quarta-feira, 31 de março de 2021

Nós não somos a Venezuela, nem a Venezuela é o pior dos mundos


A primeira premissa, bate como verdadeira, porém, nas atuais circunstâncias, pareço demasiado otimista para descrever um país irmão, cujo povo é assenhorado por um tirano e seus comparsas, cujo poder é supostamente mantido por forças poderosas internacionais, a saber, Rússia, e Irã, e não, Cuba não é uma poderosa força internacional que dá sustentação à ditadura de Nicolás Maduro, senão, também, supostamente, emprestando, ou alugando mercenários, para que treinem as milícias populares a se prepararem para futuras, quiçá desejadas, guerrilhas na selva, contra os imperialistas americanos.

Assim  os recursos, antes abundantes, advindos das profundezas da terra, cujo solo possui, ainda hoje, a maior reserva de petróleo do mundo, se esgotaram, no pagamento de armas, na evasão de ouro para comprar mais armas, na extorsão de camponeses e campesinas, tomando de seus melhores frutos, a força para manter saudáveis estas supostas milícias, ainda que o povo, um povo alegre e ordeiro, suporte com bravura e esperança, a escassez dos mercados, e os delírios de seus ditadores (que são mais de um, pois um homem sozinho não tem como sustentar uma ditadura e promover o terror, senão quando suportado por pares tão ou mais terríveis, contanto que a estes seja partilhado o quinhão, não apenas das fortunas roubadas, como a saciedade da sede de sangue e fome de poder.

É assim que agem todas as ditaduras, em todo o mundo, e em todos os tempos. Primeiro, o povo se descontenta com a situação política e econômica, e fortalece alguém que ousa vociferar contra as fortunas, e favor do pobre povo sofrido. Eis porque pode dizer-se que quem estabelece ditadores é o povo e seu sofrimento, pelo qual se levantam vozes e ativistas, que subvertem a ordem e promovem a desobediência civil, em nome do patriotismo. É assim que nascem as vontades de abusar das possibilidades, de promover as transformações sociais, que nessa altura já estarão catalogadas nos manifestos populistas dos embriões ditatoriais, e sobre as quais arregimentarão fanáticos revoltados, estes, advindos, não das massas famintas, mas da Classe Média descontente, que expõe, sem pudor, suas vergonhas e frustrações, para promover uma revolução, a qualquer custo, e de qualquer maneira.

As revoluções são diferentes das guerras. Enquanto as guerras são organizadas por projetos militares e onde são traçadas estratégias disciplinadas, com objetivos específicos, e com planos de início, meio e fim, onde ainda no planejamento já são determinados os futuros gestores das terras ocupadas, e de sua nova economia, nas revoluções, as estratégias são desenhadas às sombras, e no joelho, e seus guerreiros não são soldados treinados, mas mercenários odiosos, que tem como missão quebrar, e incendiar tudo o que encontrar pela frente, saquear, destruir, exterminar, torturar, e estabelecer núcleos de terror, onde comandantes sujos e indisciplinados  não se contentam em abrir frente para um novo comando central, mas se insuflam de autoridade e estabelecem seus domínios apocalípticos, bairro por bairro, distrito por distrito, e por fim, formam novas nações limitadas pela força das armas e número de mortos em suas bandeiras, poi o povo já não é mais povo, mas uma massa amedrontada, e amor ao próximo é substituído por retaliação e expropriação por posse de algo que deveria ser de todos. O povo não é mais povo, mas um bando de mortos-vivos que matam e morrem pelo pedaço de uma carcaça de cão,  ou coisa pior.

Nós não somos a Venezuela, e nem a Venezuela está nessa situação ainda, embora quase, batendo a marca de chegada. Mas ainda há um povo que canta o amor por sua pátria, e espalha canções e poemas clamando por um país livre e melhor.

Nós não somos a Venezuela, porque somos o Brasil, a terra dos brasileiros, do povo que vende água nas esquinas, e junta latas pelos lixos, para manterem seus filhos na escola, ainda que pública, mas com a dignidade de uma boa roupa, e de um prato decente à mesa. Somos o Brasil que sabe o nome dos Ministros dos Tribunais, e sabe distinguir o certo do errado, quando se juntam por solidariedade. Somos o conjunto de pessoas com características únicas no mundo, tamanha a nossa diversidade étnica, religiosa, social, cultural, e econômica.

É bastante verdade que há ricos muito ricos, e também pobres à beira da miséria, mas há um grande contingente de inconformados que tem inimigos em comum, ainda que com opiniões diversas. Uns creem no uso da máscara e do álcool em gel para reduzir os riscos da peste, enquanto outros, confiam em suas qualidades  ideológicas para assegurarem a si mesmos que o que importa é confiar nos seus líderes, porque seus líderes são atletas, são fortes, dizem o que pensam e não pensam no que dizem, e isso leva confiança ao cidadão que se considera amparado, e pessoas confiantes tem imunidade elevada, é o que pensam, e tal imunidade irá receber o mal como cócegas de plumas, mesmo que os intubem de recavem direcionado ao infinito, continuarão imunes, e ainda que morram, não poderão ser responsabilizados pelo descuido que tiveram com suas vidas, porque quem tem confiança no que diz, não é culpado das consequências, assim imaginam.

Nós não somos a Venezuela, porque aqui não existe a menor possibilidade de que um Homem, que  suba ao poder pelos braços do povo, perderá sua autoridade e suas palavras e decisões serão sempre confiáveis. Não há nenhum risco de que um eleito se torne um tirano, porque a Justiça não permitiria tal concorrência, e muito menos o Congresso Nacional. Aqui cada tirania tem sua própria esfera de atuação, e uma não interfere na outra, jamais, impensável tal coisa, e qualquer cidadão que possa provar sua inocência, jamais será encarcerado por suas opiniões, ou por falta de provas de sua culpa, pois a presunção de inocência é extensível à todos, e isso começa pelos mais elevados cargos, onde, ainda que supostamente tenham desviado parte do erário público em beneficio próprio, os de seus, a presunção de inocência sempre os acompanhará, e se é bom para eles, é bom para todos. Por isso, Não não somos a Venezuela, e nem a Venezuela é o pior dos mundos. Por enquanto, não. Afinal, o que uma ditadurazinha pra quem já passou por tanta miséria nos últimos 5 séculos?


