sábado, 12 de dezembro de 2020

Jardim da Esperança - Ode à Gramado

Este poema foi desenhado, por amável convite,  feito pelos diletos colegas, escritores e poetas, membros da AGLA - Academia Gramadense de Letras e Artes.


JARDIM DA ESPERANÇA
Ode a Gramado
Pacard


Sentei-me, sozinho, à noite
Para abraçar as lembranças
Que meu tempo carregou.
Relatos de outros tempos
Cujas vozes já vazias
minha memória apagou.
Veio à mim, uma criança,
vestida, tão de esperança,
que a recebi com abraços,
tornou-se meu corpo, em braços
trajados de coração.
Pediu-me, histórias,
que as contasse.
Retratasse minha  vida,
que falasse das feridas,
das flores e mananciais
mostradas pelas lembranças
do tempo de meu sonhar,
daquelas tardes airosas,
das invernias manhosas
que tempos não trazem mais.
Sou menino desta terra
que entre as serras se aninha
como faz um passarinho,
cuja mãe constrói seu ninho
no galho em que confiou.
O meu ninho, fez minha mãe
e o dela, os meus avós
cada folha desta árvore
abrigou a todos nós.
Abrigamos os nossos filhos
nos abrigam nossos pais
entre os ramos mais frondosos
dois ou dez, nunca é demais.
Uma terra é um regaço
onde jorram mananciais
onde nos plantam com sonhos
e colhemos sempre mais.
Mais que sempre, nunca é nada
o afeto que nos abraça
onde todos são pessoas
onde não se vê a raça
onde pernas são esteios
mãos e braços, ruas, praças
onde flores, mais que luzes
iluminam, fazem graça.
Passarinho, esse sou eu
neste chão que é sempre meu
embora terras, não tenha
minha herança é uma fonte
onde a fortuna jorra
da vertente sobre a mina
desta água cristalina
do chão que me recebe
e mata a sede que ainda tenha
quando minha vida termina .
A vida que um dia, encerra
carrega o cheiro da terra
o frescor do ribeirinho,
esparge doces, perfumes
dela sentirei ciúmes
se a um outro se entregar.
Mas restam outras delícias
no manancial das carícias
de um coração que ainda bate
com o doce do chocolate,
com os coloniais cafés,
com as Hortênsias e rosas,
com a devoção e a fé,
é Gramado, do meu agrado,
são as ruas, testemunhas
de todo meu caminhar,
são as gentes que ficaram,
mães das gentes que virão,
a terra do mate amargo,
de um horizonte tão largo
onde a esperança ainda grita
quando meu peito se agita
na saudade deste chão.
Embora a beleza peça,
não carrego vaidade,
só levo junto a vontade
de contar à toda gente,
que é o meu peito  que sente
na compleição da verdade,
colher as mais belas flores
no meu jardim da saudade!
Que bate meu coração
como coração de criança
que possa voltar um dia,
ao meu Jardim da esperança.

12/11/2010


domingo, 15 de novembro de 2020

Apresentação do autor Pacard - Escritor

  


 
 

Caro empresário

Cara empresária!

 

Sou Pacard(Paulo Cardoso) escritor, brasileiro, gramadense.

Sou autor, independente, e desta forma, escrevo, reviso, edito, e publico os meus livros, em plataforma digital, para que viabilize a distribuição, tanto digital, quanto impressa de meus livros.

Gostaria de oferecer à sua empresa, a possibilidade de adquirir alguns exemplares de minhas obras, para circulação entre seus colaboradores, bem como oferecidas como brindes comemorativos.

Ao adquirir minhas obras, estará contribuindo para que mais livros sejam produzidos,  distribuídos, e compartilhados.

Para adquirir meus livros, basta escolher o título, e clicar nos links, que serão direcionados às plataformas de vendas (Amazon, ou Clube de Autores). Cada plataforma tem características próprias de edição, impressão e comercialização, como:

www.amazon.com.br, que distribui meus livros em mais de 60 países. Já a plataforma www.clubedeautores.com.br, faz a distribuição em território nacional.

O pagamento das obras adquiridas, feito nas plataformas, assegura que eu receba os direitos autorais (royalties), de forma segura, e justa.

Por gentileza, leia, doe, e divulgue meu trabalho.

Além dos livros, ofereço também minhas palestras, em temas relacionados com a literatura, ou sob demanda, além de biografias que escrevo, também sob demanda.

Seguem imagens de meus trabalhos, e outro arquivo, em PDF, mostrará as sinopses de cada livro, e os links de acesso ás plataformas.

Caso não queira acessar pelos links, pode entrar diretamente dos sites da AMAZON e CLUBE DE AUTORES, e lá proceder a busca pelo nome dos livros, ou pelo meu nome, PAULO CARDOSO/ PACARD

 

Muito obrigado

Pacard

 

48 999 61 1546   whatsapp

dpacard@gmail.com

 

Visite meu blog:

 www.dpacard.blogspot.com.br

______________________________










 

domingo, 8 de novembro de 2020

A invenção da cueca e da calcinha - Apolônio Lacerda é Istória


Pois a história que se conta é muito diferente da que verdadeiramente (verdade é uma certeza que a gente tem, quando olha dentro de si num quarto escuro) acontece. 

