AD SENSE

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A mulher na Torá - Mulher valia menos que homem nas leis mosaicas?

 













Mulher valia menos que homem nas leis mosaicas?
Exegese de Levítico e diálogo com tradição judaica e cristã


Sha’Ul Ben Avraham – Da’ati


INTRODUÇÃO

Este estudo analisa se as diferenças de tratamento entre homem e mulher nas leis de Levítico indicam inferioridade ontológica feminina ou se refletem distinções rituais, econômicas e culturais próprias do Antigo Oriente Médio.

A abordagem será estruturada em níveis progressivos:

  1. Análise textual rigorosa da Torá

  2. Interpretação talmúdica e rabínica clássica

  3. Comparação com códigos do Antigo Oriente

  4. Leitura crítica moderna e feminista

  5. Argumentação para quem se revolta com a aparente desigualdade

  6. Comparação com Jesus, os apóstolos e Ellen G. White

  7. Análise médico-sanitária do pós-parto


I. TEXTOS CONSIDERADOS PROBLEMÁTICOS EM LEVÍTICO

1️⃣ Levítico 12 – Purificação após o parto

Problema moderno

Por que a mulher permanece ritualmente impura por período dobrado quando nasce uma menina?

Análise textual

A palavra hebraica utilizada é טומאה (tum’ah) — impureza ritual.

Tum’ah:

  • Não significa pecado.

  • Não implica culpa moral.

  • Não indica inferioridade ontológica.

  • Impede temporariamente participação no santuário.

Importante: cadáver também gera tum’ah, e ninguém considera um cadáver “pecador”. Trata-se de categoria ritual ligada ao sagrado.

Estrutura do texto

  • 7 + 33 dias = 40 dias (menino)

  • 14 + 66 dias = 80 dias (menina)

Interpretação talmúdica (Tratado Niddah 31b)

Três linhas principais aparecem:

  1. Interpretação médico-antiga sobre duração de fluxos.

  2. Simbolismo da geração: a menina carrega potencial futuro de gerar vida.

  3. Intensificação ritual relacionada ao ciclo de sangue.

Nenhuma fonte rabínica clássica afirma inferioridade moral feminina.


2️⃣ Levítico 15 – Menstruação

  • Mulher menstruada: 7 dias de impureza.

  • Homem com emissão seminal: impuro até a tarde.

Há assimetria temporal, sim.

Na Mishná (Niddah), a menstruação é vista como:

  • Processo fisiológico natural.

  • Não pecaminoso.

  • Parte da disciplina espiritual da vida conjugal.

A halachá posterior transformou a niddah em prática espiritual reguladora da intimidade familiar.


3️⃣ Levítico 27 – Avaliação monetária

Homem (20–60 anos): 50 siclos
Mulher: 30 siclos

O termo hebraico ערך (erek) significa avaliação monetária em contexto de voto religioso.

O Talmud (Arakhin 19a) explica que se trata de estimativa produtiva numa economia agrícola tribal, não valor ontológico.

Se fosse valor moral, o texto manteria lógica consistente, o que não ocorre. A estrutura é econômica, não metafísica.


II. CONTEXTO DO ANTIGO ORIENTE MÉDIO

Comparação com o Código de Hamurabi:

Tema

Hamurabi

Torá

Adultério

Mulher punida severamente

Ambos punidos (Lev 20:10)

Violação

Proteção variável

Proteção explícita (Deut 22)

Status jurídico

Mulher como propriedade

Mulher com proteção legal

A Torá permanece patriarcal, mas juridicamente mais equilibrada que muitos códigos contemporâneos.


III. ANÁLISE MÉDICO-SANITÁRIA DO PÓS-PARTO

A medicina moderna descreve:

  • Descolamento da placenta deixando extensa área uterina exposta.

  • Loquiação progressiva (4 a 6 semanas).

  • Involução uterina até aproximadamente 6 semanas.

  • Maior risco de infecção nesse período.

  • Necessidade de repouso.

O período bíblico mínimo de 40 dias coincide aproximadamente com a recuperação uterina média moderna.

Possível função da lei:

  • Garantir repouso obrigatório.

  • Proteger contra infecção.

  • Evitar relações sexuais precoces.

  • Criar período de adaptação hormonal e emocional.

Quanto aos 80 dias para menina:

  • Não há confirmação médica moderna que exija duplicação fisiológica.

  • Interpretação mais plausível: simbólica ou ritual.


IV. LINHA CRONOLÓGICA DA VISÃO BÍBLICA DA MULHER

1️⃣ Criação – Gênesis 1–2

“Criou Deus o ser humano à sua imagem… homem e mulher os criou.”