Esclarecimento: Esse texto é um ensaio de ficção. Nada disso acontece no país onde todos são felizes e cheios de esperança. Nem tampouco na Venezuela.*


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terça-feira, 30 de março de 2021

" O Universo conspira!"



" O Universo conspira!"

Mentira sem fundamento. Universo nada mais é que um ajuntamento de vazios entre um e outro Próton, Neutron, Neutrino, Elétron, e Bóson. Não necessariamente nessa ordem, e em uma quantidade acima da minha capacidade de cálculo quantitativo. Isso é quase tudo que há.

O que existe na ponta do meu dedo é igualzinho ao que existe do outro lado, na outra extremidade desse conjunto energético. Nada mais. Nada diferente. Então, pra mim, pouco importa como isso se comporta, como essa energia bem distribuída age no confronto entre Quasares, Neutrinos, ou Buracos Negros. Pouco me importa se um Buraco de Minhoca se emaranha na relação Tempo e Espaço, e se o movimento quântico do irrequieto Elétron está aqui, ali, ou acolá. Tudo é isso, mas isso ainda não é tudo, porém, tudo o que me importa é que O Tudo que movimenta o todo, É. Simples assim, e O Que É, eu gosto de chamar de D-s. E que D-s É em mim, e eu estou N'Ele. Do lado de cá do Universo. Então, se o Universo conspira, isso não me interessa. O que me importa é que O D's que Criou O Universo, me inspira. E inspira você a pensar por si mesmo, em algum lugar no Universo, que pode ser deitado na sua cama, ou caminhando na sua jornada.

Universo é apenas um amontoado de luzinhas diminutas que piscam e giram, e em conjunto, tornam-se grandes, imensas, sóis e galáxias, nuvens das nebulosas, em um giro interminável sobre si ou sobre outras. Porém, D-s não se esconde lá. D's Se oculta enquanto Se mostra. No sorriso de uma criança, na sabedoria dos velhos, e na paixão pelas descobertas dos seres pensantes, seja da idade que for.

D-s leu com você o texto que escreveu por meus dedos. Até corrigiram erros de digitação. E deixou passar um aqui e outro ali, para lembrar que em tudo o que faço, há uma Parceria, e não uma conspiração.

D's não conspira. D' s inspira.

Shalom

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sexta-feira, 26 de março de 2021

Civilização Pós Covidiana* - A COVID-19 e a reinvenção do design

Pacard - Designer - Consultor, Escritor e Palestrante - Especialista em Tendências para o Setor Moveleiro*

 Quem "inventa" a moda não são os designers. Moda é aquilo que passa. Tendência, é o que ainda virá, mas o que permanece é sempre o comportamento humano, e sim, este é imutável. O que muda, são as maneiras com que o Ser Humano se comporta diante das estações da vida, e de que maneira ajusta as velas à navegação do destino.

São os movimentos sociais, sejam eles políticos, econômicos, ou comportamentais, quem determinam as curvas as retas, as cores, os volumes, e a funcionalidade das coisas que utilizamos no dia a dia, e quando tais coisas são usadas de forma imperceptível, então, pode se estabelecer uma tendência em determinado costume. Um sapato, por exemplo, pode ser considerado adequado, quando não lembramos que estamos calçando, e assim acontece com as roupas, com as lentes dos óculos, ou com o volume da televisão. Quando tudo está funcionando de acordo com a adequação desenhada para aquela função, o seu uso corriqueiro gera um costume, e quando os costumes se multiplicam entre as demais pessoas de certa região, ou padrão, temos uma tendência.

As guerras, as calamidades, os eventos políticos, tudo faz parte daquele pacote de ingredientes que irão abastecer os desenhadores de objetos e coisas que irão oferecer maior conforto, status, e prazer, aos seus usuários, da porta pra fora da loja. Uma guerra pode modificar o modo de segurança das casas, dos automóveis, de medicamentos de emergência, novas anestesias, vacinas, e assim por diante.

A corrida armamentícia da Guerra Fria entre USA e URSS, criou a corrida espacial, que por sua vez, trouxe a liofilização dos alimentos, dos aspiradores portáteis, das roupas com tecidos inteligentes, e da tecnologia das comunicações.

As grandes quebradeiras das bolsas de valores, aprimoraram o sistema financeiro, e uma após outra, as grandes tragédias  foram indutoras de soluções desesperadas para situações desesperadoras, o que resultaram em significativos avanços na qualidade da medicina, comunicações, indústria metal mecânica, transportes, vestuário, e praticamente, uma a uma das demais áreas interligadas, foram se ajustando aos novos tempos.

Não quero dizer com isso que seja bom ou necessário o sofrimento para que o remédio seja inventado, pois, sem sofrimento, também não há necessidade de remédio. É simples assim. Então, o homem que sobe diariamente um morro íngreme para buscar água ou alimento, decididamente tem as pernas e os braços mais fortes do que aquele que caminha em uma linha reta e plana para satisfazer suas necessidades.

Em tudo o que se encontra no caminho da civilização, há necessidade e oportunidade para o novo desenho dos utilitários, e as circunstâncias em que isso acontece, aceleram a criatividade. Estamos, portanto, vivendo um momento único, dentro do período pós guerra, que exige um despertar criativo e inovador sem precedentes na história, uma vez que a descoberta do fogo, tenha criado imediatamente a necessidade de criar instrumentos para reacender a chama, e prover recursos para alimentá-la. Nasceu assim, a fricção, a pedra sílex, e o machado. Com estes instrumentos em uso, o sabor da caça se tornou melhor e mais macio, após o cozimento, e a adição de ervas. As frutas se tornaram mais abundantes depois que o homem descobriu que poderia reproduzi-la em um ambiente controlado, e nasce a agricultura, depois a troca por caça, por terras, por armas.

