Quem deu poder e prestígio ao incapaz é um sádico, e não perde nada com os erros do experimento.
Blog do Pacard - Causos & Coisas de Gramado
Cotidiano de Gramado de todos os tempos Filosofia, Causos & Pimenta
AD SENSE
segunda-feira, 24 de março de 2025
Tic Tac, tic tac, tic tac.....
Quem deu poder e prestígio ao incapaz é um sádico, e não perde nada com os erros do experimento.
domingo, 23 de março de 2025
Se dibruçando encima dos prano da curtura erodita
Não conheço a opinião de vocês, mas, sei lá, eu penso que os servidores da Cultura deveriam, por coerência com a função ('polo menas', diria Apolônio Lacerda), atropelar menos a gramática. Que barbaridade! Vejo gente desesperada atrás de uma vergonha, querendo passar a todo custo.
Ouvi em uma entrevista recente frases assim:
'As pessoa...' e antes disso: 'Música erodita'...
'Buatarde a todos os nossos amigo gramadense...'
'Eles tabém estão "enganjados nisso"...'
'Tamos aqui co prano do ministéro da cultura... temos que se disbruçá incima dele' (SIC)
'Tenho conversado cas peçoa e elas acha que a cultura é "eletizada"! Ela não é eletizada!' (SIC, SIC e mais SIC)
Quanta saudade do nosso querido professor Sebastião Félix, que nos deu os passos seguros para a trajetória vernacular. Da professora Ilona, de tantos mestres que, até mesmo no modo coloquial, conjugavam os verbos no modo e tempo corretos.
Só uma ideia: creio que umas aulas de ética e gramática não fariam mal a ninguém. Sei lá, é só uma ideia. Alguém sugira isso ao prefeito. Acho que pode funcionar."
Post Scriptum: Nenhum jestôr de curtura foi isbrugado pra escrever estas poucas e maldezenhadas palávra* (Ih, isso é contagioso!)
sexta-feira, 21 de março de 2025
Assim como em Roma - O apogeu e o Declínio do Poder em Gramado
Imagem: Grok AI
Tenho-me dedicado, com assaz minúcia, a perscrutar as entrelinhas dos acontecimentos políticos e sociais de Gramado, conquanto me esquive, com veemência, de proclamar-me apreciador da política, muito menos de nela imiscuir-me ativamente. Prefiro o papel de observador e comentarista, abstendo-me de ferir este ou aquele, pois creio, quase invariavelmente, na hostilidade ideológica que permeia todos os envolvidos. Se A e B divergem acerca de C — sendo A e B indivíduos ou coletividades, e C, situações ou ideologias —, é natural que cada qual brandisse argumentos favoráveis à sua perspectiva, como convém à clareza deste meu raciocínio.
Há tempos cogitava redigir algo sobre os rumos políticos de Gramado, e cheguei a esboçar algumas linhas especulativas sobre o que poderia ser a cidade em 2040 — mera conjectura, é evidente. Até então, porém, carecia de elementos para vislumbrá-la diversa do que tem sido, pois duas correntes políticas dividiam entre si, de modo previsível, as forças e os encargos do poder. Hoje, contudo, tudo se transforma, e o faz com celeridade avassaladora. Tal ruptura vincula-se ao próprio apogeu do poder, à notoriedade da agora moribunda UPG (União Por Gramado), que, em sua estrutura interna, loteava cargos e mandatos com precisão quase mecânica. Eis que emerge o atual governante, em seu quarto mandato — sempre, justiça seja feita, alçado por esmagadora maioria de votos —, um político perspicaz, acima de tudo um gestor eficiente e audaz. Mas tudo tem seu ocaso. Assim como Roma, outrora pletórica de poder e opulência, sucumbiu em declínio vertiginoso quando as forças rivais da corte se equipararam, não por dissensão interna — pois desde que Rômulo assassinou Remo, nenhum governante romano repousou em serena paz —, mas por sua fragmentação. Traições e conspirações eram o pão cotidiano do império; nem mesmo o grandioso Júlio César escapou de um fim trágico, ao deparar-se com Brutus, seu afilhado, entre os algozes. Shakespeare imortalizou a exclamação “Et tu, Brute?” — ficção teatral, não fato histórico —, mas o antagonismo era inerente ao jogo. Não foi, todavia, esse antagonismo que debilitou Roma, e sim sua cisão: uma parte permaneceu na cidade das sete colinas, enquanto outra migrou a Constantinopla, dando origem ao Império Bizantino, meio romano, meio outra coisa. O feixe partido abriu alas à dissensão que permitiu às dez tribos “bárbaras” reassumirem seu domínio, não com intento de subjugar Roma, mas de libertar-se dela. Assim, a Europa, fragmentada e andrajosa, ergueu-se sobre si mesma, em tropeços contínuos, jamais conhecendo paz verdadeira. Dela brotaram os fragmentos da cultura ocidental, nenhum deles definitivo ou estanque. Retornemos, pois, a Gramado.
Até sua emancipação em 1954, Gramado não ambicionava um poder autóctone. Após a união de uma comissão de cidadãos — politicamente díspares — para desvencilhar o 5º Distrito de Taquara, elegeu-se o primeiro prefeito, Walter Bertolucci, com Reinaldo Baqui como vice, sucedido por Arno Michaelsen, José Francisco Perini e, novamente, Walter, agora com Alberto Casagrande. Este último, em busca de um segundo mandato, prevaleceu contra Almeri Peccin e Érico Albrecht, mas o triunfo desmoronou sob o jugo do regime militar: ambos foram cassados, e Horst Volk, presidente da Câmara, foi nomeado interventor federal. A partir de Horst, consolidou-se um grupo em torno desse poder, com Waldemar Weber e Pedro Bertolucci, até que a ausência de reeleição abriu espaço à oposição. Nelson Dinnebier, sem perfil ideológico fixo, agregou ex-membros do PTB e remanescentes do “Grupo dos Onze” — tachados de comunistas, encarcerados e privados de direitos pelos militares —, vencendo com cerca de oitocentos votos de vantagem. Desde então, instaurou-se a dualidade que perdura: dois “clãs”, não necessariamente familiares, delineiam a paisagem política e administrativa, alternando-se nas realizações. Entre eles, João Alfredo, filho de Walter, ocupou a cadeira de prefeito. Embora saiba que ele lê estas minhas divagações, dificilmente me contradirá ao afirmar que jamais ostentou liderança política de massas. Suspeito — e é mera suposição — que tal ambição pertencesse mais a seu pai, que me confidenciou tal intento. João, honrando o legado paterno, assentou-se à direita do Paço Municipal e, qual César no Egito, talvez tenha pensado: “Veni, vidi, vici”. Venceu, governou e retirou-se discretamente, sem deixar herdeiro político ou buscar reeleição, tombando, como diria Exupéry sobre o Pequeno Príncipe, “doucement comme tombe un arbre” — devagar, como cai uma árvore.
