletas e gafanhotos. Doralice vez por outra beijava a bochecha de Abiel e disparava a correr. Logo que se refazia da surpresa, ele disparava atrás dela.
- Aí está o sumido! – Exclamou Catarina.

- Dodô e eu já estamos prontas e o procurávamos na barbearia. Vamos almoçar então. A Cantina serve um bife com batatas quase tão gostoso quanto o da Dodô. E uma sobremesa que é de lamber os beiços. Vou comer até o fió fazer bico.

- Ah, Catita. O convite é tentador, mas se não se importam, eu vou comer alguma coisa mais modesta. Estou um pouco desprevenido, sabe. Ainda não recebi a aposentadoria do mês...

- Que é isso, Abi! Somos amigos e você é nosso convidado. Não se faça de rogado, porque isso nos ofende!

- Com a condição que eu possa pagar a gentileza quando receber minha pensão do mês...

Catarina enfiou a mão na boca e ameaçou retirar a dentadura para lhe morder em alguma parte. Ele se esquivou e rindo, consentiu em receber a gentileza das amigas.

O almoço foi agradável. A sobremesa, o cafezinho, a companhia das amigas... A companhia de Dodô... Ele estava feliz. Elas também. Por que o tempo não estaciona na felicidade só de vez em quando?
Cachoeira, em certos dias, é um daqueles lugares onde desemboca o desânimo do mundo. Já em outros tempos, é o contrário disso: a alegria de todas as manhãs de primavera parece fazer morada nas varandas das casinhas brancas ao longo das ruas ajardinadas.

O passeio fez bem a Abiel. Ele estava frágil. Há dias em que gostaríamos de nos esconder em uma caverna e ali ficar até que o mundo passe. Nem sempre o mundo passa, mas também desanima e espera que nós mesmos passemos. Não passamos, nem mesmo mundo passa. O mundo não passa por nós. Abiel caminhava devagar e ensimesmado em sua escuridão.

Os pensamentos foram quebrados pelas irmãs Alvarenga de Lacerda. O convite ao almoço o atinge num momento em que também dinheiro é um dos seus pequenos problemas. Vem o golpe de misericórdia então: aceitar caridade. Caridade não declarada, mas escancarada. Ele fingia que estava quase bem. Elas fingiam que acreditavam. A atitude correta para sua dignidade seria que tivessem deixado para outra hora o tal café, porque uma coisa era receber a cortesia de estar hospedado na casa das irmãs. Outra coisa era já aceitar favores que envolvesse numerário. Era vergonhoso à ele isso. Mas quando há cumplicidade e amizade verdadeira, nem o tempo, nem a distância apaga as marcas do caráter que foram semeadas ao longo da convivência entre eles. Não apaga e não apagou, portanto. E foram-se ao café.

- Conte mais de vocês, reclamou Abiel. Só falei de mim desde que cheguei.

- É que sua vida deve ser mais interessante que a nossa! – Atalhou Catarina. Somos duas senhoras solteironas, que fazemos piada de tudo para nos defender das piadas que fazem contra nós, de nossa situação.

- Às vezes não sei se temos á nossa volta pessoas ou batráquios coaxantes sob forma bípede! – Consolou pensativo, Abiel.

- Pronto! Agora deu pra falar difícil. Foi pra nos puxar o saco? Cagou-se. Nem temos saco. Mas a gente corta o teu e colocamos uma alcinha pra virar bolsa de feira! – Emendou Catarina, já enfiando a mão na boca e puxando a dentadura para aterrorizar Abiel.
Abiel riu e freou a mão de Catarina.

- Guarde isso. Eu disse que estas pessoas maledicentes não passam de sapos de boca grande disfarçadas de pessoas.

As pessoas olhavam e riam junto. Doralice chegou bem perto duma velha que esticava o pescoço para ouvir a conversa, mostrou-lhe a língua e emitiu um sonoro trepidar de língua em direção à macróbia. Abiel passava mal de tanto rir.

- Venha sentar-se Catita. Desta forma vão pensar que sou doido também. Continue, Dodô!

- A Catarina teve um pretendente certa ocasião, mas não foi longe.
- E você, Dodô?
- Eu não tive tempo pra bobagens.
- Mentira! – Atalhou Catarina.
- Ela sempre foi apaixonada por...
Foi interrompida por um safanão na mão de Doralice.
-...por merda. Sempre gostei de merda! Nunca tive tempo nem cabeça pra pensar nessas bobagens.
- Não é bobagem, Dodô! – Interrompeu Abiel.
- Você sempre foi uma menina linda, delicada e espirituosa. Não venho nada anormal que alguém tenha tocado o seu coração e você tenha correspondido.
- E quem disse que não teve?
- Ora! Eu não disse? Me conte então.
- Conto sim – disse, enfiando a colherinha no açucareiro e colocando na taça de Abiel. Uma, duas, quantas são?
- Três, por favor.
- Vejo que o diabetes não te impressiona.
- Não, nem a insônia.
- Ela desconversa tudo. Vejo que deste mato não sai cachorro! – Disse, olhando para Catarina e rindo da situação.
- Mas sai burro! – Emenda a resposta, colocando as mãos atrás da cabeça dele imitando longas orelhas de burro.
- Beba seu café e largue mão destes sentimentalismos bobos.

- Manda quem pode, obedece quem tem juízo! – concluiu Abiel, rindo e se encolhendo para beber aos goles o café que ainda restava na xícara.

...........Continua

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...