O mundo vive seu momento de aceleração contínua e a velocidade de seu giro, diante dos avanços da ciência, deixa de ser em uma rotação em torno de si por dia, mas de milhares de rotações por minuto, por segundo, e até em Nano segundos, uma milionésima fração de tempo, em que o próprio tempo que conhecemos se torna lento demais.

Dizia o profeta Daniel: "Porém tu, ó querido Daniel, tranca em segredo, mediante um selo, as palavras do Livro, até o tempo próprio do fim. Muitos farão de tudo e correrão de uma parte a outra em busca do maior saber; e o conhecimento se multiplicará muitas e muitas vezes!” (Daniel 12:4). Vivemos esse tempo sem nenhuma dúvida. Vivemos o tempo em que tudo que pensávamos ser futuro, torna-se presente, e o que era presente, é jogado ao passado, de um dia para outro. E aqui encontra-se a necessidade de que pessoas com visão holística (ampla) mergulhem numa análise conceitual, e redefinam o novo comportamento da "Civilização Pós Covidiana*  (Acabo de criar a expressão), e a partir disso, redesenhem o novo padrão de necessidades, e tal padrão, poderá nortear os novos caminhos do Design, segundo o avatar dessa tendência, e o sopro desse vendaval.

Na minha singular leitura, o novo padrão do Design deverá oferecer o perfume da alegria, como um broto frágil que eclode da casca ressequida de uma árvore castigada pelo inverno. Os novos padrões deverão soprar como brisa, e não como furacões. Deverão lembrar a essência das raízes sublimes, para apagar a tristeza das perdas incontáveis. Este é o novo desenho do Design que vejo, a partir do rescaldo da pandemia. É nesta direção que vejo brotar os novos talentos, aqueles que tem, antes de tudo, profunda sensibilidade, e não os que apenas buscam a glória das capas de revistas e brilho dos holofotes em salões suntuosos.
O novo Design da Civilização Pós Covidiana* deverá ser um refrigério às almas doloridas, e padrões como: Leveza, pureza de estilo, Cores suaves e traços delicados, farão a diferença  para quem não pode olhar para trás sem que o coração se desfaça em quebrantos, e que o mar inteiro se deposite nos olhos. Esta é a função do Design: Promover conforto e bem estar ao usuário. E o sofredor de agora será o usuário de logo mais.


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domingo, 21 de março de 2021

Os devotos do youtube - A nova doutrina

 
Pacard, NÃO é Rabino, Pastor, Padre, Preletor, Político, ou Xamã. É apenas um Dati (estudioso das Escrituras), e Servo do Altíssimo. Palestrante e Mentor, isso sim*

Acabo de publicar um ensaio sobre a importância do conhecimento, como fortalecimento da razão, como forma de sustentar a emoção, isto é, estabelecer bases sólidas para que a emoção brote de dentro pra fora, e não venha como  enxerto de espécie estranha, nos fazendo de "cavalos", ou melhor, de "burros de carga" da vontade alheia, os que terceirizam a fé.

D-s habita em nós, segundo diz a Bíblia. O corpo é O Templo do Espírito Santo, a Presença do D-s Vivo entre nós. D-s não é um ser alienígena oculto entre as brumas do infinito, de prontidão ao chamado e invocação mágica por ritos e negociações espirituais, mas A própria Vida que nos faz respirar, e sobretudo pensar, raciocinar, exercer o livre arbítrio, nos dá a possibilidade de escolha entre o ser ou não ser, ir ou ficar, tomar ou levantar, viver ou morrer. No entanto, o mercado de ilusões cresce a cada instante, em proporções exponenciais, fazendo proliferar os fiéis cibernéticos, dependentes espirituais de Podcasts, e principalmente videos motivacionais e louvores compartilhados pelo You Tube e pelos grupos de Whatsapp e Telegram.

Este tipo de crente, caminha para uma letargia espiritual, ao ponto em que entra em completo desespero quando cai a internet, e não consegue ouvir seu louvor preferido, como se o fato de ouvir o louvor e os efeitos produzidos dos equipamentos musicais pudesse preencher o vazio que a falta de conhecimento do modo com que D-s trabalha em nossas vidas.

Se D-s está em nós, não tem como acionar um botão de "start", para que Ele acorde e nos dê atenção, mas de uma coisa eu sei: emoção comercial, enlatada, calculada, não faz isso. Quem desperta, não é D-s, somos nós, e será nos momentos da escuridão, do Vale da Sombra e da Morte, que teremos o gatilho para que nós nos abramos aos cuidados e conforto do Eterno em nossas vidas. Yeshua (Jesus) usa a expressão: "Estou à porta, e bato!", mas em que lugar diz que Ele está do lado de fora desta porta?

No idioma grego koinê (grego bíblico), a palavra que traduz "pecado", é "Hamartía". Hamartía significa: Sair da rota, errar o caminho, desviar-se do rumo. Tiago, 5:16, o autor diz para "Confessar os pecados, uns aos outros, para serem curados", e com essa leitura, desprovida de interpretação, criou-se a teologia da "Confissão dos erros morais", em lugar de compreender que "confessar, aqui recebe a função de: Abrir o coração sobre as dores, os problemas, chorar com alguém, buscar consolo, e não repreensão, e ainda que seja de origem imoral, buscar conselhos, dividir a dor. Assim, se D-s habita em nós, Ele, portanto, é participante testemunhal de nossa dor, e no momento em que Ele "bate à porta", está nos despertando da letargia que a dor nos impõe, e nos fazendo despertar, acordar, pensar e mudar o rumo, mudar o comportamento, e reivindicar a cura e o alívio.