Primeiro, vieram com aquele pelo do Diógenes, que morava num barril, carregava um vela de corozena, vestia uma cuequinha bacaninha, e ficava campiando por uma pessoa verdadeira (homem, pois mulher não valia nada naquele tempo, e tem umas que não valem ainda hoje. Homens também entram na lista da infâmia, quando se prestam a isso). Mas, de fato, não foi assim que tudo começou. E eu vou contar como tudo começou, senão não faria sentido esse texto.

Pois a coisa era assim: Todo mundo andava que nem bicho: pelado, peludo, e cas côsa balanceando para lá e para cá. Era assim que era. Um dia (uns dizem que foi um dia, outros falam em início da noite, isso não há registro certo), veio um vento das bandas do oriente, mas não era um vento qualquer, não senhor. Era um vento que deixava o Minuano, lá do Rio Grande, ou o Vento Súli, aqui em Fronópixx, envergonhados, abichornados, acabrunhados, e completamente desenxabidos, pela pequenez da côsa.

E como nem tudo que é ruim chega sozinho, o tal vento trouxe junto uma poeira danada, e dentro dessa poeira, uma praga, mas que praga que era, barbaridade. Carregou umas baquetéria medonha de tão tinhosa, que atacavam o sistema evacuatório-mictal, e começava por uma escorrimentozinho mequetrefe, que subia pelos dutos excretores, matando a flora e a fauna intestino-mictória, a peçôa desatava a tussir, lá por bácho, promovendo um churrio incomensurável, uma caganeira bagual, e um mijoleteio irreparável. Era feia a côsa.

Pra piorar a situação, isso se alastrou rapidamente pelo mundo inteiro. E as benzedeiras, estupefatas, perplexas, decidiram que o bão memo pra côsa, seria proteger e evitar a propalação das baquetéria, pois não havia cura nem valcina à vista em curto prazo.

 E foi o que decidiram. A partir dali, todos, em todos os lugares, deveriam usar uma espécie de máscara (Más = marvadas, Cara = Fucinho, então: Máscara = Côsa ruim pra tapá as fuça), à qual, pela etimologia, chamaram de Cuéca (Cu + Éca. Eu faria apenas um reparo, pois como a cuéca não cobre apenas o Friduino, supracitado, deveria se chamar também de "Pistoléca"), e como dizia a palavra, o furico da peçôa, para proteger os pinduricáio dos taura, e...bem, as senhoras também tinha que se potrejêr das baquetéria), e desde então, nunca mais ninguém deixou de usar cueca e carçola, que é uma carça curta pra quem não tem pingola.




sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O homem que brigou com D-s - A conspiração do Universo - A Banana e o Quasar (Opus 4)



Esteban estava radiante com o encontro, e expressou com um ditado popular, que é uma forma de dizer que não é completamente alheio aos mistérios da fé, o seguinte:

- Nossa conversa está interessantíssima, meus caros. Até o Universo conspira para esse encontro. Não acha isso?- Perguntou Esteban, provocativo.

Benjamim interveio.

- É interessante pensar que não somos autossuficientes, mas estamos aos cuidados de alguém que nos conhece bem, e planeja até mesmo um Universo que conspire , que colabore, para que sejamos bem sucedidos. 

No entanto, não é possível crer que o feijão que está na panela, combine com o arroz, e "conspirem" com o prato e o garfo, para que você os saboreie. A grande conspiração é essa: uma função auxiliadora, mas que não é autodeterminante, nem tem inclinação à decidir sua utilidade. O Universo é um infinito sistema binário, que responde à estímulos de sim e não. Não passa disso. Só que, enorme, gigantesco. Assustador. 

O sol emite luz, pois é de sua natureza emitir luz. A lua reflete a luz do sol, para que a noite seja iluminada, e para que as marés se comportem nesse compasso. Cada ser exerce sua função, e muitas destas funções tem por por objetivo, ou consequência, sustentar ou modificar o Universo que existe em nós mesmos.

Criamos o péssimo hábito de valorizar coisas em lugar de pessoas. Quando chamamos um "táxi", estamos chamando àquele que dirige o carro; ou quando vamos ao hospital, vamos à um espaço com equipamentos e recursos, geridos por pessoas, que providenciam nossa cura; assim quando creditamos às criaturas o que é de direito do Criador, estamos negando a nós mesmos o direito ao reconhecimento daquilo que fazemos, no entanto, nos desgostamos quando não reconhecem nossas virtudes, nossas boas ações.

Se um assassino comete um crime, não é o instrumento que será julgado, mas aquele que fez do instrumento, o mau uso.

- Mas não acreditam muitos que tudo é parte de D-s? Então se D-s está em todo lugar, tudo pode ser D-s? E nesse caso você eu eu seríamos deuses também?

