quinta-feira, 30 de abril de 2020

Dr Apolônio Lacerda - Terapeuta Quântico Bagual



Terapia quântica abagualada não é qualquer terapia, aliás, nem terapia é, porque, no conceito de Apolônio, terapia é "côsa de lôco". e não há melhor terapia do que uma enxada de três libras, pra usar o cabo como agente libertador de neuroses existenciais, complementado pelo relho de três pontas, agregado ao talo de coqueiro, e rabo de tatu, de hora em hora. Daí o termo: "Quântico"! Assim é chamado, porque quando o paciente toma umas lambada de relho, pra parar de frescura, ele pula tão ligeiro, que não se sabe em que lugar está, para cumprir o desafio de acertar as anca e o lombo.

Terapia Quântica Abagualada, segue diretrizes de outra terapeuta afamada nas bandas do Bassorão, Carsulina Arrancatoco, cujo método era mais manso, condimentado com prosas ao pé de ouvido, e para os casos mais graves, um purgante de folhas de Umbú no mate da noite. Já Doutor Apolônio Lacerda é contra o uso do Umbú, por achar agressivo demais. Acredita que o relho em si tem dado respostas bastante satisfatórias, quando o assunto é frescurite, adjetivo que ele dá aos surtos psicóticos forçados, por raiva adquirida, como por exemplo: alguém que mexe na bomba de mate, ou passar a cuia com a mão esquerda, sem explicar que é a mão do coração. Coisas desse tipo. Estes hábitos podem ser considerados nocivos à sanidade mental, e sobretudo, à sanidade social. Relatarei aqui e a posteriori, alguns casos e causos segundo este tema, pois não? O que Doutor Apolônio sabe é que alhures e algures, respostas inaverão (neologismo de sua lavra para dizer que não haverá), se buscas não se fizerem. Vamos ao primeiro caso.

Malapenas - O Taura que fumava cebola

Não parecia uma coisa comum, fumar cebola picada numa palha de milho, como se faz com fumo de rolo, mas cada um tem sua tara, e a tara do taura "Malapenas", era picar uma cebola bem fininha, esbrugar com a mão, em movimentos circulares repetidos, e depois de lamber duas ou tres vezes a beirinha da palha, espalhar a cebola dentro, enrolar, lamber de novo, e acender o paiêro continuamente, dando tragadas e soltando fumaça com bafo de cebola nas fuças do Doutor.

- Dr. Apolônio:  Mãns chê! Te acépa aí no toco, esse aí que tá com um pelego, e me conte as tuas mágoa, animáli! Os sêus pobrema é a nossa devertição", é o meu lema.
Depois de dar umas baforadas no paiêro, e escarrando num penico velho, que ficava ali do ladinho do toco, Malapenas começa.
- Malapenas: Carcule o senhor, Doutor Apolônio, que sou de uma família de tauras cuiudos. Todos na família. Papai era cuiudo, vovô foi um grande cuiudo maragato, meus tios, todos cuiudos véios de tropa. Não escapou ninguém, nem meus irmãos, mamãe, vovó, minhas tias, tudo cuiudo. Assim, eu também precisei ser cuiudo "deusdicando" era miudinho. Como eu nasci muito esfomeado, e na "ocasiã", mamãe dava de mamá pra mais treis piazote lá, contando com um entregador de pão, e o dono da venda, quando chegava a minha vez de me atracar nas goloseima, só tinha treis pingo lá. Mas como mamãe era muito boa, pra não me deixar passando fome, espremia uma cebola, e aquele leite de cebola, enfiava numa garrafinha com uma chupeta, me dava um naco de charque pra ir me intertendo, enquanto tomava meu tetê. Quando o tempo passou, ficava mal pra mim andar agarrado numa garrafa de cerveja com chupeta, tomando tetê, enquanto jogava truco ou numa partida de bocha. Então, pensei que tava na hora de trocar o bico, pra desfarçar, e foi até ideia do falecido meu pai, que preparou pra mim um paiêro recheado com cebola, e "deusdilá" que eu tenho esse "víuço". Tem cura, Doutor?

