As Brizoletas da GRAMADO de priscas eras, as frutas da infância, e o cometa Ikea-Seki

Em 1963, eu já estava alfabetizado, e frequentava a pequenina escolinha Brizoleta, que ficava em frente à casa onde morávamos, pertinho do lugar, que depois tornou-se o Artesanato Gramadense. Frequentava as aulas, mas não estava matriculado, pois neste tempo, a idade mínima para começar nos estudos, era sete anos, mas eu tinha cinco anos e poucos meses apenas. Mas estava alfabetizado. Já contei como foi - lendo nas latinhas de alimentos da Tia Zezé. Mas terá também um capítulo especial sobre isso. Assim, não sei ao certo os detalhes, mas eu frequentava a escola na condição de ouvinte, para completar minha alfabetização. Não deu muito certo, porque a professora insistia em fazer-me repetir as primeiras páginas da Cartilha "Estrada Iluminada", ou da "Cartilha do Guri", o manual de alfabetização oficial das escolas primárias do Rio Grande do Sul, e da Gramado de priscas eras.

O problema estava no tempo, no "timming", como se diz hoje, pois eu já era capaz de ler e comentar o livro inteiro, mas a professoras insistia em exigir de mim um repeteco interminável, como uma ladainha de zumbis:
- Ivo viu a uva. Vovô viu a vovó. Vovó viu o vovô.
Mas puembas! Se o Ivo viu a uva, por que ele ficou só olhando pra parreira feito um dois de paus, e não se atracou a encher a barriga com as uvas? Estavam verdes, por acaso? E o vovô? O que o raio do véio estava fazendo ali, em vez de colher uvas pro Ivo, ficou dando bobeira e tarando a vovó? E a vovó, então? Já que viu o vovô ali no parreiral (sim, eu suponho que tenha sido no parreiral, pois não houve mudança de sentença na narrativa do tanso do Ivo, que ficou babando pelas uvas, enquanto o vovô babava pela vovó), por que não os convidou para entrar e comer umas bolachinhas pintadas com café passadinho? E como eu sei que a vovó tinha bolachas pintadas? Ora, todas as vovó tem bolachas pintadas, que misteriosamente aparecem de dentro de uma lata de banha (não havia mais banha na lata, só bolachas pintadas), para acalmar os ânimos dos netos que ficam fazendo arte pela casa. Mas ainda assim, vovô tarando a vovó e Ivo babando pela uva, era o limite que a professora me permitia ler. Mas por que não podia ler mais? Eram páginas censuradas para criancinhas? Não, eu acho que não eram. Apenas, a professora não estava acostumada com um descendente de judeus, que são alfabetizados aos três anos de idade, ainda que nem façam ideia de que sejam judeus. Mesmo assim, dê-lhe livros nos "bacurim". Letras e palavras, e em seguida, perguntas e mais perguntas. A professora não suportou tanta pergunta e me mandou ler e reler novamente as três primeiras páginas da cartilha.

Não me fiz de rogado. Fui pra casa e fiz uma fofocada daquele tamanho pra minha avó, Maria Elisa, a tal véia de faca na bota. Ah, pra que eu fui fazer aquilo. Pois imediatamente Maria Elisa, a véia supracitada, de faca na bota, tomou-me pela mão, passou a mão numa cartilha (não posso dizer ao certo, mas acho que vi um facão escondido no sutiã), e subimos, daquele jeito a ladeira que chegava à escolinha. Com olhar sisudo, porém respeitoso e educado (lembram que eu disse, que quando maria Elisa falava a língua pátria de modo vernacular, é porque ela estava "pistola", furiosa? Pois estava mesmo. E a pobre professora, nos atendeu, na areazinha, do lado de fora.

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Brizoleta do Carahá - Fotos: Áureo Roberto de Oliveira


- Pois não, dona Elisa?
Maria Elisa, a véia minha vó, só olhou duro, com bico esticado pra professora, passou a mão na cartilha, e sem tirar o olhar da oponente, entregou a cartilha na minha mão:
- Leia, guri!
Eu abri na primeira página e...
- Essa não. abre no meio do livro!
Abri e comecei a ler. Pausada e corretamente, respirando no tempo certo, acentuando as palavras, colocando vírgulas e pontos em seus devidos lugares e com a entonação correta.

