AD SENSE

domingo, 6 de agosto de 2017

Qundo falar - Poemas para pensar



Quando falar...


Poemas para Pensar



1 - QUANDO FALAR
Ano 2000 (Para Nadir)


Quando falar de amor

Finja nada conhecer,
para absorver cada frase que brote do coração.

Quando falar sobre a dor,
deixe abertas as janelas da alma para compreender que amor e dor são tão parecidos que até os confundimos,ao vê-los bem de pertinho.

Quando falar sobre a paz,
faça-o no rumor da guerra,
para ser ouvido na mais alta voz.

Quando falar sobre sonhos,
acorde,para vivê-los na melhor lucidez do seu dia.

Quando falar de amizade,
estenda a mão aos seus inimigos,
para que possa provar a si mesmo aquilo que gosta de dizer aos outros.

Quando falar de fome,
faça um minuto de jejum,
para lembrar daqueles que jejuam todos os dias,mesmo sem querer...

Quando falar de frio,
abrace alguém.

Quando falar de calor,
estenda a mão.

Quando estender a mão,
sustenha o braço para que perdure.

Quando falar de felicidade,
acredite nela.

Quando falar de fé,
cerre os olhos para encontrar a razão daquilo em que crê.

Quando falar de Deus,
faça-o pelo silêncio do seu testemunho.

Quando falar de si mesmo,
aprenda a calar,
para entender o amor,a dor,a paz,os sonhos...
 


2 - QUANDO CAMINHAR
11/01/2009 (Para Nadir)


Quando caminhar, à noite,
siga o rastro do vento
para que ele te leve aos sonhos.


Quando caminhar, pela manhã, 
deixe que o alvorescer te abrace
para que contemple o nascer da vida


Quando caminhar,à tarde,
nunca caminhe só
para ter a quem contar as lembranças da aurora.


Quando caminhar, sozinho,
caminhe envolto em teus proprios braços
para que não te esqueça o sabor que tem o abraçar


Quando contigo caminharem
seja único sem ser egoísta
para que ouçam tua voz sem que nada digas


Quando caminhar, com dores,
caminhe entoando louvores
por pode caminhar.


Quando caminhar, calado,
cale apenas a voz, e não a consciencia
para que aundo volte a falar, possa ser ouvido.


Quando caminhar, chorando,
mostra um largo sorriso a quem encontrar
para que não te desnudem a alma


Quando caminhar, sorrindo,
empresta o sorriso teu a quem não sabe sorrir
para que o tenhas de volta no dia da tua amargura


Quando caminhar, com fome,
faze disso um jejum, e torne a fome porta e janela
para que possa por elas, Deus, te saciar


Quando caminhar, saciado,
pare e lembre de todos aqueles a quem a fome não os deixa pensar
para que penses na fome como porta e janela de esperança


Quando, enfim, lembrar de caminhar com Deus
e cansar de caminhar sozinho
faz todo o silencio que puder, em tua alma
para que possas ouvir a sublime melodia da voz do Criador
que sempre caminhou ao teu lado


e tu não havia ainda percebido


Porque caminhar com Deus
é caminhar parado e calado
para chegar mais depressa
Porque caminhar com Deus é caminhar envolto em seus braços
para que te deixes levar pela doce voz do meigo Pastor


Anda, caminha, saltita
para e medita
pequena ovelhinha que és.


3 - QUANDO PENSAR


Quando pensar na vida
pense no amanhecer que anuncia todo novo dia, 
mais um dia pra viver


Quando pensar na morte
pense em morrer somente
quando toda semente de flor
for um dia plantada


Quando pensar nos filhos
pense num trem ruidoso
que passa no teu caminho
e leva junto teus sonhos


Quando pensar no trabalho
evite fazer atalhos
pegue o caminho mais longo
para saborear o tempo


Quando pensar em descansar
procura a sombra maior
do imenso manto de Deus


Quando pensar que é triste
viver num mundo tão frio
desliga a televisão das noticias amargas
e liga a janela da sala
no canal do por do sol