Dr Apolônio: Cura tem, mãns curá pra quê? Pensa comigo: Fróide fumava e cheirava umas subestância que dá medo só de alembrá. O ato de fumar, de lamber a páia, espicaçá o fumo, e no teu causo, a cebola. Mãs chê, a côsa não para aqui. Bamos estudar a cuestã. A cebola é redonda, umas são parecida com ovo. Pois bão! A cebola é formada pos camadas cebolais, uma dentro da outra, até que chegue no miolinho, no pititico da côsa. Na cebola, nenhuma camada é mais importante que a ôtra, e nenhuma camada sozinha forma uma cebola, se defino como cebola. A cebola não sabe que é cebola, mãns mesmo sem saber que é uma cebola, ela continua sendo cebola, e também, fede igual uma cebola.

A vida é uma cebola. Casca depois de casca, camada por camada, a vida espáia seu cheiro, e tempera a bóia, tempera o fejão mexido, o arrois carrtêro, tempera a salada, e só não tempera o pudim, porque ninguém pensô nisso ainda.  Então, a cebola é um ingrediente da cozinha, assim como a relação cas peçôa é um ingrediente da vida. Vancê foi enjeitadinho, mãns teve uma compensação, e essa compensação é como uma prestação que não termina nunca: fartou a teta, e no seu lugar,entrou a páia acebolada. No causo, a cebola na páia é o teu tetê.

Eu recomendo que primeiro, pegue uma enxada, e vá carpir um lote. E plante cebolas.  E na próxima consulta, não me apareça aqui sem um saco de cebolas, de regalo. Despois, largue o paiêro, que faz mal pros pormão. Troque pelo mate, que faz bem pra pleura, além de dar mijadeira. E se botar cebola, não me sirva.

Dito isso, Doutor Apolônio puxou do relho e estalou um lambaço nas porpa do vivente, que saiu aos pulo. Estava encerrada a consulta daquele dia da Terapia Quântica Bagual.




terça-feira, 21 de abril de 2020

Ênio, Topo e eu.



