sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Benício e Gabriela (Ficção) Capítulo 2 - A Corporação


Capítulo 2 - A Corporação

Benício apanhou seu casaco, e saiu a caminho de casa, pensativo, confuso, e só percebeu que estava sozinho ao chegar à porta do apartamento. Assustado, com o egoísmo causado pela situação, deu meia volta e correndo até à fábrica, para buscar a esposa. Ainda não eram seis horas da tarde, hora de encerramento do dia de trabalho na fábrica de chapéus, então ficou escorado na parede, do lado de fora, apoiado sobre uma perna, e dobrando a outra para recostar o pé atrás de si, olhando através das pessoas que passavam, cumprimentando-as mecanicamente, absorto em seus pensamentos acelerados, à espera de Gabriela.

O apito da fábrica tocou, e os portões se abriram, uma cachoeira de pessoas se derramava sobre a rua, num entrelaçado de vozes, e entre eles, surge o sorriso no olhar da jovem e bela esposa de Benício, correndo ao seu encontro.
- Que aconteceu? Você não estava na fila do relógio de ponto, e eu fiquei preocupada!
- Você nem vai acreditar! Te conto no caminho.
- Você está com aquele brilho nos olhos de quem fica feliz. Só de te ver assim, fico feliz em dobro!
E o abraçou com paixão, cumplicidade, ternura. Deu-lhe um sonoro beijo no rosto, e tomou-lhe a mão para seguirem caminho, bem do jeito que fazem duas crianças que saem em direção ao jardim, ao descobrirem um ninho de passarinho no meio da folhagem.

Enquanto caminhavam, Benício foi contando tudo o que havia acontecido, omitindo apenas a brincadeira maldosa que o encarregado fizera a respeito de sua esposa. Não havia necessidade de atirar pimenta no sorvete. E a cada detalhe que ele contava, ela dava pulinhos à sua frente, interrompendo-lhe o caminhar, para celebrar com a alegria compartilhada. Tintim por tintim, Benício descreveu-lhe, tal como fora dito, as vantagens, e as responsabilidades de seu novo cargo, embora ainda não tivesse tomado conhecimento sobre o funcionamento doravante em sua nova função.
- Gerente Nacional de Vendas? - Repetiu ela, numa indagação vaidosa. E o que você entende disso?
Ninguém gosta de ter sua capacidade reduzida a um ponto de interrogação, então Benício, pigarreando duas vezes, respondeu:
- Sei bem pouco, pois minha função sempre foi técnica, produtiva. Tenho certa habilidade para convencer pessoas, mas de fato, ainda fico me perguntando porque fui escolhido. Falta de opção, acho que não é, pois o Casemiro, supervisor de vendas, tem muitos anos de fábrica, e suas vendas são boas.
- Três vezes o que você ganha hoje, você disse, será seu novo salário?
- Três vezes. É muito acima do que eu imaginaria ganhar um dia, mas foi o que me prometeram. Já ganhei um adiantamento, olhe! - E, com discrição, mostrou-lhe o maço de notas altas, estalando, novinhas, em seu bolso.
- Esconda isso, seu maluco! Já adiantaram tudo isso? Por que motivo?
- Para que eu compre belos vestidos para você, e algumas roupas novas pra mim. Uns ternos, gravatas, sapatos.
-Pra mim? Sério?
- Por que eu mentiria? Serio sim. Até um bolsa você pode comprar.
- Será que não estão testando você? esse dinheiro, como vai comprovar que é seu mesmo?
- Porque eu assinei um recibo de gratificação, e no corpo do recibo escreveram: "Para despesas pessoais e familiares, aquisição de vestuário adequado á função". Então, nem posso depositar numa caderneta de poupança, como gostaria. Preciso mesmo comprar roupas. É exigência do cargo.

A Corporação tinha lojas em todas as cidades onde estavam instaladas suas unidades fabris. As lojas atendiam todos os padrões, inclusive um setor mais privativo, onde havia a linha "Elegante", para os executivos.  Foi lá, para onde o dirigiram ao chegarem á loja. O Gerente desta unidade recebeu-o chamando pelo nome e cargo. Era tratado por "Senhor Gerente!" E Gabriela, por "Madame". Ela ria com ingenuidade, estupefata, e feliz.

Na segunda-feira seguinte, às sete horas da manhã, como de costume, e na companhia da esposa, chegou à fábrica. Despediram-se no portão, e ele deu a volta, dirigindo-se ao escritório da administração, seu novo local de trabalho a partir de então. Ao abrir a porta da entrada principal, entrou na recepção do escritório, e imediatamente a recepcionista levantou-se para cumprimentá-lo,
- Bom dia, senhor Benício! Teve um bom fim de semana?
com um sorriso profissional, impecável, perfumado:
"Senhor Benício?" Ela já o conhecia? Nunca falara cm ele, quando passava na linha de produção, acompanhando alguém importante.
- Bom dia, senhora...(teve que olhar a plaquinha sobre a mesa, com o nome da secretária)..Natália! Sim, tivemos um ótimo descanso, minha esposa e eu. E a senhora, também descansou bastante, eu espero!
- Sim, obrigado, senhor Benício! O Doutor Laerte, nosso superintendente o aguarda em sua sala. Irei acompanhá-lo. Por favor, venha comigo.
Seguiram por um longo corredor, até uma sala, ao final, com uma grande porta de vidro blindado, e uma gravação nela dizendo: "Dr. Laerte de Medeiros - Superintendente". Passando pela porta, havia uma pequena sala, onde trabalhava a Secretária Executiva da Superintendência, Dona Madalena.
- Bom dia, Madalena! O senhor Benício, para a reunião co o Dr. Laerte!
- Seja bem-vindo, senhor Benício! O Doutor Laerte já o aguarda. Por favor, venha comigo.

Doutor Laerte, um advogado que praticamente nunca exerceu advocacia, pois assumiu um cargo de gerência na Corporação, pertencente à família, e abandonou o diploma em uma gaveta desde que saiu da universidade. Mesmo assim, ostentava o título de "doutor". Caía bem para o cargo. Era magro, de pequena estatura, usava um bigodinho "Demodê", óculos redondos de arame fininho, e um pomposo anel de advogado, com uma pedra vermelha saliente,no dedo da mão direita. Era um homem fino, educado, e cortês, mas sabia, como poucos, o poder da influência e se necessário, o uso firme da autoridade que o cargo lhe impusera. Com singular simpatia, levanta-se e abraça o jovem promovido.
- Seja muito bem-vindo, meu caro Benício!
Benício ficou surpreso que o superintendente sabia seu nome, enquanto o encarregado, que convivia com ele todos os dias, o chamara de muitos nomes homófonos ao seu.
- Muito obrigado, Doutor Laerte! Estou ao seu dispor, senhor. Ansioso para começar o trabalho.
Laerte riu, educadamente, e respondeu:
- Isso é excelente, meu jovem, mas ainda há um longo caminho, até que você assuma, de fato, o seu cargo. Antes você vai passar por um período de aprendizado diretamente comigo e minha equipe. Não iremos soltá-lo às feras sem que esteja devidamente fortalecido. Seu conhecimento na tarefa é insuficiente para a função nesse momento.
- Perfeitamente, senhor...
Um calafrio passou pela espinha do jovem Benício. Ele já começara a sonhar sonhos mirabolantes para o cargo, muitos, compartilhados com Gabriela, mas agora, fica sabendo que não vai acontecer como imaginara. Será que haviam desistido de promovê-lo? Teria sido um teste, para provar sua humildade? As mãos tremiam. A voz embargou. Premeu os lábios e respirou fundo. Lembrou de Deus. Incrível, que nas horas de iminente humilhação, Deus aparece do nada em nossos pensamentos. Será que entre a bênção e aquele momento, havia deixado escapar algum pensamento ruim? Seria uma punição? uma lição mais severa?
- Não se preocupe, meu rapaz! Temos conhecimento de sua capacidade, mas também temos ciência de que ninguém nasce sabendo nada. Não chamamos você pelo que sabe, mas pelo que ainda pode aprender. Considere sua promoção como uma dupla promoção, como uma oportunidade de enriquecer seu conhecimento, sendo que ainda estamos pagando você para que aprenda tudo sem outra preocupação, que não a de aperfeiçoar-se como pessoa e como profissional. Dona Madalena irá mostra-lhe sua novas acomodações, e o escritório, como um todo. Já convoquei uma reunião de gerência e Diretoria, para apresentá-lo de uma vez só, e depois disso, conhecerá pessoa a pessoa, departamento por departamento, e naturalmente, a linha de produção, você já conhece, mas voltará á ela em outra condição hierárquica. Depois disso, você entrará em uma espécie de confinamento, em sua sala, e lá permanecerá, recebendo instruções exaustivas sobre a corporação, e seu lugar dentro dela. Você terá surpresas, esteja certo disso.

Benício olhava tudo à volta, e ajeitava constantemente a postura e a gravata, para mostrar-se impecável ao superintendente Laerte. Sua cabeça doía. Sua mente acelerava. O coração palpitava e às vezes parecia faltar-lhe o ar, ao respirar. Era muita emoção. Era uma realidade estranha ao que havia sonhado junto com Gabriela. Mal começara o dia, e a casinha linda com cerquinha branca, horta, jardim e pomar, já se esmaecia na lembrança.

Continua...





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Benício e Gabriela (Ficção) Capítulo 1 - A Promoção


Capítulo 1 - A promoção

Benício e Gabriela haviam se casado no último verão, no fim do verão, quando os ventos já cantam cantilenas mais solenes, quando chegam abraçados com o gélido vento sul de outono. Casaram depois de três anos de namoro, se aí for contado o tempo de noivado, seis meses apenas. Foi suficiente para entenderem que um pertencia ao outro desde que nasceram, e o tempo decorrido entre os nascimentos e o casamento, era apenas uma amostra do que pode ser uma eternidade, em termos comparativos.