Quando pensar na dor da ausencia
nas gavetas da saudade
abre a gaveta logo abaixo
cheia de fotografias
olha cada uma delas e lembra
que te farão sorrir


Quando lembrar da alegria
recolhe e guarda um bocadinho dela
e ao caminhar pela vida
espalha pelo caminho aquilo que guardou


4 - QUANDO EM SONHOS
Quando em sonhos encontrares
amigos que partiram,
com outros amigos, abraçados
chorem o quanto der pra chorar
para que ao acordar pela manhã
possa sorrir para a vida
que faz raiar teu novo dia
num pleno recomeçar


Quando em sonhos,
pensar em falar com Deus
pede d'Ele um abraço
para que sintas, ao despertar
o perfume que ficou em ti


Quando em sonho,
te achar cansado por uma caminhada
caminhe ainda mais
para que despertes mais perto
do lugar pra onde vais
pois Deus te fez andar dormindo
para que acordado, depois
mais longe tu possa ir


Quando sonhar que colheu flores 
guarda um buquê na alma
para que acordes exalando perfume
no caminho que passar


Quando sonhar com caricias
abrace a quem as faz
para que mesmo que acordes
não permita que se vá


Quando sonhar que está só
não pense que é solidão
pois todos partiram antes mesmo que acordasses
para te esperarem sorrindo
no teu breve amanhecer


Quando sonhar que caiu
colhe a terra que ampara
semeia-a pela caminho aplanando veredas
para que acordado
não te falte chão


Quando sonhar que és livre
liberta outros também
para que livre acordes
até mesmo
numa prisão


Quando sonhar que é injustiçado
quão feliz tu podes ser
porque justo ainda mais
tu podes despertar
e mais livre teu mundo ver


5 - QUANDO A CHUVA CAIR
Quando a chuva cair, se deixe molhar
em cada passo que dê
rumo ao infinito
para que laves a alma, o corpo e o coração


Quando a chuva cair
faça concha com as mãos e recolha os pingos
para bebê-los no fim da jornada
quando a sede chegar


Quando a chuva cair
abrace seu afeto bem forte
e troque calor neste entrelaço
para aquecer a alma


Quando a chuva cair
ouça o cantico das gotas
o cantarolas das aguas
o sublimar do vento


Quando a chuva cair, 
desligue o mundo
e ligue os sonhos


Quando a chuva cair
faça coro e entoe louvores
olhando pro céu


Quando a chuva cair
acorda bem cedo
e veja o mundo
que a agua lavou


Quando a chuva cair
conte os pingos
para mais cedo dormir


Quando a chuva cair
se deixe cair
nos braços de alguém.


6 - QUANDO JÁ FOR PRIMAVERA
Quando já for primavera
recolha  tudo que que é cinza
para dar lugar às cores


Quando já for primavera
volte sua  face pro leste
para respirar a primeira brisa do mar


Quando já for primavera
Pela manhã conte botões
e volte de novo à tarde ao mesmo lugar


Quando já for primavera
caminhe pelas campinas 
para juntar pétalas do tempo
e guardá-las no coração.


7 - QUANDO A GUERRA TIVER FIM
Quando a guerra tiver fim
vou caminhar pelas ruínas
semeando paz
para que quem venha depois
tenha flores pra colher


Quando a guerra tiver fim
eu vou escrever canções
que não mais precisem falar de paz
porque lembranças doces não serão lembranças
mas realidade


Quando a guerra tiver fim
vou voltar a ser criança
para brincar de ser feliz
comendo pitangas
com gosto de paz


Quando a guerra tiver fim
vou lavar os pés nos tanques de guerra
que serão grandes panelas
para saciar a fome
daqueles que estavam em seu caminho.


8 - QUANDO, UM DIA


Quando, um dia
em plena luz da noite
te sublimar o tempo nas asas do infinito
entoa um cantico silente
libertando teu calado grito
da cor mais bela do incolor lamento


Quando, um dia
não houver mais pranto
arranca o manto da serena tarde
e volve pela noite adentro
orando a prece, que fenece
trocando alivio por lamento


Quando, um dia
uma criança brinque de colher matizes
do colorido glacê de aurora
olha la fora para despertar saudade
porque te ves, correndo
a colher teus sonhos.