O cenário atual
Nestor fez o que quis e, querendo muito, realizou muito. Não desonrou seus predecessores, elevou a economia e o prestígio mundial de Gramado. Contudo, a perfeição é inalcançável neste orbe, e, não sendo onipotente, Nestor deixou uma fresta na represa por onde escorre, cada vez mais, a capacidade de seu partido de gerar novas lideranças. Antes — e não sou eu quem o diz, mas os fatos amplamente narrados nas redes sociais —, permitiu que seus aliados pensassem por si e trilhassem seus próprios caminhos. Admirável ousadia! Todavia, a última bolacha do pacote nem sempre é a mais crocante; se deixada ao relento, torna-se insípida, mofada, infestada de formigas. A UPG, outrora vigorosa, dissolve-se, e a nova geração de poder oculta-se nas sombras, seja por renovação inesperada, seja por decadência inevitável.
O cenário futuro
Gramado não ruirá, não empobrecerá, não se transfigurará, pois já possui vida própria. Seu empreendedorismo ramificou-se, atendendo agora a um novo apelo político: o sucesso. Não há mais espaço para caudilhos, libertadores ou bravatas. O grupo que liderará a próxima geração valer-se-á de todas as ferramentas de gestão pública, mas estará intrinsecamente ligado à iniciativa privada. Gramado deixou de ser a aldeia idílica de outrora para converter-se numa grande corporação, à semelhança das potências mundiais. Não é mais lugar para tapinhas nas costas; contudo, sem eles, Gramado perderia sua essência, pois trata-se de uma entidade com quase sessenta mil sócios, cada qual valendo tanto quanto o todo. A próxima onda de gestão demandará a simplicidade da pomba, a astúcia da serpente e a docilidade de um filhote canino. Sem isso, será como bronze que ressoa ou címbalo que retine — um sussurro perdido na tormenta. A Gramado do porvir deverá aliar a festiva gentileza dos hoteleiros que acolhiam os veranistas no trem à força dos tratores que abriram estradas para pavimentar caminhos floridos. Espero testemunhar tal futuro; se não eu, que o façam os meus.
Pacard não é cientista político. Não é Historiador. Não é sequer político. É apenas um escrevedor das coisas que vê, ouve, e reflete.
quinta-feira, 20 de março de 2025
O Pequeno, o Grande e o Medíocre - As vertentes que fazem Gramado
Os registros visuais mais disseminados e, supostamente, mais apreciados nas redes sociais — permito-me corrigir de pronto essa presunção de apreço, pois os mais compartilhados versam, na verdade, sobre violência, mexericos venenosos e trivialidades afins — são aqueles que exibem criaturas adoráveis: filhotes de panda, lontras brincalhonas ou mesmo leitõezinhos de aparência enternecedora. Tais imagens, repetidas à exaustão por milhões de olhares, deixam um efêmero rastro de ternura, que se dissipa em míseros três milésimos de segundo, tempo suficiente para que o dedo, em seu ofício curatorial, deslize célere à próxima tela.
Outra categoria de conteúdos que capturam a atenção compreende o sublime, o colossal, o assombroso — pouco importa se gerado por inteligências artificiais. Represas chinesas capazes de perturbar o eixo terrestre, a vastidão insondável do cosmos, o abismo fiscal das contas públicas, ou uma bomba que ergue uma esfera ígnea seguida de densas volutas de fumaça em cenários bélicos — tudo isso fascina. Os homens deleitam-se na adrenalina, ainda que esta se nutra do sofrimento alheio; o que vale é o espetáculo, seja sua grandiosidade fugaz ou perene. O gigantismo exerce seu domínio.
Há, contudo, um terceiro grupo de mensagens cuja existência mal se registra, a menos que o vídeo trave e nos force a notá-las. Trata-se da mediocridade estridente, da pequenez que se torna célebre por sua própria insignificância. E o que tem Gramado a ver com tal digressão? Convido-os a uma reflexão conjunta.
Nos tempos idílicos de outrora, a Gramado das eras pristinas — aquela do guaraná com rolha e do avião a lenha — era apenas uma estância climática bucólica, um refúgio estival para famílias de posses moderadas. Ali, erguiam suas residências de veraneio, onde passavam dois ou três meses no verão e um no inverno. As esposas e os filhos permaneciam, enquanto os maridos, em um ritual semanal, desciam à capital de trem às segundas-feiras e retornavam às sextas. Assim era a vida — aprazível, suponho, embora eu tenha nascido quase após essa era.
Mesmo após o declínio dos trilhos, Gramado conservava seu charme: pequena, acolhedora, ornada de adjetivos que refletiam a satisfação de seus visitantes e habitantes. Os anos trouxeram incrementos ao conforto, tanto para os moradores quanto para os veranistas, mas o apelo de Gramado residia precisamente em sua escala reduzida: uma cidadezinha florida, asseada, com ares europeus — reminiscentes da Alemanha, da Áustria, da Suíça ou do norte da Itália. A culinária era simples e objetiva: duas churrascarias, os restaurantes dos hotéis — um tempo que invejo, ao menos pela comida. Os passeios a pé pela Avenida Borges de Medeiros (cujo nome, aliás, carece de vínculo com a alma local; aguarda-se, talvez, o falecimento de algum ilustre para rebatizá-la) eram agraciados por canteiros de papoulas, amores-perfeitos e bocas-de-leão. Era essa singeleza que cativava os corações.
A partir dos anos 1970, eventos começaram a projetar Gramado ao cenário internacional, ainda que timidamente. Sotaques além do carcamano e do tedesco passaram a ecoar, e, dia após dia, a cidade cresceu — não em extensão geográfica, limitada por sua topografia, mas em pujança econômica e prestígio turístico. Tornou-se um modelo de desejo, um lugar onde muitos almejaram fixar residência a qualquer custo, embora apenas os financeiramente preparados lograssem êxito. Gramado encareceu-se; agigantou-se qual um buraco negro, denso em energia quase inesgotável, cujo horizonte de eventos passou a englobar as cidades vizinhas. Estas, outrora detentoras de identidades culturais próprias, sucumbiram à tentação de colher os frutos que pendiam das árvores frondosas de Gramado — perdoem-me a profusão metafórica. Por deferência aos vizinhos, evitou-se o epíteto “Grande Gramado”; optou-se, por decreto político, por “Serra Gaúcha” ou “Região das Hortênsias”. Contudo, o núcleo gravitacional permanece, inquestionavelmente, em Gramado — o “Grande” que dá título a esta meditação.
Demonstra-se, pois, que era a pequenez o cerne do encanto, tanto para os visitantes quanto para os moradores. A cidade idílica, adornada de flores, convidava veranistas a suportar seis horas de trem para serem recebidos como notáveis pelos hoteleiros, desde os anos 1940. Era o aroma das hortênsias, o frescor matinal, o sabor dos cafés coloniais, as primaveras multicores e a simplicidade dos transeuntes, conhecidos pelo nome, que enfeitavam o desejo de ver, estar e viver na Gramado de tempos imemoriais. Sua escala modesta era sua verdadeira magia.