Gabriela e Benício sonharam morar em uma casinha linda, com cerquinha branca, uma horta, pomar e jardim. Sonharam ter quatro ou talvez, cinco filhos, e colocá-los na escolinha da vila, para que crescessem livres e bem cuidados pela comunidade.

Benício sonhava em ter um bom emprego, ou uma pequena sapataria, onde além de consertar, também produziria belos sapatos sob medida, nas horas livres. Gabriela gostava de costurar, e sonhava em ter uma máquina e um quartinho de costura, para confeccionar belos vestidos às senhoras do lugar, e talvez umas camisas de festa aos cavalheiros. Assim Gabriela ocuparia seu tempo livre, do cuidado da casa e da família.

Benício e Gabriela tinham sonhos simples e lindos. Mas eram ainda sonhos. Apenas sonhos, isso porque Gabriela e Benício estavam empregados em uma fábrica de chapéus,e não estavam preparados para viverem seus sonhos ainda, embora, Benício repetia, de seu avô, que "nós nascemos sem nenhum preparo. Só o que fazemos sem ajuda é cagar, mijar, chorar, e respirar. O resto tem que ser pelas mãos alheias". Assim, dizia Benício á Gabriela, quando a confortava, ao sonharem seus sonhos debruçados na varanda do pequeno quitinete alugado.

A fábrica de chapéus ficava a menos de duas quadras de onde moravam. O pequenino apartamento pertencia à empresa, que os alugava por valor irrisório, para manter as pessoas comprometidas em seus empregos. Era também da Companhia Internacional de Chapéus - CIC, o armazém, o hospital, o ginásio de esportes, onde eram realizados todos os eventos comunitários, a farmácia, a loja de armarinhos, o açougue, e a pista de pouso de naves alienígenas, em um altiplano descampado um
pouco mais retirado da vila. O leitor mais crítico, perguntaria a razão de uma pista de pouso de naves de extraterrestres ser incluída neste relato, e com razão, o que me faz responder que o filho do dono da CIC era adepto de um grupo de caçadores de ovnis, e foi uma forma da família mantê-lo por perto, para que pudessem vigiar suas excentricidades. Afinal, a pista nada mais era que um descampado com marcações circulares e umas espirais no centro, caiadas e mantidas visíveis à noite pela luz das naves que iriam pousar. nada mais. Durante o tempo que não pousavam naves, as crianças brincavam no lugar, enquanto os pais faziam piqueniques junto delas.
É bom que saibam, que a fábrica de chapéus era apenas uma das dezenas de grandes indústrias do grupo que controla suas ações. Mas sobre o grupo, falarei em outra propícia ocasião. Por ora, detenho-me em relatar como foi que tudo começou.

Benício era encarregado da seção de corte dos tecidos, para fabricação dos chapéus, e Gabriela cuidava da costura dos componentes, e também fazia acabamento dos produtos. Não havia muito que pensar, pois tudo estava preparado com precisão, as peças eram classificadas por ordem de montagem, e vinham em caixas com lotes específicos, cores, padrões, e tamanhos. Tudo muito bem organizado. O chefe do setor de planejamento, Sr. Justino, fazia mérito ao nome que tinha, pois era minucioso e crítico com a qualidade do serviço e do planejamento, mas também sabia muito bem conduzir a equipe para obter melhor desempenho e produtividade, qualidade, esmero. Benício e Gabriela eram empregados exemplares, não tenho porque dizer nada em contrário

Dia após dia, às quatro horas da manhã, o despertador de corda tocava, e Gabriela levantava por primeiro, para preparar o café e também a marmita do almoço de ambos. Benício,ressonava uma ou duas vezes mais, e logo pulava da cama, para auxiliar a jovem esposa nos afazeres de cozinha. Eram felizes, acho que posso dizer algo assim sobre o par de sonhadores. Acho que sim.

Ganhavam pouco na fábrica, mas do pouco que restava, economizavam para a casinha na vila, para o berço do primeiro filho, para a roupa de festa, e para a velhice. A velhice, no entanto, estava muito longe, era muito vaga essa ideia de envelhecer, embora nas juras de amor entre um e outro, dedicavam palavras elogiosas ao entardecer da vida, um ao lado do outro. às sete horas da manhã, iniciavam o trabalho na fábrica, e ao meio dia, assentavam-se no cantinho da sala, juntinhos, saboreando a comida fria das marmitas que foram temperadas pelo cantar de Gabriela, enquanto a água borbulhava na chaleira, esperando ser juntada ao café cheiroso que Benício passava no coador de pano.

Tinham poucos pertences, quase nada possuíam. Uns poucos pratos, panelas e xícaras, dois copos, um pequeno fogão à lenha, reformado, além de uma mesinha quadrada com duas cadeiras. Tudo era cuidadosamente organizado, limpo, areado. As panelinhas e a chaleiras brilhavam como se fossem novas. Eram quase novas. Presentes de um e outro membro da família que tinha coisas sobrando, jogadas nos armários. Tudo, era muito bem cuidado, consertado e tornava-se novo, de pouco preço e muito valor.

Eram felizes, Benício e Gabriela. Sonhavam apenas os seus próprios sonhos, viviam sua própria vida, e pelas contas, pelas economias, pelos trabalhinhos extras que faziam, em uns dez anos, comprariam a casinha lá na sonha vila, para plantarem seu pomar, criarem suas galinhas e cercarem seu pedacinho de chão com sua cerquinha branca.

Mas, como o diabo não sabe fazer outra coisa, senão ser diabo, eis que começa a mostrar os chifres (ok, diabo não tem chifre, mas tem olhar meigo e traiçoeiro), chega um dia em que, reconhecido pelo seu bom desempenho na fábrica, Benício é chamado à sala do encarregado de pessoal, e é recebido com um cordial aperto de mão. Para ser mais preciso, um aperto de mão e um convite para que se assentasse à frente da imensa escrivaninha de trabalho do homem.

- Água? café? um refrigerante? Gostaria de comer algo? talvez um sanduíche?
Benício olha á volta, desconfiado, sorri com timidez, ergue num impulso consentido os dois ombros ao mesmo tempo, consentido, demonstrando que não sabe o que vai dizer, mas que está bem assim.
O homem chama a secretária, e pede que traga água, café e sanduíche para os dois: ele e Benício.

- Você trabalha aqui há quanto tempo, meu jovem?
- Desde menino, senhor! Antes mesmo de ser efetivado na carteira, eu já fazia pequenos serviços, limpeza de jardim, varrer a calçada. Uma vez até ajudei a descarregar um caminhão de chapéus, vindos da outra unidade, no norte.
- E o que acha de trabalhar nesta empresa, meu jovem "Fabrício"!
- É Benício, senhor! Eu gosto muito. Minha esposa também trabalha aqui, na seção de costura e acabamento.
- Ah, sim! (Diz o encarregado, lendo uma ficha em uma planilha) Humm.. Aqui não fala em esposa, rapaz. Diz que você é solteiro.
- A ficha não deve ter sido atualizada, senhor. Eu sou casado. O chefe da minha seção, Sr. Adílio foi meu padrinho de casamento.
- Muito bem. Tudo em casa então! - Disse, sorrindo o chefe. Mas vamos ao que interessa, "Fabrício".
- Benício, senhor..
O homem dá um sorriso amarelo e continua.
- Precisamos de um novo gerente de vendas. O velho Andrade já estava aposentado, mas continuava a trabalhar, porém não rendia mais, você me entende? Enxergava mal, e estávamos recebendo muitas devoluções. Imagine o prejuízo de uma devolução. Atendia mal os clientes. Havia muito, muito retrabalho. Além disso, ele era um contumaz jogador. Pôquer,  roleta, entende? E sabe como é um viciado diante de uma roleta, não sabe? Lugar onde um põe com a mão e outro puxa co um rodo, não pode terminar bem. Fique longe disso, filho!
- Eu não jogo, senhor. Só às vezes, um pouco de futebol com meus amigos, lá no campinho dos ETs.
- Dos políticos também, "Maurício"!  Eles dão com dois dedinhos, apertam sua mão com cindo dedões, e cobram de volta com as duas mãos espalmadas, de dez dedos.
- É Benício, senhor!
- Benício, claro! Analisamos seu histórico na empresa, nunca faltou, não tira atestado, é pontual, seu trabalho tem bons resultados, e então decidimos convidá-lo a assumir este cargo na empresa. Naturalmente terá uma sala própria, com telefone, água mineral gelada no bebedouro, dentro da sua sala, e café na garrafa térmica oferecido pela empresa. Também vai precisar de uma secretária que lhe dê assistência para organizar sua agenda e seus compromissos. E passará a ser chamado de "Senhor Alício!"
- Benício, senhor!
- Do nome que quiser, pois estará na porta da sua sala uma plaquinha com seu nome, gravado em bronze polido. Sua secretária terá uma mesa menor na mesma sala, também com o nome dela. Doravante, o senhor precisará andar muito bem vestido, asseado, e para isso, enviaremos uma autorização à nossa loja, e ao alfaiate, que irá confeccionar alguns ternos dentro da moda, para que o senhor bem represente a empresa. E, naturalmente, usará os nossos melhores chapéus, "Aparício". (Deu uma bela gargalhada, e abraçou Benício).
- É Benício, senhor, mas estou muito contente. Posso convidar minha esposa, Gabriela. para que seja minha secretária?
O Encarregado seu uma sonora gargalhada, e abraço Benício.
- Você vai à uma churrascada e quer levar pastel, rapaz?
Benício deu uma risada amarela, envergonhado.
- Não entendi, senhor.
- Você não pode promover sua esposa, rapaz! Isso é nepotismo. E não é política da empresa que funcionários trabalhem no mesmo setor. Os problemas de casa são trazidos para a empresa, e o rendimento cai, isso quando não metem a mão juntos nos bens da empresa, e depois, até que prove, até que apareça, o prejuízo já aconteceu. Já vi isso acontecer em muitos lugares. Então, dê-se por contente com a sua promoção, e sua mulher saberá esperar que a vez dela também chegue.
- Entendo, senhor, mas pode confiar, que jamais seríamos desonestos com a empresa, senhor. Se puder dar à Gabriela uma oportunidade, podemos oferecer um ótimo desempenho, juntos. É que fazemos tudo juntos, senhor.
- Não falei do melhor, rapaz! Terá um aumento que o fará rir à toa. Cerca de três vezes o que ganha hoje, acrescido de benefícios, e passará a morar em um de nossos apartamentos executivos. E seu horário também será diferenciado: Hoje você trabalha das sete ao meio dia, com uma hora de intervalo, e sai às seis da tarde, para compensar as horas de sábado. A partir de agora, você poderá chegar às oito horas, com duas horas de intervalo, e sairá às cinco da tarde. Poderá usar nossa academia para executivos. Vai gostar muito da sauna, do bar e da piscina.
O que me diz então? Temos um negócio?
- Estou um pouco nervoso, pela surpresa, senhor. Será que me permite que eu converse com minha esposa antes de decidir?
- Eu ouvi direito, rapaz? Você recebe a melhor oportunidade da sua vida, e ainda tem que ouvir a sua mulherzinha? Afinal de contas, que é que manda na sua casa? Será que queremos aqui na empresa um homem que não tem domínio próprio? E quando tiver que tomar uma decisão importante, é sua mulherzinha quem vai decidir por você?
- Desculpe, senhor. É força do hábito. Sim, estamos acertados. Posso começar amanhã mesmo, senhor.
- Claro que não, rapaz. Primeiro vamos convocar uma reunião com a diretoria e gerências, para apresentá-lo.  Enquanto isso, vamos redecorar sua sala, e providenciar a burocracia da mudança. E você não vai escrever uma linha sem receber um treinamento adequado, você precisa estar muito preparado, pois vamos "beber o seu sangue" quando estiver no cargo. Agora, passe na tesouraria e pegue o dinheiro necessário para comprar algumas coisas para sua esposa, compre alguns vestidos novos, e providencie as roupas de que falei. Já está tudo acertado. Já falei isso antes. Tire o resto da semana de folga, e venha na segunda feira preparado para começar o treinamento.
- Mas minha esposa, senhor. Ela pode me acompanhar nestes dias?
- Rapaz! Rapaz! Você mal foi promovido e já pensa em influenciar os funcionários a caírem na vadiagem?  Agora você é o gerente de Vendas da corporação. Pensou nisso?
E deu mais uma sonora gargalhada, e um tapinha nas costas de Benício. Nisso, o telefone tocou e ele foi atender, dispensando Benício, com um gesto de mão.