Ênio, Topo e eu.
By Pacard
Éramos três. Ênio, Topo e eu. Ênio era cerca de uns oito a dez anos mais velho que eu, que era uns dois ou três mais velho que Topo. Este apelido era a forma econômica de “Topo Gigio”, um personagem que era um ratinho muito esperto, criado por uma professora italiana, e que fazia muito sucesso com a criançada por suas maneiras dengosas de falar, além de ser muito engraçado também. Então, como meu amigo não era de muito elevada estatura, ou sei lá por que razão, deram-lhe, entre outros apelidos, o de “Topo”. Pegou.
Ênio, o mais velho, era um sujeito soturno, sinistro, misterioso, mas não era má pessoa. Ao contrário, tinha um coração generoso. Certa ocasião fomos caçar passarinhos (naquele tempo caçar passarinho era uma ocupação de afirmação de virilidade aos meninos, e também próprio da cultura italiana que colonizou a região. Então, sem nenhum constrangimento, caçávamos passarinhos. E sem nenhum constrangimento, eu tinha uma espingardinha de pressão, que atirava chumbinhos. Ênio foi comigo caçar os passarinhos. Teria caçados muitos passarinhos, se meu parceiro não tivesse sido justamente o Ênio. Ele prestava atenção em mim e via quando eu mirava num passarinho. Ele fazia o mesmo, mas atirava antes, e a uns dois metros do bichinho, espantando-o. Espantou todos, e voltamos pra casa “sapateiros”, expressão usada para definir alguém que não logrou resultado em alguma coisa, zerou. Assim era então Ênio.
O que tinha de exótico eram seus estudos. Mexia com assuntos que não permitia que perguntássemos nada. Coisa de guri bobo. Estudava assuntos esotéricos, deixava meio que transparecer que fazia isso, para garantir o respeito por si, mas não permitia que ninguém mais soubesse do que se tratava. Não era proselitista. Fora isso, Ênio era um “bon vivant”. Gostava duma cerveja, uísque e duma farra. Era parceiro em tudo. Menos em matar passarinho. Jogava futebol, era, parece, goleiro. Tocava guitarra (e como tocava mal), e bateria (um pouco menos pior). Fez parte de uma banda na cidade, que durou pouco.
Ênio era um notável desenhista projetista. Numa época em que não havia arquitetos na cidade, apenas engenheiros (e engenheiro treme ao ver um lápis, segundo os arquitetos, e estes, segundo definição dos engenheiros, é um sujeito que não foi bicha o suficiente para ser decorador, nem macho o bastante para se tornar engenheiro), Ênio, que não era bicha, engenheiro, arquiteto e nem decorador, tornou-se o melhor desenhista do gênero da cidade.
Tinha ainda uma virtude, que ninguém jamais decifrou o método: era capaz de entrar se pagar em qualquer lugar, principalmente bailes de interior, bailes da colônia. o homem era dotado de uma habilidade de convicção tão grande, que chegávamos ao baile, um grupinho, duros, só tínhamos uns trocadinhos para um refrigerante ou uma cerveja, mas se pagássemos o ingresso, passaríamos a noite à base de água da torneira do banheiro fedorento. De olho arregalado, em silêncio, observávamos com atenção os movimentos dignos de um malandro junto aos porteiros. Ele gesticulava, ria, fazia movimentos, e logo já ganhava um cigarro de um, fogo de outro, dava umas três ou quatro tragadas, virava-se para onde estávamos e fazia um geste de chamamento com a mão. Íamos em fila, cabeça baixa e olho arregalado, reverente e respeitoso com os porteiros que nos apressavam para disfarçar a desobediência aos patrões da festa. Uma vez lá dentro, em pouco tempo, Ênio aparecia com cerveja e refrigerante para todos. Sem dinheiro.
Topo era o amigo sério do grupo. Moderado, ponderado e exageradamente honesto. Ético até o fígado e um pedaço da pleura. Não admitia um passo em falso de ninguém. A pobre alma vivia como coração na mão em nossa companhia, pois tudo o que não se pode encontrar num grupo de guris metendo os pés pelas mãos é ética. Honestidade até sim, mas ética, assim ética mesmo, deixava-se a desejar. Seria pior, se não fosse o “grilo falante” ao nosso lado. Ríamos muito. De tudo e também de nada. Ríamos de tão bobo que éramos. Aí quando não havia do que rir, ríamos disso. Só pra ter do que rir.
Topo trabalhava em um Banco. Era o queridinho dos colegas por esta seriedade. na idade, tinha lá os seus dezesseis anos. No juízo, uns cinquenta. Na sabedoria, oitenta e cinco ou oitenta e seis. Isso o tornava o chato do grupo. Adorável xarope. Mas era o nosso xarope. onde íamos, ia junto. Se fosse para subtrair frutas em algum quintal, ia junto, mas não sem antes nos prevenir de possíveis consequências, do pecado do roubo e especialmente do que fazer se fossemos mordidos pelos cachorros da casa. E depois o fruto da façanha era dividido igualmente, tudo com ética, sob a observação dele, que já era versado em contabilidade na época.
Um dia, Ênio tomou um tiro bem no meio da cara. Lógico que foi pra sacanear os amigos. Morreu poucas horas depois, por gozação. E a cena que lembro é de nós dois, Topo e eu, sentados num banco da praça, os dois, onde antes sentávamos três, olhando o vazio da noite, os carros que cruzavam indiferentes, e a noite que desfez o trio.

No dia em que senti saudade de mim


Me perdoem meus leitores que estão acostumados ao meu otimismo, mesmo quando sou crítico. me perdoem, mas nestes tempos em que quiser ser diferente dos mortais, descobri-me ainda mais igual que todos os iguais que já encontrei. Descobri que não há como beber água suja e e manter a digestão em ordem, pois tenho bebido da mesma fonte , de águas iguais às águas de Meribá, sem encontrar ervas amargas que possam torná-las doces. Não pra mim, não pra muitos, não agora, talvez amanhã.