O tempo avançou, e com ele vieram braços vigorosos, mentes altivas e o anseio de fazer o melhor para estar entre os melhores. E assim se fez. Gramado erigiu-se como referência de qualidade, de bem-viver, de elegância, de notoriedade, de espírito empreendedor — um mosaico de sabores, cores e virtudes admiradas por todos. Tornou-se, porém, vítima do risco inerente ao progresso: a unanimidade do que é exibido e vendido.
A política também se transformou. Gramado distancia-se astronomicamente de cidades de porte semelhante no Brasil — evito compará-la ao mundo, pois os paradigmas de crescimento variam entre culturas. Não há prefeito neste vasto país que não almeje conhecer seus gestores, sorver-lhes conselhos, colher ideias e moldar propostas que inspirem seus munícipes a tomarem Gramado como exemplo de triunfo. O sucesso é doce, mas atrai os ambiciosos — e como atrai. Antes de discorrer sobre a ambição, however, detenhamo-nos nos que raramente merecem menção: os medíocres.
São eles, os medíocres, que se postam nos interstícios do caminho, estendendo a perna para fazer tropeçar os que avançam. São os medíocres que se acomodam, sugam e regurgitam em si mesmos o que não compreendem nem toleram, mas ainda assim cobiçam. Cobrem-se de falsos brilhantes e saltitam pelas ruas, capturando autorretratos para exibir a outros medíocres os lugares que frequentam, como se isso os tornasse relevantes, realizados, bem-sucedidos — ou como se os anfitriões lhes devessem gratidão por tal “lustre”. Esvoaçam quais pirilampos digitais, espalhando lantejoulas pelas redes sociais, devorando farofa enquanto fingem saborear lagosta (confesso: detesto lagosta, mas exalto a farofa com orgulho), na vã esperança de que os espectadores os tomem por empreendedores genuínos, curadores de riquezas, guardiões do bem-estar e da paz local. São os medíocres, fracassados em suas terras natais, que creem estar contribuindo com ações tão triviais quanto eles próprios, salvando a comunidade de males imaginários.
Não salvam. Não resgatam ninguém. Enganam apenas a si mesmos, presos na ilusão pueril de sua indispensabilidade. Esmurram paredes, bradam em tribunas, vestem-se de cetim ordinário como se desfilassem em Paris — ignorando que Paris está a léguas de distância. Gramado, indulgente, os acolhe, e é ali que tentarão, talvez, dar um jeito no jegue. O animal, por ironia, pode revelar-se mais sagaz, fazendo diferença onde quer que seja amarrado.
Postscriptum: Esta reflexão foi concebida para provocar pensamento. Infelizmente, aqueles que poderiam lucrar com suas palavras, se caírem de joelhos, limitar-se-ão a pastar. Que tomem cuidado para não serem também enlaçados, embora pasto, ao menos, não lhes falte.
quarta-feira, 19 de março de 2025
Gramado: Gotham ou Shangrilá?
Imagem: Grok AI
O chupim é um pássaro ordinário, daqueles que vivem de olho no ninho alheio, sem distinção de espécie. Quando o dono do ninho sai para o trabalho mundo afora, a fêmea do chupim, sem o menor pudor, invade o espaço e deposita um ovo no ninho da passarinha que foi dar suas voltas por aí. Ao retornar, a legítima dona põe seus próprios ovos e, em certo momento, se acomoda para chocá-los — inclusive o da intrusa descarada. Quando os filhotes nascem, a passarinha, distraída, não nota que um dos pintinhos é diferente, mesmo quando as primeiras penas começam a despontar. Mãe é quem cria, e para ela todos os filhotes são iguais, seja um saíra-sete-cores, de tons vibrantes, ou um chupim pretinho, reluzente como petróleo. E assim ela os alimenta e protege.
Ocorre que a saíra-sete-cores, pequenina, com metade do tamanho do chupim, não tem olho clínico para perceber a diferença. Não é raro ver um passarinho miúdo catando comida pelo chão enquanto um chupim enorme o segue, bico escancarado, gritando para que a comida lhe caia direto na garganta. Assim funciona a natureza: quem pode mais, chora menos, e vale tudo para garantir a sobrevivência.
Pensemos agora nas hienas e nos abutres. As hienas não são caçadoras, exceto em casos extremos de fome, quando o adversário é fraco ou está em desvantagem numérica. Elas preferem ficar à espreita, observando a caça de outro predador. Percebendo a superioridade em quantidade, avançam e roubam o banquete do caçador, que, humilhado, sai de cena com o rabo entre as pernas, levando apenas um pedaço magro na boca enquanto as hienas se fartam.
Os abutres, por sua vez, são mais dignos: esperam o animal morrer. Têm até a desculpa de promover a higiene ambiental. Feios, sim, mas úteis. Já o cavalo do fazendeiro pobre, um pangaré esquálido, é presa fácil para qualquer predador. Basta uma escorregada para que suas chances de sobrevivência se esgotem.
Gramado, por outro lado, é como um alazão forte — pense nos cavalos de Maomé —, mas divide o pasto com muitos outros competidores. De pastagem em pastagem, vai perdendo o vigor. Fraqueza tem cheiro, e esse cheiro atrai carniceiros de todos os lados.
Voltemos, então, à política! O pasto verdejante de Gramado atraiu todo tipo de interesse. Não dá para dizer que vieram por altruísmo, com o desejo genuíno de melhorar a vida dos gramadenses de outrora. Nos últimos anos, quem chegou a Gramado veio para subir na vida, ganhar prestígio, status, tirar selfies e exibir nas redes sociais o quanto se deu bem. A cidade virou um trampolim social. As oportunidades que brotam na superfície permitem que alguns se destaquem, inclusive politicamente, conquistando eleitores que os levem ao poder. Quase sempre, porém, os eleitos só chegam lá porque se aliam a coligações fortes dos nativos. Assim, estabelecem-se, muitas vezes como figuras secundárias, participando de decisões importantes, mas quase sempre como meros coadjuvantes numéricos. Uns poucos se sobressaem por competência profissional e chegam ao executivo, preparando o terreno para novos plantios na próxima safra, consolidando seu caminho.
A recente eleição foi uma demonstração prática disso tudo. Não me cabe apontar o dedo para este ou aquele — falo apenas do que vejo. E o que vejo é que vereadores fora das agremiações principais conseguiram votos suficientes para se eleger, mas sem peso numérico para influenciar as decisões do executivo. Na falta de sabedoria, discernimento ou até inteligência política, o que fazem para chamar atenção? Criam confusão, apostando que o povo é ingênuo e quer ver o circo pegar fogo. Ledo engano. Gramado ainda é conservadora em todos os sentidos — na religião, nos partidos, no modo de pensar e agir. Sempre haverá quem precise de plateia para exibir as pelancas do caráter em um strip-tease moral, mas esse não é o caminho para alcançar seus intentos hedonistas. O povo de Gramado pode até se fazer de desentendido, mas sabe muito bem quem é quem e quem será descartado na próxima eleição. É improvável que uma desunião passageira transforme Gramado em um paraíso utópico como Shangrilá ou em uma distopia como Gotham — ambas cidades fictícias. A realidade é mais crua: hotéis fechados, economia em queda, desemprego em alta. Esses são os fatos, o terreno fértil para o surgimento de líderes verdadeiros. Se o que foi, ainda é, e não mais será, jogar a toalha pode, sim, abrir as portas para uma Gotham bem real.