Ambos:

  • Recebem imagem divina.

  • Recebem mandato cultural.

  • Não há hierarquia ontológica explícita.

Gênesis 2 introduz diferenciação funcional, não inferioridade essencial.


2️⃣ Pós-queda – Gênesis 3

“Ele te dominará” é geralmente entendido como consequência da queda, não ideal criacional.


3️⃣ Período Patriarcal

Estrutura tribal:

  • Sociedade patriarcal.

  • Economia baseada em força física.

  • Herança ligada à linhagem masculina.

A Torá regula essa estrutura e impõe limites:

  • Proteção à viúva.

  • Direito sucessório às filhas (Números 27).

  • Limitação de abusos.


4️⃣ Mulheres líderes

Apesar do sacerdócio masculino:

  • Miriam é profetisa.

  • Débora é juíza nacional.

  • Hulda é consultada oficialmente.

Autoridade espiritual feminina existia.


V. TALMUD, CABALA E HALACHÁ

Talmud

  • Impureza ritual é temporária.

  • Não implica inferioridade moral.

  • O marido também se torna ritualmente afetado.

Cabala

O feminino é associado à Shechiná (presença divina).
Há dimensão cósmica feminina na mística judaica.

Maimônides

Enfatiza função disciplinadora e pedagógica das leis.

Nachmanides

Interpreta com ênfase simbólica e mística.


VI. CRÍTICA FEMINISTA

Existem três grandes abordagens:

  1. Crítica estrutural — vê controle do corpo feminino.

  2. Leitura progressiva — entende a Torá como moderadora histórica.

  3. Leitura simbólica — interpreta pureza como linguagem teológica.

A indignação moderna costuma partir de pressupostos contemporâneos de igualdade jurídica absoluta.

Perguntas fundamentais:

  • O texto declara inferioridade ontológica? → Não.

  • Há diferenciação funcional? → Sim.

  • Diferenciação é automaticamente injustiça? → Depende do paradigma filosófico adotado.


VII. JESUS, PAULO E ELLEN G. WHITE

Jesus

  • Não ataca Levítico.

  • Cura mulheres ritualmente impuras.

  • Dialoga publicamente com mulheres.

  • Permite discipulado feminino.

  • Primeiras testemunhas da ressurreição são mulheres.

Ele desloca o eixo do sagrado do templo para a pessoa.


Paulo

Gálatas 3:28 afirma igualdade salvífica.

Ao mesmo tempo:

  • Mantém distinções comunitárias em certos contextos.

  • Reconhece mulheres colaboradoras (Romanos 16).

Há tensão entre igualdade ontológica e diferenciação funcional.


Ellen G. White

Ensina que:

  • A lei cerimonial tinha função pedagógica.

  • Cristo é o cumprimento tipológico.

  • O caráter de Deus é imutável.

  • Leis sanitárias do AT revelam princípios de saúde.

Não afirma que Deus mudou, mas que a administração da aliança se desenvolveu.


VIII. QUESTÃO FILOSÓFICA

O conflito moderno não é apenas teológico — é hermenêutico.

Dois paradigmas entram em tensão:

  1. Igualdade jurídica moderna absoluta.

  2. Estrutura funcional diferenciada antiga.

Se julgarmos toda a Antiguidade com categorias pós-iluministas, quase nenhuma cultura será considerada aceitável.

A pergunta correta é:

Dentro do seu contexto histórico, a Torá foi opressiva ou reguladora?

Muitos historiadores consideram que foi reguladora e moderadora.


IX. CONCLUSÃO GERAL

✔ A Torá não declara inferioridade ontológica feminina.
✔ As diferenças são rituais, econômicas e estruturais.
✔ O sistema de pureza regula sangue e vida, não valor moral.
✔ O período de 40 dias possui plausibilidade médica.
✔ A duplicação para menina é simbólica e permanece debatida.
✔ O Novo Testamento não rejeita o Deus do Antigo Testamento, mas desenvolve a compreensão da santidade.
✔ Parte da hierarquização posterior deriva mais da filosofia grega do que do texto hebraico.

A questão final não é:

“Por que não corresponde ao século XXI?”

Mas:

“Foi injusta dentro do seu contexto histórico?”

A análise textual, talmúdica, histórica e médica sugere que não se trata de inferioridade ontológica, mas de diferenciação ritual e social dentro de uma cultura tribal regulada progressivamente.





Texto colaborativo com GPT online*

A mulher na Torá - Mulher valia menos que homem nas leis mosaicas?

  Mulher valia menos que homem nas leis mosaicas? Exegese de Levítico e diálogo com tradição judaica e cristã Sha’Ul Ben Avraham –...