O Peido do Nicanor
Causo contado por Apolinário Lacerda
Reza a lenda que o mais famoso perfume do mundo, o Chanel número cinco, tem, entre suas fragrâncias de composição, uma que é retirada do isqueiro de um felino que vive no Oriente. Uma espécie de gato açucarado ou almiscarado, desconheço o exato tempero do bicho. São bichos muito, mas muito sofisticados, tratados a pão-de-ló. Coisa fina.
Pois um destes bichos foi importado como animalzinho de estimação de uma madame lá, e tiveram que contratar um tratador pro espécime, que só bebia leite pasteurizado de búfalas albinas do Himalaia, a 23 graus Celsius, batido por oito minutos, servido em uma jarra de porcelana roxa, que pertenceu a um monge que serviu ao grande Lama, Bhudaprtvatxaiiakay-yak-bhutrhpttxuc II. Coisa louca de especial a pessoa.
O tal felino tinha um hábito muito estranho, necessário para que liberasse a tal essência que seria transformada em perfume: Uma massagem sacro-lombar-abdominal em sentido horário, ao amanhecer, e você deve saber que amanhecer de bicho é lá pela meia noite, e ainda pior, que sendo um animal do Oriente, a meia note deles chegam cerca de doze horas antes da meia noite daqui. Isso significa que, pelo horário biológico do bicho, ao meio dia em ponto, ele já virava de barriga pra cima esperando a massagem.
No princípio, Nicanor, o tratador, estranhou a tarefa, mas depois até gostou do esfrega no peludo, e em pouco tempo já havia se tornado um mestre na arte de massagear gatos almiscarados do oriente.
Nicanor, numa feita dessas, sentindo-se à vontade no ambiente onde se encontrava apenas com um bicho, que pra ele não passava de um gato guaipeca, e nem fazia ideia da fortuna que havia custado aos donos, aliviou oito libras do duodeno. Foi um peidinho. Um peidinho apenas.... No dia que soube do custo do bicho,, falou que por uns poucos caraminguás ele próprio venderia um saco de gatos mais úteis que aquele peludo. Mas não colou. E foi numa dessas que massageando o gato, deixou o fridulino à vontade e carimbou no ambiente a indelével substância de um assobiado traque. Um peido, pra quem não sabe. Fininho, assobiadinho, e fedorento. Muito fedorento. daqueles peidos de fígado, dos que devorteiam a pleura e se alojam nas narinas como merda em tamanco. Deu uma aspirada para saborear os gases, pois saborear o próprio peido é algo que não se explica. Todos mentem, porque todos fazem. Você mesmo, que me lê, ja fez, e faz, quem sabe, ainda hoje. E ser rir disso, é porque sim, você peidou e você cheirou, mas sobretudo, você até mesmo já balançou as narinas procurando um restinho daquilo que só tem valor pra si, e não pode ser engarrafado, embora seja um ventinho, o seu próprio traque.
Massageador de bichanos exóticos nunca foi a vocação de Nicanor, mas os pila andavam curtos, e com aquela peladeira toda, até de massagista de cão de madame, como supra mencionado, ele se prestaria. Faria até mesmo reiki em gato de tia véia, mas não deixava atrasar as contas, que eram bem poucas, pois como não tinha crédito, também pouco devia.
Pois foi numa feita dessas onde exalou um Ariovaldo (tamanha era sua intimidade com seus traques, que dava até nome a eles, de acordo com a personalidade de cada um), e quando estava no melhor de seus momentos, enquanto saboreava o feito, adentra na sala a madame, com um bando de convidadas, falando maravilhas do animalzinho, naquele sotaque que só piruas têm, meio afanhado, bitata e com a língua inchada de botox. O ambiente estava esverdeado pela substância, e ela ainda havia perdido temporariamente o olfato, por conta das invasões estéticas, e não percebeu a coisa em si. Entrou plena de felicidade enaltecendo o perfume de seu gatinho importado. Nicanor, ao vê-las, continuou inalando com um certo disfarce, onde de quando em quando franzia as narinas e dava uma volta com a cabeça, para capturar todos os restinhos, na ânsia de purificar o ambiente para que fosse disfarçado o cheiro, o que pareceu impossível.
A madame orgulhosa de si, ainda esfregou uma a uma, a cara das amigas no fridulino do animalzinho, não entendendo a razão das pobres mudarem de cor de minuto a minuto. Enfim, saíram da sala, e a fofoca espalhou-se, difamando o pobre bicho, e dali em diante, a perfumaria encalhou todo o seu estoque do Chanel número cinco, que não tinha a menor culpa do acontecido.
Nicanor, sorrateiramente, saiu de fininho, com a desculpa de cuidar da mãe lá no sítio, e nunca mais deu as caras por ali.


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