"Vada a bordo, cazzo!" - O dia em que o comandante levou uma carraspana
Imagem: Grok AI
O navio italiano que naufragou, cujo comandante saiu e recebeu a ordem "Vada a bordo, cazzo!" ("Volte a bordo, ....tililico rígido de tamanho regular!" em português aceitável para se dizer sem escandalizar), foi o *Costa Concordia*. O incidente ocorreu em 13 de janeiro de 2012, perto da ilha de Giglio, na costa da Toscana, Itália. O comandante, Francesco Schettino, foi amplamente criticado por abandonar o navio durante o resgate, deixando passageiros e tripulantes a bordo. A ordem veio do capitão da Guarda Costeira, Gregorio De Falco, em uma ligação tensa que se tornou famosa e símbolo da cobrança por responsabilidade no desastre, que resultou na morte de 32 pessoas.
Não direi mais nada, mas já há sinais....
Gramado sem comando II - As éguas fiéis de Maomé
Imagem: Grok AI
Na cultura árabe e islâmica, os cavalos têm um lugar especial, e uma das lendas mais famosas é a de "Al Khamsa" (As Cinco), ligada ao Profeta Maomé. Segundo a tradição popular entre beduínos e criadores de cavalos árabes, Maomé testou a lealdade de suas éguas após uma longa jornada no deserto. Ele as soltou perto de um oásis, mas, antes que alcançassem a água, chamou-as de volta com seu chifre de batalha. Apenas cinco retornaram, provando fidelidade apesar da sede. Abençoadas por Maomé, essas éguas tornaram-se as míticas fundadoras das linhagens puras do cavalo árabe, conhecidas como Al Khamsa.
Há quem me julgue contraditório por dizer que não gosto de política e evito políticos, questionando com que legitimidade escrevo tanto sobre o tema sem apreciá-lo. Isso invalida minhas palavras? Creio que não. Se eu fosse um amante de vinhos, saboreando cada taça com prazer – mesmo as de vinagre –, minha credibilidade para avaliar um rótulo especial seria nula, pois tudo me pareceria igual. (A propósito, não bebo vinho nem nada alcoólico; é apenas uma metáfora.) Na política, funciona assim: escrevo porque observo o comportamento humano e seus impactos na sociedade. Os políticos, expostos na vitrine, têm telhados de vidro, sujeitos a críticas dos adversários, bajulações dos aliados e análises de quem, como eu, encontra nas letras o modo de expressar o que percebe. E o que percebo é que, ao olhar o céu e ver nuvens altas – os "rabos de galo" –, sei que a chuva virá, talvez longa e intensa.
Contemplando o cenário invisível de Gramado, minha bela e amada Gramado, a terra que me acolheu e foi plantada por meus antepassados, vejo muitos rabos de galo no horizonte. Quero crer que uma tempestade se aproxima. Não é profecia – não recebi do Alto tal dom ou missão –, mas uma análise neutra de quem, estando fora, escuta os sons de dentro, como uivos assustadores que dizem ecoar em cavernas expostas pela seca do Rio Eufrates. Gramado uiva forte, e, mesmo sem gostar de política ou ter compromissos com políticos (embora algum incauto possa tentar me atrair ao seu curral e quebrar a cara), escrevo com a autoridade de quem é lido há tempos – 500 mil leituras de textos longos e por vezes densos não são para os fracos. Vamos refletir juntos.
No texto anterior, apontei a triste situação de Nestor, que, diante de desafios colossais para recuperar a estrutura física e o pilar econômico de Gramado, optou por delegar a política aos que o cercam. Escrevo isso após ler em um blog local sobre a falência de um hotel no coração da cidade, um monte de escombros na passarela da fortuna municipal, somado à queda brutal do movimento hoteleiro pós-pandemia e pós-desabamentos. Nestor, acreditando na força e união de seus aliados, focou na administração. Mas errou. Surpreende-me que, em seu terceiro mandato, conhecendo cada detalhe de sua base, cometa um erro tão ingênuo. Ou cansou da política, ou se decepcionou com os parceiros que os votos lhe deram. Eis o problema: um líder que não constrói sua base com pessoas de confiança abre espaço a estranhos que, como parasitas, agarram-se ao casco do navio, aportam em novas terras e proliferam-se como pragas, devastando o habitat original e predando o solo e a subsistência local. O joio no meio do trigo, plantado por sabotadores, como disse Jesus. É esse o cenário.
Não me cabe julgar este ou aquele. Todos lutam com as armas que têm, e até os forasteiros possuem direitos e necessidades, integrando a simbiose do progresso. Sem isso, meu tataravô Tristão de Oliveira teria ficado em Taquara do Mundo Novo, e as terras de seu dote jamais receberiam os italianos e alemães que ergueram a vila, a cidade, tudo o que ela é. Contudo, é preciso que essas novas cabeças eleitas se tornem líderes de fato, que surjam grupos pensantes, que haja oposição e confronto de ideias para impulsionar o progresso. Mas não é o que vejo. Vejo neófitos deslumbrados, legitimados por votos de cabos eleitorais eficientes, que, ao chegarem ao poder, ficam à espera uns dos outros – e, como sempre, da mão firme do Prefeito. Este, porém, está combalido pelo Leviatã que ele mesmo criou ao longo de seus anos no cargo.
O Profeta ainda não separou as éguas fiéis das que enchem a pança no oásis. Em breve, o tempo revelará.
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terça-feira, 18 de março de 2025
Gramado sem comando político e o fiasco da cultura "erodita"
Imagem: Grok AI
Com a sinceridade que nunca me faltou, confesso que tinha esperanças de não precisar, ao menos tão cedo, voltar a comentar a acidez que permeia a política gramadense. No entanto, a realidade nem sempre se alinha às expectativas, e aqui estou, distante e solitário, mais uma vez dedilhando reflexões sobre a súbita acefalia que parece acometer a política de Gramado. Proponho-me a analisar isso por etapas, justificando minhas palavras, que podem soar atemporais, sobretudo diante do resultado recente das urnas, que parece contradizer o termo que escolhi: “acefalia”, ou seja, ausência de comando pensante. Acompanhe meu raciocínio.
- Nestor e Luia são campeões incontestáveis de votos em Gramado, superando, em proporção de eleitores, todos os ex-prefeitos que os precederam. Recordes anteriores, outrora impressionantes, tornaram-se pálidos frente ao rolo compressor da última eleição, quando 70% dos votantes escolheram a dupla – ou, mais precisamente, uma bancada avassaladora na Câmara. Dois aliados, mal acomodados em seus assentos, já se julgaram valentes o suficiente para iniciar uma revolução. É o que parece. Diante de tamanha experiência e do clamor popular que respaldou essa proposta, causa espanto imaginar que a população se sinta politicamente desamparada. Permita-me explicar.