Continua...










terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Novo BLOG DO PACARD



Olá!
Apresento o meu Blog. Simples assim!
Um espaço virtual onde proponho reflexão, debates, atitudes.
Uma análise independente da boa política, onde seus protagonistas são a razão de minhas palavras.
Um resgate de biografias, onde ser importante é essencial. Assim, pessoas importantes estarão sempre em pauta.
E todos são importantes. Todos têm histórias para serem contadas. É o que eu faço. Eu conto histórias.
Sou um contador de histórias. Por isso eu escrevo. Por isso levo meu leitor a pensar.
Este blog pode contar a sua história. Pode dar o destaque e respeito que suas memórias merecem ter.
Meus leitores são formadores de opinião. Influencers. Você é influencer.
Sou dedicado a escrever e aprimorar o Blog. Por isso, faço uma proposta de adesão a este trabalho~,~ por parte de sua empresa.
Por sua parte.
Anuncie comigo. E mais que isso, traga suas histórias, que as transformarei em crônicas, e as publicarei.
Estou escrevendo a história de Gramado. Parte dela, enquanto ela acontece.

Por que Gramado?
Porque sou gramadense, e conheço Gramado como a minha própria casa, mesmo não tendo nascido lá.
Porque o que eu escrevo é respeitado.
Porque o que eu publico, é debatido pelos leitores, de acordo com a relevância do que é publicado. Isso faz bem à democracia.
Isso faz bem à cidadania.
Porque Gramado é uma vitrine para o mundo.
Porque Gramado cresce a cada dia, e quem faz ela crescer, lê o meu blog.
Porque quem desenha o destino dela, E lê o que eu escrevo.
Sua marca será vista por quem tem capacidade de compreender a sua proposta.
Porque faz bem à sua empresa que seja vista em Gramado.

Pacard

PS: Contei com o gentil auxílio da amiga Lara Richter, Revisora.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A Máquina de fazer solidão, e a Religião Pós-Moderna




A ativista e atriz norte-americana dizia que agradecia à D-s porque não haviam inventado ainda uma máquina que lave e vista as crianças. Repeti isso muitas vezes, e em algumas delas, esqueci de fazer justiça à autoria da frase, que, não sendo minha, e ainda que não soubesse a origem nem autoria, deveria ter a decência de dizer assim: "Alguém, que não lembro quem foi, disse tal coisa...". Faço isso agora. Pronto. Consciência limpa, sigo minha reflexão.

Máquinas. Elas estão em todo lugar, espalhadas por toda parte, e nós mesmos somos uma máquina poderosa, pois para ser uma máquina não temos, necessariamente que sermos feitos de aço, plástico, ou alumínio. Basta que exerçamos funções dinâmicas e mecânicas, e de certo modo também, repetitivas, que nos assemelharemos a uma máquina. Mais complicada, sofisticada, frágil, e humana, Mas, uma máquina. cheia de fluidos adiposos, gosmenta, fibrosa, calcinada, peluda ou pelada, enfadonha, agradável, sofredora e simpática, antipática, apática, ou fleumática, agressiva, passiva, compassiva, ativa, vegetativa, com iniciativa, ou amorfa. Assim são também muitas máquinas. Hoje, sete biliões delas, ainda vivas. Amanhã também sete biliões, ainda vivas, mas outras que já foram vivas. Ainda assim, máquinas.

Há máquina pra tudo. Máquina de cortar grama, cabelo, abrir estradas, fechar buracos, cavar poços, construir paredes, máquinas que fazem outras máquinas, e que também as destroem. Todas são máquinas. Tem um preço, um custo, e um valor. Existe a moda das máquinas, a máquina da moda, e a tendência de máquinas. Máquinas únicas, máquinas de montão. Maquinas que carregam pessoas. Máquinas que fazem solidão. Esta máquina custa caro, porque é preciosa. Vale muito e serve pra tudo, até mesmo para fazer solidão, como já diz o nome. Assim, irei chamá-la de "Máquina de fazer solidão!".

A grande Máquina de Solidão, ao que simplificarei aqui por MS-1, cabe na palma da mão, mas abre portais para o universo. O mundo torna-se o quintal da casa dentro dela. Rompe barreiras de línguas, costumes, crenças e ideologias. Torna covardes em valentes e valentes em escória. Veste o ego com manto brilhante, e escreve seu nome em letras douradas. Faz você voar pelos lugares mais distantes, lança você ao estrelato. Você passa a ser único. Apenas você e outros sete biliões de únicos verdadeiros. E sendo único, entre tantos, você se torna transparente, invisível, imperceptível. Por mais que escreva seu nome com giz de gelo em lousa de fogo, você ainda será o vapor que sublima em cada letra escrita. A MS-1 cumpriu sua tarefa. Te esvaziou. Agora, você precisa se reconstruir, e busca um lugar onde outros vazios se preencham. Você procura respostas, fórmulas, chaves, e encontra um ponto de partida. É apenas um ponto, uma pequena vírgula, quem sabe, que é um ponto que chora, e a vírgula transforma-se num apóstrofe, um ponto que chora e deseja voar. Inspira em um fôlego, expira, aspira, respira, e ouve as vozes chamando. Caminha e ouve mais forte, mais alto, algumas gritam, até choram, oram, imploram, exploram, e libertam. Você entra e sente a alma mais pura, madura,  mais leve, mais solta. Avança e volta, indecisão, renovação, ebulição, comunhão, visão, profetiza, ameniza, realiza. Invade sua alma, esvazia sua dor, amor é tudo o que sente invadindo seu peito.

Suas mãos se erguem para o alto ao ouvir os cânticos, a oratória que desliza sobre suas dores, a mão que tira o luto, que afaga o ego, que esvazia as lembranças. O lugar cheio de efeitos, de graves e agudos, de voltas e falsetes, de perfume forte se mesclando com perfume barato. Mãos abraçando o vazio, olhares ainda mais vazios, cheios de D-s, vazios de si próprios, inebriados, ébrios, solenes, derramando almas sobre o auditório tecnológico. O deus das franquias franquia linimento lenitivo entre abraços dados por braços que não sentem mais dor. Dor, enquanto é dor, é a infelicidade criativa. Quando esta se apaga, outros criam e recriam, enquanto você apenas dorme de olhos abertos, cantando com a voz embargada no coro dos libertos pela hipnótica canção do preletor. Cheio de tecnologia. Em seu favor. Só faltou D-s. Mas D-s aí. Faz parte.

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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Adalberto Bogsan Neto - Profissão: Designer, Cinegrafista. Video: Primeiro voo do Bandeirante da Embraer

Foto: Facebook

Fomos colegas no Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Adalberto, representando o Sudeste, e eu, o Sul. Éramos, no entanto, os poucos representantes do chão de fábrica, da indústria, da graxa e da poeira.  Adalberto não chegou a participar diretamente das plenárias em Brasília, mas fui seu interlocutor, e desde aquele tempo, mantivemos e ainda mantemos uma estreita ligação firmada no Design, ferramenta com a qual trilhamos nossas carreiras. Cada uma, bem sucedida a seu modo. Eu encerrei minha carreia com cerca de 40 anos de altos e baixos, no setor moveleiro. Ele, no setor automobilístico. Este sim, tem muito mais impacto da economia, no Design. Durante 38 anos, Adalberto Bogsan foi o responsável pelo departamento de desenvolvimento de produtos, de Design, da poderosa GM, no Brasil. Durante todos a sua carreira nesta empresa, praticamente todos os automóveis nacionais passaram por suas pranchas de desenho, pelo seu setor de prototipagens.