De minha janela, contemplo a manhã na mata, isso é diante de minha janela, e até os pássaros não são mais tão graciosos. Não hoje. Não pra mim. Não pra muitos. Hoje não. Talvez amanhã. De minha janela deixo que o sol me abrace, mas seu calor não derrete o gelo da alma que deixei exposta à noite. Este sol não aquece mais alma nenhuma. Talvez alguma, Talvez a sua. Talvez aqueça até o mundo, mas não todo o mundo. Também apenas a parte de fora do meu mundo. talvez amanhã seja melhor para este mundo. talvez fique bom pra todo mundo. Talvez até pra mim. Talvez sim.

Tudo o que posso dizer é que, ouvindo velhas melodias de minha infância, desliguei a vida e atravessei o tempo, para qualquer lugar no passado, no meu passado. E em meu passado, via as pequenas borbulhantes cachoeiras geladas onde ia pescar, nadar, atirar pedras no rio, respirar o orvalho e abraçar o vento. Deixar-me ser tocado pela primavera, e me embriagar pelo perfume das matas por onde brincava sem compromisso com o tempo, com o mundo, com o  medo, e com a vida. Aquilo era uma vida. Aquela era a minha vida.

Meus pés pisavam nas rosetas da grama, e só o que incomodava era o tempo perdido para catar os espinhos, tempo que poderia estar correndo atrás da bola, atrás das borboletas e à noite, dos pirilampos. tempo que poderia estar subindo os morros para colher araçás , para colher amoras, para colher guabirobas, para colher quaresmas, para colher o mundo, um pouquinho de cada vez, na conchinha da mão quando bebia a água cristalina dos córregos que brotavam das matas, dos caminhos cheios de mistérios, onde fadas e duendes, ainda que não existissem, pululavam serelepes pela minha imaginação de menino que nunca tinha ouvido falar de compromissos, outros, que somente no amanhã, o hoje de meus sonhos, vieram abraçar minhas manhãs, as manhãs em que olho, pensativo e saudoso pela janela, onde o sol e o vento se juntam para chamar-me às doces memórias  de minha infância querida.

Meus heróis eram os valentes em preto e branco, que lutavam pela justiça e pela paz, combatendo vilões com suas canções, e são estas canções que me devolvem um pouquinho das lembranças.

Deixo algumas destas canções. Deixo algumas das minhas lembranças. Agora é a hora e aqui é o lugar para lembrar. Podem nos tomar a liberdade, podem nos tomar o sorriso, podem nos tomar a voz, mas nossa saudade ninguém é capaz de tomar. Minha saudade é só minha. Assim como o raio de sol que aquece o vento. Assim como o vento que sopra para longe o tempo que foi tomado de mim.









sábado, 11 de abril de 2020

O aprendiz e a vaca do camponês - Conto popular(adaptado)



Vou contar-lhes um relato, contado pela tradição judaica, que não tenho certeza se de fato tenha acontecido, ou seja apenas uma parábola, uma Mishná, para enriquecer a sabedoria dos aprendizes. Isso não tem importância, se ocorrido de fato ou não, pois a lição do fato é genuína, e tomando-a por empréstimo para ilustrar minhas próprias considerações ao momento de crise humanitária pelo valor da adequação tão próximo do que desejo ilustrar ao meu leitor. Eis o caso:

Caminhavam por uma campina verde e farta de belezas, dois eruditos, sendo um deles um jovem varão, ainda na fase de elevação sapiencial, e o outro, seu mestre, um notável sábio da universidade próxima do lugar por onde caminhavam.  Caminharam por muitas horas em profundo silêncio, apenas contemplando o lugar, até que ao sol mais elevado no zênite, verificaram que seus cantis de água estavam vazios. Olharam em direção ao horizonte, e avistaram, junto ao pé de um penhasco, um choupo bastante humilde. Aproximaram-se e observaram que havia uma pequenina e mal cuidada horta com legumes, cercada por uma paliçada de bambus, e do lado de fora do cercado, uma vaquinha, que pastava com a solenidade com que pastam as vacas tranquilas.