- Desde 1977, Gramado teve apenas três lideranças expressivas na política, figuras que funcionaram como “cabeça” do processo: Nelson Dinnebier, Pedro Bertolucci e o próprio Nestor. Quando falo em liderança, refiro-me a quem, com estilos distintos – uns mais escorregadios, outros truculentos, alguns com uma malandragem quase cômica –, conseguia coordenar e direcionar os rumos dos eleitores, especialmente seus aliados. Esse cenário mudou. Apesar da vitória esmagadora, dizem os munícipes que Nestor perdeu o interesse pela política, voltando-se exclusivamente às obras e à administração. Esta, desde a pandemia, seguida por desabamentos e chuvas, enfrenta tempos sombrios. Não bastam recursos financeiros; faltam respostas às intempéries climáticas, que escapam à sua capacidade de decisão ou reparo. A Natureza não concede tréguas apenas porque a cidade é bela.
- A recente ruptura com um partido aliado, sem motivo plausível além da disputa por cargos – algo que deveria ter sido resolvido na primeira semana de governo –, expõe fragilidades. O partido de Nestor, como vitrine, ofereceu profissionais desalinhados às necessidades de Gramado. Um exemplo gritante é o fiasco na área cultural. O gestor nomeado para a pasta, incapaz de articular o vernáculo corretamente – pronunciando “erudito” como “erodito” –, vai além de deslizes coloquiais. Chegam-me informações tristes: ele tem agido como um trator desgovernado sobre sua equipe, a ponto de tornar-se persona non grata por onde passa. E por quê? Não por competência ou visão, mas por afinidade religiosa com quem detém influência política para manipular cargos, sob pressão econômica. É uma tentativa de erguer um governo teocrático em uma sociedade laica. Nestor, suponho, faz ouvidos moucos a isso, talvez porque os problemas estruturais do município sejam tão avassaladores que as picuinhas culturais lhe pareçam irrelevantes. Não o culpo por priorizar, mas delegar questões “menores” a políticos periféricos revela um risco. Acostumados a seguir caudilhos, esses aliados, ao terem de pensar por si mesmos, desferem “voadoras” uns nos outros, dentro do próprio partido, transformando Gramado em motivo de chacota. Isso poderia ser um prato cheio para a oposição – se é que ainda existe uma, pois também ela parece castrada mentalmente por líderes que não deixaram sucessores.
Gramado está politicamente acéfala porque Nestor, nos próximos três anos e meio, encerrará sua carreira como prefeito sem vislumbrar continuidade. Ele próprio parece desprovido de uma ideologia a seguir, como se, ao sair, pedisse ao último da fila que apagasse a luz. A cidade clama por novas lideranças, de situação ou oposição, mas antes disso precisa resolver lacunas básicas: entender, por exemplo, o que é cultura.
Débora Irion - As mãos que moldam poesia
Foto: JornalJA
Débora Irion: Uma Artista Completa e Inspiradora
Em algum lugar no tempo, nas terras do coração do Rio Grande do Sul, nasceu uma das artistas mais talentosas e completas que já tive o privilégio de conhecer: Débora Irion. Natural de Santa Maria, foi em Gramado, na encantadora estância da Encosta Superior da Serra Gaúcha, que nossos caminhos se cruzaram. Desde sua chegada à cidade, em 1985, Débora trouxe consigo uma presença marcante: educada, gentil, bela e dotada de um talento singular.
Nos primeiros anos em Gramado, ela revelou sua habilidade na decoração de interiores, área em que fomos contemporâneos e colegas de profissão. Nunca rivais, mas sim amigos respeitosos, compartilhamos o apreço pela criação e pela beleza. Durante um período, a vida a levou a se dedicar intensamente à família, acompanhando o crescimento de seus dois talentosos filhos, Bruno e Lucas — um deles, aliás, teve o bercinho desenhado por mim, um privilégio que guardo com carinho, embora o nome exato me escape. Nesse tempo, Débora mergulhou em um silêncio reservado, típico dos grandes poetas e artistas, um recolhimento que preparou o terreno para sua verdadeira vocação.
E então, como uma fênix, ela ressurgiu. A Débora decoradora deu lugar à Débora artista plástica, ceramista, escultora, pintora e criadora de espaços que transpiram beleza e poesia. Com formas, volumes e cores, ela começou a conquistar Gramado e todos aqueles sensíveis o suficiente para apreciar algo novo, bem feito e profundamente expressivo. Sua arte fala sem palavras, transmitindo vida, emoção e harmonia. Débora presenteou Gramado — e o mundo — com um legado que transcende o comum.
Uma Trajetória de Impacto
Formada em Desenho e Plástica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1985, Débora trilhou um caminho diversificado e rico. Entre 1986 e 1997, atuou como decoradora de interiores e designer de móveis, mas foi a partir de 1998 que se dedicou plenamente à escultura, explorando materiais como terracota, resina, alumínio, aço corten e bronze. Sua versatilidade também a levou a atuar como gestora cultural, curadora e restauradora, sempre com um compromisso inabalável com a arte e a comunidade.
Por alguns anos, ela emprestou seu talento ao poder público, assumindo a gestão do Patrimônio Cultural de Gramado. Nesse período, prestou serviços valiosos à cidade, mas nunca abandonou sua essência criativa. Mesmo dividindo o tempo entre a família e os desafios da vida, Débora multiplicou suas horas, recusando-se a deixar seus dons adormecidos. Sua trajetória só cresce em significado e reconhecimento.
Com oito exposições individuais e mais de duzentas coletivas, sua obra ganhou projeção nacional e internacional. Premiada em cidades como Santa Maria, Gramado e Canela, recebeu menções honrosas no México, Colômbia, Peru e em sua terra natal. Suas esculturas e criações estão em acervos de museus, universidades e espaços públicos, de Gramado a Porto Alegre, de Santa Maria a países como Colômbia, México, Argentina, Chile, Equador, Peru, Costa Rica, Estados Unidos, Canadá, Irlanda, França e Portugal. Destaque especial para sua participação no Salon D’Art Contemporain Carrousel do Louvre, em Paris, entre 2017 e 2019, que a incluiu no catálogo internacional de artistas.
O Processo Criativo
Débora descreve seu processo criativo como um diálogo íntimo com o mundo ao seu redor. “Observar, sentir e pensar sobre o meio que me cerca e tudo o que movimenta a natureza” é o ponto de partida. A partir daí, imagens mentais ganham vida em esboços diretos na matéria tátil — a argila, que pode se transformar em resina ou metal. Em um momento de concentração e introspecção, os sentimentos se materializam em formas tridimensionais, brincando com o espaço, os volumes, os vazios, a luz e a sombra.
Para ela, a escultura é “o desenho em pleno voo ao ar livre”, uma conversa entre maciços e vazados, planos e curvas, relevos e texturas. É a alquimia entre terra, água, ar e fogo que dá vida às suas criações, peças que se complementam e convidam o espectador a participar dessa experiência sensorial e poética.
