AD SENSE

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A voz que sobrou - Um ensaio sobre a solidão

 








A voz que sobrou

Pacard


O telefone tocou às quatro e vinte.

Adorvalino estava na cadeira da sala, a coluna pregada no encosto como se o assento fosse um instrumento de suplício doméstico. A bisnaga de Canela de Velho já estava amassada no meio. O cheiro de pomada velha misturava-se ao do café doce demais e ao do pirão que esfriava no prato, sem graça, sem sal, sem a conversa que um dia acompanhava a refeição.

Ela dormia no quarto. Dormia com a boca entreaberta e as mãos sobre o peito, como quem já ensaiou a pose final e agora apenas repete. Noventa anos à vista. Às vezes acordava e perguntava se o irmão ainda vinha jantar. O irmão tinha morrido em 1987. Adorvalino respondia que sim, que estava no ônibus. Mentira mansa. Mentira de quem ainda tem força para proteger o outro da própria memória.

O aparelho vibrava na mesinha. Número desconhecido. Prefixo de outro estado.

Ele atendeu.

— Boa tarde, o senhor Adorvalino?

A voz era feminina, lisa, educada demais. Tinha aquela pausa artificial no meio da frase, como se alguém tivesse ensinado a máquina a respirar.

Ele não respondeu logo. Olhou a tela. O nome não existia. Só o número. Acompanhou com o polegar o volume até quase sumir e depois subiu de novo. Queria ouvir. Não queria ser ouvido.

— Pois não — disse, baixo.

Do outro lado, a voz continuou. Falou de um benefício que ele nem sabia que tinha. Falou de atualização cadastral. Falou de um plano com mais gigas, mais ligações, mais tudo aquilo que ele não usava. Perguntou se o senhor confirmava os dados. Perguntou se o senhor autorizava. Perguntou se o senhor estava sozinho.

Adorvalino olhou o corredor.

O relógio da parede atrasava três minutos havia anos. Ninguém mais corrigia. A televisão estava muda, com a imagem de um jornalista falando para ninguém. No chão, o chinelo torto. No sofá, o travesseiro amassado no formato das costas dela, de quando ainda sentava ali para ver novela.

— Estou — respondeu.

A voz agradeceu. Agradecer a solidão alheia tem um tom especial. Quase carinho.

Então vieram as perguntas. Data de nascimento. Nome da mãe. Número do cartão. Os três dígitos de trás. Se o senhor confirmava. Se o senhor autorizava o débito. Se o senhor queria o plano promocional válido só até hoje.

Adorvalino sentiu o calo no dedo indicador — aquele calo de tanto rolar tela no vaso, de tanto ler rótulo de sabonete como se fosse notícia. A voz do telefone era melhor do que o rótulo. Tinha ritmo. Tinha alguém, ou a ideia de alguém, do outro lado.

Ele não disse sim.

Também não desligou.

Ficou com o aparelho encostado na orelha, a respiração pesada, o ciático latejando até o calcanhar. De vez em quando a voz perguntava:

— Senhor? O senhor está aí?

— Estou.

Duas sílabas. O suficiente para a máquina continuar. O suficiente para a casa não ficar tão oca.

No quarto, ela tossiu. Uma tosse seca, antiga, que já não pedia socorro. Adorvalino tapou o microfone com a palma.

— É a minha mulher — murmurou, sem saber se falava com o robô ou consigo.

A voz do outro lado não perguntou o nome dela. Não perguntou se ela estava bem. Perguntou de novo se ele autorizava.

Ele olhou a xícara. O açúcar no fundo tinha virado uma crosta. O diabetes estava ali, sentado na mesma cadeira, esperando. Mesmo assim ele tomava o café doce. Havia pecados pequenos que ainda cabiam no dia.

A ligação durou onze minutos.

Onze minutos em que uma voz sem corpo ocupou a sala. Onze minutos em que Adorvalino não precisou fingir que havia recado, visita, neto no portão. Onze minutos em que a solidão, esse bicho doméstico, sentou no tapete e ficou quieta, só observando.

No fim, a voz disse que registraria o interesse e que um consultor humano ligaria em breve.

— Tá bom — ele disse.

Desligou.

O silêncio voltou mais grosso do que antes. Sempre volta mais grosso. É o preço de ter emprestado o ouvido.

Adorvalino deixou o telefone sobre a mesa, virado para baixo, como quem tapa a cara de um morto. Levantou-se devagar. A coluna protestou. Os pés também. Foi até o quarto.

Ela abriu um olho.

— Quem era?

— Ninguém — respondeu. Depois, mais baixo, quase com vergonha: — Uma voz.

Ela fechou o olho de novo. Talvez tivesse entendido. Talvez já estivesse em 1987, esperando o irmão.

Adorvalino puxou a cadeira para perto da cama e sentou. Não disse mais nada. Ficou ali, ouvindo a respiração dela, irregular, teimosa, ainda humana.

Do lado de fora, o entardecer descia sobre o bairro sem pedir licença. Para uns, lenitivo. Para outros, tormento. Naquela casa, era só mais uma hora entre o café proibido e o sono picotado.

O pior nunca foi a dor.

O pior nunca foi o relógio atrasado, nem o pirão frio, nem a pomada que não dá conta.

O pior é quando a única voz que ainda fala com a gente precisa ser desligada — e a gente, mesmo sabendo, demora um pouco mais do que deveria para apertar o botão.

Porque envelhecer dói.

Mas envelhecer sem ninguém do outro lado da linha dói de outro jeito.

Dói quieto.

Dói fundo.

Dói onde pomada nenhuma alcança.



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A voz que sobrou - Um ensaio sobre a solidão

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