Nem só de automóvel vive um Designer. Uns, como eu, fazem dezenas de coisas em paralelo. A inquietude é um dos atributos desse tipo de profissional. Inquietude, perfeccionismo,  impertinência
com os detalhes. Por isso somos designers. Por isso somos obstinados e incomuns. Por isso, Adalberto tem histórias sobre a indústria automobilística, como também tem passagens notáveis nos primórdios da aviação brasileira, mais especificamente na EMBRAER.

Adalberto, acompanhou desde a prototipagem da aeronave BANDEIRANTE, até seu primeiro voo, sob o comando do então Tenente-Coronel Ozíres Silva, que mais tarde tornou-se Presidente da empresa. Adalberto conta que seu pai Diretor da General Motors do Brasil, nesta época, que já contava com modernos equipamentos de usinagem, de precisão, e colaborou no desenvolvimento de alguns componentes, para a  recém criada EMBRAER, no desenvolvimento das primeiras aeronaves.

Adalberto, com seu filho, em Atlanta no centro da Porsche
É de Alberto a autoria do filme do primeiro voo do Bandeirante, em 26 de outubro de 1968. E a partir daqui, é o Adalberto que vai contar esta história, cujo video está compartilhado abaixo.
Está na pauta também uma entrevista com Adalberto, que contará a história do Design automobilístico brasileiro e sua trajetória profissional pessoal, no comando do Design da GM. Do Opala ao Chevette. E todos os demais. Vale a pena esperar pela matéria. mas eu aviso quando estiver pronta.

Primeiro Voo do Avião Bandeirante

EMB 100 - modelo de pré-série do projeto IPD/PAR 6504 do CTA, equipado com motor turboélice Pratt & Whitney Canada PT6A-20 de 550HP e capacidade para oito passageiros. Foram construídos três aviões. Primeiro voo: 26 de outubro de 1968.

O primeiro protótipo foi construído em três anos e quatro meses, consumindo 110 mil horas de trabalho. Cerca de 300 pessoas dedicaram-se ao projeto, lideradas pelo Cel.Ozires Silva. Este protótipo realizou o primeiro voo de demonstração em 22 de outubro de 1968, no aeroporto de São José dos Campos, sob o comando do Major
Mariotto Ferreira, do Engenheiro Michel Cury e Cel. Ozires Silva.
Adalberto Bogsan Neto, filho de Adalberto Bogsan convidados do Cel. Ozires Silva, utilizaram uma câmera Kodak 8mm, durante o evento.
Adalberto Bogsan seu desejo em vida era doar ao Cel. Ozires Silva o filme deste
memorável voo. No dia 19 de agosto de 1969 foi criada a Embraer, destinada inicialmente à fabricação seriada do avião Bandeirante. No mesmo ano, o Ministério da Aeronáutica assinou
contrato para a produção em série de 80 Bandeirante. Em 19 de outubro, o segundo
protótipo do Bandeirante fez seu voo inaugural, ainda sob a responsabilidade do CTA.

A linha de produção do Bandeirante foi encerrada no final de 1991, sendo que a
última aeronave SN 498 (sob encomenda) foi entregue para o Governo da Amazônia
em 1995. No total, foram fabricadas 498 aeronaves, 253 aeronaves para o Brasil e 245
aeronaves vendidas para o exterior. Aproximadamente 320 aviões estão voando ainda
hoje.

Colaboraram neste trabalho: Adalberto Bogsan Neto e Procimar Cine Video.




Abaixo, um vídeo atual, contanto esta história pela FAB
Video retirado do Youtube,de autoria da FAB

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O Bullying que nos maltrata

FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK YARRAKA BAYLES


"Quaden Bayles, um garoto de 9 anos, comoveu a web em um vídeo em que aparece chorando e dizendo que quer morrer. As imagens foram compartilhadas nesta terça-feira (18), pela australiana Yarraka Bayles, mãe dele, em uma rede social. O menino chora desesperadamente e pergunta “qual é o motivo das agressões”, antes de dizer que gostaria de morrer.
A dor explícita do menino, que em seu desabafo, pede uma corda para enforcar-se, uma faca para esfaquear seu coração, foi vista e compartilhada por centenas de milhares de vezes, e levou pessoas do mundo todo à compaixão pelo sofrimento moral do menino.

Quaden já foi confortado, e quem o humilhou já está devidamente envergonhado pelo que fez, não por compaixão ao menino, mas porque foi apanhado pela mídia, e a mídia, quando quer, é implacável, aterrorizadora, cruel.

Bullying é um verbete moderno, sem tradução direta, agregado ao nosso vocabulário como insistente deboche contra indefesos. Acrescento: "brincadeira diabólica" para espezinhar, quebrar a cerviz, derrubar a moral e o moral de quem se encontra em situação que permite deboches continuados até que derrube completamente a vítima, até que toda sua resistência seja quebrada, até que seja levada às últimas consequências, muitas delas, à morte.

A dor de quem sofre bullying não pode ser medida, descrita, relatada. A dor de quem é feito de saco de pancadas, seja na infância, seja na vida adulta, é comparável à de quem esteja com as mãos amarradas e um saco na cabeça, percebendo o sufoco, mas sem a possibilidade de defesa. A punição para quem, comprovadamente promove o sofrimento moral de alguém por conta de bullying, deveria ser calculada com o agravante de dolo intencional, de maldade pura, do desejo e prazer na dor do sofrimento moral do outro.

Mas e as crianças que fazem bullying? As crianças não inventam bullying, elas copiam o que ouvem, veem ou sentem de quem as deveria instruir para as boas atitudes. São crianças que romperam os limites do bem e do mal, e sentiram prazer no mal. Daí, não há mais fronteiras. Começam maltratando insetos, pequenos animais, e seguem o périplo à caça de pessoas indefesas, de crianças menores que elas, dos fracos, dos mendigos pelas ruas. São os mesmos que ateiam fogo em moradores de rua. São os mesmos que tratam índios como animais, animais como coisas e coisas imprestáveis, descartáveis. São os mesmos que destratam os pobres, os porteiros, as domésticas, os que andam com carros velhos atrapalhando o trânsito. São os mesmos que atiram mamonas de estilingue nas costas dos outros, são os mesmos que usam seu conhecimento para pisotear na falta de conhecimento dos outros, a quem consideram inferiores. Somos os mesmos, elas e nós, os que fazem do bullying seu playground de prazer.

Eu tenho moral para falar de bullying, porque sofri, e também fiz sofrer. Faço uma "mea culpa", porque foram meus erros quem despertaram meu crescimento. Fiz bullying quando repetidamente debochei de alguém pelo modo de falar, pelo jeito que andava, pela dimensão da cintura, pelos dentes caídos, pelo modo de vestir, pelo linguajar e sotaque, quando ri às gargalhadas do bêbado que cambaleava, quando armei situações e pegadinhas, sabendo que a fraqueza da vítima a trairia ao primeiro tropeço. Fiz e vi fazer bullying do gago, do fanho,  do que fala engraçado, do que dormia na aula, do carro velho, da roupa rota, do dedão de fora no sapato velho. Fiz e vi fazer pessoas chorarem para que eu pudesse rir. E sinto-me profundamente envergonhado do que fiz, e por quem vi fazer.

Devo confessar que, por muitos anos, tremia de pavor ao ouvir alguém pronunciar meu nome completo, porque quando você faz isso, está preparando um golpe baixo contra algo que incomoda aquela pessoa que ouve. Diziam: "E aí, Paulo Cardoso", o que tá inventando "de novo"?" Pra mim, que sou Designer, portanto criativo, desde muito cedo, na vida, ouvir em tom de deboche, ser chamado de "inventor", era despertar a vontade paradoxal de juntar um tijolo nas fuças de quem me incomodava, ao mesmo tempo de desejar estar sozinho, numa caverna, até que a maldade passasse adiante naquele dia. Mas a vida é uma escola, e viver é um aprendizado. Nem atirava o tijolo, nem me escondia na caverna. Eu erguia a cabeça e seguia solene, quase insolente, desafiando os desafios e rompendo os obstáculos. Um a um. E foi assim que cresci, engrossei o couro, exercitei a paciência, e continuei a andar. Um a um dos parasitas morais do mundo foram se calando, e perdi a vergonha de reconhecer-me inteligente e criativo, e não louco, não irresponsável, não desalinhado. Todos os que me atormentavam com bullying, um a um deles foi se calando, ou pela morte, ou pela vida. Um a um, descobriu que existe no mundo resiliência, a capacidade das coisas retornaram ao que eram, e o que pode retornar a um estúpido senão sua própria estupidez? Um a um depositou no banco da vida aquilo que tinha de pior, e o tempo os devolveu os depósitos com juros e correção. Um a um se esvaziaram na história, se esvaziaram no tempo, se sublimaram na vida. Não mais os reconheceria se os visse, como também espero não reconhecer-me, enquanto vestido da maldade de debochar de quem não pode se defender.

Não se pode confundir uma brincadeira, um deboche de atitudes, com bullying. O que diferencia um e outro é a ocasião e a continuidade. No momento em que eu faço uma brincadeira, e percebo que ela magoa alguém, o natural é cessar o feito, e melhor ainda se buscar corrigir, no mínimo com um pedido de perdão. Isso é humano,. Isso é normal. O que deixa a normalidade é espezinhar, pegar no pé, irritar. O termômetro do bom senso mostra que o limite da piada é o grau de desconforto de quem a recebe. O limite do bullying é a fronteira da reparação. Sempre há tempo. Ou quase sempre. às vezes, é tarde demais. As redes sociais e os registros policiais estão abarrotados de despedidas de alguém que não suportou o bullying, e de quem não soube a hora de parar com a "brincadeira".