9 - QUANDO TE FALTAR


Quando te faltar saúde
que te cative, o leito
torna-te grato, porque tens um peito
e dentro dele, um coração


Quando te faltar o pão,
que te derrube a fome
torna-te grato pelo teu jejum
que purifica o corpo


Quando te faltar a água
que refresca a boca e te batiza a alma
torna-te grato, porque bebeste sangue
que te libertou


Quando te faltar o chão
em que firmar rijo o teu caminhar
torna-te grato aos anjos
que te sustenta a voar
rumo ao encontro do teu Libertador


Quando te faltar a voz
torna-te grato por poder cantar com a alma
quando te faltar a fé
torna-te grato porque tu é vazio
pronto a receber
a fé que vem de Deus


Quando te faltarem os sonhos
mesmo que tenhas saúde, pão, água, chão, voz e fé
tudo te falta
comece a chorar, esvaziando o coração
para que seja um vaso
guardador de bênçãos
e este vaso limpo
deixa Deus encher.


10 - QUANDO O SILENCIO CHEGAR


Quando o silencio chegar
ouça seu acalanto
para que te serenize a alma


Quando o silencio chegar
ouça a voz das lembranças
para que te confortem o espírito


Quando o silencio chegar
abra um pouco a janela
para ouvir melhor a noite


Quando o silencio chegar
conte as estrelas todas
em todo céu que te fita


Quando o silencio chegar
abrace teus afetos
mesmo que na memória
porque o silencio é teu depósito de paixão pela vida
até teu último serenizar.


11 - QUANDO DUVIDAR


Quando duvidar da vida
olha no olhar dos pequeninos
e contempla neles o infinito
e quando duvidar da morte
olha as pedras inertes contemplando as eras


Quando duvidar do tempo
olha as lembranças e tente não chorar


Quando duvidar da noite
fecha bem os olhos
e tente caminhar


Quando duvidar do dia
pensa na loucura de guardar a tarde
dentro das manhãs


Quando duvidar dos loucos
tente provar também
que não é loucura
tanto duvidar


Quando duvidar de Deus
duvide de si mesmo
que pensa em duvidar
de todas as certezas
paradoxais


12 - QUANDO CHEGAR A HORA
Quando chegar a hora
de semear o trigo
semeia junto a certeza
de que vais vê-lo crescer


Quando chegar a hora
de colher espigas maduras
colhe também a esperança
de depois, dividir este pão


Quando chegar a hora
de repartir tua ceia
volta ao campo e semeia
mas pão, na terra sedenta
para que colhar, com ela
o gosto de repartir
todo o trigo que plantou


Quando chegar a hora
de, dividindo teu pão,
mais mãos surgirem pedindo
verás que encontra, sorrindo
a hora, que ora chega
de partir teu coração


13 - QUANDO RAIAR


Quando raiar a luz azulada
da primeira estrela da noite
deixa-te sorrir
porque todo manto do céu
vem cintilar junto dela


Quando raiar, em meio a dor
de tua noite sofrida
o brilho do primeiro sussurro de alento
por quem amas
deixa-te sorrir por inteiro
porque ainda restam todos os sussurros da noite
em tua alma


Quando raiar a aurora que resplandesce
junto ao regaço que murmura
apressa-te em juntar os brilhantes que se espargem
e guarda-os no secreto de teu íntimo
para que sejam teu tesouro
pérolas do teu alvorecer.


14 - QUANDO SERENIZAR
Quando serenizarem as guerras
os senhores do mundo
plantarão novos desejos
para encher com eles os corações dos homens
para que comecem novas guerras


Quando serenizar a cobiça
cobiçarão ainda mais os senhores
a paz
e em nome dela, armar-se-ão e matarão crianças, velhos, mulheres, e outros artigos descartáveis
segundo seu humano pensar


Quando serenizarem as angústias
restará um mundo perplexo
sem saber como lidar
com essa palavra sem uso:
PAZ!