Ocorre que, quando somos dependentes espirituais do louvor alheio, no momento em que nos falta, nosso próprio louvor já morreu. É por esta razão, que o mesmo autor bíblico diz, no Vs 13: "Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Há alguém encorajado entre vós? Cante louvores." Então, num único capítulo, o autor diz assim: Sofre? Ore; Está feliz? Louve. A carga é pesada? Divida-a com alguém. Infelizmente, o púlpito do  YouTube é uma via de mão só, e até o tempo do louvor está limitado ao tempo da canção ou do sermão. O You Tube não te abraça, não senta contigo à beira de um rio, nem chora contigo num velório. E seu louvor eletrônico está sujeito ao sinal do wifi, ou 4 G.

O conhecimento é aquilo que carrega o arquivo do nosso coração com algoritmos compostos de letras e números, de sons e imagens, de sentimentos e razões, e com um bom sistema operacional, cada momento ou situação, receberá de nós mesmos, o script do código que nos levará a entoar canções que nunca ouvimos, proferir discursos que não treinamos, e sentir perfumes de flores em jardins que não plantamos, porque brota de dentro, e Aquele que Habita corações, conhece bem a livraria de nossa alma, para que nossa voz entoe os louvores que nos fazem bem.

Engana-se que ouvir ou mesmo, cantar um louvor, rezar uma oração, ou discursar belas palavras, possa agradar à D-s, pois D-s não é volúvel, nem insensível. O louvor, a oração, e as palavras, são para nosso próprio conforto, e para o conforto de quem são dirigidas, no momento da necessidade.

Menos YouTube e mais ar no pulmão. Menos "copiar e colar" verbetes bíblicos pré-escolhidos, e mais estudo do significado das palavras. Este é aquilo que Paulo de Tarso chama de "Culto Racional à D-s". A razão sustentando a emoção, e o coração conduzindo a ambos. Fé e obras. Ciência e espiritualidade trabalhando juntas.

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Conhecimento, ou emoção?


Pacard, NÃO é Rabino, Pastor, Padre, preletor, Político,ou Xamã. É apenas um Dati (estudioso das Escrituras), e Servo do Altíssimo. Palestrante e Mentor, isso sim.

נר־לרגלי דברך ואור לנתיבתי׃

A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos, e luz que clareia o meu caminho.

Salmo 119:105

Não sei até onde é proveitoso o excesso de oportunidades de fama e notoriedade que as redes sociais proporcionam. De um momento a outro, em um único dia, uma sequência de gemidos, chamados de música, e imagens que movimentam a libido dos assistentes, pode transformar um medíocre qualquer, em uma celebridade mundial.

Não apenas na música, como nas artes visuais, na literatura, na política, e no conhecimento humano, notórios vazios se inflam em tempos absurdamente ínfimos, ao ponto de transformar pobres em ricos, e ricos em milionários, simplesmente porque um símbolo de um polegar levantado ativou, por sua multiplicação, o algoritmo, o gatilho cibernético, que induz à liberação monetária, pela única lógica de que a estupidez humana foi potencializada através da facilidade com que tudo pode se propagar no vazio. Eis a lógica do absurdo da fama repentina das redes sociais: entram pelo ouvido e encontram caixas cranianas abandonadas, facilitando a propagação dos fótons falsos pela escuridão da mente. É assim que a estupidez se propaga com tanta velocidade e com tamanha ferocidade. Mentes vazias se preenchem com o que entrar, não são seletivas, não devolvem o lixo ao lixo, antes, devoram tudo, e de tudo o que for vomitado dentro delas.

Esse fenômeno não acontece apenas na política, embora seja esta o manancial de oportunidades para que a adrenalina da eloquência obtenha mais adesões, do que a quietude do estudo, onde as barreiras mentais não se deixam transpor sem uma argumentação sólida, que só se fortalece pelo conhecimento.

É por coisas desta natureza, que crescem as ideologias vazias do populismo, seja de Direita, Centro, ou Esquerda, ou das organizações religiosas que, pela malandragem pseudoteológica, proliferam aos borbotões, à custa do vazio mental de seus prosélitos. É por esta razão, que se proliferam pastores, políticos, "coaches", "mentores", palestrantes motivacionais que levantam o ânimo de multidões, fazendo bater palmas, abraçar, dar pulinhos, chorar, suspirar, rir, gargalhar, sorrir, e arrepiar-se, sem que sais dali sem uma única página de conteúdo para decidirem por si mesmas sobre o que realmente querem para rir, chorar, emocionar-se, levantar, sentar, aplaudir, ou calar-se.

Nenhuma referência bíblica existe nessa direção. Nenhum dos grandes homens e mulheres das Escrituras, garantiu seu sucesso e o sucesso de seus liderados, senão através do ensinamento, da auto análise, do questionamento próprio, e do incentivo contínuo de busca de conhecimento, de sabedoria, de ciência, e de domínio próprio. 

D-s nunca deu respostas, mas deu lições e fez os Homens pensarem por si mesmos, avaliarem seus erros, e medirem suas potencialidades, antes de qualquer empreendimento que os motivava a iniciar.

- "Onde estás, Adão?" - Perguntou, em lugar de dizer: "Filho desobediente!"

- " O que tens na mão, Moisés?" - Em lugar de dizer: Toma tua vara e a transforme numa serpente.

À todos que D-s quer enviar, antes faz perguntas, mas à quem O desafia com perguntas indecorosas, dá respostas evasivas:

- "Se o Faraó me perguntar "Quem És", o que direi? - Disse Moisés!

- "SEREI QUEM SOU!" - Respondeu O Eterno, ou seja, D-s não permitiria que Seu Magnífico Nome fosse tripudiado pela boca indecorosa de um pagão assassino.

Assim, questionar é ensinar e ensinar é aprender, diz o Talmude. "Aprende a Torá, ensinando a Torá". E o que ensina é o mesmo que aprende, e nada se pode aprender sem questionar a quem ensina. Esta é a receita para a certeza tomar o lugar da fé. O conhecimento do caminho por onde se caminha e o lugar onde se quer chegar. Este é o sentido de conhecimento. Mas e a emoção, então, é vazia?