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Pelas ruas de nossa humanidade - Um passeio pelos encontros de personagens pitorescos que fizeram Gramado

Foto: O Pitoresco escriba deste blog, aos 8 anos de idade, no tempo em que assoviava para provocar o Chico macuco

O que é uma rua, senão o estreitamento do tempo de jornada entre pessoas? O que são casas senão espaços onde se dorme, come, e se confraterniza com nossos amigos e familiares? O que são lojas e indústrias, senão lugares onde trocamos bens por valores e valores por bens, para nosso consumo e bem estar? O que é uma cidade, senão a soma destes encontros, valores e lugares, onde nascemos, e fazemos nascer, morremos, e choramos pelos que morrem, enquanto não chega a nossa vez?

Gramado é isso tudo,agregada pela beleza das ruas, pelo perfume dos jardins, pelo ar gelado das noite, e pelo esplendor do amanhecer no Vale do Quilombo. Gramado é o conjunto das lembranças de pessoas que passaram por nossas vidas, e não fora a audácia impertinente de um e outro historiador, nossos amanhãs seriam tão vazios quanto vazias seriam nossas lembranças destas ruas, lugares ou pessoas. Então, faço minha parte para que não haja vazios na minha Gramado da saudade, dores e vivências.

Pinguinho
Pinguinho foi um destes personagens que nunca encontrará o leitor nos anais de relevância política para louvar seus feitos nos púlpitos ornados de flores e platéia perfumada e galante. Pinguinho era um velhinho, acho que da família Wingert, que perambulava pelas ruas centrais de Gramado, fumando seu velho cachimbo de madeira e fumo em rolo, envolto em um capote de lã, e usando um chapeuzinho surrado de priscas eras. Magrinho, de nariz aquilino saliente, sem dentes, Pinguinho sorria sempre e acenava com reverência a quem o cumprimentasse. Pinguinho descia até à antiga Estação Rodiviária, tomava seu traguinho, e ia embora, silencioso, do mesmo modo que chegara. Não discutia política, nem falava mal do governo. Apenas tomava seu "martelinho de pinga", e deslizava pela tarde, rumo ao ranchinho onde morava na Vila Piratini. Pinguinho desapareceu, assim como apareceu. Silenciosamente sozinho.

Valdecir
Não sei o sobrenome dele. Talvez nem ele mesmo soubesse. talvez alguém saiba, mas esse alguém, não sou eu. Era apenas Valdecir. Perambulava pelas ruas centrais,  e aportava sempre na Estação Rodoviária, onde confraternizada com os transeuntes, e educadamente cumprimentava uma a uma das pessoas, e sorria. Não era difícil de ser notado, porque tinha uma aparência incomum, um queixo avantajado, como o queixo do Rei Carlos V, da França. Não, Valdecir nunca foi rei, e nem sabia o que era um rei, muito menos, desejar ser um. Valdecir apenas queria sentir-se bem no lugar, e ser importante, diante dos políticos que também frequentavam o lugar. às vezes, Valdecir até lia um jornal, ou fingia que lia, pois era comum posar com o jornal virado pra baixo. mas se até ex-presidentes fazem isso com livros, por que o valdecir não poderia fazer? E fez.

Zé Maria
Tadinho do Zé Maria. Um manino, um rapazote, de sensível retardo mental, que perambulava pelas ruas, com um saco nas costas, pedindo esmolas e andando pra lá e pra cá. Mas foi notável em seu tempo, porque todos conheciam o Zé Maria. De fala enrolada, dicção e articulação infantil, fazia-se feliz com pouco, com bananas vez ou outra. Certa ocasião, assentado á porta de alguma casa comercial despachando uma penca de bananas de uma só vez, com a boca cheia de pasta mascada de banana, dizia, sorrindo:
- "Mânana! Cumendo mãnana! Maliga ceia de mânana! Eta, cumê mânana!"
Zé Maria era abusado pelos malvados da cidade, e não escondia isso, o pobre. Quando perguntado, por deboche como era o abuso, apenas dizia, com a voz embargada:
- "Are que nem pimenta!" E chorava.

Taquinho
Taquinho era uma figurinha ímpar. Caminhava com jeitão de malandro, jogando ombros e cabeça de um lado a outro, calçando sapatos com dois números maiores que seus pés. Tinha um jeitão sempre sorridente, e era o "mascote" dos debochados que frequentavam o Café Cacique. Não fazia mal à uma mosca sequer, e não falava mal de ninguém. Nem tinha porque, pois daquele jeitinho manso e malandro, conquistava pessoas, e os debochados, pensando serem malandros, atiçavam as palhaçadas do pimpolho, em troca de guloseimas do lugar, que não eram de se desprezar. Assim, Taquinho era protegido deles, e ainda que dormisse em carros velhos á noite, na manhã seguinte, à hora do cafezinho, lá estava o taquinho, pronto para fazer alguém rir, e receber em paga os sonhos e café do Clávio Braun. Taquinho sublimou-se no esquecimento, mas não na minha memória. Eis o Taquinho entao.

Angelim Miraguaia
Os Miraguaias eram um clã de irmãos, filhos da Dona Leonora, que moravam lá pelos lados das terras dos Abraão, entre a Vila Moura e o Mato Queimado. Mulatos, mestiços, não sei ao certo, eram uns bugres fortes e despachados para o trabalho braçal. E também pra cachaça. Dóceis, afáveis e amáveis, educados, tinham estilo e linguagem própria em seus momentos etílicos. Angelim, creio que era aposentado por alguma coisa, e tinha uma rotina quase diária, de ir na bodega comprar mantimentos, que os carregava em uma "mala de garupa", um saco de duas bocas, levado ao ombro, cujas bocas distribuíam o peso entre uma e outra. E ao fim das compras, tomava um tragoléu bagual, para costurar pelo caminho, pegar pinto, andar em ziquezague, cantando bravatas com a voz embargada pelo timbre alcoólico contumaz deste costume etílico. Reza a lenda, que ao chegar em casa, metia o pé na porta e berrava:
- "Mamãim! Eu te quebro os córno!"
Nunca quebrou nada. Eram amigos, Bebiam juntos e se emborrachavam um do lado do outro.

Chico Macuco
O velho Chico Macuco era miudinho, usava um bigodão preto, cabelo liso, à moda índio, sobrancelhas fechadas, e sempre sisudo. Era carrancudo, severo, e não tinha paciência com a gurizada, que se escondia nas mitas e assoviava quando ele passava, imitando um "Macuco", um passarinho, que creditou-lhe o apelido. Ele odiava este apelido, e saía com seu porrete atrás dos guris, doido pra ensebar o camboim no lombo dos piás malevas. Eu devo, pelo bem da minha integridade moral, confessar, que assoviei só uma vez pra ele. Ainda bem que eu corria muito rápido, senão achoque taria algumas costelas tortas hoje em dia. Mas foi uma vez só. Nunca mais eu fiz. Não com o Chico Macuco.
Minha avó mantinha a firme crença de que Óleo da Capivara curava  anemia, e sempre que ele passava, encomendava a ele um litro do tal óleo. Pro bem das capivaras, ele nunca entregou nada.

Míntia
Míntia era um sorridente andarilho que perambulava pelos botecos e pelas casas, em busca de um biscate para comprar seus tragos e comprar alguma boia nas vendas. Vivia com a mãe, num casebre lá na Avenida Central, mas seu roteiro era o centro e vilas (na época não eram chamados de bairros ainda). Caminhava parecido com o Taquinho, maneando a cabeça de um lado a outro e jogando o corpo na direção da cabeça. Tenho que admitir, que o rapaz era dedicado à cachaça, e tragoléu era seu dia a dia. Mas era uma boa pessoa, querido pelas crianças, nunca fez mal à uma mosca seques, e teve um triste fim: Morreu queimado, em um incêndio em uma casinha anexa ao pavilhão da Prefeitura.  Muitos estudantes foram ao seu velório. Notável. E ele era bem pobre. Notável mesmo.

Lino e Landa
Eles eram irmãos. unidos demais. Perambulavam pela cidade, indo do Lago negro ao Mato Queimado, e voltavam para a Vila Moura, onde moravam. Eram filhos da Dona Chinoca, sobrinhos da Dona Chiquinha. Dona Chinoca (eu não sei o nome, nunca soube) era uma velhinha benzedeira. Benzia todo mundo (menos eu, que era de outra crença). Maioria dos meus vizinhos e amigos já sentaram á sua frente e a viram costurando um paninho, rezando suas rezas, esfregando o pano nas orelhas do benzido, e deixando o trapinho atrás da porta, para que quem o visse, tirasse dali e o levasse embora, porque estaria levando consigo, o mal que afligia a pessoa. Não sei se funcionava, mas era assim que ela fazia. Lino e Landa eram especiais, tinham a mente de crianças, e caminhavam em fila indiana. Ele uns dez metros à frente, e ela, com sua sacola de donativos recebidos, atrás. Lino sorrindo, e Landa se queixando, atrás dele. Chamava á todos de "Pai" e "Mãe". Quando fui aprendiz de enfermagem, eles iam no Posto de saúde queixar-se de algumas doenças, imaginárias na maioria, e que por sadismo, recebia uma sacola de injeções, e eram encaminhados ao hospital, onde eu trabalhava, para que recebessem as aplicações daquelas injeções.  Era costume de algumas enfermeiras maldosas, aplicarem de modo que doesse muito, na coutada da landa, e ela chorava muito. Quando comecei a trabalhar, recebi a atribuição, e passei a aplicar as injeções. Eram injeções de óleo, muito doloridas. Eu aplicava com cuidado, pois eu tinha um pouquinho de consciência sobre a dor, especialmente a dor alheia, e mais ainda, a dor de um indefeso. Depois disso, quando nos víamos pela rua, ela apontava o dedo, sorria, e gritava bem alto:"Pai! Pai!". Eu ria. Era só o que podia fazer, além de não maltratá-la. Landa morreu há alguns anos, e o Lino, da última vez que o vi, estava ainda sorridente, muito bem vestido, totalmente grisalho, e morando no mesmo lugar. Que bom.