Benjamin respondeu:

- O senhor sabe que o peixe vive na água. Suas células são formadas com grande quantidade de água, então o peixe está na água e a água está no peixe, mas o peixe não é água, nem a água é peixe. Porém, é da natureza do peixe que viva na água, e se for retirado de dentro dela, não vai sobreviver. A água vive sem o peixe, mas o peixe não vive sem a água. Evidente que água não é um ser vivo, mas esta é a sua natureza. Assim, cada ser, em seu modo de ser, obedece à sua própria natureza, e embora participe de uma simbiose, não se torna aquele cuja natureza se torne partícipe.

Então o senhor devolve o peixe à água, ele se hidrata, e sobrevive. A água contribuiu para que ele sobrevivesse, e os nutrientes da água, a luz solar, contribuíram para que ele exercesse sua natureza de peixe, que é andar livremente dentro da água. A água, os raios do sol, os nutrientes, "conspiraram" para que ele vivesse desse modo. Mas água continua sendo água, e peixe, continua sendo peixe.

Costumamos dizer que uma centelha divina nos preenche, o chamado "sopro" de vida, o Espírito de D-s, que foi soprado no ato da criação do Ser Humano. Este sopro, é a centelha divina, porém, isso não nos torna deuses.

Quando comemos uma banana, estamos ingerindo uma substância formada de elementos químicos, que estão relacionados na Tabela Periódica com seus 118 elementos. São estes mesmos elementos que compõem o Universo conhecido, pelo que mostram os dados astronômicos dos laboratórios, e também das amostras já recolhidas, de meteoros, ou da poeira lunar. Nada novo foi encontrado. 

Isso significa que desde a banana que comemos, até a extremidade do Universos, é tudo igual: Matéria, espaço, e energia. O que muda é apenas a intensidade. Mais nada.

No cérebro de um bebê que ainda não sabe falar, existem cerca de cem trilhões de sinapses, e duzentos bilhões de neurônios. Isso é milhares de vezes mais do que o número de galáxias contabilizadas até agora. Então, há mais mistérios dentro da nossa mente, que verdadeiramente conspiram para nossa existência, do que a massa densa de um Buraco Negro, ou a energia incalculável de um Quasar, que gira em velocidades incríveis, para que ao fim, se fundam suas estrelas, causem uma explosão, e formem uma Supernova. Ora, as duas estrelas que giram entre si, e as outras que ficam batendo palmas à sua volta, tem mais coisas com que se preocuparem, do que com uma pessoa que tem dúvidas sobre namorar esta ou aquela pessoa aqui nos cafundós da Terra.

 
O Universo é burro, mas obediente, porque está sob uma arquitetura inteligente. Logo, se o Universo conspira a meu favor, a banana faz o mesmo, e se o Universo conspira contra mim, acredite: um fio desencapado e uma poça de água no meu caminho, conspiram mais ainda também.

- E onde está esse D-s, em um Universo tão grande? Na banana ou no quasar? - Provocou Esteban!

Benjamin olhou para seu pai, que esfregava a longa barba, e disse:

- D-s não estão nem na banana, e nem no Quasar. Mas um e outro, estão em D-s, assim como o peixe está na água. 

Não podemos limitar D-s, como o mar que tem seus limites, mas podemos estender que D-s É o espaço, o tempo, e o Seu próprio existir, que não pode ser medido, calculado, ou imaginado.

A banana e o Quasar são condicionais ao espaço e ao tempo, mas D-s É absoluto, e se houver algum tipo de conspiração, ou contribuição, estas tem tanta capacidade de raciocínio e decisão, quanto a banana, e o Quasar.


Esteban ouviu a tudo estupefato, e pediu mais uma xícara de café.






segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O VIAJANTE DOS VENTOS - O CASULO DAS ALMAS- Família Família - Janela IV)

Imagem: AD- Internet

Família, família

Janela IV


Uma rajada de vento, seguida de um raio muito próximo da casa, enviou um aguaceiro de uma só vez à varanda, encharcando as crianças. Não havia escolha, senão entrar na casa e aguardar até que a tempestade acalmasse. Era uma escolha acerca de qual dos medos cederia, e o medo dos trovões e da pancada d’água venceu a desconfiança de entrar em uma casa desconhecida. Além disso, confiavam nas orações que faziam diariamente, ao acordar: “Confio em ti, ó D-s, por devolveres a minha alma (consciência) à mim, com misericórdia, pois grande é a tua fidelidade!”.

Entraram em uma sala ampla, com móveis antigos, mas limpos, bem alinhados, e claros. No ambiente havia um perfume de flores, jasmins, maçanilha, e rosas. Quadros ornavam as paredes, com retratos e pinturas sublimes. No canto, próximo à escada que levava aos cômodos superiores, havia um pequeno órgão de pedal, um Harmônio, para acompanhar os cânticos religiosos. Sobre uma pequena mesa de canto, estavam alguns livros religiosos, de uso diário.