De modo algum! A emoção é a faísca que acende a chama, mas é a lenha sólida quem mantém o fogo. A lenha é o conhecimento, e as chamas são a luz da confiança que iluminam o caminho por onde se deve andar, que guia os passos para andarem com segurança, ainda que seja pelo Vale da Sombra e da Morte.

Houve um tempo, em que ensinava-se a decorar. Criou uma geração de pessoas frias. Daí, veio a geração de pessoas que aprendeu a rebelar-se contra os costumes vazios as que simplesmente escolhiam o que desejavam decorar, até que chegou a geração que começou a questionar (por que tenho que aprender "potenciação" na quinta série, se nem sei onde vou usar isso?), portanto, aprender é questionar, é buscar fontes, é esmiuçar e esquadrinhar o conhecimento, até que pela multidão dos conselhos se encontre a sabedoria.

Há milhões de eloquentes oradores, e há o histórico infame de alguns que, pela emoção de suas palavras, destruiu multidões. Há eloquentes pregadores, que enriquecem à custa da pseudo felicidade alheia, que precisam abastecer-se semanalmente do néctar das palavras agradáveis de suas pregações. E há os que buscam conhecer os mecanismos da fé e das emoções, construindo em si mesmos, a estrutura emocional para ser usada com moderação e ponderação, quando a oportunidade vier.

Aos que necessitam das igrejas físicas e das aglomerações sociais para abastecer o tanque da felicidade, faço uma comparação a um pedaço de ferro, banhado de cromo. Este cromo é polido e brilhante, mas no momento em que um ambiente corrosivo o envolve, a fina camada deste metal não protege a estrutura de ferro que está dentro, e o ferro mostra a que veio, e se corrói, até ser completamente destruído. Assim também é a fé e a emoção sem uma base sólida de conhecimento. Assim somos nós, quando trocamos o estudo das Escrituras, pelo ensinamento enlatado em citações esparsas de eloquentes motivadores de massa, e temperados por espetáculos musicais a quem chamam de "Louvor", estamos comendo a sobremesa em lugar do alimento saudável, estamos nos embriagando pelo brilho polido de uma lâmina microscópica de cromo ou até mesmo ouro, quando nosso espírito não suportará as intempéries do mar de tristezas dos dias maus, e nesse tempo, não teremos mais como cromar nossa fé, pois cromo não se liga à ferrugem. Se não nos disciplinarmos ao estudo apurado e contestação do que vemos, lemos, e ouvimos, pelas comparações dos escritos e ensinos, enquanto não tivermos a capacidade de estruturarmos nossas próprias opiniões a respeito daquilo que chamamos doutrinas, não teremos fé, mas uma casca emotiva, que é arrancada até pelos dedinhos macios de uma criança. Fé sem conhecimento é vazia, e fé sem obras que a sedimentem, é morta.

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terça-feira, 9 de março de 2021

Causos de Gramado de priscas eras - O muquifo do véio Marculino (Ficção)

 Marculino das Dores saía cedo de casa e ia ao velho galpãozinho minúsculo, situado lá no fundinho do terreno, a cerca de uns doze passos da casa. Era seu muquifo preferido, seu lugar de sossego e quietude, cortada apenas pelo som do velho rebolo de Pedra de Areia, onde amolava as facas tortas pelo uso, e a enxada com cabo lustroso de tanto uso, além de uma ponta ou outra de prego velho que encontrou por aí, nas andanças da rua.

Marculino era amancebado com Esmeralda, a filha mais nova do velho Custódio Ferreira, que fora moleiro, antes da grande cheia de quarenta e três, que foi bem maior que a de trinta e nove. Nunca se casaram, no papel, nem no religioso, porque Esmeralda não era mais moça donzela quando se casaram, e fora, por essa razão, enjeitada por dois pretendentes, antes de conhecer Marculino, o guarda-livros do armazém de secos e molhados da família Parreira.
Mas isso já é um outro causo. O que quero relatar nessas poucas e mal traçadas linhas, ao pegar a pena, é sobre o muquifo do véio Marculino.

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Marculino guardava molas velhas, fósforos utilizados apenas uma vez, a caixinha dos fósforos, principalmente, as latinhas de sardinha e de atum, e velhos cabos de martelo, enxada, e pratos com uma beirinha lascada, gaiolas de passarinhos, e até penicos, que ainda poderiam servir para alguma coisa. Plantar um chazinho neles, por exemplo, era uma opção.

Marculino ralhava com a piazada, se os visse entrando no muquifo. Ali era um lugar praticamente sacrossanto. Era ali que uma velha bomba de chimarrão, puída e esburacada, servia para um bocal de mangueira, na rega das couves, do lado de fora.

Imagem: internet modificada
Um velho cepo acinzentado de madeira, servia de bancada para apoiar um pedaço de mola de caminhão, que servia de bigorna, para bater a folha de uma lata de azeite desmontada, e esta folha poderia tranquilamente ser pregada na parede de fora do rancho, onde um antigo nó houvesse caído. Para essa finalidade serviam os pregos enferrujados, juntados pelo caminho, e endireitados na mola, a marteladas incertas, acertando umas, no prego, e outras nos dedos trêmulos, sob o olhar turvo atrás das lentes velhas e riscadas, que adornavam o sorriso franzido, de quem tomava martelada, mas fazia o que gostava.

O véio Marculino não era habilidoso nas artes da funilaria, nem da carpintaria, porque não fora este o seu ofício de trabalho, mas este era o seu prazeroso entardecer da vida. O cheiro de Naftalina, Creolina, e "Catinga de Mulata", eram a certeza de que aquele era um lugar de verdades científicas desconhecidas da própria ciência, pois o véio Marculino também gostava de brincar com fórmulas e linimentos, para "besuntar as cadeiras (lombar)", e curar fístulas e cobreiros. Quase sempre funcionavam. Quase sempre.

Sempre que guardo um parafuso, uma latinha, um paninho velho, ou os fósforos já usados, de volta na caixa, olho no espelho, para saber se meu nome não é Marculino. O espelho diz que sim, mas o documento amarelado da minha certidão, diz que não.