15 - QUANDO DESLIGAR


Quando desligar a luz
desligue também o dia
e todas as lembranças que como muros, entalam o abrir
a porta dos teus sonhos
e não te deixam dormir.


Quando desligar o telefone
deixe um canal aberto
para falar com Deus
que não tem celular
mas tem linha direta sempre livre
para te ouvir


Quando desligar tudo, que ligado,
não te deixa andar
pelas sendas da esperança
terás ligado toda luz que necessita
para teu andar
no caminho pleno da felicidade


16 - QUANDO TEMPORAIS


Quando temporais da noite
sob densas nuvens te assolam a alma
e trovoadas faiscantes te revolucionam o espírito
cerra os olhos e estende as mãos
na direção da noite
e silencia a mente numa oração


E aquele que cala tempestades
há de tomar-te nos braços
e abraçar os teus sonhos
e embalar o teu corpo
serenizar o teu peito
pelo sopro do vento


E quando teus olhos 
mergulhados de angustia se abrirem
verão a alva perfumada e fresca
exalando perfume em tua direção


17 - QUANDO A MUSICA


Quando a orquestra entoar
os teus acordes prediletos
serás contraponto com ela
em cada movimento


Quando a musica soar
soprada pelo vento
ouve atento
podem ser anjos cantando
para te fazer dormir


Quando a musica cessar em teus ouvidos
porque o tempo e a dor cerraram portas
recolhe o que foi guardado ao longo dos anos
nas gavetas da alma


Quando a musica cessar pelo rumor da guerra
cerra os olhos para que libertes
o Anjo cantor que guarda no teu peito
e põe-te no mundo a cantar
todas as canções que aprendeu na vida


Quando a musica não mais unir os homens em canções de roda
(porque eles crescem e as canções descansam)
tornar-se-ão sombrias sendas
autômatos caminhos em linhas retas


Quando a música voltar, enfim
graciosas curvas florescerão alegres
para despertar os homens
que em meio ao horror da guerra
deixarão as armas
dar-se-ão as mãos
e cantarão canções
que falarão de paz


Quando a música recomeçar
não haverá mais tempo
para falar de dor.

18 - QUANDO OS AMIGOS
Quando os amigos chegarem, volte a ser criança
para abraçá-los, feliz.

Quando os amigos falarem
faça silencio para ouvi-los
e deixe que contem da vida.

Quando os amigos sentarem
sente junto e conte historias
que despertem as estrelas silentes
e te façam sorrir

Qando os amigos chorarem
não economize lágrimas
e reguem juntos, os ombros,
almofadas da alma.

Quando os amigos calarem
faça silencio

Quando os amigos partirem
serenize a alma
com todas as lembranças
de tudo o que, unidos
se permitiram fazer,
mesmo que nada, embora juntos.

19 - QUANDO DOBRAREM OS SINOS
Quando dobrarem os sinos
ouça, chorando, o silencio
que brota dos tristes lamentos
dos sinos que dobram ao entardecer

Quando dobrarem os sinos
chamando almas para orar
dobre também os joelhos
para que se erga o espírito
dum dobre cântico de louvor

Quando dobrarem os sinos
bronzeadas campânulas
como flores do campanário
silencie o coração em cada retinir
como um contraponto perdido
na sinfonia da vida.

Os sinos que conheço
dobram pelos que se foram,
como derradeiro lamento.

20 - QUANDO OS LIVROS
Quando os livros são escritos
há almas que se derramam sobre eles
como chuva copiosa sobre a terra sedenta

Quando os livros são abertos
há palavras libertas
que nem sempre são ditas
algumas de bênçãos, algumas malditas
que bem e mal dizem
a quem quiser ler

Quando os livros se fecham, fecha-se a alma
cega-se a mente
entardece a vida
fenece o pensar

Quando os livros se queimam
há um fogo que não se apaga
que não gera mais luz
e quanto mais livros se queimam
trevas se incandescem
que geram sombras
e escurecem o espírito.