A sala era em arejada, bem iluminada, e em nada refletia o exterior da cabana, que parecia demonstrar certo abandono. Não era essa, porém, a realidade interior, que apresentava bom gosto e limpidez completa.

As crianças olhavam a tudo, admiradas e perplexas, fazendo com que o medo se esvaísse pela visão do ambiente.

- “Certamente, que vive em um lugar tão lindo e organizado, não faz coisas más aos outros!” - Foi o que pensaram, e talvez até disseram, sussurrando, um ao outro.

O momento de estupefação foi quebrado, quando o velho Ebenézer surge, vindo de um cômodo contíguo, com roupões de banho para as crianças.

- Vocês não podem permanecer com suas roupas molhadas. Podem adoecer. Eu trouxe roupões de banho, e vocês podem tomar um banho quentinho, antes de comermos algo que tenho pronto no forno: Biscoitos de milho. Vou passar um café, e quando terminarem seu banho, estarei os esperando com tudo pronto à mesma. E por ser um cavalheiro, certamente nosso pequeno amigo Fernando, permitirá que sua irmã Daniela, faça as honras de ser a primeira! - Disse Ebenézer, abrindo a porta para Daniela, que entrou com olhar desconfiado, e um sorriso diplomático.

Fernando, estarrecido, a tudo admirava, e seu olhar estacionou em um quadro emoldurado, onde a pintura retratava uma família composta de um casal, com uma filha, de aproximadamente três anos de idade, ao colo da mãe. Seus pensamentos viajavam por tentar imaginar a história daquele homem tão generoso, até que um chamado do anfitrião o despertou para a vida:

- Estou contando com sua ajuda para concluir o lanche! - Disse. Por favor, pode prestar atenção ao leite que está por ferver, para que não derrame?

Fernando assentiu, com a cabeça, que sim, e ficou estático cuidando da panela com leite sobre o fogão, que também era polido e muito bem asseado.

Logo depois, Daniela apareceu na porta, embrulhada em um roupão bastante maior que seu corpinho esguio e delicado. Foi a vez de Fernando dirigir-se ao banho. Ebenézer convidou Daniela a assentar-se à mesa, enquanto ele concluía o preparo dos alimentos.

Quietinha, encolhida, com olhos atentos e vivos, Daniela observava, tal como fizera seu irmão, ao ambiente, às paredes, aos livros, e ao asseio do lugar.

- Tem perfume de flores! - Disse ao anfitrião.

- Sim, gostamos de viver com asseio e algum conforto! - Respondeu

- Aham! - Foi apenas o que respondeu a menina, com as mãozinhas sob as pernas, envoltas no roupão.

Poucos minutos depois, Fernando também chega à sala, vestido no roupão, segurando as roupas molhadas.

- Deixe comigo. Vou estendê-las perto do fogão, para que sequem, enquanto comemos, e antes que anoiteça, vou levá-los de volta aos seus avós, que já devem estar preocupados. Vamos comer! - Animou-os Ebenézer.

- Costumam agradecer pelo alimento em sua casa?

- Sim, antes e depois! - Respondeu a menina.

- Então, senhorita, pode nos honrar com sua bênção?

- Aham! Bendito sejas Tu, Senhor, nosso D-s, e Rei do Universo, pelos frutos da terra!” Amém!
- Amém! - Disseram todos.

Comeram depressa, e quando estavam prontos, Ebenézer falou:
- Vou levá-los aos seus avós, antes que a noite chegue. A chuva acalmou, e chegaremos logo. Vamos pela estrada, logo abaixo, pois vocês vieram pelas trilhas do lado de cima, porém, logo abaixo, há uma estrada que
leva ao povoado. Vamos por ela. Peguem suas roupas, e podem ir vestidos com os roupões. Lá em sua casa, vocês trocam, e podem devolvê-los outra hora.

Ebenézer, levou-os à uma garagem que havia ao lado da casa, e lá estava sua velha picape.

- Entrem, crianças. É um pouco velha, mas ainda me leva aos lugares que quero ir, sem reclamar muito.

Riram do gracejo, entraram, e foram embora.

O céu avermelhou e a chuva cessou. O olhar para o lago, onde piscavam esvoaçantes os vaga-lumes, ao coaxar dos sapos, e o trinar dos grilos ao anoitecer, desenhava lembranças, que silenciosamente andavam de um lado a outro pela mente de Ezequiel. Nada dizia, senão olhar, de canto de olho para a água espelhada, ou para as crianças, que, bem juntinhas, uma da outra, emprestando calor e amparo, pensavam, naquele momento, no que diriam aos avós, por terem saído sem avisar para onde iam, e por voltarem tão tarde.

A luz da varanda da casa dos avós estava acesa, e o casal, assentado, tranquilamente, saboreavam um farnel, um pequeno banquete ao ar livre. Um velho cão deitado aos pés de Aaron, o avô de Fernando e Daniela, apenas levantou a cabeça, com preguiça, olhou para o carro que chegou, e voltou a dormir. Os velhos dormem mesmo. Muito.