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quinta-feira, 4 de março de 2021

O pizzaiolo espanhol

Vocês podem achar que tou de implicância com os europeus, mas acho que o problema é comigo, tipo, não exatamente comigo, mas com as escolhas dos lugares que vou. Francamente, aparace cada uma.

A praia de Gandia é uma estação de veraneio, na província de Valência, nas costelas da Espanha, junto ao Mar das Baleares (Mayorca, Menorca, e outras orcas que nem lembro mais), uma pistolinha avançada a Oeste do Mar Tirreno. É um paraíso de grande qualidade, na baixa temporada, porque na alta temporada, triplica o populacho, de Europeus apobretados, tipo os...ah, tipo ninguém. Apobretados é suficiente! E por ser uma praia de pobretões, é pra onde eu fui, óbvio, conhecer as praias de pobres da Europa, porque aqui no Pindorama só tem praia de rico (vide Curumim e Arroio Teixeira), e não tem como ir.

Europa, pra quem não sabe, gastronomicamente falando, é igual ao Brasil: você paga pouco e come até rachar a cincha, deixar a pança lustrosa, tipo assim,  café colonial em Gramado, ou churrascaria em São Paulo, tipo isso.

Já percorridos alguns países onde se come fazendo biquinho, ou se apanha do pizzaiolo, aportei, com minha corriola, certa feita, numa rua, procurando comida, coisa de comer e encher o bucho, como bom brasileiro faz, e Ôh grória! Encontramos uma placa na frente dum estabelecimento, que dizia (a placa): 
- "Coma cuanto lo quieras y paga 700 Pesetas!" (700 Pesestas equivalia a uns 3 dólares, mais ou menos, Uma pechincha, alpem da palavra mágica: Coma cuanto lo quieras! E eu queria, ah como eu queria. Entramos. Era o céu dos buffets, tudo livree, à vontade: Paellas, de todo tipo, pizzas gigantes, saladas de encher os olhos, arroz colorido de todos tipos, um céu, um céu, imaginem!

Enchemos o bandulho, de sair com spaguetti de meio metro pendurado no canto do beiço, para chupar aos poucos enquanto fazia a digestão. Como estávamos em turma, um ficou organizando o rateio para pagar a conta, e eu aproveitei e fui saindo pelo lado da cozinha. Lugar amplo. A porta da cozinha era tipo "Saloon", com duas folhas, de vaivém, e tinha vidros, que permitia contemplar o serviço de cozinha do estabelecimento. Olhei aquilo, arranquei com violência o spaguetti que ainda faltava e disfarçadamente joguei no prato de um oriental, que se atrapalhava para comer de garfo, e como tinha os zoínho fechado, nem viu o que eu fiz. Dirigi-me à meus amigos e, discretamente disse:
- Meu povo! Deem uma olhada no pizzaiolo, ali na cozinha!

O povo foi, e dali, de olho arregalado, em silêncio funesto, em fila indiana, e comportadamente, saímos, direto a uma farmácia, em busca de sal de fruta. Eu explico. Não que a comida não fosse boa. Sim, era muito saborosa. Bem gordurosa, como a gente gosta. A questão era o pizzaiolo, com um abdômen protuberante, com avental amarrado à cintura, braços imensos, cabeludos, o peito peludo, como o Tony Ramos, branco de farinha, porque ele pegava uma montanha de massa com os dois braços, batia, na bancada, levantava, e batia com a massa no peito, e a jogava novamente na bancada, repetindo e repetindo até dar a textura da receita, que evocou-me à lembrança do italiano que ganhou a receita do pai, do avô, do bisavô e do Vitorio Emanuelle...num compasso ritmado de flamenco:
- Ratataá, tarraratatá, cataplaft, cataplaft, tarratatatá, OLÉ!

Fora isso, foi barata a bóia. Foi mesmo! Bem nutritiva, pois pelos próximos dois dias, ninguém mais conseguiu comer nada. Não tinha fome. Pensa!


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O Catchup na pizza do italiano



Crime inafiançável é colocar catchup na pizza. Aprendi isso a duras penas, em Milão, certa feita, quando saboreei uma pizza, nem tão grandiosa assim, pois pizza pra valer, das bagual mesmo, é aqui no Brasil. Os italianos são muito frescos pra pizza, credo, massinha fina, uma lambida de molho e uns queijinhos em cima, e chamam aquilo de pizza. Eu olhei aquele disquinho de farinha tostada, e pedi um catchup. MAS AI PRA QUÊ que eu tinha que pedir catchup. Pensa só no olhar de ÓDIU que o desgramado do gringo olhou pra mim. A veia do pescoço engrossou, e só ouvi um gemido, um grunhido, e vi uma lágrima escorrendo beiço abaixo. Saiu dali, enxugando ozóio com o avental enfarinhado, e chamou o pizzaiolo. Sabe o Stromboli, do Pinóquio? Coisa pior saiu daquela cozinha gordurosa. Veio na minha direção, gesticulando (achei estranho, pois italiano não gesticula, são quase fleumáticos) e lascou, em 96 decibéis, cuspindo todo enquanto falava:
- "Ma perché, mio ​​padre, che ha imparato da suo padre, e che ha imparato da suo nonno, che era il pizzaiolo di Vitorio Emanuelle, e ha creato la ricetta della nostra pizza tradizionale di famiglia ... lì arrivano questi Americani che mettono CATCHUP nella nostra pizza del centenario , accidenti, scomunicato!"
Báh! Sabe eu? Nunca mais pedi catchup em pizzaria na Itália. Eu levo a minha de casa e ponho quietinho. Fiquei muito injuriado, não pelo gritedo, mas por me confundir com americano! Gringo por gringo, prefiro os de Farupilha e Cacias. A pizza deles é bem melhor! Gostou do texto? Tem mais nos meus livros. Compra um lá, vai. É só clicar na imagem abaixo.