Seu Portela
Eu já escrevi sobre este personagem, mas vale juntá-lo aos pitorescos neste ensaio. Portela era um velhinho, quando o conheci, arcadinho, com apenas dois dentes inferiores, e acho que uns dois superiores, isso não lembro bem. Andava com uma calça de lã, com uma perna arregaçada acima da outra, levando uma malinha de garupa, e um cajado, para acelerar o passo, Reza a lenda, contada pelos meus primos, que o velho era bom de adaga, pois fora marinheiro em alguma das embrenhadas da Marinha brasileira, eu não sei dizer qual, pois também conta-se que ele morreu aos 105 anos de idade. Quando o conheci, estava perto dos cem anos, e era muito ágil. Comia escondido, envergonhado por comer muito rápido, costume que aprendera na vida militar. Não sei se verdade, ou por pagodeira, contavam que ele tinha uma xaxim, ao que dera o nome de "Catirina",e de vez em quando chegava borracho em casa, e metia a faca espicaçando o xaxim. Mas eu acho que era só deboche da gurizada pra troçar do velho. Eu gostava muito dele, pois era orgulhoso e esperto. Passava em nossa casa, pois sabia que minha velha avó, de sangue e alma judia, sempre tinha um prato de sustânça pra quem chegasse á sua porta, com fome. Mas ele não ia de mãos vazias; Levava sempre no "borço", uma balita pros guris, meu tio Samuel Issac e eu. Seu Portela deixou saudade.

Outro dia eu conto mais.






segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

No dia em que eu quis ser comunista (Ficção*)


Nasci de olho arregalado, e a parteira, que também benzia, nas horas vagas, vaticinou à mamãe:
- É um ticudo, mas apesar disso, será um varão curioso!
Mamãe só ouviu a parte do "ticudo", e sorriu, aliviada, pois no lugar onde nasci, atribuia-se aos varões a sina de que se tornariam "foiceadores", e às donzelinhas, auspiciava-se que se tornassem "costureiras". Nobres ofícios, não hei de negar, porém mamãe era ambiciosa, e esperava mais do rebento, e o universo conspirou (essa foi pegajosa) e selou os lábios carnudos da parteira, que num tom engasgado, apenas foi capaz de pronuciar: "ticudo será, curioso se tornará!" (as pitonisas, nome antigo das benzedeiras, arriscavam uns versos e cavavam umas rimas para darem ar de mistério ao vaticínio) Certo foi que nasci curioso.

Minha curiosidade tinha certos limites, hei de afirmar, mas às vezes, eu adentrava em campo minado, só pra sentir a cósca das bombas. Um destes terrenos, era o idealismo marxista, a quem eu desejava ansiosamente sorver dos ensinos. Assim, resolvi tornar-me um comunista. Mas não era um comunistazinho mequetrefe qualquer, não senhor. Eu queria ser um comunista daqueles bem, daqueles encardidos, ranzinzas, estes eu queria ser, bem assim.

Decisão tomada, fui ler primeiramente o livro sagrado da foice e do martelo: O Capital! Mas aí foi que a máquina de pensar começou a emperrar, quando vi a foice e o martelo. Mas pra que foice e martelo, se os comunistas que eu conhecia estavam enfiados nos cantos sujos de casas velhas, feito ratos e baratas, planejando e arquitetando planos para dominar a burguesia? Foice era pra trabalhar nos campos e martelo, para construir cidades. E comunista constrói alguma coisa? Mas fui. Procurei o comitê local, numa ruela suja próxima da fábrica de pneus, e bati à porta. Alguém berrou lá de dentro:
- Hasta la victória!
Era uma senha, pensei comigo. Entrei no time, e completei a frase, que já conhecia:
- Siempre!
Um camarada com óculos do tipo "fundo de garrafa" engordurados, abriu a porta devagar e enfiou a cabeça do lado de fora, espiando de um e de outro lado. Como viu que eu estava só, fez um sinal com a cabeça para que eu entrasse. Obedeci,solenemente, afinal era um camarada do comitê quem me autorizava adentrar no estabelecimento, e só não usei a palavra "com reverência", porque como candidato a comunista, eu precisava me convencer de que era ateu. Mas foi uma emoção forte, devo ser sincero. Entrei, segurando com as duas mãos, voltadas para baixo, um livro de V. Kopnin, intitulado: "Dialética como lógica e teoria do conhecimento". Era impresso na URSS, e eu o consegui com um bancário de um banco estatal. O banco era estatal, mas estava lotado por comunistas. Isso me emocionava.
Assentado em uma cadeira velha, tendo á frente uma velha mesa, cheia de documentos, estava o chefe local do comitê, o Vlad, Vladimir Rodrigues. Seu nome era Jurandir, mas Vladimir era mais adequado, e tornou-se seu codinome. Comunista tinha isso de usar codinomes. Eu estava ansioso por ingressar, ser aceito logo, e ganhar um codinome. Tinha até pronto um papel de codinomes sugeridos. O meu preferido era Leonid.  Eu gostava de Vladimir, mas logo de cara encontrei um Vladimir, e logo o chefão, fiquei um pouco receoso de que isso pudesse glosar meu acesso ao partido. Então Leonid talvez fosse mais adequado a mim. Tinha que começar de baixo.

Camarada Vladimir olhou-me com a cabeça baixa, erguendo apenas os olhos, por cima dos óculos redondos, com aspecto de investigação de caráter, no caso, o meu.
- Escriturário?
- Sim, camarada. Sou escriturário sênior em um banco estatal.
- Lacaio do capitalismo! Vocês contam dinheiro e extorquem o proletariado, enquanto os campesinos engrossam as mãos e suam sangue para lhe fornecerem o pão que come? Pensou nisso?
- Não, camarada! - Respondi, profundamente envergonhado, porque eu comia muito pão mesmo. Depois disso, senti-me compelido a comer coisas menos campesinas, como enlatados, pois enlatados não vinham do campo. Vinha das fábricas. Mas não falei nada. Nem foi preciso falar, porque ele continuou seu discurso de culpa:
- Nos campos e nas cidades, nas fábricas burguesas, títeres dos ianques imperialistas, que esparramam seus enlatados nas casas do povo.
Misericórdia!- Pensei. Mal comecei a ser comunista, e estou com um ódio indescritível da burguesia. Só não tomei uma atitude mais radical naquele instante, porque eu não tinha ideia do que comeria se jogasse o pão e as latas de ervilhas e sardinha no lixo.
Vladimir anotou meu nome numa caderneta amarelada, acendeu um charuto cubano, soltou uns círculos de fumaça, e estalou os dedos em direção ao gorducho de óculos de fundo de garrafa,
- Passa um telegrama pro camarada Oliveira.  Diga que iremos fazer piquete na segunda feira pela manhã. Queremos fechar aquela fábrica até o fim da semana.
- Fechar uma fábrica? - Pensei. E o que ganhariam, fechando fábricas? Causaria desemprego.
Parecia que Valdimir lia meus pensamentos.
- Fecharemos todas as fábricas e promoveremos o desemprego, para um despertar dos trabalhadores. Secaremos a fonte de deterioração da vontade proletária, e com isso, os libertaremos de sua ganância opressora. O camarada Lênin fez isso, destruindo plantações de batatas na Polônia, e conseguiu adesão do proletariado à causa. Não é supimpa, camarada?

Olhei para meu velho relógio e pus a mão na testa, espantado:
- Me perdoe, camarada!  Tenho um importante relatório por concluir, e ainda preciso do emprego. Voltarei a contactar com você.
E saí a passo largo. Fiquei assustado com esse tipo de comunismo que conheci. Pensei então em outras correntes de pensamento. Saí dali e caminhei até uma universidade, porque fui informado que o Diretório Acadêmico tem excelentes pensadores, imaginei, e vou buscar a teoria da coisa para decidir-me. Fui. Barbaridade! Melhor que não tivesse ido. Mas fui.

Quero dizer que não tenho problema nenhum com moças que não de depilam. Nenhum mesmo. Apenas acho que não prejudicaria o movimento, se as camaradas tomassem um banho de vez em quanto. Um por semana, por exemplo. Bem, isso também não era problema meu, pois li que o camarada Guevara também odiava banho. Achava muito burguês. Então que seja. Abaixo a burguesia. Abaixo o sabonete yankee! Pasta de dente também é yankee? Pois que seja: Abaixo o creme dental e a exploração das proletárias de corpos esbeltos para alimentarem o capitalismo burguês e porco imperialista!
Bem, de fato eu gostava de tomar banho, achava lindo olhar as pernas macias e bem depiladas da moças, e sentia enjoo quando alguem não lavava o suvaco. Acho que não era bem isso que u esperava do comunismo. Achava eu que no comunismo, haveria oportunidade para que todos tivessem chances iguais, oportuniades iguais, e que o mundo poderia ser mais justo.
- Isso! Exclamava Vladimir. Isso mesmo. Se você tem sobrando, tem que dividir com quem não tem.
- Ué! Mas o cristianismo e o judaísmo, e até o islamismo, não ensinam o mesmo?
- Fale baixo, camarada! O que você quer? Destruir o aparelho revolucionário? Comunista que se preza tem que ser ateu
Quanto mais Vladimir falava. menos comunista eu queria ser. Resolvi dar um tempo. Esperar para ver como ficariam as coisas. Conversar com Aristeu. Aristeu era de uma ala mais liberal, menos radical. O radicalismo me assustou. Eu não queria pegar em armas, tirar gente de dentro de casa. Isso me assustava muito.
Aristeu era um aluno do curso de antropologia, mas fazia também umas cadeiras de sociologia, e liderava uma nova linha de pensamento, onde a palavra comunismo não era mais importante. Pachorrento, Aristeu ensinava que aquele velho comunismo bolchevique estava em decadência. Agora, as rodas de avaliação levantavam pensadores franceses: Focault, Beauvoir, um pouco de Nietsche, mas deixava a Europa fria, e engajava-se no tropicalismo latino, para construir um novo socialismo aberto, cujo melhor atributo não era derrubar uma casa ou tirar seus moradores á força, mas engajá-los e transformá-los através da dissolução da família, assexuando os filhos, e subindo a categoria do cachorro como membro da família. Solução perfeita, pois rebaixando o nível racional da burguesia e elevando a moral canina e felina, a massa seria invencível. O resto, seria uma questão de arranjos localizados aqui e ali. Fantástico! Mandar a família á merda, era o máximo. Pensei nos natais e confraternizações tradicionais incômodas de não precisaria mais abraçar os chatos, emprestar dinheiro e a bicicleta ao cunhado, e ter que suportar as piadinhas infames dos beberrões da repartição, em festas do chefe. Aceitei então um convite de Aristeu para uma reunião ideológica com os militantes. Fui. Era à noite, no centro de convivência da universidade pública.
Foi montado uma bancada improvisada para os dirigentes do movimento,e fui convidado a assentar-me junto deles. Senti-me importante. Importante mesmo. Logo eu, que nem decidido estava, de saída, sou convidado a compor uma mesa diretora. Isso encheu-me de responsabilidade, e minha postura foi ereta, impávida. Aristeu começou um discurso, conclamando os companheiros para a luta e pela libertação da América. Libertação da América? Libertação de que? De quem?