Fernando e Daniela saíram silenciosamente do carro, embrulhados em chambres grandes, segurando roupas molhadas, e de cabeça baixa, envergonhados, com os olhos levantados, fitando os avós, caminham em direção á eles, quando Ebenézer, os chama:

- Meninos! Vocês esqueceram as frutas que colhemos para seus avós?

- Como vai a coluna, Aaron? - Perguntou, sorridente ao avô dos meninos.

Tem deixado um casalzinho de peixes grandes no arroio, para os vizinhos?

- Ah, deixe de reclamar! - Emendou Aaron. Você está sendo ganancioso. Aquele lago tem mais peixes, do que todos os arroios daqui de perto.

- Ah, isso eu sei, mas eu tomei conhecimento que os peixes grandes (fez um gesto com os braços, indicando tamanho), você guardou para pescar com forasteiros, e nunca os vi pescando quando estava comigo.

- Ah, acontece que estes forasteiros têm muito mais técnica do que você e eu juntos! - Respondeu, com uma sonora gargalhada.

Mas você vai chegar para um chá conosco, ou veio só descarregar uma carga? - Outra gargalhada.

Ebenézer desceu.
- Como foi a aventura com os valentes? - perguntou Rachel, a avó.

- Eles tem estirpe, minha amiga! Têm a quem puxar. Caminhamos pelo pomar e bebemos água da bica, conversamos assentados nos bancos dos passeios. Parecíamos velhos amigos.

- Seu chá! Prove esse bolo que fiz. Aaron quase não deixou sobrar nada. Coma antes que ele elimine as provas de que houve bolo algum dia nessa bandeja.

- E como se pode recusar uma torta de ricota, Rachel? Por acaso eu sou de ferro ou de pedra, minha flor?

Ebenézer abençoa a iguaria e come, com satisfação.

Anoiteceu. O céu estava agora limpo, como se a chuva houvesse lavado o mundo. A lua abraçava a noite, mostrando seu fulgor por trás das colinas, desenhando sombras em movimento na mata.

Uma coruja grita, ao longe, e os sapos entoam em coro, seu coaxar de núpcias no pântano detrás da casa.

Anoitecer é a hora em que os gatos acendem sua impaciência e correm atrás de fantasmas, vendo-os ou não. É a hora em que o cheiro de sopa, vindo da cozinha, perfuma toda a casa, dando um cenário e ar de família feliz. Família, família…

- Acho que posso perguntar como ela está? - Perguntou Rachel, estendendo o bule para servir mais chá ao convidado.

- Igual. Mas acho que está em paz. Anda mais serena, nos últimos tempos. Dona Fátima tem nos auxiliado bastante. É ela quem cuida da casa, mantêm tudo organizado e limpo, e é quem também faz os cuidados pessoais. Eu comecei fazendo isso, mas mesmo no estado em que está, percebia certo constrangimento, pobrezinha, então Dona Fátima passou a tomar conta de tudo. Eu faço o que posso, para não tornar-me um peso á pobre mulher, e procuro ressarci-la bem por isso. Ela faz mais do que está no acordo.

- Está precisando de algo, que possamos ajudar, Aaron e eu?

- Eu pedirei, quando chegar o momento. Muito obrigado!

- Nem pense nisso! Somos família. Ela ficou sozinha?

- Não, não! Dona Fátima dorme lá. Estou à vontade por algumas horas ainda. Ainda tenho uns trabalhos no galpão, pois amanhã pretendo aumentar o galinheiro, para criar também umas codornas, e mais algumas galinhas. Umas poedeiras que encomendei.

- Mas o galinheiro que você tem, não dá conta? - Perguntou Aaron.

- No espaço, sim, mas meu sócio de rabo comprido tem errado na contabilidade e levado ovos e pintos sem registrar no caixa!

- Sócio? - Questionou, curiosa Rachel.

Aaron deu uma gargalhada e um tapinha carinhoso no braço de Ebenézer:

- Aquele velho lagarto ainda não criou vergonha na cara?

- Nada! Eu acostumei mal o elemento, mas agora chega. Ovos e pintos de minha granja, rabudo nenhum chega mais perto.

As crianças apareceram, já trocadas, à porta.

- Olha eles aí! Os meus amigos. Eu espero vocês lá novamente, quando tiverem vontade. Eu nem tive tempo de mostrar os animais da granja à vocês! E muito obrigado pelas frutas e pelo lanche que levaram. Irei comê-lo, senão hoje, pois já comi demais, mas amanhã, sem falta - Disse Ebenézer.

- Se soubesse que o senhor tinha frutas, teríamos levado outra coisa! - respondeu Fernando.

- E me privarem de comer bananas? Vocês viram alguma bananeira na minha chácara? Quero que conheçam os meus bichinhos, as galinhas, patos. O Denguinho, vocês já conheceram hoje.

- O senhor tem patos: E galinhas? Podemos ir, vovó? - Perguntou Daniela, com ar de súplica à Rachel.