Reflexões



Reflexões 
Pacard 

Os Ventos 
Sempre ouvi dizer que a sabedoria morava junto ao silêncio, e resolvi então buscá-la. 
Levantei bem cedo, pois o primeiro silêncio anda junto da aurora. Andei no rumo dos raios sol e perguntei à brisa que me acompanhava: 
- Conheces a sabedoria? 
- Dela ouvi falar- respondeu-me.

- Por que a buscas nesta hora do dia, em que melhor é vagar sem saber onde chegar? 
- Porque sei que  posso encontrá-la e desejo dela sorver graça para minha vida – argumentei esperançoso de pudesse forçar o vento a conduzir-me a um ponto de partida.

 
- Ventos não andam em busca de abstrações – disse com ar de melancolia. Somos a abstração que se pode sentir sem tocar. Somos a metáfora de Deus, porque não nascemos onde nos possam dar nome. 


Não andamos por caminhos pré-estabelecidos, e desaparecemos sem que nunca tenhamos sido tocados. Somos como o espírito vivo, embora caminhemos como a morte. 

Ninguém nos pode guardar. 


Sabem quem somos só depois que passamos. Somos o passado como vozes do presente. Nos podem ouvir, até mesmo há quem procure traduzir nossas canções, mas frear nosso curso não há quem consiga. 

Somos o acalanto dos órfãos. Somos o bálsamo dos que queimam. Somos sopro Deus dando vida. Somos a própria vida. 


Enquanto o sol mais alto surgia, devagar como o tempo, a brisa desapareceu. Aborrecido por não ter minha pergunta respondida, me retirei arrazoando com meus pensamentos, trôpego pela embriagante musicalidade da manhã, foi quando percebi que tivera minha primeira lição: A sabedoria é como a brisa mansa. Vem, anda junto e se vai. Dela ficam em poucos, as marcas. Dos que se deixam acariciar por sua suavidade, como que pelos dedos da brisa nas folhas das árvores. 

As árvores 
Continuei a caminhar e encontrei uma grande árvore. Já alto o dia, queimavam-me os raios do sol altivo e imponente, como um velho mestre a impor disciplina ao aluno displicente. Sentei-me à sombra e com jovial ociosidade fitei o cintilar entre as folhas, como se o olhar do velho professor buscasse me encontrar entre as frestas de meu esconderijo. 


Era uma castanheira, frondosa, forte, abraçando em círculo com seus braços longos tudo o quando pudesse abraçar, como uma mamãe pássaro a envolver seus pintos sob pequeninas asas, mas que se multiplicam de tal modo que nenhum deles perde seu aprisco acolhedor sob a mais intensa chuva ou causticante sol. 
Ao lado da castanheira, uma araucária alta, coroada de belas copas ostentando pinhas e balançando uma a uma como troféus por sua imponente forma. 


Pousou entre as folhas da castanheira um pequenino pássaro. Quase ao meu lado. Arredio, ligeiro, atarefado em observar tudo ao seu redor como um guardião atenta para o perigo que ronda seu tesouro. 
- Conheces a sabedoria? –perguntei ao pardal. 
- Como ela é? Tem forma? Sabor? Cor? Pousa em que árvore? Constrói ninhos? Encontra sementes para seus filhotinhos? Banha-se nas fontes e bebe nas folhas? Quão alto voa? Brinca nos ares e voa em bandos? Procura o sul sem repouso em vôos sem descanso? Canta ao amanhecer e repousa com o crepúsculo? Foge dos predadores com astúcia? Etc, etc, etc? 
Disse isso e voou dali pousando nos galhos, longe das folhas espinhentas da araucária. 
Fiquei estarrecido com tantas perguntas, e enquanto ainda tentava assimilar a primeira delas, acompanhei instintivamente o ir e vir daquele passarinho, até que ele voasse para tão alto e eu não o visse mais.

 
Assim como chegou, se foi, sem me responder. Apenas fiquei observando o balançar das folhas de ambas as árvores pela brisa que passava, e acompanhar pássaros que iam e vinham, pousando numa e outra árvore. Na castanheira, entre as folhas. Na araucária, sobre os galhos. 