A essa altura, Ivo já estava quase casando, o vovô picava gravetos nos fundos da casa, e vovó acomodava os vidros de chimia que fizera com a uva que colheu, não sem encher o bandulhinho do Ivo, ao ponto de dar uma caganeira no guri, de tanta uva que comeu.

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Minha vó maria Elisa tomou o livro da minha mão, com um sorriso de vitória, e perguntou pra professora:
- O que tens mais a ensinar ao menino, "MENINA?"

Ai, meus sais, por misericórdia! Ela chamou a professora de "MENINA!" Era guerra. E a professora percebeu, e prometeu dar especial atenção ao pimpolho leitor de dona Maria Elisa, a véia de faca na bota. Assim, fui recomendado a mudar de escola no próximo ano letivo, 1964, mês de Março.  E por causa disso, aconteceu no país uma revolução, um golpe militar, um lufa-lufa sem tamanho. Se achar que exagero, leia aqui. Eu não me sinto muito culpado pela situação geral, mas há quem diga que foi a audácia de Maria Elisa, quem deu voz aos revoltosos e a coisa toda encrespou. Tenho dúvidas. mas, enfim. Assim comecei na Brizoleta. No ano seguinte, fui estudar então, no Grupo Escolar Santos Dumont, cuja edificação também já está em meus arquivos, e em breve será mostrado aqui. Foi apenas no primeiro ano, pois nesse ano, de 1964,m eu fui finalmente registrado em cartório, pois antes disso eu era apátrida e líquido, pois nem registro eu tinha.

Na Brizoletinha, comecei, então, a partir da segunda série, ou segundo ano do primário, e vou nominar algumas da professores que conheci lá. Ah, entes disso, vale lembrar que uma professora atendia a duas classes em simultâneo na mesma sala. Eram multitarefas, literalmente. Por exemplo, primeira e quarta series, ou segunda e quinta, e assim era.

Ah, sim, e ainda enquanto estudava nesta Brizoletinha, foi que vimos o cometa IKEA-SEKI, riscando os céu, numa madrugada estrelada, em 1965. Clique nas imagens para saber mais. Visível inclusive à luz do dia, este foi nomeado como o mais brilhante cometa do século 20. No Japão, disseram que ele era 10 vezes mais radiante do que a Lua cheia.


Cometa Ikea -Seki






As carteiras (que chamávamos de "classes", eram múltiplas, ou em pares. Usávamos lápis e borracha. Caneta jamais. Apenas os alunos da quinta série, usavam caneta de tinta e levavam junto um vidro de tinta, um papel poroso como mata-borrão, e uma merenda de pão com chimia. As professoras tinham uma coleção de carimbos com figuras, como borboletas, uva, casa, e assim por diante. Era o seu recurso pedagógico. 


Das professoras que lembro:

Ester Cardoso (diretora); Geni Cavichioni; Nair Arend; Orlanda Valentini; e Neusa Parissenti.
Assim descreveu a amiga Jussara Masotti, acerca da Brizoletinha de sua infância:

Envia-nos esta mensagem, a leitora Lúcia Bezzi:


É claro que aqui estou tratando especificamente das memórias da Brizoleta de minha infância, mas desde já deixo o leitor convidado a a enviar suas lembranças para serem publicadas neste espaço. Pode enviar fotos, o que quiser.

É claro que também vou falar dos arredores desta Brizoleta, como as frutas do mato que comíamos: Cerejas, Araçãs, Guabirobas (Gavirovas), Esporão de Galo, Pula-Pula (essa era para brincar), Guaçatomba, chupar néctar de "Bananinha" (flor de Corticeira da Serra), Goiaba Serrana, para comer o miolo da fruta, ou a parte branca da flor, ou Pixirica pra azular a gengiva. Uma das favoritas era a Quaresma preta. Ou então, brincar de choupana de samambaias e Vassoura do mato.


Pixirica ou Gramberry brasileira

Corticeira da serra ou "Bananinha"
Guabiroba (Gavirova)

Araçá

Goiaba serrana

Esporão de Galo
Quaresma do mato
Cereja do Mato


Pois é. Fica o desafio: Se fizer um passeio por aquela mata novamente, quantas destas frutas ainda irei encontrar?








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