- Certamente, mas dessa vez, quero ir junto, conhecer esses patos.

- Vou então! - Disse Ebenézer, dando um abraço nos amigos, e nas crianças.

Ao virar-se para descer a escada da varanda, uma rajada de vento, surgiu de repente, gelado, e sonoro, e deixou cair três folhas secas de Álamo, aos pés de Ebenézer.

Demais janelas



Nota do Autor:
Esta será a última publicação em capítulos, aqui no Blog. O livro segue em elaboração, e ao lançamento, comunicarei meus leitores. Para receber atualizações, registre-se no Whatsapp: 48 999 61 1546














domingo, 18 de outubro de 2020

O Viajante dos Ventos - O Casulo das Almas - Janela III (Os Álamos)

 

Janela III

Os Álamos

Fernando segurou na mão da irmã, assim que avistou a casa na floresta. Parou bruscamente, e apertou com força a delicada mão de Daniela.

- Ai, você está apertando a minha mão. Está me machucando!

- Desculpe! Olha a casa lá embaixo, perto do lago.

- Vamos voltar. Estou com medo!

- Boba! Não precisa ter medo. Ele não faz mal pra ninguém.

Vamos deixar as coisas aqui e vamos embora.

- Claro que não, né. Viemos até aqui. Vamos chegar perto e falar com ele.

Caminharam até à casa. Ao se aproximarem, um latido rouco, vindo de dentro da casa, fez o coração de Daniela disparar. Fernando também tremia. A língua, seca, parecia colada ao céu d boca, e os joelhos pareciam feitos de gelatina.

Um vento, vindo do lago, soprou folhas secas de álamo em direção à casa, e fez esvoaçar os cabelos de Daniela. As folhas dançavam em um bailado suspenso, subindo e descendo, até sumirem no alto, em direção à casa.
Daniela tomou a dianteira e gritou:

- Oi! Tem alguém em casa?

Fernando apenas olhava, inerte para a casa, e quebrou o silêncio, acompanhando Daniela.

- Oi! Viemos trazer comida!

O cão continuava a latir. Uma voz mansa aquietou o cão, e a porta se abriu.

Um homem de sessenta e poucos anos, grisalho, óculos de aro fino, dourado, desgastados pelo tempo, abriu a porta, desconfiado, mostrando apenas o rosto, olhou para as crianças e perguntou:

- Quem são?

- Somos Fernando e Daniela, senhor.

- E “Fernando e Daniela” chegaram aqui voando. Trazidos pelo vento?

- Não, senhor, viemos caminhando, lá da casa da vovó…

O Velho deu uma gargalhada.

- O velho Joshua, como está? Continua pescando lambaris naquele arroio atrás da casa?

- Ah, sim, vovô nos leva pra pescar com ele. Mas não são lambaris, senhor. Nós pescamos peixes maiores.

Outra gargalhada sonora.

- E já ensinou o neto a mentir também. Já deve se rum ótimo pescador, rapazinho. E esta bela jovem, quem é?
- É Fernanda, senhor, a minha irmão. Estamos em férias, e eu falei `ela que o senhor morava aqui. Vovô já veio comigo um dia, para visitar o senhor. Está lembrado?

- Claro que lembro. Você gostou do meu cachorrinho; “Denguinho”! Venha cá!

O cãozinho apareceu correndo, festejando o dono e os visitantes, que logo se familiarizaram com o lugar.

- O que os tráz aqui, crianças. Recebo poucas visitas.

- Viemos trazer umas coisas pro senhor. O senhor gosta de frutas? Tem umas aqui.

Olhando a cesta, viu as bananas.

- E como vocês adivinharam que eu adoro comer bananas?

- Não sabíamos, senhor. Mas nós gostamos muito e achamos que também gostasse. Tome, são suas.

- E vocês gostam de frutas, então? Venham comigo. Tenho algumas árvores com frutas, madurinhas, aqui no meu pomar.

Apoiando-se na bengala, coxeando, o velho desce da varando e os conduz aos fundos da casa.

Era um belo lugar. Apesar da casa ser uma velha choupana, era confortável e sólida, e o pomar muito bem cuidado. Havia também uma horta, e um jardim, onde flores de estação enchiam-se com insetos polinizadores e borboletas, e atrás destes, os pássaros, que pipocavam de flor em flor, de galho em galho, durante toda a primavera e verão.

- Eu não sei o seu nome! - disse a menina.

- Ebenézer Stein! - Respondeu.

- O senhor morou sempre aqui, senhor Ebenezer?

- Sempre é um tempo muito longo, pequenina. Mas moro há bastante tempo nesta cabana. Gosto daqui. Tenho meu cãozinho, as galinhas, um gato, meu pomar, meu jardim, meus livros, e os afazeres da casa, que ocupam generosamente o meu tempo.

- O senhor não tem família?

Eli apanha duas goiabas, e as oferece às crianças.

Juntos, caminham pelo bosque, e ele vai mostrando, uma a uma das árvores frutíferas, muito bem cuidadas, de seu pomar.