Contribuições Visíveis
A presença de Débora em Gramado é palpável em obras públicas que embelezam a cidade. Entre elas, destacam-se o Marco Histórico do Centenário da Igreja São Pedro Apóstolo (2015), o troféu Cosmos do evento Gramado in Concert, o troféu Marília Daros da Câmara de Vereadores (2016) e o Memorial ao Centro Esportivo Gramadense (2021). Fora de Gramado, suas criações também brilham, como a escultura Natal Gaúcho em Santa Maria (2012) e o painel Justiça em Porto Alegre (2010).
Um Reconhecimento Merecido
Há muito eu desejava dedicar estas palavras à minha amiga e artista, testemunhando seu talento ímpar. Faço isso agora, por justiça e admiração. Débora Irion não é apenas uma escultora ou pintora; ela é uma força criativa que transforma espaços, inspira pessoas e deixa um legado eterno. Gramado, o Rio Grande do Sul e o mundo são mais ricos por causa dela.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
A "Umiação de Das Dô" Um causo de verdade
A "Umiação de Das Dô" Um causo de verdade
Ribeirão do Canavial, lá nos cafundós do Morro Grande, era o vilarejo de remanescentes açorianos, evadidos de perseguições religiosas passadas, e que desde havia já um tanto de anos que viviam na "santa paz do Senhor Jesus", era como diziam. Os costumes se mantinham, firmados na religiosidade, e na sobrevivência, que determinava a quietude da vida e da laboriosa faina dos dias que passavam silentes, entre as estações do ano.
Vila de pescadores, e pequenos campesinos, Ribeirão do Canavial tinha apenas uma rua, com cerca de menos de uma légua, bem menos, que principiava na capela do Divino, e findava no alto do morro, de adonde havia uma escadaria de chão batido, por onde, nas ocasiões de celebração da devoção, o povaréu subia, de joelhos, alguns, em solene procissão.
Pequeninos casebres de tijolos rústicos enrijecidos ao sol, mesclados com areia e palha, um tipo de adobe mais simples, unidos por uma argamassa da mesma mistura, acrescida de óleo de baleia, que adquiriam dos baleeiros da Costa Verde, onde havia o abate de beneficiamento dos insumos cetáceos, sendo que o óleo era o mais desejado, pois fornecia iluminação das cidades, e insumo para argamassa das casas.
O namoro e o casamento enram tratados por arranjos familiares, ou das velhas casamenteiras, que conheciam todas as famílias do lugar, e de outros da vizinhança, e sabiam na ponta da língua, quem, dentre os moços, daqui e dali, tinha os dotes necessários para um bom matrimônio, e assim, com tais informações na cachola, passavam a vida visitando casas para garimpar nubentes disponíveis, sendo essa a sua ocupação profissional, pois recebiam pagas pelos arranjos nupciais que conseguiam, e mais que isso, quanto melhor o arranjo, maior o dote, e quanto maior o dote, maior a recompensa para as casamenteiras, pois fora disso, era impensável imaginar em algum matrimônio, assim, pela vontade, ou bem querer dos nubentes. A única exceção, era o padre, que vez por outra, atrapalhava os empenhos das casamenteiras, tendo eles próprios, suas preferências, co base em critérios interesseiros também.
Maria Das Dores, era filha de Manoelzinho e Acácia, pescador, e costureira. Moravam a duas casas abaixo da capela, onde maria, chamada de "Das Dô" passou a infância e adentrou a juventude. Brincava com as crianças da vila, com todas as brincadeiras que brincassem todas as crianças. Cumpria suas devoções, ia na missa, puxava reza nos velórios, ajudava nos enfeites da missa e das procissões, e uma vez por semana, levava guloseimas para o padre Claudino, na casa canônica, atrás da capela. Fazia isso por duas razões especiais: primeiro, porque cumpria ordem da mãe, mas principalmente, porque para chegar à casa do pároco, pegava um atalho por dentro da sacristia, onde o sacristão Pereirinha, cumpria suas tarefas eclesiásticas da congregação.
E o diabo não tira folga, nunca, pois, sendo Das dô, gentil, e formosa, despertou a cisma de Pereirinha, e vou ater-me ao fato de que, na hora em que o desatino da paixão efervecia, adentra a sacristia, uma devota desprovida de matrimônio, apesar da idade avançada, ao que chamam de "solteirona", e o mal venceu, o diabo sorriu, e Das Dô foi levada de arrasto pelos cabelos pela devota, e entregue ao padre, aos berros, despertando a curiosidade da vizinhança, mais propriamente, dos pais de Das Dô.
A menina foi colocada sentada, de vestido preto, em sinal de luto, num banquinho, bem à frente da capela, com a cabeça coberta de saco de aniagem, sobre o qual, jogaram cinzas. calada, de cabeça baixa, a menina chorava, silenciosamente. Então, foi rezada uma missa, cuja homilia se estendeu quase até à meia noite. Depois, os fiés foram instados a permanecerem na capela, rezando e clamando, até o amanhecer.
Desfiados pelo rasgar da aurora, os primeiros raios da manhã, todos em jejum completo, à voz do padre, retornam ás suas casas, e fecham portas e janelas, ao longo da quase uma légua de rua. Ainda à brisa fresca da manhã, um vulto sai da igreja, de cabeça coberta de saco e cinzas, cabisbaixa, e chorando baixinho, bate tres vezes à primeira porta, que se abre, e uma devota, também choramingando, com a cabeça coberta, abre a porta, esbofeteia a penitente, entra e volta a fechar a porta. E assim, em uma a uma das casas, abria-se a porta, esbofeteava a moça, e voltava a fechar-se. Da capela até a escadaria do morro, onde a penitente subia, e passava o dia prostrada diante da cruz ao alto, e ali passou o dia, com sol a pino, até o entardecer, quando retornou à casa dos pais.
Daquele dia em diante,só respondia o que lhe era perguntado. Ia à missa, mas de cabeça coberta, assentando-se ao fundo, num canto escuro, saindo antes que terminasse. Não recebia mais a "eucaristia", e assim envelheceu, amargurada, triste, e sozinha. Em sua própria aldeia.
E o sacristão? Foi enviado ao seminário, e seguiu carreira eclesiástica. Tornou-se bispo e permitia, bondosamente, que as jovens noviças lhe beijassem o anel, e servissem guloseimas após a missa.
Pacard - Escritor*
Inspirados em fatos verídicos, cujos nomes e lugares são fictícios*
domingo, 9 de fevereiro de 2025
O Buião de Canjica de Dona Izartina
Imagem: Bing
O Buião de Canjica
Soprando com fúria traiçoeira, o vento "carcava" as nuvens cinzentas vindas pelas bandas do "súli", amoitando-as de revesgueio contra as berbelas do morro do Gravatá, bem "adonde" Dona Izartina "campiava" gravetos pro fogo do ranchinho de barro taipado.
Negaceava de lado a lado, arreparando a força do vento e deduzindo, conforme ensinamentos dos antigos, que de vereda ia chover. Ali, ainda de pé na porta, meneou a cabeça pra dentro e pra fora, esticou o "percoço" bombeando as galinhas que se amontoavam pelos cantos debaixo da estrebaria, chamou o gato, que pulava lépido pra dentro do rancho, e fechou a porta.