Batendo palmas para chamar à atenção dos moradores, logo vieram à porta, um casal de camponeses, acompanhados dos filhos, e gentilmente, ao ouvirem a solicitação pela água, trataram de encher os cantis, e oferecer-lhes como regalo, uma caneca com delicioso leite para que saciassem a sede e revigorassem as forças. Tendo bebido o leite, e recebido a água, o jovem, dotado da curiosidade própria dos jovens aprendizes em sua ânsia pelo conhecimento da natureza das coisas, dirigindo-se ao anfitrião, perguntou sobre sua condição de sustento.

- Temos uma vaquinha, que nos abastece com seu leite abençoado, e uma pequenina horta, que complementa com algumas verduras e legumes, às nossas refeições, e assim vivemos, com as bênçãos do Altíssimo - respondeu o hortelão.

Despedindo-se, e agradecendo pelas dádivas, e bendizendo O Nome do Criador, partiram dali. Pensativo, e com ar decididamente preocupado, o aprendiz dirigiu-se ao mestre com esta questão:
- Sapientíssimo mestre! Sou de uma família abastada, e penso em retribuir tão gentil hospitalidade, promovendo o bem estar desta família. Dize-me como posso contribuir tão louvável gesto?
- Louvável atitude, meu filho, respondeu o mestre. Vá então, sem que ninguém o veja, e leve a vaca até o penhasco, e empurre-a pelo perau.

O aprendiz ficou horrorizado, mas cumpriu a ordem do mestre. Feito isso, seguiram sua jornada de volta à universidade.

Alguns anos se passaram. O Aprendiz cresceu na sua carreira acadêmica, e um dia foi chamado para tornar-se professor naquela mesma universidade. A lembrança do que fizera à família, a ingratidão pelo que fizera como paga de ter sido bem tratado, corroía-lhe a consciência, e tão logo chegou à universidade, decidiu procurar novamente aquele lugar, para ressarcir a família, e aliviar seu desassossego de tantos anos.

Eis que lá chegando (e conto este relato com tremor e lágrimas nos olhos), não encontrou mais a velha choupana, e em seu lugar, uma bela e majestosa casa de fazenda, com uma lavoura à perder de vista, um pomar majestoso, e centenas de bois e vacas espalhados pelo campo, ao lado da lavoura. Haviam casas menores para os agregados da fazenda, e um belo parque de diversões, onde brincavam crianças sorridentes, uma escola, um templo de oração, ruas pavimentadas, e uma aldeia rica e próspera.

Pensamentos de remorso afloraram ao professor, imaginando que após perceberam o sumiço de sua única fonte de recursos e subsistência haver desaparecido, teriam entrado em desespero, e vendido por preço irrisório suas terras, caindo possivelmente, em desgraça, perambulando pelo mundo, e vivendo à custa de esmolas de almas mais caridosas que a sua própria, que em lugar de prestar auxílio em gratidão, optou por obedecer uma ordem absurda de seu mestre, sem nada dizer em contrário à sua atitude naquele dia.

Retomando a realidade, bate à porta, e é recebido por um casal de idosos, com seus dois filhos, e netos, felizes, e o acolhem com alegria, oferecendo-lhe um lugar à mesa, posto que era já hora do desjejum. Ele aceita, e é levado à uma farta mesa com frutas, ovos, carnes, pães, bolos, sobremesas, variedades tais, que sugeriam um verdadeiro banquete.

Seus pensamentos, no entanto, já tomado de ainda mais remorsos, direcionam-se à família miserável à qual lançara ele, aprendiz, ao infortúnio, destruindo a única vaquinha que os alimentava. Seus pensamentos são logo quebrados pela bela jovem que pede que ele estenda a xícara para servir-lhe café com leite. Sorridente, ele agradece, e enquanto mexe o açúcar do café, pergunta:

- Não havia neste lugar uma família, que vivia em uma choupana bastante humilde?
- Sim! - Reponderam.  Somos nós! A vida era boa e pacata. Tínhamos uma vaquinha e uma pequenina horta, de onde alimentávamos nossos filhos. Porém, um dia, por vontade de Nosso Senhor, a vaca caiu em um penhasco, aqui atrás, e ficamos sem o leite. Então decidimos plantar uma lavoura....

Acho que a vaca do mundo foi jugada em um penhasco, e acho que teremos que plantar uma lavoura, quando isso tudo passar.


A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...