O terreno onde estava situada a casa e o pomar, estava sobre uma colina, e seguindo por um estreito caminho, levava a um descampado, no topo do monte, de onde podia avistar-se um lago cercado de relva e flores do campo, e mais adiante, via-se o mar, verde-esmeralda, sereno, vivo.

Ebenézer levara uma cesta, e recolhia frutas durante o passeio.

Caminhos desenhados com assimetria poética, harmonizavam-se com os córregos borbulhantes, e as árvores. Eram ornados com troncos de madeira ou pedra, para formarem degraus, e a cada certo espaço na distância, pequenos recônditos planos, cercados por paredes baixa de pedra lascada, ou redondas, recolhidas no rio, emolduravam jardins rupestres, com avencas e azedinhas coloridas, como cortinas perfumadas e vivas.

A menina viu um desde bancos e tomou o irmão pela mão, puxando-o para que se assentassem ali.

- Olha! Que lugar lindo, Fernando! Tem flores atrás do banco. Podemos sentar nele, Senhor Ebenézer?

- Claro que podem! Eu mesmo ia convidá-los a nos assentarmos. Venha, Denguinho! Descanse um pouco você também! -Disse Ebenézer. Meu velho amigo não tem mais muito fôlego, e precisa beber água e descansar de vez em quando.

O cãozinho correu para o córrego e fartou-se de água cristalina e gelada. Depois, andou com certo vagar, e assentou-se ao lado da menina, olhando para ela com certa ternura que os cães têm pelas boas pessoas.

- Onde está sua família, senhor Ebenézer?

Ebenézer tira os óculos, para limpá-los com um lenço surrado. Limpa lente por lente, olha contra a luz, balança a cabeça, e os ajeita novamente diante dos olhos.

Minha família? Minha família são: o meu cãozinho companheiro, os pássaros que vem despertar-me todas as manhãs, o vento que canta canções, cujas palavras somente o meu coração pode pronunciar, a chuva, que abastece os mananciais de águas que fazer encher os rios e o mar, que rega minhas plantas, e todas as plantas da floresta, que me abraçam com seu frescor no verão, e abrigo no inverno, mas, acima de tudo isso, e em primeiro lugar, O meu D-eus, a quem agradeço todas as manhãs porque eu posso respirar, ouvir, sentir perfumes, sabores, minhas mãos que fazem coisas, meus braços que podem abraçar, meus pés que me conduzem, e um velho banco à margem do regato para que eu possa contemplar tantas coisas lindas, que meus olhos ainda podem ver.

- Você é religioso, senhor Ebenézer? - Perguntou Daniela.

- O que é ser religioso, querida?

- Ir na igreja! - Respondeu Fernando. Papai leva nossa família à igreja toda semana.

- E lemos a Bíblia todos os dias antes de dormir, isso também! - Emendou Daniela, com o dedinho levantado, pedindo a vez de falar.

- O senhor vai à igreja? - Perguntou Fernando.

- O que é uma igreja, Fernando?

As crianças se entreolharam estupefatas. Como é possível que alguém não saiba o que é uma igreja, nem o que é religião. Que oportunidade para “evangelizá-lo!”.

- A igreja é onde vamos conversar com D-s, senhor Ebenézer! - Respondeu Fernando.

- Muito interessante! Respondeu Ebenézer, com um sorriso. E o que é que vocês conversam com D-s?

- Ah, pedimos perdão pelos pecados e pelos alimentos que comemos, e também pedimos pela saúde da vovó, e pelo trabalho do papai. Também agradecemos pela mamãe, e porque o menino que queria bater no Fernando, foi transferido de escola. O pai dele arrumou um emprego numa cidade bem longe, e eles tiveram que mudar. O pai dele era um homem severo. Ele já bateu no menino, na frente da nossa escola.

- É! E o menino chorou! - Disse Daniela.

Uma rajada de vento fez voar folhas de Álamos na direção em que estavam. Ebenézer precisou colocar a mão para conter o chapéu, e o cãozinho se enroscou atrás do banco. Uma segunda rajada, fez balançar as árvores mais altas, prateando os pés de Álamo logo abaixo da colina, e no alto do céu, nuvens grossas se formavam repentinamente, dançando em um bailado assíncrono, mudando de direção de um instante a outro.

- Temos quer, antes que o céu desabe sobre nós - disse Ebenézer.

Maria tomou Fernando pela mão, e seguiram com pressa rumo à casa do ancião. Ao chegarem desabou a chuva, e mal deu tempo para chegarem à varanda da casa.

- Acho melhor que esperemos dentro de casa, pois o vento está nessa direção! - Disse Ebenézer, apontando com a mão.

Fernando e Daniela se entreolharam, de olhos arregalados, com medo. Pavor, era a melhor palavra naquela ocasião. Estariam entrando na casa de um desconhecido, que vivia sozinho no meio da floresta. Isso era tudo o que seus pais recomendavam que não fizessem.