- Do neo liberalismo, companheiro! Da influência dominadora dos americanos (isso não mudou), e da globalização. Tínhamos que combater as queimadas na Amazônia, defender os coalas na Austrália, que também pegava fogo; abraçar uma árvore no centro da cidade que seria podada naquela semana,  adotar os "humaninhos de rua", os cachorrinhos; levantar uma campanha de assinaturas na web para impedir que dessem mais folhas de bambu que os pandas necessitavam porque estavam ficando gordos demais. Havia muito mais ainda:  Um grupo de rapazes, estranhamento fantasiados, trinavam canções com vozes em falsete, elaborava um movimento tresloucado, ao qual davam o nome de "performance", com uma tira de pano levantado ao alto, como uma cobra que serpenteava pelas pessoas, gritando palavras de ordem, e contra alguma coisa, que acho que eles não tinham bem certeza do que era.

Uma moça bem forte, puxou-me e me lambuzou de beijos, e abraçou-me com voluptuoso frenesi. Não foi ruim, mas achei o gogó dela meio avantajado, e sua voz rouca, parecia grave. Não sou preconceituoso, mas eu tenho certeza que debaixo da maquiagem encorpada, havia tocos de barba de dois dias. Talvez ela estivesse tomando hormônios por algum distúrbio glandular., Vai saber..

Mas não fiquei comovido com essa visão do comunismo. Concluí que o comunismo bolchevique ensinava que tudo é de todos.
- Todos não. Os proletários! - Retrucou o camarada de óculos tipo fundo de garrafa.
- Mas os bolcheviques mandariam os burgueses dissidentes pra Gulag. Sobrariam apenas os proletários.
- Então? Foi o que eu disse. Tudo para todos!
Continuei: No novo socialismo de Gramsci, ninguém é de ninguém; O que tiver que ser, a gente dá o contra e esculhamba tudo. Afinal, é a geração dos "Memes", do deboche.
Desisti por ora deste tipo de comunismo também. Pensei: O tempo vai passar e as coisas se decantam. Vou cuidar da vida.

Os anos se passaram. Fui pras redes sociais procurar os velhos camaradas. Achei a maioria.
O camarada dos óculos de fundo de garrafa tornou-se banqueiro. Passou a financiar empreiteiras e políticos.
A moça que me lambuzou e deixou todo marcado de batom, tornou-se empreiteiro. Hernandes & Galileu. Ganharam dinheiro com Resorts, motéis, e casas noturnas. Investiram também na religião. Financiam pastores em franquias de uma religião chamada: "Igreja Penta-Bossal Bola da Vez do Sétimo Dízimo", mas nesse tipo de negócio, usam laranjas. Não querem ligar-se a negócios escusos. É tudo feito ao apagar das luzes.

Vladimir entrou na magistratura.  Foi pro Supremo. Aristeu conseguiu uma colocação como assessor de um senador. Casou-se. Com Vladimir. Gramsci foi mais contundente no argumento. A Dialética como lógica e teoria do conhecimento, virou papel reciclado. Higiênico

E eu, investi em negócios de manutenção ambiental. Sou jardineiro. E filósofo. Entrego pizza, e também jogo búzios, e sendo ateu, isso me deixa mais focado nos resultados. A gente tem que ser polivalente nesta sociedade de consumo. Consumo de coisas da China. A velha e boa China de Mao, Comunista. Da gema.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Parede Branca


Um dia fui à procura de D-s. Encontrei uma grande galeria de arte religiosa, com uma placa que dizia: D-s está aqui. Entre e veja por si mesmo.
Eu entrei. Lá dentro havia um corredor cheio de portas. Em cada porta, havia uma placa que dizia: "O D-s dos Cristãos".
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Entrei, e vi um belíssimo quadro, ornado por uma moldura dourada, cheia de ornamentos e floreios. Na pintura, havia uma tela de inigualável beleza, que mostrava uma pomba branca pousando sobre um moço, loiro, de olhos azuis, e barba da cor do ouro refinado, e atrás de si, uma luz de azul intenso à volta, e branca à medida que chegava ao centro. Estranhei que embora a luz estivesse atrás, seu semblante era igualmente iluminado e tudo o que era mostrado naquele quadro, brilhava como o sol do meio dia. À volta, o ambiente era cercado de anjos com rostos belíssimos, sobrevoando e abraçando-se á moldura, espargindo eles próprios outro tanto de luz, com a mesma intensidade da que vinha de trás, e do alto, e o próprio chão, onde os brancos pés do moço pisavam sobre nuvens, tudo, tudo era luz de intensidade formidável.
Senti-me pequeno demais para permanecer naquele lugar, senti-me fraco e envergonhado, porque vi minhas mãos e meus pés, e senti o meu cheiro de cansaço e suor. Aquele não era o meu lugar, então entendi que aquele quadro não mostrava o D-s que eu buscava.
Na segunda porta, a placa dizia que ali estava apresentado o D-s dos islâmicos. Pouco pude ver, pois havia um manto negro envolvendo a pintura, porque os islâmicos não podem pintar nenhum tipo de representação de Alá, O Nome de D-s nesta religião. Um alto falante chamava os visitantes para a oração, e como eu não era desta religião, senti-me invasor daquele lugar. E não pude ver D-s por causa da cobertura do quadro na parede, então saí dali também.
Na terceira porta, estava o D-s do budismo. Uma belíssima e bem nutrida estátua de um Buda sorrindo, assentado, diante de uma flor de lótus. Na parede ao seu lado, haviam imagens de multidões famintas, em guerra, doentes, um caos. No entanto, o Buda continuava a sorrir. Fiquei confuso, e também saí daquele lugar. Não vi D-s por lá.
Na quarta porta,Havia uma inscrição cercada de letras coloridas. Era a sala do D-s africano. Vi muitas vestes e máscaras, ouvi tambores, vi pessoas dançando, naquele quadro, vi animais degolados ao lado de flores e comida. Vi charutos e cachaça, e ouvi vozes e cânticos ritmados, que eu não consegui entender também, e então saí dali´, porque não vi D-s naquela ilustração.
Uma sala com apenas uma inscrição à porta, dizia: "D-s dos ateus - Aqui Ele não está". Achei curioso, e entrei, afinal, o D-s que se oculta, pode muito bem ocultar-se no inesperado. E entrei. Havia uma grande lousa, cheia de fórmulas matemáticas, e teorias para provar o improvável. Achei graça, e não me detive ali também, pois Onde ninguém busca à D-s, certo é que não O encontrará em lugar algum, muito menos nesta sala. Fui embora depressa, pensando meste paradoxo.
A penúltima sala tinha uma Estrela de David, na porta, e uma Mezuzá no umbral. Beijei a mezuzá, e entrei som solenidade. Na enorme tela na parede, havia uma pintura que contrastava entre pessoas sofridas, e heróis em luta. Entre humildes rabinos, e imponentes reis. Ao centro da tela havia a letra Shin, de Shalom, (paz). Um toque de shofar (corneta de chifre de carneiro) dava o ar solene do lugar. Mas não vi D-s naquela sala. Sem esperança já, saí de lá, e não tive vontade de entrar na última sala. Tive medo, na verdade. Medo de não me encontrar com D-s. Mas juntei coragem e entrei. Era uma sala branca, desde o chão, paredes e teto. Na parede em frente, havia uma imensa tela branca como a neve, e à sua frente, no chão, havia um balde com tinta branca, e um menino e uma menina, segurando, cada um,  um pincel, embebidos na tinta branca da lata.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

E falando em gratidão, Rodrigo e Maurício Oppitz




Falar bem é uma arte e uma ciência que deveria ser ensinada nas escolas, pregada nos púlpitos, discursado nas praças, e rezado no recato da oração. Falar mal, é um trato com a língua viperina, com a semente do mal. Por isso, não se fala mal das pessoas,, e sim de suas más ações, do mau comportamento. No máximo, que fique claro.

Falar bem dos amigos é uma prática que deveria ser levada a sério, mas especialmente de quando se fala em tom de gratidão, em suave melodia de lembranças agradáveis. E eu tenho muitas, acreditem em mim. Boas lembranças de bons amigos.

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Falei do André Tissot, em postagem recente, e falei do Prefeito Arno Michaelsen, em outro ensaio, e falei de muitas pessoas já. Continuarem a falar, pois nem sei se gostam de ler, mas faz-me bem externar minha gratidão à quem me fez bem algum dia.

Trabalhei na antiga Sonelli, em Canela, em 1980, ou 81, não recordo direito, mas gerenciei um departamento naquela indústria, e tive dois grandes amigos lá dentro: Rodrigo e Maurício Oppitz.