Eliete Moschem Capellari, Janine Pires Bergold e outras 5 pessoas
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Nas casas que tem Camélias


Aposte comigo, se quiser, mas na casa onde tem um antigo pé de Camélia, os quartos cheiram a Maçanilha; a sala é perfumada com chá de Maçã com Canela, e a cozinha tem um velho fogão com a chapa brilhando, assim como brilham as bem areadas panelas penduradas no velho paneleiro esmaltado.

Na casa onde tem camélias no jardim, também não faltam flores antigas, como Cravos e Rosas, Cravinas, e Brincos de Princesa que brincam feito crianças ao embalar do vento.
Na casa onde tem Camélias, um velho gato dengoso se lambe, na janela da varanda, onde vasos pendurados exibem Gerânios e Samambaias vaidosas, em velhas panelas pintadas com outras delicadas flores, assim como delicados são os ornamentos das floreiras das janelas, cuidadas por uma velhinha que veste um longo vestido surrado, de estampa xadrez cinza-chumbo e fios vermelhos em contraste com a cor tristonha do avental.
Na casa que tem camélias, uma panela ferve ao fogo, exalando aroma de frutas sendo transformadas em alguma geleia, para adornar e temperar o pão que assa no velho forno de barro, logo ali, do lado de fora da porta.
Na casa que tem Camélias, tem retratos antigos emoldurados em delicados quadrinhos, cuidadosamente arranjados pelas paredes dos corredores e da sala de estar, ainda que pequenina, muito acolhedora.
Na casa que tem Camélias, tem histórias, causos e lembranças.
Tem até mesmo saudade de tempos que foram guardados juntos com os vidros de conserva, em prateleiras ornamentadas, sobre a mesa de jantar.
Na casa que tem Camélias, tem um bule de café fumegando sobre a mesa, e um velho fazendo graça com sua amada, enquanto ela o repreende pelo excesso de açúcar no café, e estende à ele um pratinho de biscoitos que acabou de tirar do forno.
Na casa que tem Camélias, tem um lugar sempre vago à mesa das lembranças.
Na casa que tem Camélias, as horas andam muito devagar, quanto o tempo corre depressa.
Na casa que tem Camélias, sopra uma suave brisa que embala as velhas cortinas, as cortinas puídas e perfumadas de lavanda, que serviam de esconderijo para as crianças, nos velhos tempo em que ainda haviam crianças se escondendo debaixo da mesa, e correndo pelo jardim atrás das galinhas, acompanhadas pelo velho vira-latas zarolho, que vinha lamber a mão em troca de um afago ou um pão seco.
Na casa que tem Camélias, tem vida, ainda que quase no passado.
Que saudade, da casa que teve Camélias em minha vida.
(Pacard, 2021 - Cadeiras na Varanda)

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terça-feira, 2 de março de 2021

D-s não existe , por isso eu tenho esperança


Passei por uma experiência, nos últimos dias, que, em outros tempos, teriam me colocado aos prantos, subindo pelas paredes, e em completo desespero: Um AVC, que é uma caixa de Pandora, cujas surpresas se despejam sempre com amargor. 

Um lesionado cerebral, é completamente imprevisível, pois dependendo de onde a lesão acontece, lá dentro da massa encefálica, o indivíduo, tanto pode cair morto no mesmo instante, quanto perder completamente os movimentos, e os sentidos, quanto mudar sua identidade, gosto por comida, e infinitas alterações de comportamento e ação. Esse é o cérebro, o que nunca foi totalmente usado, e já começa a causar rebuliço na vida das pessoas, não apenas a que foi afetada, mas as que a cercam e dela dependem, fazendo inverter os papéis, e quem era marido, se torna filho, quem era filho, se torna pai.

Durante o período crítico das incertezas de minhas lesões, eu só tive uma certeza: nunca consigo deixar de me surpreender comigo mesmo diante da adversidade, e também multiplico-me entre as pessoas que acompanham minhas publicações, que surpreendem-me sobremodo, com empatia e sensibilidade.

Fui religioso a vida toda, mas sempre tive vergonha de manifestar isso, por razões diversas, e ao fim de cada sábado (eu sou sabatista), sentia-me culpado, porque naquela semana, e naquele dia, eu não fui missionário o suficiente para "resgatar almas para Jesus", e ao entrar a semana, os afazeres da vida aplacavam minha angústia, até que chegasse novamente o glorioso sábado, para encontrar-me com D-s, na minha igreja, com seus cultos muito bem organizados, pessoas perfumadas, aparentemente felizes, e o culto era um momento de consagração, especialmente no convite coletivo para os abraços, e o chamado à frente para as orações. Assim era minha religião. E assim eu me sentia também, durante os apelos evangelísticos para distribuição de folhetinhos, na ânsia de que cada folheto entregue seria a última e única esperança de salvação da pessoa que os recebesse. Sentia-me grato e abençoado quando alguém batia a porta na minha cara, pois lembrava que os santos do passado foram até mesmo queimados vivos, pelo amor ao evangelho que pregavam. Ah, como eu invejava os santos do passado, mas ao mesmo como era grato porque hoje não queimam mais santos vivos nas praças, pelo menos não no lugar onde eu moro. Mas eu continuava incompleto, infeliz,  distante de D-s.

O tempo passou, e passei a lembrar das histórias que minha avó contava sobre nossas origens judaicas, e recomendava que eu não devesse comentar isso, pois poderia ser perseguido, como foram perseguidos os nossos antepassados, e durante minha turbulenta juventude, trocando de emprego, tomando calote, e fazendo trapalhadas, ela atribuía isso, não à minha juventude eufórica, mas à certeza de que eu era perseguido. Dizia ela: "Eu não tenho alcance (sou ignorante), mas quando tu tiveres alcance, busque conhecer mais sobre a tua história). O tempo passou. A vida continuou. Ela descansou. E eu fui buscar saber mais sobre mim e meu povo.