Demais Janelas

https://dpacard.blogspot.com/2020/10/o-viajante-dos-ventos-o-casulo-das.html

https://dpacard.blogspot.com/2020/10/o-viajante-dos-ventos-o-casulo-das_13.html

https://dpacard.blogspot.com/2020/10/o-viajante-dos-ventos-o-casulo-das_18.html

https://dpacard.blogspot.com/2020/10/o-viajante-dos-ventos-o-casulo-das_19.html


Continua....................




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O reino dos perplexos - Fábula

 

Pitoco Monarca e Paulico Pitoco - Personagens por Pacard
Era uma vez um reino. Havia nele tudo o que era preciso para fazer daquele lugar um belo reino. Rios, montanhas, florestas, planícies, mar, lavouras, jardins, palácios, aldeões, príncipes, cortesãs, vassalos, cozinheiros, mordomos, tudo. Tudo mesmo. Ou quase tudo, pois o reino não tinha um rei. Nunca tivera, desde a sua fundação. Não um rei do tipo que usasse coroa ou morasse em um palácio; Sim, como disse antes, havia palácio, mas nele viviam intrusos. 
Uns se intitulavam amigos do rei. Outros inimigos do rei, mas circulavam pelo reino com ampla liberdade porque nesta condição, asseguravam o respeito da nobreza e o receio que além de oponentes, também pudessem tornar-se inimigos, e pior que inimigos são inimigos que conhecessem a rotina da alta corte. 
Todos, de uma forma ou de outra, falavam em nome do rei. Chegavam a ser mais reais que a própria realeza. Criavam e ditavam regras em nome do rei, que nem o próprio rei, se as tivesse ele mesmo ditado, não ousaria ser tão real em suas decisões como eram pela boca de seus emissários. 
Só que havia um problema: ninguém conhecia o rei. Havia um decreto proibindo que a face do rei fosse vista e o súdito, fosse ele príncipe, nobre ou plebeu, que encarasse o rei nos olhos, deveria ser condenado à prisão pelo resto da vida. 
Desta forma, os lacaios serviam-no em sua câmara por uma passagem onde havia uma roda por onde eram colocados os alimentos, roupas limpas e necessidades do monarca, mas jamais encarar-lhe o rosto. Quando se tornava necessário cuidar da limpeza do lugar, o rei se retirava para outra câmara ao lado e assim a vida seguia no palácio. Os seus decretos eram estabelecidos todos por escrito e selados pelo próprio rei.
Neste reino havia um homem velho e sábio, mas muito pobre. Vivia de mendicância pelas ruas, que de tempos em tempos assentava-se à porta do palácio para coletar esmolas de quem entrasse pelas portas reais. Uns viam aquela figura silenciosa observando o movimento, e cautelosamente achegavam-se e atiravam algumas moedas na canequinha do mendigo. Outros, empinavam o nariz e mudavam de direção para não sentir-lhe o fedor. 
Apenas as crianças tinham coragem de se aproximarem dele e arriscar um momento de prosa, enquanto depositavam as esmolinhas cautelosamente com uma mão, e a outra  estendida para os adultos que permaneciam distantes com olhar de orgulho pelos filhos generosos que haviam gerado. 
Não era isso. Ter uma criança que levasse a esmola tão perto era uma forma segura de não precisarem olhar o velho nos olhos, Era perigoso olhar a miséria nos olhos, pois poderiam ver a si mesmos espelhados neles.
Todo primeiro dia do mês, lá estava o velho assentado naquele degrau. Mês após mês. Ano após ano. Um dia, ele não apareceu no degrau. Não havia uma canequinha e um par de mãos encardidas para recolher as esmolas. Uma fila de senhoras em busca de conselhos demonstrava sua decepção e lamúrias, ora procurando saber o que tinha acontecido com o velho, ora praguejando sua ausência.
Mas naquele dia, um fato surpreendeu à todos daquele reino: o rei mandou avisar que mostraria seu rosto ao seu povo e que a partir daquele dia todos poderiam vê-lo quantas vezes tivessem vontade, pois ele faria um passeio diário pelas ruas da cidade e seu cortejo de nobre estaria recolhendo as petições dos seus vassalos para que ele pudesse atendê-las ao seu tempo e condições.
A partir daquele dia, aquele reino tornou-se o reino mais feliz daquele continente, porque viam um rei real e não uma sombra imaginária que se escondia nas sombras.
E o velho? Sei lá. Sempre dá certo colocar um velho mendigo com jeitão de sábio nas fabulas. E o rei? Criou uma fanpage nas redes sociais, entrou para uma academia de fitness e deu plenos poderes aos seus lacaios para que fizessem o que bem entendessem, contanto que ele não tomasse conhecimento de nada.
*PS: Só que não!
Fim
(Estado de Alerta - Pacard, 2015)

A morte do Teiú e o marasmo da vida

O lagarto Teiú é muito comum pelas matas, e até pelas áreas arborizadas das cidades. Aqui mesmo, onde moro, tem uma pequena reserva de mato,...