Saí dali e continuei a andar. Foi quando percebi que a sabedoria estivera comigo outra vez e eu não havia percebido. 


Concluí que como as árvores também podem ser as pessoas: assim as pequenas como as imponentes. Naquelas, cujas folhas pendem para o chão e se deixam soprar pela brisa, outras se podem achegar e construir seus ninhos. Embora imponentes e altivas, suas folhas sempre estão voltadas para baixo, humildes. As demais, cujas folhas também são voltadas para cima, são espinheiros, que não permitem a ninguém se aproximar. Tornam-se intocáveis e inatingíveis. 


Olhei para trás, e pareceu-me por um instante ter visto olhos cintilarem entre as folhas que arrazoavam com o vento e os pássaros a respeito da sabedoria. 



Uma certa manhã



Uma certa manhã 


Sempre fui favorável a que as manhãs começassem mais tarde. Talvez depois do meio dia. Bem, podem achar que é tarde. Então tá. Pelas dez. Feito. Hora ideal para se abrir a janela, olhar a vida, cumprimentar o dia e..se estiver chuvoso, então voltar a dormir, que nesse caso é o melhor jeito de esticar a vida pelos caminhos do sono. 


Acontece que nem todos pensam assim. Eu entendo. Perdoo-lhes a falha de caráter. Entendo que é perfeitamente justificável que algumas pessoas gostem de levantar cedo. Eu faço isso. Sim, religiosamente aí pelas seis da manhã. Todos os dias. Cumpro minhas obrigações, dou descarga e volto a dormir. 
Entendo também que as pessoas possam não gostar das segundas feiras e também das sextas. Pessoalmente acho isso: as segundas não têm defesa mesmo, mas as sextas, ah não. Essas têm que ser justificadas. Afinal, qual é o dia que precede o sábado? Heim? No meu caso, por religião, faço do sábado meu descanso prazeroso. Mas há outras religiões no mundo, cujos prosélitos merecem todo o meu respeito. Até mesmo a turma que ama a sexta feira porque, dizem, isso eu não sei, mas dizem que é o dia internacional da cervejada e batucada na casa do Belô. Dizem também, isso eu não sei, pois minha religião também não me habilita a comer dessas firulas gordurosas como torresminho, salsichinha e louras alheias. Mas isso eu também tenho que fechar um olho pros que não vêem nada de mal em trebeliscar uma friturinha aqui, outra celulite ali. Cadum, cadum. 


Longe de mim desejar reformar o mundo. Isso nunca. Acho bom demais do jeito que ele é. Acho que está tudo certo…tá, tá, nem tudo. Bom. Então se é pra mexer, acho que então tem que ser faxina geral. Vamos por mãos à obra e começar. Guerra: Vai pro lixo. Roubalheira, seja no governo, nos cultos ou no jogo do bicho: sem perdão. Ensaca e deixa do ladinho, que na quarta feira o lixeiro leva. É dia de lixo orgânico. Vejamos..tem aqui uns trecos..que..ah, já sei: mesquinharia..ih, acho que esse o lixeiro não leva. Certo, enterra. 


Mas temos que organizar essa faxina: todos devem usar luvas, porque tem uma inhacas que não saem nem com detergente sanitário. E depois de tudo bem limpinho, vamos lavar tudo com água de lavanda. 


Então certo. Tudo arrumado, vamos ao banho, porque os olores putredíneos, aquela murra, fica nas mãos, nos cabelos, no coração. Todo mundo pro banho…ei..epa, epa, epa..quando eu disse “todo mundo”, eu quis dizer: mulher numa banheira, homem noutra. Mas QUE COISA. Mal arrumaram a bagunça e já querem começar tudo de novo? 



A voz que sobrou - Um ensaio sobre a solidão

  A voz que sobrou Pacard O telefone tocou às quatro e vinte. Adorvalino estava na cadeira da sala, a coluna pregada no encosto como se o as...