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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ENVELHECER SEM REGREDIR - Um manual de boas-vindas à senilidade

 










ENVELHECER
SEM REGREDIR

Um manual de boas-vindas à senilidade

Pacard
(velho por profissão e prazer)


Uma reflexão bem-humorada sobre idade, conhecimento, arte, fé e tecnologia.



Boas-vindas

Este não é um manual para ensinar alguém a parecer jovem. É um convite para envelhecer com lucidez, gratidão, curiosidade e bom humor — sem negar o corpo que muda, sem abandonar o conhecimento acumulado e sem entregar às novas gerações a exclusividade sobre o futuro.

Envelhecer sem regredir é aceitar a idade sem transformar aceitação em desistência. É continuar aprendendo, criando, rindo e vivendo — ainda que, de vez em quando, seja necessário aumentar a letra da tela.

1. O meu cardápio não inclui a regressão da velhice

Clínica de estética, academia, centro de convivência para idosos, aulas de dança de salão e outros artifícios que prometem a regressão da velhice não fazem parte do meu cardápio. Mas não mesmo!

Isso significa que não tenho amor à vida?

Tenho, sim — e muito. Amo a vida mais por gratidão ao meu Criador e ao meu Redentor do que por hedonismo. Mas amar a vida não significa forçar a Natureza a transformar-me naquilo que já não sou.

2. Fazer as pazes com o espelho

Hoje consigo enfrentar o espelho. Em vez de me entristecer com a pífia figura que ali se mostra, dou risada da caricata efígie com aparência de caroço de manga chupado em que me tornei.

Isso é lindo! Eu não sou o “lindo”; lindo é esse estado de espírito: fazer graça de mim mesmo, rir dos meus defeitos estéticos e, ao mesmo tempo, corrigir os meus deslizes morais.

O espelho pode registrar rugas, manchas e desalinhamentos, mas não mede gratidão, caráter, ternura, inteligência ou capacidade de aprender. Para essas coisas, ainda não inventaram iluminação de banheiro.

3. O problema não é envelhecer

O grande problema de envelhecer — como se envelhecer fosse, por si só, um problema — não é a idade. Há quem nem consiga envelhecer verdadeiramente: não porque morra, mas porque perde a vida ainda em vida e passa a perambular como um zumbi melancólico.

A dificuldade maior é não aceitar a idade a que se chegou. Essa recusa costuma ser alimentada por muitas experiências:

  • o desprezo de quem já não suporta a presença dos mais velhos;

  • a intolerância da pessoa consigo mesma, com o próprio corpo e com a própria mente;

  • a nostalgia transformada em argumento para desprezar tudo o que é novo;

  • o afastamento daqueles que deveriam honrar quem os antecedeu e ajudou a construir as bases do sucesso de hoje.

Também eles envelhecerão. Talvez então descubram que o tempo não pede licença: apenas muda de endereço e vai morar no rosto de cada um.

4. A falsa ideia de que o novo pertence apenas aos jovens

No pensamento comum, envelhecer parece significar regredir no tempo e no conhecimento. Daí nasce uma falsa divisão de valores: acredita-se que tudo o que é novo pertence exclusivamente aos jovens.

Isso não é verdade. Se os jovens assimilam conhecimentos em ritmo acelerado, é porque outros jovens, antes deles — hoje envelhecidos — trabalharam incansavelmente para construir essa base. O tempo dedicado a pesquisar, aprofundar e repartir conhecimento custou a esses pioneiros o próprio tempo de assimilação das novidades que surgiram depois.

5. A árvore do conhecimento

O conhecimento é como uma árvore. Você planta uma muda, rega, protege e segue adiante. Quando retorna, aquela plantinha frágil tornou-se um tronco majestoso que alcança as alturas.

Você fez a sua parte: plantou, regou e protegeu. Enquanto esteve distante, porém, o mundo continuou acontecendo. Ao voltar, imaginando encontrar a arvorezinha ainda pequena, depara-se com uma fortaleza vegetal imponente e quase indomável.

Antes, você era um gigante diante da muda que plantou. Agora, encontra diante de si outro gigante, ainda maior, interrompendo o caminho. A pergunta não é se devemos derrubá-lo, mas se ainda somos capazes de aprender a caminhar à sua sombra.

6. Envelhecer sem regredir

Envelhecer é assim: contribuímos com nossa parcela para que o mundo avançasse. Quando chega a nossa vez de desfrutá-lo, encontramos um mundo acelerado por outras forças e por outras pessoas — e, muitas vezes, tornamo-nos estrangeiros no mesmo lugar que ajudamos a construir.

É aqui que começa o tema principal desta reflexão: envelhecer sem regredir. Isso significa domar o potro com o laço feito do próprio couro: usar a tecnologia para compreender o mundo tecnológico.