Neste tempo, tive mais proximidade ao Maurício, com quem inicie (e mantenho) grande amizade. Maurício era diferente dos jovens bem nascidos de sua época. Veio de uma família de posses, mas nunca fez de sua condição financeira, motivo para espezinhar ninguém. Nenhum de seus irmãos fez isso. Eram jovens simpáticos, que sabia, aproveitar a vida, mas o trabalho próximo ao chão de fábrica os tornou humanos, verdadeiros, amigos de verdade, e isso eu pude comprovar muito, mas muitos anos depois. Cerca de trinta anos mais tarde, onde um e outro, eles, e eu, tomamos rumos diferentes na vida. O tempo nos separou por mais de três décadas. No entanto, quando nos aproximamos novamente, as histórias pareciam ter acontecido no dia anterior, tantas eram as lembranças e as prosa para botar em dia todas elas.

Nesse reencontro, eu morava em Florianópolis, e eles também. A velha Sonelli já não exista mais, mas os moços ergueram sua própria empresa, liderando o setor daquilo que produziam, e goravam o Brasil e o Mundo fazendo negócios, sempre bons negócios.
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Um dia, liguei para o Rodrigo, e perguntei se ele se ofenderia se eu oferecesse algum trabalho, na
minha área, de Design, e o fiz, esperando uma negativa, pois pareceu-me por demais ousado, reencontrar amigos de juventude, e à queima-roupa, falar de trabalho. Surpresa minha: Ele concordou, e em pouco tempo, estava eu prestando consultoria e desenvolvendo projetos para o grupo que dirigem. Foram quase dois anos, onde conversávamos quase diariamente, e não só sobre trabalho, mas falávamos de literatura, de religião, de política, contávamos piadas, e falávamos da vida em geral.

O trabalho encerrou, mas a amizade apenas cresceu. E diariamente, desde então, recebo uma mensagem diária de saudação, louvor à D-s, e gestos de amizade, do Rodrigo, independente da condição econômica minha e dele serem absurdamente diferentes. Rodrigo não faz de seu status um abismo para tratar bem seus amigos. E eu, na condição de quem desenha e constrói coisas, procuro construir diariamente uma ponte para nossa proximidade afetiva, moral, espiritual, intelectual, e certamente também profissional.

Um dia eu estava escrevendo e ilustrando um livro infantil (Biluca Bimbão - O sapo que queria voar), e comentei com ele, sbore a dificuldade de ser escritor, e correr atrás do sustento ao mesmo tempo.  Perguntou-me sobre o livro, e mostrei a ele o progresso do trabalho, em andamento. Perguntou-se quanto eu necessitaria para concluir o projeto. Expliquei então que como eu fazia toda a parte gráfica, ilustração, edição, seria o trabalho de tres a quatro meses, com dedicação exclusiva, e disse o quanto eu tinha de despesas para isso. Rodrigo apenas pegou o talão de cheque e a caneta, e perguntou-me: Posso parcelar em três vezes?

Assim, pude concluir a edição deste livro, o único infantil que fiz.

Peço sempre à D-s, em minhas orações, que meus amigos sempre tenham em mim alguém em quem continuem a confiar. É só o que me interessa. O resto é a caminhada rumo á eternidade. Um longo caminho, cheio de histórias por lembrar.

Porque ser grato faz a diferença - O Gesto de Generosidade de André Tissot




O início da década de 2000 foi um ano de muitas transformações, muitos acontecimentos, e para mim, especialmente, foi a diferença na minha carreira profissional.

Eu era um típico profissional de interior, que cresceu no interior, cujos amigos, também do interior,  enriqueceram, outros nem tanto, uns até foram à bancarrota, mas ainda assim, tudo o que acontece no interior, fica no interior. É a lei do brejo. Não que Gramado fosse um brejo, mas porque haviam limites aceitáveis de prosperidade para quem trabalhasse vendendo aquilo que as pessoas tem vergonha de dizer que tem: Inteligência.

Eu sei que tenho alguma, mas nunca tirei tempo pra medi-la, porque meu tempo é limitadíssimo, correndo atrás de dinheiro pra pagar as contas, e pisotear nos boletos pra dizer que não haviam chegado á tempo às minhas mãos. Não deu certo. Outro dia pisoteei um boleto e tive um prejuízo enorme: o boleto era digital, e a tela do meu notebook ficou em pandarecos. Nunca mais faço isso. Mas, pelo sim, pelo não, como não tenho estoque mensurável de alguma coisa, vendo aquilo que não se pode pesar nem medir: meu conhecimento sobre determinados assuntos. Design era um destes produtos não mensuráveis. portanto, de pouco valor para alguns também, à época deste relato.
Era uma comédia trágica, ou uma tragédia cômica, do jeito que o leitor preferir, conseguir vender um projeto inovador. Chegava a ser humilhante, às vezes. Encontrava todo tipo de gente no caminho. Certa ocasião, um cliente, a quem eu prestava serviços em Design, disse-me, com claras letras,m enquanto preenchia um cheque de pagamento: "Eu odeio designers! Só contrato porque preciso." Gostei da franqueza, porque assim eu economizo os necessários rapapés e salamaleques para obter meu pagamento por aquilo, cujo autor, ele odiava, isto é. eu!

Outros vinham com a conversa: "Faz um precinho de amigo, porque isso vai te deixar famoso!".  Mas o cu dele, que vou fazer baratinho pra esperar que ele me deixe famoso. Não faço mesmo! Nunca vi ninguém ficar famoso por trabalhar de graça, pagar de otário pra malandro.

Outro ainda, que modificava duas ou trés linhas do projeto, e se declaravam autores intelectuais. Sei de fábrica que já tomou processo no lombo por tentar roubar autoria de projeto de ex - funcionário, e perdeu feio no STJ. Autor pé autor. O resto é chupim de ideias.
Mais outro memorável episódio, foi de um desenhista de um polo moveleiro, que, ao mostrar-lhe meu arquivo virtual de projetos, alguns milhares, e exposto em um site antigo, já desativado, disse, com uma franqueza admirável, ao apontar para os produtos expostos: "Estes produtos aí eu copiei para várias indústrias!" (E falou olhando pra mim!!!")

Tudo isso são os espinhos de quem vende ideias. Todos estes e milhares de outros mais, foram os estrepes de sucará fincados nos dedos que tive durante a carreira. Claro, nem tudo é espinho. Teve bons e muitos bons momentos também. Um momento glorioso para um Designer, é quando toma conhecimento que seu produto gera milhares de empregos, assegura salários e mantém famílias.

Jamais ganhei um prêmio por algo que criei, no design. Talvez porque nunca competi, nem deixei que meus trabalhos fossem inscritos em concurso. Não gosto de competição. Gosto de competir comigo mesmo, e apenas comigo mesmo. Gosto de me superar no que faço. Gosto dos desafios.

Fui bem longe, na minha carreira. Atendi mais de setenta empresas, ao longo de 40 anos de carreira, em diversos Estados brasileiros, pólos e indústrias. Fiz coisas grandes e pequenas, mas não lembro de ter feito nada medíocre.

Devo minha carreira à D-s, que não abriu porta pra que eu cursasse alguma faculdade. Sou autodidata. Mas não fiz nada sozinho. Muitas pessoas merecem a minha gratidão, e talvez nunca vou conseguir homenagear à todas, porém o faço à uma delas, porque agradecer é louvável e fortalece a alma.
Certa manhã, entra um elegante cavalheiro, e diz-me que o Sr. André Tissot ofereceu-me um espaço em seu grandioso evento, Compomóvel, para que eu fosse lá vender os meus projetos à moveleiros advindos de todas as partes do país. A resposta foi pronta: "Não tenho café no bule para um evento no então chamado "Sierra Park". O cavalheiro era Telmo de Freitas Gomes, então Diretor do Sierra Park e dos eventos do Sierra Móveis. Telmo retrucou-me: Você é nosso convidado. Daremos à você um estande, do tamanho que precisar, para que você exponha seus trabalhos, e se puder, apresente uma coleção inovadora de produtos, com sua assinatura.

Fiquei pasmo, tenho que dizer, pois nesse tempo, havia certo distanciamento entre o Sierra Móveis, e os demais moveleiros de Gramado, porque no tempo das vacas magras dos proprietários, algumas pessoas mal intencionadas, pisotearam neles, diante das dificuldades pelas quais passavam, e o Ser Humano, não perdoa cheiro de dor, cheiro de sangue. Como eu não tenho o hábito de pisar em quem está com dificuldades, não entrei nessa vala comum da maldade, e sempre tratei o André com respeito, o que continuo  a fazer com quem quer que seja, e quem me conhece, sabe disso muito bem.

Assim, montei meu espaço, um fabricante, Rainundo Tomazzi, fabricou a coleção, a Madeireira Unidos, de Cambará do Sul, forneceu-me os paineis de "finger Joint", uma novidade até então, e no dia da abertura da feira, lá estava eu, com meus desenhos expostos, e os produtos em exibição.

Em média, eu vendia cerca de dois a três bons contratos por ano, mas fora de Gramado, e fazia um "pinga-pinga" em Gramado, vendendo projeto por projeto às fábricas da região.  Para minha surpresa e alegria, das dez horas da manhã, se não estou enganado, hora de abertura para fabricantes, até às duas horas da tarde, eu já havia vendido doze coleções completas, e grande parte para os mesmos clientes, que antes compravam apenas modelos avulso, mas também para fabricantes de outras partes do país. O próprio André, levava jornalistas e editores de revistas especializadas, ao meu estande, e abriu portas para guindar minha carreira, que nenhum outro empresário havia feito antes. E um detalhe curioso: o próprio Sierra Móveis, nunca foi meu cliente, pois tinha sua própria estrutura de Design, mas foi graças à percepção de um empresário, ainda que desinteressado no meu trabalho, abriu portas e elevou-me ao seleto grupo de Designers brasileiros.

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Assim, penso que externar publicamento meu agradecimento ao cidadão, ao amigo, e ao empresário, é uma forma que tenho de testemunhar aos que encontrarem oportunidade de abrir portas, que o façam, e façam no tempo devido, para que não fiquem engavetadas as ideias de tantos talentos em busca de oportunidade.

André fez a diferença para minha carreira. E eu procuro fazer a diferença para outros que buscam seu caminho.

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