Já dentro do ranchinho, Dona Izartina atiça o fogo com um naco de Coronilho, enfiando uns gravetos, uma "páia de mio", asoprando com jeito, e quando o fogo alumia a cozinha, se ergue, e garra uma lata "adonde" guardava Canjica. Deita um tantico no buião, enche com água e arreda pro meio da chapa do fogão, que já avermelhava com o tição do Coronilho. Enquanto a canjica ferve, Dona Izartina vai até à janela sem vidro, abre cuidadosamente a tampa de madeira e "bombeia" lá fora. A chuva chegou forte, atravessada, enregelando a alma. Dona Izartina fecha rapidamente a janela e volta a "bombear" a panela que ferve.
Acende um candeeiro de "corozena", põe no centro da pequena mesa carcomida pelos anos, coberta por uma toalha rota, bordada por ela mesma antes de se casar, como parte do enxoval pobrinho que trouxera de casa ao juntar os trapos com o "fio do Serzinando", moço "bão e trabaiadô". Ali na mesa, Dona Izartina "garra" um buião de leite gordo fervido, as especiarias: Canela, Cravo, raspa de limão, "açúcri", e após verificar que a canjica já está cozida e macia, deita o leite e os temperos no buião e mexe com uma velha colher de pau, pra não grudar no fundo. Feito isso, abre a portinha do fogão e reduz o fogo, pra canjica cozer "mais digavazinho" e não queimar no fundo.
Dona Izartina se assenta no banco junto à mesa, e o gato manhoso pula no seu colo, aquietando-se dengosamente. Ela diz uns gracejos, sorri, faz afagos no bichano, e presta atenção à chama que bruxeleia embalada pelo vento das frestas. A luz tremulante envolve Dona Izartina numa bruma de lembranças, fazendo-a pousar suavemente nos dias alegres da infância.
Genésio Brabuleta
Izartina ainda não era "Dona", posto que uma serelepe rapariguinha. A vida corria do jeito que Deus mandava, lá na roça do Morro Gravatá, "adonde" sua mãe, viúva ainda jovem, com "treis fiu" nas costas e outro no bucho, penava de sol a sol para sustentar os barrigudinhos. Izartina era a mais novinha e a mais "levada da casqueira". Pulava feito cabrita pelos barrancos, trepava em "gualhabêra", colhia "Gavirova" e "apinchava pedra" nas pencas de Butiás. Passava os dias pelos brejos, pescando lambaris no córguinho que serpenteava o pé do morro, quando não estavam batendo enxada "alimpando" os "miaráli", as morangueiras e as hortaliças. Pobrinhos eram, não hei de negar, mas afeto nunca lhes "fartô".
Os anos passaram, e já mocinha, Izartina ia à igreja com os irmãos e a mãe, levando uma panela amarrada a uma trouxa para o "ajunta-panelas" após o culto. Ali, entre pães, feijão, goiabada e café adoçado, Izartina era feliz sem nem se dar conta. Entre os moços, um mancebo lhe arreparava os passos: Genésio Brabuleta. Magrinho, de braçadas largas ao nadar no arroio, faltava-lhe coragem para convidá-la a tomar refresco na "Venda" do Marcolino. O pastor, percebendo a intenção do moço, facilitou a prosa, convidando-os para um encontro na sua casa. O namoro começou respeitoso, sonhando com o casório, mas o destino tinha outros planos.
Genésio, aos "dezassete" anos, foi chamado a servir a pátria. Partiu para a longínqua Itália, onde os pracinhas brasileiros enfrentavam frio, inimigos e saudade. Em uma aldeia libertada, uma "ragazzina" afetuosa enlaçou seu destino ao dele, e Genésio nunca mais voltou ao Morro do Gravatá. O Brabuleta "avuô". Izartina seguiu a vida, casou-se com um matuto de boa índole e, desde então, amanhece "bombeando" o horizonte pra ver se Jesus está voltando. Não está. Então, segue suas rotinas, e hoje, a faina é cozer a Canjica para o culto vindouro.
No buião de Dona Izartina, a Canjica leva uma dose de oração, posto que cozinha orando (ou "rezando", tanto faz). Assim que está no ponto, o leite gordo, a Canela em pau, os dentinhos de Cravo, o "açúcri" e um tantico de água borbulham até que todos os sabores se unam, prontos para serem apreciados.
O Buiãozinho da "sodade"
O vento lá fora traz um chuvisqueiro atravessado, deixando o dia cada hora mais "enfarruscado". O ar gelado se infiltra pelas frestas, e Dona Izartina deita seu velho xale de crochê sobre os ombros magros. Se assenta à mesa diante de um pequeno buião "cuáje" transbordando de Canjica quentinha. Saboreia colherada a colherada, como se lesse um poema de saudade, quem sabe "alembrando" ora do seu véio que se foi, ora do moço Genésio Brabuleta, que nunca mais voltou. Quem é que vai saber, não é fato?
Pacard é Escritor, Designer, Contador de Causos, e Palestrante
sábado, 8 de fevereiro de 2025
Debate Cultural: "Erodito e a Erosão da Inteligência"
Debate Cultural: "Erodito e a Erosão da Inteligência"
(Este esquete é fictício, e duvido que haja semlhança alguma com fatos e personagens reais. Se disserem que tem, eu nego tudo, sempre vou negar, e só falo na presença de um professor de gramática, um que saiba ler.
Nenhum narcisista foi maltratado ao escrever este ensaio.)
Personagens:
Professor Hermenegildo Pafúncio – Acadêmico tradicional e defensor ferrenho da cultura clássica.
Deputado Ambrósio Chavão – Político populista, especialista em frases feitas e promessas vazias.
Sandubinha da Creuza – Filósofo popular e dono da famosa "Bifinho a rolê"
Kévinho Descolado – Influenciador digital e guru das redes sociais.
Mediador – Jornalista tentando manter a compostura e a sanidade, no meio do caos.
Mediador: Boa noite a todos! Hoje, neste debate especial, discutimos um tema fundamental: a erosão cultural e o impacto da educação na sociedade moderna. Mas, para começar, professor Pafúncio, poderia explicar o conceito de "erodir"?
Prof. Pafúncio: Claro! O verbo "erodir" vem de "erosão", que significa desgaste contínuo. No contexto cultural, representa a perda progressiva do conhecimento, levando-nos a um estado de ignorância absoluta, onde discursos articulados são substituídos por grunhidos. Alguns chegam a babar, ao mirarem-se no espelho; É raro, mas acontece muito. Como temos visto ultimamente, vivemos tempos eroditos!
Dep. Chavão: (batendo na mesa) Prefeito! Concordo plenamente! Tanto que eu já ia propor o Dia Nacional do Erodito! A cultura é o nosso maior patrimônio! Como dizia meu grande ídolo, o filósofo grego Confúcio… ou era Pafúncio? Enfim, "A cultura é o pão amanhecido da alma!"
Prof. Pafúncio: (ajustando os óculos) Deputado, Confúcio nunca disse isso…
Dep. Chavão: Claro que disse! Tá no meu grupo de WhatsApp “Pensadores do Século XIXI”!