Mas significa também associar a inovação e o conhecimento por ela gerado à simplicidade do tradicional, à beleza do trabalho humano e à pureza do original.

7. A arte como freio da pressa

É nesse ponto que começo a falar da arte: a mesma arte que revolucionou civilizações e que, de maneira provocadora, ainda é capaz de frear o ímpeto alucinado da vida moderna.

A tecnologia pode, afinal, fazer alguém interromper a correria para contemplar uma obra de Matisse, Rembrandt ou Monet — ainda que seja na tela de um computador.

A tela não substitui a obra original. Mas pode abrir uma janela para ela. E uma janela, quando bem aberta, continua sendo melhor do que uma parede.

8. Meu percurso entre criatividade, arte e tecnologia

Não foi por capricho que escrevi três livros relacionados ao assunto: Teoria da Criatividade (2013), Teoria Geral da Inteligência Criativa e Bereshit Bará (2026). Também publiquei, em 2026, os artigos Técnicas Associativas de Arte com Tecnologia — O Processo Criativo do Ilustrador Pacard e Boletim Arte & Tecnologia.

Esse percurso nasceu da convicção de que a tradição e a tecnologia não precisam ser inimigas. Uma pode oferecer raízes; a outra, alcance. A criação humana torna-se mais rica quando não precisa amputar nenhuma das duas.

9. A inteligência artificial e o medo de desaparecer

Percebo, a cada dia, que a “bomba mais que nuclear” da inteligência artificial tem aterrorizado muita gente — não apenas os velhinhos que, assustados, se recolhem cada vez mais ao seu cantinho de melancolia.

É preciso lembrar que uma tecnologia, por mais avançada que seja, continua sendo tecnologia. Ela não é um substituto automático para a humanidade que ainda nos resta. O perigo não está apenas na ferramenta; está na maneira como a utilizamos, nas intenções que a orientam e na responsabilidade de quem aceita os seus resultados.

10. O futuro pode ser o próximo minuto

Aqui reside a diferença entre viver e vegetar: trocar a obsessão por um futuro distante pelo tempo presente da esperança.

Muitos imaginam que “futuro” é somente aquilo que acontecerá daqui a vinte ou trinta anos. Não é verdade. O futuro pode ser o minuto seguinte, a próxima hora, a ideia que ainda não tivemos ou a conversa que ainda podemos iniciar.

Por isso, considero perfeitamente possível — e desejável — aceitar inovações que favoreçam o bem-estar físico, existencial e psicológico, desde que sejam utilizadas com consciência, prudência e ética.

11. Tecnologia é ferramenta, não divindade

Nós já nos acostumamos a acender o fogo do fogão com o aperto de um botão, regular a temperatura do refrigerador e usar um mixer em lugar do liquidificador — que, por sua vez, já havia ocupado o lugar do fuê usado para bater um bolo.

Por que, então, não poderíamos nos beneficiar de um programa ao qual fazemos perguntas e que realiza pesquisas velozes para nos oferecer respostas?

Eu considero extremamente oportuna a possibilidade de servir-me, de todas as maneiras éticas possíveis, da inteligência artificial, dos programas de desenho que possuo e até de canetas mais confortáveis para desenhar com nanquim.

Por que eu continuaria apontando uma pena de ganso ou uma varinha de bambu para desenhar, se as penas técnicas modernas realizam melhor determinadas tarefas? Respeitar a tradição não exige fingir que nada foi inventado depois dela.

12. Princípios para usar a tecnologia sem perder a humanidade

  • Usar a tecnologia como auxílio, não como substituta do caráter, da consciência ou da responsabilidade.

  • Verificar informações importantes e não confundir velocidade com verdade.

  • Preservar a autoria, a memória, o conhecimento empírico e a contribuição humana.

  • Aprender sem vergonha: ninguém nasce sabendo usar aquilo que ainda nem havia sido inventado.

  • Combinar o novo com a experiência acumulada, em vez de opor uma geração à outra.

  • Empregar o tempo economizado para viver melhor, criar, conviver, contemplar e conhecer outras coisas.

Conclusão — Ainda há vida pela frente

Tecnologia é isto: o uso consciente do potencial que está ao nosso alcance para melhorar e acelerar certas tarefas, permitindo que nos sobre mais tempo para conhecer outras coisas.

Como viver, por exemplo.

Envelhecer sem regredir não é voltar a ser jovem. É recusar-se a ficar intelectualmente imóvel. É conservar a curiosidade sem disfarçar os cabelos brancos, acolher ferramentas novas sem desprezar as antigas e rir da própria caricatura sem renunciar à dignidade.

A velhice não precisa ser uma sala de espera. Pode ser oficina, biblioteca, ateliê, mirante e, às vezes, até parque de diversões — desde que não nos obriguem a entrar na montanha-russa.



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Contato: 48 99929 2200 - dpacard@gmail.,com

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