Não mudei de religião, nem tampouco me desliguei da igreja que frequentei a vida toda, embora tivesse pensado muito sobre isso, mas finalmente aquietei o ímpeto de rebeldia, e concluí que minha igreja não estava errada, assim como as outras também estejam certas, na leitura que conseguem compreender sobre a relação do Eterno com o Ser Humano. Desta forma, parei de implicar com a religião dos outros, e como eu não professava mais nenhuma religião, isto é, não me investia de apologética (defesa da doutrina), e aquietei-me em refletir sobre meu próprio relacionamento com D-s, e o fiz, buscando conhecimento das Escrituras em quem escreveu elas: o povo judeu! Poético e irônico até, que os judeus escreveram a Bíblia, e apareceram os romanos, os alemães, os americanos, para tentar ensinar-lhes a interpretá-la. Assim, por coerência, não me converti ao judaísmo, mas passei a ver com olhos mais tolerantes a cultura, assim como consegui, aos poucos, compreender a tênue linha que me separava, por meio da religião, da compreensão do pensamento de D-s para o Homem,  por uma leitura ampla e perspicaz das sutilezas da língua e dos costumes, da tradição.

Os meus sábados se tornaram leves desde então, e fui deixado pela angústia que me abraçava, porque não era suficientemente competente para o campo missionário, porque parei de contar "estrelas para minha coroa no céu, por almas resgatadas", e passei a contar apenas as horas que faltavam para que chegasse a noite, ou a minha soneca do meio dia, momento em que eu deitava (sim, D-s me ouve deitado também), e relaxado, conseguia conversar longos minutos com O Eterno, naturalmente pedindo desculpas por ter dormido entre um e outro "amém".

Sem a tabelinha de perguntas e respostas acerca da fé, programadas para serem preenchidas corretamente, a cada pergunta, encontrei muitos espaços em branco, sem respostas, ou sem perguntas adequadas, e que a partir destes vazios, fui procurar, não as respostas, mas as perguntas, para as respostas que eu tinha, e que eram insuficientes para aquietar meu coração pecador.

A primeira e mais importante coisa que descobri foi o paradoxo sobre o Espírito Santo, ou, como se diz em hebraico, que faz mais sentido, o "Ruah Hacodesh"-  Sopro Divino, que é manifesto no Ser Humano, unicamente, pois sempre foi incutido em mim que O ES seria como uma porção de água, que preenche uma esponja, isto é, que sem isso, seríamos vazios completamente, como no vácuo que existe em uma lâmpada de bulbo. Então, fiz diversas leituras até, e a lâmpada de bulbo, poderia ser uma delas, com algum resquício de convicção, considerando que somos vazios, mas a luz divina, sendo manifesta em nós, nos faz brilhar. Bom isso, mas faltava algo, embora eu nunca tivesse dúvida da existência de D-s, ficava estranho pensar que haveria certa formulação verbal ou emocional que "atraísse" O ES para meu corpo, como aquela máquina do filme "os caça-fantasmas", que capturam espíritos em um aspirador de pó. Não! D-s, o D-s Criador do Universo ou dos Multiversos, do Átomo e de suas infinitesimais partículas, não era isso, e não haviam matrizes de captura do amor de D-s nem de Sua manifestação em mim, como se eu fosse aquela esponja vazia. Foi aí que mergulhei no estudo, na busca do entendimento, e como diz a linguagem bíblica, na busca da sabedoria. Foi nessa condição, de esvaziamento dos preconceitos, que entrelacei o que sabia de minha fé, com a fé de meus ancestrais, e foi assim que entendi uma coisa, de uma vez por todas: D-s não existe! D-s É! Simples assim. 

Existir tem um antônimo, que é inexistir, e aquilo que inexiste, pode vir a existir. D-s nunca inexistiu, portanto também não existe, mas É, porque Ser não tem antônimo, Ser é absoluto, e sendo absoluto, também eu não posso me esvaziar de D-s, para que Seu Espírito me preencha, e assim, nasce um vazio, e mais uma pergunta: Então, como posso saber que D-s habita em mim, se sou criatura e não recipiente?

Vamos ao mar. Lá tem um peixe, e o ambiente de existência do peixe é a água. A água não está no peixe, a não ser que ele respire, deixe que entre em seu corpo, porque para o peixe, água é vida. Mas o peixe também é em grande parte também formado de moléculas de água. Assim, o peixe é formado de água, mas não é água, e vive na água, e necessita dela para continuar vivo. D-s É assim. D´s não está em nós,. Nós é que estamos n'Ele, mas Ele emana em nós, manifesta-se em nós, quando respiramos o Seu Ser, quando permitimos que nos preencha com Sua Centelha Divina. E isso não contradiz as Escritura, pois como Jesus disse que: "Eu e O Pai Somos Um", e em sua oração, pede que seus discípulos sejam UM n'Ele, assim como Ele e O Pai são Um, da mesma forma a Unidade de D-s em nós é essa compleição onde somente nos sentimos plenos quando percebemos que essa "Água Viva", viva em nós e nos preencha, e tal como o peixe, somente quando inspiramos, isto é, desejamos Sua manifestação, é que nos tornamos plenos com O Pai. Simples assim.

Ora, se D-s habita em mim, e eu n'Ele, torna-se partícipe o sofrimento de meu corpo, mas quando nos deixamos preencher por essa Centelha, o corpo ainda sofre, mas nosso sono é mais leve.

D-s não é uma caixa de desejos, onde com fórmulas e recitações mágicas, ou "orações fortes", possamos controlar Sua vontade em nos servir. D-s É quem sabe de nossas aflições, e nos fortalece para a eternidade, o nosso destino maior. D-s não fica atrás de uma montanha espiando os nossos passos para nos julgar, mas habitando em nós, sobe conosco a montanha, para nos elevar aos céus.

Nosso mundo chegou ao fim, como um elástico que estica até arrebentar, e estamos agarrados nele, porém não chegamos ao fim do mundo, e sim ao começo da eternidade, onde será nosso definitivo lugar. E a eternidade é um lugar indescritível, um tempo absoluto sem o passar das horas, e as distâncias não serão maiores do que um passo, porque estaremos mais plenos da essência divina quando lá chegarmos. Eu não tenho medo. Eu tenho esperança!

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A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...