Sandubinha da Creuza: (enquanto devora um "Bifinho a rolê") Deputado, o senhor tá certo, mas tá errado! O importante mesmo é a sabedoria popular! Eu, por exemplo, sigo o ensinamento do grande Sócrates, que já tudo sabia que não sabia, bem antes de jogar no Flamengo… ou melhor, do Sandubinha da Creuza: "Só sei que nada sei, mas sei que este "Bifinho a rolê" tá no ponto! Tem aí uma mostardinha?"
Kévinho Descolado: (gravando um story) Mano, isso é genial! Vou lançar a trend #EroditoÉTop! Professor, o senhor devia aproveitar e criar uma dancinha sobre Platão no TikTok!
Prof. Pafúncio: (chocado) Isso é um ultraje! A juventude está trocando Aristóteles por memes! Isso só comprova a erosão da inteligência! O declínio do saber! O apocalipse do pensamento crítico!
Dep. Chavão: (interrompendo) Por isso mesmo, professor! Para evitar essa erosão cultural, eu proponho um novo projeto de lei: "Eroditos do Amanhã"! Nele, cada criança receberá um tablet! Sem livros, só com figurinhas e games, claro, porque hoje em dia ninguém lê mais!
Prof. Pafúncio: (segurando a cabeça) Pelo amor de Aristóteles e de Pafúncio! O senhor quer acelerar a ignorância?!
Sandubinha da Creuza: (dando de ombros) Professor, não se estresse! O que importa é que todo mundo coma bem e pense positivo! Como diria Descartes… ou era minha tia Fátima, antes de ser descartada pelo gigolô dela? Enfim, "Penso, logo existe "Bifinho a rolê""!
Kévinho Descolado: (animado) Essa frase é fire! Vou colocar numa t-shirt!
Mediador: (suspiros profundos) E com essa erodita reflexão, encerramos o nosso debate. Boa noite e, por favor, leiam um livro!
Imagens: IA
domingo, 2 de fevereiro de 2025
São só nuvens, e não anjos
Não são anjos
os que tecem o céu de pranto,
são véus de luz, disfarces do infinito,
que escondem o sol, mas trazem encanto.
São nuvens, não anjos,
que pintam o horizonte de desvelo,
são sonhos que se desmancham no ar,
quem me dera fossem anjos,
mas são só nuvens a pairar,
só nuvens, a me lembrar
que o céu também sabe chorar.
Não são anjos
os que cruzam o azul em silêncio,
são sombras leves, passageiras,
que embalam meus medos num lenço.
São nuvens, não anjos,
que flutuam sem rumo, sem pressa,
são versos que o vento leva além.
Quem me dera fossem anjos,
mas são só nuvens, ninguém,
só nuvens, a me ensinar
que a dor também pode voar.
Não são anjos
os que guardam meus segredos,
são véus de algodão, frágeis e breves,
que escondem o céu, mas trazem enredos.
São nuvens, não anjos,
que dançam no palco da vida,
são promessas que o tempo desfaz.
Quem me dera fossem anjos,
mas são só nuvens, talvez,
só nuvens, a me mostrar
que até a saudade pode se dissipar.
Demerval - O caso da sogra (publicado em 2005)
Demerval não era cego. Demerval não era louco. Demerval sabia exatamente o que acontecia na sua vida, a começar pela casa onde morava. Ou melhor, a casa da sogra.
Nos tempos bicudos em que vivia, com o salário de professor de geografia em uma escolinha pública, Demerval sabia que era um abençoado por ter onde morar sem pagar aluguel, condomínio ou IPTU. Por isso, nunca reclamava. Tinha uma rotina rígida: chegava sempre no mesmo horário, saía na mesma hora e comia as mesmas coisas. Sempre. Todo dia. Exceto aos domingos, quando a sogra preparava salada de maionese, carne de panela e spaghetti. Afinal, ele morava na casa dela.
Mas sua sogra não era ruim. Pelo contrário, era uma mulher excepcional. Diferente do conceito pré-definido que se costuma ter de todas as sogras. Ainda jovem, esbelta, bem cuidada, fina e delicada. Suas mãos continuavam macias, a pele firme e o sorriso encantador. Um sorriso que não era qualquer sorriso. Sorria com o olhar, sorria ao andar, sorria no silêncio. E Demerval percebia isso. O que o fazia sorrir também, com um orgulho discreto.
E assim os dias de Demerval se passavam. Embora vivesse na casa da sogra, a doçura dela o fazia feliz. Sim, Demerval era feliz. Mesmo depois de ter sido deixado pela esposa há mais de cinco anos. O que lhe restara era o verdadeiro amor de sua vida: a sogra.
Ela tinha sido sua professora no primário. Sempre linda e meiga. Um encanto. Aos oito anos, Demerval ousou pedi-la em casamento. Ela respondeu com um esperançoso "talvez, um dia". E ele acreditou.
O tempo passou. Ela se casou... com outro. Um homem mais velho, rico, dono de um carro. Demerval, na época, só tinha uma bicicletinha aro 24. Não havia como competir. Mas ele esperou. O tempo, afinal, era o senhor da razão. Choveria na sua horta.
Os anos seguiram seu curso. Demerval nunca se casou. Sua professora teve uma filha. Uma menina linda, loira, de olhos azuis, que cresceu e se tornou uma mulher deslumbrante. Atrevida, levada, cheia de vida. Tudo saía conforme o planejado por Demerval.
Ele era um homem maduro, cheiroso, educado e já conhecido desde a infância pela professora. Nada mais perfeito. Com o tempo, depois de muitas flores, presentinhos e gestos gentis, casou-se com a filha da sua professora.
Um gentleman. Um impagável cavalheiro. Cavalheiro demais. Cercava a esposa de flores, mas ela queria mais. No âmago da sua juventude, ansiava por emoção. Ele dava presentes — para a esposa e para a sogra. Convidava a esposa para jantares românticos à luz de velas: ele, ela... e a sogra.
A sogra adorava. Aquele menino de ouro não a enganara. Doce e cavalheiresco, como sempre fora desde a primeira série. O genro perfeito.
Mas não era o marido que sua filha sonhara. Não que ele falhasse em suas obrigações. Pelo contrário, era pontual, servil, gentil e delicado. Até que um dia, a esposa não aguentou mais e foi-se embora. Queria mais. Queria aventura. Queria um homem normal.
Puxa vida. Por que ele não podia ser só um pouquinho como os outros? Deixar a cueca jogada no corredor, as meias na mesa de jantar, arrotar, roncar, dizer palavrões. Por que ele não errava pelo menos uma vez para que ela tivesse o prazer de jogar tudo na cara dele?
Mas não. Demerval era metódico. Matemático. Amoroso. E nem queixar-se à mãe podia, porque diria o quê? E para quem? Então, foi embora. Ferida na sua dignidade, deixou apenas uma carta de despedida... em branco.
E Demerval ficou só. Com a sogra.
Não, ele nunca mais ousou pedi-la em casamento. Ela já havia dito seu "talvez". E esse "talvez" era a certeza de que Demerval precisava para ser feliz. Mesmo que ao lado da sogra.
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